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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 16]

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Lá dentro havia um sossego que denotava o descanso dos ocupantes. Certamente o trio dos noctívagos ainda não tinha regressado. Maria Madalena dirigiu-se à cozinha na intenção de fazer um chá. Miguel não a seguiu e em pouco tempo apercebeu-se que o rapaz estaria disposto a tomar um duche, pois o esquentador disparou.

Deixou que a água fervesse, procurou o saquinho do chá e preparou a bebida com tranquilidade. Ela própria necessitava de alguns momentos de reflexão. Andavam a acontecer demasiadas situações obscuras e incompreensíveis. À sua volta moviam-se sombras, quase espectros que lhe ditavam comportamentos. Porque não se recolhia, regressava à aldeia e fechava-se em casa até que os seus dias se preenchessem apenas de coisas banais!

Agosto aproximava-se do fim e restavam-lhe apenas, pouco mais de três meses, para o enlace matrimonial. Às vezes desejava que ele acontecesse de imediato, assim ver-se-ia dependente da vontade de Paulo e protegida pela redoma que ele erguia para a enterrar. Era cómodo não ter que decidir, nem ficar à mercê do desconhecido. Saber sempre com o que podemos contar é uma mais-valia imprescindível. Depois deparava-se com Sérgio, aquele espinho encravado na sua existência e envolvia-se com Miguel, alguém ou algo que não se mostrava definido!

Andava à deriva, perdia-se, desafiava as leis da existência, caminhava sem rumo, nem destino certo.

O chá quente confortava-a e uma e outra vez a sua mente preenchia-se pelos reflexos cintilantes dos olhos ternos de Miguel e pelo amável sorriso do seu rosto.

Que lhe perguntara ele? Se seria capaz de manter uma relação platónica? Não deixava de ser um desafio intrigante. Não estava ela, demasiado envolvida, fisicamente! A relação com Paulo, a aventura com Sérgio e a obsessão corporal com Miguel.

Sempre invejou e temeu a vida de uma monja que se entregava apenas aos prazeres da espiritualidade. Ela sempre rebatera tal sacrifício. Era demasiado amante dos gozos da vida, gostava de bens materiais, boa cama e boa mesa. Nunca se julgaria capaz de tamanha penitência. E a perca de Miguel, que poderia significar para si? Provocar-lhe-ia certamente uma dor dilacerante. Deixaria um vazio e arrastar-se-ia como um mistério inacabado! E o amor? Onde entra esse sentimento apaziguador das paixões arrebatadoras! Que significava Paulo na sua vida: a parte cómoda da questão! Que ousara viver com Sérgio: uma exacerbada paixão carnal! Que via em Miguel: a partilha, o amparo, o porto seguro! Mas só isso chegaria?

Miguel entrou na cozinha, acabadinho de sair do duche. Trazia os cabelos desgrenhados e vestia um pijama de Verão com T-shirt de alças e calção curto.

-Também bebo um chá! – Disse, bocejando sonolento.

Maria Madalena levantou-se e fez questão de lhe preparar a bebida. Ao entregar-lhe a chávena os seus dedos roçaram-se e uma onda arrebatadora percorreu-a dos pés à cabeça. Sorriu-se.

-Pequenos toques de prazer! – Proferiu Miguel penetrando-a com o olhar.

A rapariga não lhe ligou e voltou a sentar-se, afastada dele.

-Vais manter-te assim…separada!

-Não és tu quem evoca relações contemplativas: entre o céu e a terra! Então nada mais te resta que me idealizares.

-Vale-me ao menos a extraordinária imaginação que possuo. – Sorriu e chegando-se um pouco mais à mesa, lançou um afago sobre a mão da rapariga:

-Não queres saber o que o meu pensamento tece?

-Deves-me vislumbrar no altar, de vestido celeste, coroa e manto! – Ironizou a rapariga.

-E se te visualizar em vestes menores…quem sabe num conjunto ousado de langerie vermelha como o fogo em que me consumo!

-Deduzo que seja o fogo do inferno! – Voltou a ironizar a rapariga.

-E se eu e tu…nos fossemos perder num leito de paixão. – Sugeriu o rapaz num sussurro rouco.

Maria Madalena sentiu um sufoco. Depois relativizou:

-E com quem o partilhamos, com Mónica ou com Pedro.

-Mónica dorme profundamente e Pedro demora a chegar… - Garantiu Miguel.

Maria Madalena espreguiçou-se:

-Sabes Miguel…estou muito cansada e além disso…o que essa medalha me amedronta! – A rapariga continuava a gozar com a questão.

Miguel levantou as duas mãos, levou-as ao pescoço e num ápice, retirou o cordão!

-Pronto…satisfeita!

A rapariga incomodou-se. Um certo mau estar assolou o seu corpo e um grito aterrorizado, rasgou a noite!

-Mónica… - Maria Madalena deixou a cozinha, correndo em direcção à “suite”.

Entrou, acendeu a luz e viu que a amiga parecia descansar sem incómodos. Mesmo assim quis certificar-se e chegou-se a ela. O corpo de Mónica via-se abandonado ao sono profundo. Não a quis acordar. E se fosse Sara que não estava bem. Foi então ao quarto que a rapariga ocupava. Também ali o sossego era total.

Regressou, Miguel também haveria de ter escutado…

A mesa estava arrumada e as chávenas do chá dentro do lava-louças. Miguel, porém, já lá não estava.

Correu ao quarto. Bateu.

-Lena… - Ouviu o rapaz perguntar.

-Sim!

-Tens razão… também estou muito cansado! Até amanhã!

Rodou o puxador mas a porta não cedeu!

-Posso entrar…quero falar sobre o som que ouvi e me pareceu um grito!

-Jovens a doidivar na rua! Descansa… - Disse-lhe Miguel.

-Pareceu-me dentro de casa! – Insistiu.

-Claro que não…foi na rua. – Respondeu o rapaz de dentro do quarto.

-Estou um pouco receosa! – Queixou-se.

-Ampara-te em Mónica…

-Porque não posso ficar contigo… - Teimou.

Ouviu-se uma chave rodar na fechadura. Pedro e as meninas estavam de volta.

Maria Madalena resolveu recolher-se antes que a enchessem de perguntas.

Amanhã, sempre amanhã! O presente nunca deixava de se projectar no futuro.

 

Na manhã de Domingo ninguém foi à praia e no geral todos ficaram recolhidos até mais tarde do que o normal. Cada um tomou o pequeno-almoço a horas diferentes e Mónica avisou que o almoço seria fora de casa. Foi escolhido um “pronto-a-comer” do outro lado da rua e mesmo assim Pedro e Adília não compareceram!

Maria Madalena só avistou Miguel à hora do almoço e o rapaz mostrou-se bem-disposto e atencioso. Ela, no entanto, estava aborrecida com a forma como ele a tinha banido da sua presença e foi logo procurando a medalha, cujo cordão vislumbrou por baixo da gola do “polo” que Miguel vestira.

-Estou a pensar ausentar-me esta tarde. Tenho familiares aqui perto e quero fazer-lhe uma visita. – Informou Miguel com serenidade.

Maria Madalena ficou alerta e estranhou tal comunicação.

Mónica porém retorquiu, fixando o rapaz insistentemente:

-A família é um bem precioso, especialmente os parentes mais chegados, pai, mãe e irmãos!

Miguel apenas se limitou a confirmar com a cabeça.

-Espero que não te percas…- Lançou Mónica com um certo azedume a que o amigo reagiu, mostrando-se contrariado. A rapariga quis remediar:

-Quero dizer…se sabes movimentar-te na zona?

-Minha madrinha virá buscar-me! – Informou Miguel. – Se alguém estiver interessado em fazer-me companhia.

-Eu dispenso! – Garantiu Mónica, levantando-se e dando o almoço por terminado.

-Eu iria de boa vontade não fosse ter combinado com Sérgio um lanche na marisqueira! – Lançou Magda com a maior das naturalidades enquanto Sara garantia que estava na disposição de passar a tarde na praia.

Lena preferiu nada comentar, enquanto avaliava as atitudes de cada um: Miguel que a surpreendera com aquela visita a familiares por perto. Mónica que parecia passar o tempo a controlar o rapaz e Magda que andava na trafulhice com o professor!

Miguel fixou-a como se lhe lesse os pensamentos mas não lhe perguntou directamente se ela o queria acompanhar. Essa atitude acresceu ainda mais o seu descontentamento e resolveu que também ela, nada lhe sugeriria nesse sentido. Porém estava curiosa em saber mais sobre Miguel e essa família que desconhecia.

Aguardou então que o rapaz reflectisse!

Em vão. A refeição terminou, os cafés foram bebidos e a despesa foi saldada sem que Miguel tocasse mais no assunto.

Uma certa frustração apoderou-se de Lena. E se ele se fosse sozinho, sem sequer insistir em a querer levar? Rodeou-o:

-Então essa madrinha reside no Algarve?

-Não…também está em férias! – Respondeu o rapaz, enquanto esperavam para atravessar a rua, depois de terem deixado Sara e Magda para trás.

-Estás a pensar demorar-te? – Perguntou ainda.

-É provável que passe lá a noite! Insistente como a minha madrinha é…- Respondeu o rapaz enquanto lhe sugeria que atravessassem naquele momento, pois o sinal para peões já estava verde.

-Ah! Julguei que fosse uma visita rápida…assim talvez te pudesse acompanhar! – Adiantou.

-E tem mal, pernoitares por lá…não estaremos sós.

-Sim claro! – Entristeceu-se Maria Madalena, afinal parecia que Miguel estava mesmo decidido a cortar com as abordagens enamoradas.

-Vou pensar melhor…

-Se decidires fazer-me companhia, poderíamos fazer a viagem no teu carro, assim evitava que ela se deslocasse.

-E onde está ela?

-Em Quarteira…

-Tudo bem…apetece-me viajar! – Decidiu-se Maria Madalena, disposta a desbravar caminho desconhecido.

 

Em pouco menos de uma hora, Lena tinha arrumado um pequeno saco com bagagem para noite e dia e aguardava que Miguel lhe desse ordem de partida.

Enquanto apanhava o cabelo, pois o calor estava sufocante, Mónica entrou na sala de banho. Olhou Lena pelo espelho e a rapariga viu que a amiga não estava satisfeita:

-Mónica estás aborrecida com alguma coisa? – Perguntou.

-Estou um pouco descontente com algumas atitudes do Miguel e vinha, precisamente, pedir-te para não o acompanhares hoje! – Respondeu Mónica, fechando a porta e encerrando as duas no WC.

Maria Madalena foi apanhada de surpresa.

-E porque não iria, ficaremos em casa de familiares dele.

Mónica contrariou-se ainda mais.

-Lena recordas-te quando te disse, que a família de Miguel estava a passar um mau bocado! – Abordou Mónica com alguma cautela.

-Sim…mais ou menos, para além da doença do pai era também o Gabriel que às vezes ficava um pouco descontrolado… - Disse Maria Madalena apelando à memória.

-Exactamente…pois eu tenho receio que as coisas possam vir a piorar.

-Porquê…esta madrinha também está doente?!

-Não…não me parece que esta madrinha signifique alguma coisa! Receio muito mais pelo Miguel, ou pelo Rafael….digamos que não tenho um bom pressentimento!

Maria Madalena ficou novamente tentada em responder a Mónica com alguma desconsideração, pois começava a irritar-se com a incoerência das suas palavras:

-Mónica…desculpa! Queres sentar-te e falar olhos nos olhos, sem rodeios, nem obscuridades e dizer-me claramente o que te aflige, muito bem! Caso contrário não estou para aturar as tuas invenções, nem os teus palpites sobrenaturais…

Mónica desarmou:

-Muito bem…lavo daí as mãos como Pilatos e digo-te: Miguel está entregue a si próprio! Ameaçou Mónica com o dedo em riste.

-E não será já… suficientemente crescidinho! – Atirou Maria Madalena.

-Que sabes tu…-Praguejou Mónica, abandonando a sala de banho.

Lena ficou a pensar que talvez Mónica tivesse um fraquinho por Miguel e a aproximação entre o par lhe desencadeasse algum ataque de ciúmes. Bem… mas que tinha isso a ver com algum possível mau estar na família…Relativizou: Mónica e a sua turva bola de cristal!

 

Miguel e Lena já tinham abandonado Albufeira e tomado rumo para Este.

Pouco depois de Mónica a ter deixado, Miguel entrou na suite, disposto a seguirem viagem. Saíram com um até logo ou até amanhã e só Mónica não lhe retribuiu a despedida.

-Mónica veio pedir-me para não te acompanhar! – Disse Lena, enquanto mantinha os olhos na estrada.

-Deixá-la…-Desapreciou Miguel!

-Parece-me que desenvolve por ti uma paixoneta! – Atirou a rapariga.

Miguel sorriu-se.

-Nada disso. É mais preocupação de irmã.

-E com o que se deve preocupar? Só se receia que eu te devore!

-Porquê… tens intenção disso! – Provocou Miguel, amarrando-a com o olhar.

-Longe de mim manjar carne santa… - Ironizou a rapariga.

-Pode ser divinal…

-Pois eu receio indigestões celestiais.

Miguel fixou a estrada.

-A próxima saída é já a nossa!

-Não…faltam ainda muitos quilómetros até Quarteira. – Reclamou a rapariga.

Miguel dirigiu-lhe um olhar matreiro:

-Pois eu quero encurtar caminho!

-Há outra estrada mais rápida!? – Questionou a rapariga.

-Não…mas há outro lugar mais perto.

Lena saiu à sua direita e tomou a direcção que Miguel lhe indicou.

-Sempre em frente. – Garantiu o rapaz.

Tomavam agora um caminho secundário.

-Mais três quilómetros e viras outra vez à direita.

A estrada era estreita mas seguia por uma zona muito bela do Algarve. Não se tratava de um espaço turisticamente embelezado mas de uma área mais inata.

-Na próxima indicação…-Alertou o rapaz.

Lena leu “Retiro das Almas” e guinou.

Miguel pediu:

-Estaciona naquele espaço aberto, ali ao lado.

Lena fez como Miguel ordenou.

-O carro ficará por aqui. O resto do trajecto será feito a pé!

A rapariga não deixou de ficar admirada mas a tarde estava tão aprazível e embora o sol ainda vibrasse, a vegetação era tão luxuriante que havia sombra por todo o lado.

Retiraram os pertences. Maria Madalena trancou o carro e iniciaram a caminhada. Uma estreita via, em terra batida, ladeada de loendreiras em flor, brancas e rosa, rompia a paisagem pejada de plantas, arbustos e árvores de fruto.

-São apenas alguns metros… - Comunicou Miguel.

-Até chegarmos onde? – Quis saber Maria Madalena. – Pelo que vejo nem a tua madrinha está em Quarteira, nem as suas férias são balneares.

O rapaz pegou-lhe na mão:

-A visita à minha madrinha não passou de um pretexto! – Confessou.

Maria Madalena não sabia se havia de ficar aborrecida ou contente.

-E que lugar é este? – Optou.

-Perfeito!

-Para quê?

Miguel não respondeu e em vez disso deu-lhe sinal para que olhasse em frente.

Umas construções feitas em madeira e pintadas de verde começavam a surgir no emaranhado da vegetação. Uma mais ao centro era de dimensões mais consideráveis mas à sua volta outras se desenvolviam, de proporções mais reduzidas. Um cuidado e harmonioso jardim envolvia as construções e os trilhos que levavam a cada estrutura eram agora ladeados por pequenos pinheiros cujo perfume era delicado e revigorante.

-Isto é lindo! – Soltou a rapariga com apreço.

Miguel apertou-lhe a mão com mais pressão.

Um estreito riacho, cujo caudal causava estranheza nesta época do ano, desenvolvia-se em ligeiras cascatas, cujas águas trepidavam por entre pequenos seixos brancos. A unir as margens uma graciosa ponte de madeira baloiçava ao peso dos viandantes.

O par, guiado por Miguel, dirigiu-se para ela e atravessou-a. Alguns metros mais à frente ficava a entrada da construção principal.

Miguel puxou a porta e flanqueou-a. Surgiu-lhes então um espaçoso átrio, esplendorosamente decorado com motivos orientais. Sentado num cadeirão, feito em ferro forjado e decorado com almofadas de tecido multicor, um idoso barbado, vestido de branco, bebericava uma chávena de chá!

-Procuro o Mestre Elias…-Miguel indagou.

O velho levantou a vista:

-O próprio. Entrai meu jovem e acercai-vos!

Miguel deixou Lena à entrada e aproximou-se:

-Fiz uma reserva… para a “Cabana Singela”!

O homem apreciou-o:

-Está no lugar certo. – Depois levantou-se, foi buscar um pesado livro e consultou o calendário.

-É preciso registar? – Perguntou Miguel.

-É o dever de um guardião! Nome, data e local de nascimento?

-Micha’el…

A mão de Mestre Elias tremeu.

-Deixe estar que eu mesmo anoto! – Decidiu Miguel.

O velho chamou:

-Elizabeth…

Uma menina muito loira, dos seus sete ou oito anos, surgiu do interior da casa.

-Meu pai! – Fez uma vénia.

-Leve…

-Miguel! – O rapaz apresentou-se.

-à Cabana Singela. – Indicou-lhe o pai.

A miúda correu a pegar a chave.

-É única! – Afiançou Mestre Elias.

-Aprecio a dignidade. – Assegurou Miguel.

Elizabeth mostrou o caminho e Miguel levou Lena pela mão.

-Qual o nome da donzela? – Perguntou a rapariga que, descalça, saltitava pelo trilho.

-Lena… - Informou Miguel.

-Maria Madalena. – Completou Lena.

Elizabeth estancou, retrocedeu e fixou em Lena, os seus extraordinários olhos azuis.

Lena amiudou aquele rosto e ficou com a sensação de se ter, algures, cruzado com ele!

A miúda fez então uma estranha pergunta:

-Podeis dar-me um fio de vosso cabelo?

-Claro que sim! – Disponibilizou-se Lena a rir.

-De forma alguma! – Impediu Miguel com um certo desconforto.

As duas viram-se impelidas a obedecer.

Elizabeth voltou a palmilhar o caminho e Lena, pela primeira vez, viu em Miguel uma força prodigiosa!

Mais alguns passos e a construção intitulada “Cabana Singela”, plantava-se no final do caminho.

Elizabeth colocou a enorme chave na fechadura e abriu a porta de madeira.

-Quereis que vos mostre o interior?

-Não é necessário. – Garantiu Miguel, indicando a Lena que ficavam por ali.

-Então…qualquer coisa é só ligar!

-Certo! Obrigado.

-Adeus ou até já! – Referiu Maria Madalena desconhecendo o seu rumo.

A miúda retrocedeu em marcha atrás e foi agitando a mão em sinal de adeus.

Miguel também retrocedeu:

-Deixai-me a chave!

-Ah! Perdão… - Disse a miúda, correndo para entregar a chave que levava consigo.

Miguel certificou-se que Elizabeth tomava o caminho de volta e acercou-se de Lena.

-Aguarda um pouco e dá-me o teu saco. Eu entro primeiro e venho buscar-te depois!

Lena atirou-se para um banco-baloiço, talhado em madeira, que se encontrava fixo às traves de pau do alpendre de entrada. Aí ficou, baloiçando-se, admirando a paisagem e inspirando o misto de agradáveis fragrâncias que exalavam das várias flores do jardim.

Miguel demorou-se pouco e quando voltou vinha descalço e muito à vontade. Chegou-se à rapariga e retirou-a ao colo do baloiço.

Maria Madalena mostrou-se divertida, enquanto flutuava nos braços de Miguel:

-Vou simular o ritual em que o esposo entra em casa com a companheira nos braços.

-Que exagero Miguel…-Perturbou-se a rapariga.

-Hoje tudo será feito como sendo a primeira vez! – Sussurrou o rapaz, malicioso.

Maria Madalena segurou-lhe o rosto entre as mãos e fitou-o no fundo dos olhos:

-Onde estamos e o que fazemos aqui?

O rapaz flanqueou a entrada e fechou a porta com a pressão do pé.

Girou quase sobre si próprio com a rapariga nos braços e pousou-a depois no chão, com toda a delicadeza.

Maria Madalena pode então apreciar a envolvente:

Lá dentro a cabana era graciosa e muito acolhedora. A cor verde do exterior, perfeitamente integrada na paisagem, era ali totalmente substituída pelos vários tons acastanhados da madeira que cobria as paredes, os tectos e o chão. Os móveis, objectos e adornos primavam pelas cores claras, entre o pastel, o creme e o branco. Várias carpetes e tapetes estendiam-se sobre o espaço, definindo graciosos recantos.

Miguel guiou-a pela mão:

Desenvolvia-se desde a entrada uma confortável sala de estar, com kitchenette incorporada, de onde se alcançavam mais dois compartimentos: uma moderna e sofisticada sala de banho e um magnífico quarto de casal. Ali tinha Miguel já depositado os seus pertences:

-Pernoitaremos aqui…

Maria Madalena olhou em redor:

-Só… nós dois!

Miguel atirou-se sobre a cama e abriu os braços:

-Eu, tu, o silêncio, a tranquilidade, a perfeição, o amor e a paixão… -Enumerou o rapaz! – Quantos somos? – Riu-se.

Suspenso no pescoço de Miguel, o cordão medalhado agitava-se.

Maria Madalena não pode resistir.

-É hoje que te desproteges? – E indicou o objecto com o olhar.

O rapaz segurou-o entre os dedos.

-Decisão irrevogável. – Levou as mãos ao pescoço e retirou o cordão que depositou dentro do seu saco de pertences.

Maria Madalena ficou alerta, esperava que de imediato qualquer situação alarmante se desencadeasse mas em vez disso, Miguel tomou-a nos braços.

-Esposaremos às sete da tarde… no santuário do retiro!

-O quê!? – Alarmou-se Lena.

-Nada receies…trata-se apenas de uma cerimónia simbólica. Não há padre, nem juiz, nem papeis e a única condição é que te adornes com uma coroa de flores!

-Porquê e para quê?! – Maria Madalena continuava incomodada.

O rapaz aconchegou-a mais a si.

-Deixa-me confessar-te algumas coisas. Sentemo-nos um pouco. – Convidou.

Maria Madalena acabou por se interessar e sentar-se ao lado de Miguel.

O rapaz falou com calma e serenidade:

-Encontro-me na condição de pura castidade, como já te tinha indicado nunca me foi permitida a consumação do acto sexual. Para que tal possa vir a acontecer, estou sujeito a um ritual de iniciação. A rendição aos prazeres da carne implica que me despoje de toda a parte espiritual e entregue a minha alma para guarda. Esta opção entre a crua materialidade e a espiritualidade física ser-me-á permitida durante escassas doze horas – as horas das trevas, equivalentes a uma noite, desde que para isso apresente uma consorte e que juntos aceitemos os esponsais.

Miguel averiguou o estado de Lena e apressou-se a concluir:

-Passado esse tempo, tudo voltará à normalidade, tu ficarás livre e eu reclamarei a minha alma e poderei regressar à condição de ser espiritual.

Maria Madalena dava sinais de desorientação:

-Queres dizer que és virgem?!

-Ok…virgem! Se quiseres. Embora saibas tão bem como eu que entre nós já se ateou e inflamou, vezes sem conta, a chama da paixão…-O rapaz pegou-lhe na mão e suplicou. – O que te peço é que me permitas arder nesse fogo!

-E todas essas coisas que disseste e que…não me fazem sentido e…essa exigência de um casamento fictício.

Miguel tornou-se mais sensual e murmurou, semicerrando os olhos:

-Amo-te Maria Madalena. Amo-te muito… e esse sentimento, incorpóreo e afectivo nem tu, nem ninguém me poderá tirar. Mas eu quero mais, quero a união física, quero satisfazer este desejo que numa força colossal, me arrasa e consome. Arrisco tudo, posso até perder-me, sofrer as mais terríveis consequências mas estou determinado em possuir-te!

Maria Madalena sentiu o coração bater descompassadamente:

Miguel mostrava-se tão atraente. Era um misto de menino rebelde e homem sensual exposto a seus pés. E como ela o desejava! Os vários jogos eróticos que antecederam estes momentos tinham despertado um interesse difícil de apaziguar mas, havia sempre um mas, não lhe agradava aquela cerimónia ainda que ela fosse figurativa. Como poderia simbolizar um casamento e não se tornar uma esposa? E se Miguel viesse posteriormente a reclamá-la!?

O rapaz pareceu adivinhar-lhe os pensamentos:

-Maria Madalena fecha os olhos… -Pediu.

Lena obedeceu.

-Agora escuta-me. – Fez uma pausa até recomeçar numa voz calma e envolvente: Hoje, Domingo, no “Retiro das Almas”, quando são precisamente cinco horas da tarde, eu Micha’el, participando num ritual de iniciação, renuncio por doze horas ao meu ânimo espiritual e desposo Maria Madalena no santuário sagrado da irmandade. Quando os primeiros raios de sol romperem no firmamento e as sombras das trevas se esfumarem, surgirá desfeito este nó. Eu voltarei à idealidade e tu continuarás como carne do meu ser.

O rapaz ajoelhou-se e pediu no mesmo tom de voz:

-Maria Madalena…aceitas desposar-me? Por doze horas…

Lena foi assolada por uma comoção maravilhosa. Que mais poderia reconhecer naquele sentimento, senão a felicidade transbordante.

Aproximou-se de Miguel e uniu os seus lábios contra os deles. O rapaz aprisionou-lhos e beijou-a sofregamente.

Quando uma ténue paragem surgiu entre as carícias, Lena pode confirmar:

-Sim…por doze horas!

O rapaz debruçou-se sobre ela e fê-la tombar sobre a cama.

Maria Madalena ofereceu-se a Miguel e o par envolveu-se em audaciosos mimos. Cada toque, cada pressão, cada afago mais ousado, elevavam-nos até dimensões antes desconhecidas. Miguel mostrava-se mais solto e mais arrojado, como se, desde sempre, soubesse chegar ao mais íntimo de Lena. Em poucos instantes a situação ameaçou descontrolar-se e foi o rapaz quem foi saindo de mansinho, reclamando:

-Para meu desespero…este ainda não é o momento!

Lena ficou estendida na cama até conseguir recuperar a percepção.

-Vamos minha rainha, um banho revigorante aguarda-nos. – Disse Miguel enquanto procurava no saco uns calções de banho.

Lena olhou o rapaz a trocar de roupa e apreciou a nudez escultural do seu corpo. Não podia negar que cobiçava arrebatá-lo em toda a sua intensidade!

-Vamos deliciar-nos num lugar encantador. Podes colocar qualquer coisa mais leve.

-Biquini? – Perguntou Lena, ao ver Miguel em calções de banho.

-Pode ser…

A rapariga vestiu um biquíni que lhe realçava a perfeição das formas e o rapaz admirou-a embevecido.

-O quanto me apetece delinear-te na ponta suave dos meus dedos! – Sussurrou o rapaz enquanto lhe lançava um sedoso toque.

-Então…permaneçamos! – Desafiou Maria Madalena.

-Não…tudo terá que ser feito, segundo as regras. Vamos!

O par saiu para o exterior e de mãos dadas, foram seguindo o riacho. Não foi necessário atravessar a ponte e numa zona mais abaixo, as sucessivas cascatas projectavam-se numa belíssima lagoa.

-Estas são as águas do éden. Aqui lavarei a minha alma, para que seja guardada limpa e sadia. Entrarei primeiro sozinho.

Maria Madalena estava disposta a deixar que Miguel dirigisse a situação, até porque ela sentia-se em total transcendência. Sentou-se sobre um pequeno penedo e viu, mais uma vez, o rapaz desnudar-se!

Miguel mergulhou e manteve-se imerso durante algum tempo. Um tempo para além dos limites sustentáveis. Maria Madalena observando a lagoa, começou a ficar perturbada. O silêncio era total e as águas pareciam suspensas. Olhou em redor e viu apenas a natureza resplandecente, avivada pelo cantar dos pássaros. E Miguel que não surgia…

Debruçou-se sobre o leito e viu aparecer à superfície um pequeno objecto verde, depois outro vermelho e mais verdes e amarelos, e mais vermelhos. Lena amiudou-os e um odor a fruta fresca inundou o ar. Eram maçãs. A lagoa estava sobrepujada de maçãs, roliças, brilhantes e sumarentas!

 

 

Atalaia 4 - [capitulo 15]

 

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Não querendo perder mais nenhuma oportunidade de vigiar Mónica e martirizar Miguel, Maria Madalena foi com o grupo para a praia nessa tarde de sábado. Vestiu o seu mais ousado biquíni e fez questão de se exibir ao máximo, perante os olhares dissimulados do rapaz.

Estendidos na areia ou mergulhados na frescura da água, o grupo passou momentos incríveis. Atalhados os diferendos e ignorados os mal-entendidos, todos pareciam perfeitamente descontraídos. Miguel e Pedro Dias atazanavam as meninas com banhos forçados ou cobriam-nas de areia da cabeça aos pés. Até Mónica estava mais solta e relaxada, permitindo brincadeiras e participando nos jogos.

Num momento de acalmaria em que Maria Madalena repousava na toalha e o sol lhe dourava a pele, sentiu nos seus ombros o contacto aveludado de Miguel.

-Deita-te aqui comigo! – Convidou, fazendo lugar na sua própria toalha.

O rapaz não se fez rogado e atirou o seu corpo para junto do da rapariga, tocando-lhe em quase toda a sua extensão. Ficaram os dois deitados de bruços, braços sob o queixo e os olhos de um, fixados nos do outro.

-Estás soberbamente bela! – Sussurrou Miguel, apenas num mexer de lábios.

Miguel conseguia surpreendê-la, quando era ela que o queria subjugar.

-Queres que te aplique o protector? – Perguntou em voz normal, procurando desviar as atenções de Magda, que se centravam sobre o parzinho.

Maria Madalena não se apercebera da insistência de Magda e respondeu com aliciação:

-O único protector de que necessito…és tu!

O rapaz tocou-lhe a ponta do nariz.

-Vamos juntos ao banho? – Desafiou.

A rapariga franziu o rosto, desagradada.

-A água está fria!

-Mas eu…escaldo! – Disse Miguel com audácia.

A rapariga riu-se, escondendo o rosto entre os braços.

-Como ousais rir-te de mim? – Soou a voz cálida de Miguel, junto à sua orelha direita. – Quando sofro desmesuradamente!

-Sofres?

-Muitíssimo!

Os rostos quase colados, os hálitos envolvendo-se, os olhos brilhando.

Miguel voltou a convidá-la num aceno de cabeça.

Lena cedeu. Levantou-se e o rapaz também.

-Vamos ao banho. – Informaram. Mas ninguém pareceu importar-se.

Ainda a praia estava cheia. Desapareceram no meio das gentes e entraram na água de mãos dadas. Lena mostrava-se desconfortável com a temperatura da água e Miguel chegava-se a ela com veemência. Sentia o corpo dele pressionando o seu e as suas mãos segurando-a com meiguice. Continuaram até que a água lhes chegou ao pescoço. Aí Lena viu Miguel desaparecer! Deixou de o ver mas continuava a senti-lo. Por debaixo de água, o rapaz acariciava-a em toda a extensão do seu físico. Cada toque era como um afago demorado e as mãos de Miguel mostravam-se cada vez mais atrevidas. Maria Madalena via-se à superfície atormentada pelo prazer. Lentamente mergulhou e encontrou desejosos os olhos expressivos de Miguel. Ocultados pela transparência da água, os seus lábios tocaram-se. Primeiro muito ligeiramente, depois com caloricidade e finalmente com voluptuosidade. O primeiro a perder o fôlego foi Maria Madalena que sacudiu o rapaz e voltou à tona. Miguel surgiu depois, lambendo os lábios. Maria Madalena fez querença de o agredir e o rapaz puxou-a para junto dele, apertando-a com impetuosidade. Desta vez mergulharam juntos e os lábios voltaram a procurar-se com desmedida fogosidade. O sal temperava os afagos que de tão doces, ameaçavam tornar-se incontroláveis. E mais uma vez as cabeças do par vieram à tona, ainda mais juntos, cada vez mais em sintonia. Respiraram entrelaçados e os braços de Miguel apertando o corpo de Lena, fizeram mais uma vez ocultá-la na água. Os beijos repetiram-se, renovaram-se e intensificaram-se e o par sufocando, procurou fora de água o ar que rareava. A emoção estonteante e irrefreável quebrou o raciocínio e trouxe à superfície dois rostos colados e de lábios fundidos!

Os olhos maliciosos de Magda eram duas flechas trespassantes. Maria Madalena desesperou. Paulo! Mais uma vez esquecera-se dele.

Quis empurrar Miguel mas o rapaz já se tinha afastado. Magda mergulhou e afastou-se nadando, mas o coração de Lena ficou batendo descompassadamente.

Miguel desatou a rir. A rapariga mandou-lhe água contra o rosto.

-Vê se arrefeces… - Brincou.

-E tu vê se esfrias… - Disse Miguel, voltando a aproximar-se. – Podemos retomar no ponto em que estávamos? – Desafiou.

-E que ponto é esse? – Escapou-se Maria Madalena.

-Em ponto de rebuçado! – Gracejou o rapaz, segurando-a pela mão.

-Quanto a ti é mais em ponto de açúcar queimado! – Galhofou a rapariga.

-É uma mistura explosiva “doçura e quentura”! – Insinuou-se Miguel.

-Imagina se a água não estivesse fria! – Continuou Lena a gracejar.

-Vem cá…- Miguel puxou-a para si e disse-lhe em segredo: - Entraríamos em ebulição!

Lena riu-se e o seu corpo voltou a ficar colado ao de Miguel.

No horizonte, um pouco distante, uma mota de água rasgava as ondas. O barulho era ensurdecedor. Seguia em linha recta até que guinou e se lançou numa nova trajectória. O par ficava precisamente na sua linha de alcance. Maria Madalena assustou-se quando constatou a aproximação do veículo em marcha acelerada. Quis escapar e Miguel também. Cada um saltou para lados opostos e a mota trespassou o espaço que antes o par tinha ocupado!

Lena reconheceu Sérgio e Miguel blasfemou furioso.

-Sergestus…meu renegado!

-Que estúpido… - Insultou Lena.

Miguel pegou na mão da rapariga e apressaram-se a sair da água.

 

Nessa noite de Sábado todos concordaram numa saída em grupo. Por isso apressaram o jantar, tomaram café numa esplanada e escolheram um bar animado para começar. Pedro Dias era o anfitrião das três raparigas, Sara, Adília e Magda e Miguel acompanhava Mónica e Lena. Havia música ao vivo e quem quisesse poderia dançar. Mesmo assim o grupo estava dividido entre manter-se por ali ou participar numa festa que uma discoteca da moda passara o dia a publicitar. Dessa opinião eram Magda, Sara e Pedro, enquanto Adília e Mónica preferiam manter-se por ali. Já Lena e Miguel não optavam declaradamente.

O bar possuía uma discreta pista de dança um pouco isolada da zona de estar e alguns aproveitaram para dançar. Magda foi convidar Miguel para a acompanhar. O rapaz não foi indelicado e seguiu-a. Lena olhou a amiga com desconfiança. Depois de se insinuar com Sérgio, passava a atacar Miguel! – Pensou.

Miguel mostrava-se descontraído e dançava com graciosidade. Maria Madalena embevecia ao constatar esta revelada faceta do amigo. A música era enérgica e os dançarinos agitavam os corpos ao ritmo que lhes era imposto.

-Que te parece Miguel? – Perguntou Mónica.

-Bastante interessante! – Comentou Lena.

-Vocês estão demasiado próximos. – Observou a amiga.

-É uma crítica? – Quis saber Lena.

-Por mim… não tenho nada contra, desde que ele se controle!

-E o que o faria descontrolar-se? – Insistiu Lena.

-Tu…

-Porquê? Sou a única mulher no mundo. Olha! Neste momento, dança ele bem juntinho a Magda. – O ritmo musical tinha mudado e a forma de dançar também.

-Magda nem o belisca e tu arrasa-lo!

-Fico lisonjeada.

Mónica agitou a cabeça em sinal de desagrado.

-Sonsinha…não estarás com inveja! – Riu-se Maria Madalena.

-Nunca poderia rivalizar contigo e se o fizesse seria uma tarefa inglória.

-Não o faças não…minha querida! Que eu estou em despedida de solteira! Vale tudo! – Maria Madalena continuava na galhofa.

-Esse casamento é o espinho espetado no coração de Miguel! – Disse a amiga com seriedade.

-Parece-me indiferente. Nunca mais abordou tal assunto.

-Usa outra estratégia…

-Qual?

Mas Mónica já não respondeu pois Miguel aproximava-se e fazendo uma vénia, convidava Lena para dançar.

A rapariga não se fez rogada e acompanhou-o até à pista. Mais uma vez os ritmos eram vigorosos e os corpos balançaram-se, perfeitamente afastados. Uma ou outra vez, tocavam-se as mão e entrelaçavam-se os dedos. Ali entre tantos olhares, cada pequeno toque provocava uma onda de excitação. A música tornou-se frenética e os corpos mais desassossegados. Miguel passava rente a Lena e soprava-lhe ao ouvido, palavras imperceptíveis. A rapariga ria e estonteava, seguindo a sua figura com o olhar. O rapaz vestia jeans de corte moderno e uma camisa branca ligeiramente aberta no peito. Ao pescoço vislumbrava-se claramente o famoso cordão.

Os acordes da melodia tornaram-se a pouco e pouco mais doces e tranquilos. Miguel puxou-a para si e entrelaçou-a pela cintura. Maria Madalena colou o rosto ao peito do rapaz e aspirou a fragrância que emanava dos seus cabelos. Quase presos à pista, os corpos oscilando juntos, meneando-se, estreitando-se, inflamando-se, alheios ao ambiente que os rodeia, aos olhares de cobiça ou censura que lhe lançam, às regras e às condutas morais que lhe exigem, o par cinge-se, entranha-se, penetra-se. Lena afaga-se no peito quente do rapaz, sente-lhe as formas e a respiração ofegante. Comprime-se contra ele e a medalha, sob a camisa leve, incomoda-a! Desvia-a, afasta-a e num ímpeto Miguel, lança-a para as costas. Um total conforto envolve-os, estão prontos!

A música altera-se para sons de trovão! Acordes violentos desassossegam! Ritmos agitados inquietam. Os restantes pares da pista apartam-se e só Lena e Miguel querem resistir!

Mónica meneia-se e Sara sacode-se. Envolvem o par que a pouco e pouco se desprende. Maria Madalena sorri e Miguel lança-lhe um beijo pelo ar.

O grupo reúne-se na dança frenética. Miguel recompõe-se e ajeita o cordão. Maria Madalena ainda estremece de volúpia e sente-se cada vez mais fascinada! Priva-a apenas a oportunidade!

Continuam a dançar até que a exaustão os vence. Agora é Lena e Miguel quem primeiro abandonam a pista e regressam ao lugar que ocupavam. Uma mesa redonda, ladeada de pequenos mas cómodos sofás. Ali, ao menos, há um pouco de privacidade e o ruído da música não incomoda tanto.

O par senta-se muito junto. Maria Madalena segreda ao ouvido do rapaz:

-Estamos a exagerar!

-Sim…parece-me que sim! – Consentiu Miguel. – Não devemos continuar a tocar-nos. – E apertava-se contra o corpo da rapariga que já estava entalada entre ele e a parede.

-Então afasta-te! – Disse-lhe Maria Madalena, olhando-o de soslaio.

-Afasta-te tu! – O rapaz continuou a pressioná-la.

-E para onde? – Riu-se Lena, divertida com a brincadeira.

-Não sei…é preciso ter imaginação!

Maria Madalena voltou a segredar-lhe:

-Olha que não demora… estou no teu colo.

-É melhor… não! – E Miguel fez querença de se afastar mas continuou, precisamente, no mesmo lugar.

-Medricas! – Provocou a rapariga.

Miguel pressionou-se ainda mais sobre ela.

-Assim vai-me faltar o ar!

-Então respira-me! – Insinuou-se Miguel.

-Deves pensar que és de éter…

-Sou essência, aroma e bálsamo…

-E doido! – Empurrou-o Maria Madalena.

-Por ti… - Olhou-a com paixão.

A rapariga desviou o olhar.

-Não vamos recomeçar…

-É melhor não! – Confirmou o rapaz dando espaço à rapariga.

Maria Madalena procurou-lhe a medalha.

-Que significa então a medalhinha… - Perguntou com um certo desdém.

-É simbólica. Oferta de minha mãe. – Respondeu Miguel sem interesse.

-Mas disseste que te protegia.

-Claro que protege. Uma mãe quer sempre a protecção de um filho.

-Como se chama a tua mãe? – Quis saber a rapariga.

-Alva… -Disse Miguel.

-E os dizeres? Não são iguais aos da medalha que Rafael me ofereceu!

-Eu tenho o poder. Eles dependem de mim!

-Queres dizer que és tu quem manda? – Redundou a rapariga.

-Mais ou menos! Sou detentor da espada do conhecimento puro, eles apenas possuem espadas de fogo!

-Estás de novo a divagar. Contigo não se pode ter uma conversa séria! – Queixou-se Maria Madalena.

-Podes querer que nunca falei tão a sério!

-Pois…vê-se! – Censurou a rapariga.

A música voltava a embalar.

-Voltamos à pista? – Convidou o rapaz.

-Não sei…e se fossemos antes dar um passeio!

-Ao luar?!

A rapariga abanou a cabeça que sim mas logo em seguida, arrependeu-se:

-E a malta?

-É melhor ficarmos. – Resolveu Miguel.

Não demorou que Mónica e Sara não regressassem e o restante trio não decidisse abandonar o bar e ir experimentar a famosa festa na discoteca.

Estava o bando desfeito e Lena e Miguel viram ali a sua oportunidade.

-Estamos a pensar ir dar um passeio. – Comentou Miguel.

Mónica olhou-o com preocupação.

Miguel esticou o pescoço e bateu com a mão no peito.

Mónica disse que estava a pensar regressar a casa e a Sara agradou-lhe a ideia.

Saíram os quatro e fizeram juntos a maior parte do trajecto. Depois apartaram-se. Lena e Miguel seguiram em frente, Mónica e Sara voltaram à direita.

Miguel colocou o braço sobre o ombro de Lena e aconchegou-a:

-Acreditas que a lua é feiticeira?

-Não sei se é feiticeira mas neste momento parece-me mágica!

-E se ela te lançasse um encantamento?

-Sim…gostaria que ela me tornasse numa sereia que cantaria para ti, meu miserável e martirizado, marinheiro!

-Pois eu digo-te que seria imune ao teu cante!

-Então quero ser a fada Morgana e tu, um insignificante elfo e meu escravo. – Lena entrelaçava Miguel pela cintura.

-Pois eu seria Merlin e os meus poderes superariam os teus!

-Então quero ser uma deusa…

-Então eu serei um anjo…

Entravam agora no areal e foram-no seguindo até a praia fazer um recanto mais reservado. O luar de Agosto cintilava, disseminando uma luz prateada.

O par caminhou abraçado até ao lugar escolhido.

Ali Miguel apartou-se e descalçou os sapatos. Maria Madalena olhou-o curiosa. O rapaz tirou a camisa e principiou a desapertar as calças.

Lena surpreendeu-se com essa atitude:

-Que fazes?

-Vou nadar ao luar! Nu… - E foi retirando todas as peças, até ficar completamente desnudado.

-O quê?

-E tu também! – Disse-lhe puxando-a pela mão.

-Eu não entro na água com esta escuridão! – Garantiu, enquanto não deixava de se inebriar com o físico de Miguel que a luz da lua enaltecia.

-Vem que eu ilumino-te. Sou um ser de luz… - Os olhos de Miguel tremeluziam, enquanto retirava com delicadeza o vestido de Lena.

A rapariga ainda se quis escamotear mas o encanto do rapaz era superior ao seu raciocínio.

Viu-se envolvida pelas mãos ternas de Miguel que a despiram sem recato e sentiu os seus braços rodeá-la para que abraçados entrassem na água.

-Minha sereia canta para mim! – Sussurrou Miguel.

O mar ocultava-os até à cintura. O peito da rapariga estava contraído contra a força muscular do rapaz e os seios quentes roçavam por vezes no metal frio da medalha.

Miguel fê-la rodear-lhe o pescoço com os braços e encaixou o seu rosto de forma a explorar com os lábios a garganta da rapariga.

Muito docemente soltou alguns acordes roucos:

-Vem bailar…no meu batel. Além do mar cruel. E o mar bramindo. Diz que eu…fui roubar!

Maria Madalena trauteou cadenciadamente:

-A luz sem par. Do teu olhar…tão lindo!

Os corpos balanceavam-se ao compasso do pulsar das ondas de maré. Outras ondas porém, bem mais vibrantes, assolavam-nos e cresciam no interior dos seus seres, lançando-os num fascínio alucinante. Sem peias nem estorvos as formas anicham-se, os espaços preenchem-se, as bocas vorazes recheiam-se e o par está perto da plenitude.

Não fosse aquela incómoda e fria medalha que insiste em golpear uma e outra vez os seios macios da rapariga!

Maria Madalena flutua mas não consegue abstrair-se totalmente do incómodo provocado pelo cordão medalhado, estendido sobre o peito de Miguel. Está disposta a ver-se livre do obstáculo e deita-lhe as mãos para o retirar. O rapaz reage de imediato, sacode a cabeça em sinal de negação e aprisiona as mãos da rapariga.

-Deixa estar! – Reage como um sonâmbulo.

-Estorva-me! – Queixou-se a rapariga.

-É a sua função! Há limites que não posso ultrapassar! – Disse o rapaz com imprecisão, afastando-se ligeiramente da rapariga.

-Tais como? – Estranhou Maria Madalena que começava a ficar desconfortável com a situação em que se encontrava.

Miguel reaproximou-se e rodeou com o seu braço os ombros da rapariga:

-Vamos!

Maria Madalena resignou-se e saíram juntos da água.

Mesmo na noite quente de Verão, os corpos molhados reclamaram as vestes e em poucos momentos estavam cobertos.

Uma certa frustração tomou conta da rapariga. Miguel insinuava-se mas não concluía.

O rapaz segurou-a novamente pela mão e reiniciaram a caminhada ao luar.

-Miguel porque nos envolvemos tão intensamente e não completamos essa envolvência? – Questionou a rapariga com uma certa diplomacia.

O rapaz ficou imóvel e a sua fisionomia perturbou-se. Foram apenas alguns segundos, porque depois encarou-a e declarou numa voz, bastante, clara:

-É me vedada a consumação do acto sexual!

Maria Madalena ouviu mas ficou em dificuldades para descortinar as palavras!

-Vedada?!

-Sim…interdita, proibida.

-Porquê? Sofres de alguma doença?! – A rapariga começava a preocupar-se.

-Não. – O rapaz procurou descansá-la. - Prende-se apenas com a minha condição…

Maria Madalena não sabia que condição poderia submeter Miguel aquela afronta, mas via naquele ser um mistério por revelar!

-Miguel…porque não falamos abertamente sobre certas questões?

-Talvez porque não estás preparada para elas… - Disse o rapaz com uma certa nostalgia.

-Devíamos experimentar…

O rapaz parou e segurou-a pelos ombros:

-Se eu fosse o homem da tua vida, serias capaz de manter comigo uma relação platónica?!

-Platónica…queres dizer sem envolvimento sexual!

-Exacto! – Desafiou Miguel.

-Não sei…acho que sim, quer dizer… talvez!

-Vês! – Riu-se o rapaz com ironia. – Continuas demasiado presa à materialidade. Tens ainda todo um longo caminho para trilhares…

-Mas tu próprio… ultrapassas os limites dos contactos físicos, excedes-te nas carícias, extravasas nos afagos…és persistente, insistente como se nada te pudesse entravar. Ainda há pouco estávamos no limiar do acto…o que te poderia garantir que ele não se consumaria?!

-Esta! – E o rapaz mostrou a enigmática medalha.

Maria Madalena ficou entre a irritação e o divertimento.

-Uma vulgar medalha! Estás a rir-te de mim! – Aborreceu-se e iniciou a caminhada sozinha.

Miguel correu em seu alcance para lhe dizer num sussurro:

-Se quiseres…lanço fora a medalha e fico à mercê das consequências.

A rapariga abanou a cabeça em sinal de negação:

-Longe de mim… lançar-te na fogueira do desejo e ver-te arder nela!

-E se eu escolhesse esse fim. Vinte e cinco anos de existência terrena parecem-me suficientes.

-Não vais dizer-me que és como a tarântula-macho que morre a seguir ao acto sexual! – Depreciou Maria Madalena.

-E se a minha materialidade não for total e se…eu estiver envolvido numa certa espiritualidade! – Miguel mostrava-se circunspecto.

-Sim…realmente. Tu e a Mónica devem andar metidos nalguma treta. Aquela também está sempre com misticismos.

-E se eu pertencer a uma outra dimensão…

-Deixa ver…-E Maria Madalena apalpou o rapaz e viu-o estremecer. – Não me parece…tudo o que sinto é bastante real!

Agora foi a vez de Miguel parecer magoado.

-Estás a exceder-te!

-Porquê? Porque vejo em ti um homem, um varão, um macho…

-Não! Porque acabas de matar a poesia do momento…

-Sim. Está morta… mas a sentença foste tu que a ditaste!

Deixavam o areal e tomavam o caminho de volta para casa.

Maria Madalena sacou do telemóvel e ligou o número de Paulo.

Miguel afastou-se incomodado.

A rapariga tentou em vão que o noivo a atendesse.

-Continuas a alimentar o dragão…para ele um dia te devorar! - Censurou-a Miguel.

-Tretas! – Lançou Maria Madalena sem paciência.

O rapaz reaproximou-se:

-Ingloriamente… vou perder os meus atributos sem que obtenha a tua salvação!

-Miguel…já ouvi o suficiente! Por favor…stop! Mais alguns dias e todos regressaremos às nossas vidinhas!

-Preferes o conforto do hábito a rasgares as paredes do convento!

-Prefiro viver dentro da normalidade! – Respondeu a rapariga.

-Estás a insinuar que detestas a minha invulgaridade!

-Digamos que não creio nela!

-É sempre uma questão de fé…

-Sou ateia! – Determinou Maria Madalena, enquanto subia os degraus do apartamento.

Miguel arrebatou-a à entrada.

-Vou abraçar-te até à exaustão!

Lena desafiou:

-Para me enredar na medalha!

-Lanço-a para as costas… - Determinou-se Miguel.

-Que eu saiba os anjos não têm costas… - Soltou-se Maria Madalena, abrindo a porta e entrando em casa.

 

Atalaia 4 - [capitulo 14]

calças-de-brim-da-sarja-de-nimes-com-corrente-cha

 

O jantar começou animado, embora Lena tivesse levado mais tempo do que o razoável na toilette e Miguel chegasse tão acalorado que o seu rosto se mostrava visivelmente vermelho.

-Foi do ar da praia! – Desculpou-se.

Maria Madalena não ocupou lugar junto de Miguel pois este tinha-o destinado entre Pedro e Mónica. Também Magda não dava notícias e mesmo estando ainda ar de dia, a demora era já contestável.

O pessoal achou o seu procedimento deselegante e não querendo continuar à espera, sentaram-se à mesa e iniciaram a refeição.

Lena, porém, começava a sentir-se bastante inquieta:

-É uma irresponsável! – Vociferou. – Nunca mais deixo que me acompanhe!

Sara, tinha a certeza que ela não demoraria e Adília achava que estava bem acompanhada.

Mónica porém, questionada por Lena, sugeriu que ela aguardasse mais um pouco e se a ausência se mantivesse, telefonasse para a casa do professor.

Maria Madalena não via com bons olhos aquela aproximação de Magda e Sérgio. Inocente como era, depressa cairia nos dentes do lobo.

Miguel viu-a alheada e sugeriu-lhe.

-Se quiseres acompanho-te, para a procurarmos.

Lena olhou-o, ainda sentida, e respondeu:

-Não saberia onde encontrá-la!

-Então… o pessoal não disse já que ela está com o professor Sérgio…é só ir no encalço dele. – Lançou o rapaz.

Lena recordou-se do interesse de Sérgio em enfrentar Miguel!

-Aguardemos! Ela já é crescidinha, devia ser mais responsável. – Lançou em jeito de remate.

-Tudo bem! – Consentiu Miguel, retomando a refeição.

-Então vamos sair esta noite? – Questionou Pedro Dias, olhando para o amigo.

-Bem…não sei! – O rapaz procurou consultar Lena, com o olhar. – Onde estavas a pensar ir?

-A um barzito e mais tarde à disco!

-É pá! Eu…se queres que te diga, estou um bocado cansado. – Adiantou Miguel esperando a reacção de Lena mas a rapariga não parecia minimamente interessada.

-É noite de sexta-feira, a malta expande-se…-Comentou Adília com entusiasmo.

-Isso mesmo…vamos esticar-nos! – Congratulou-se Pedro.

-Mais do que tu te esticas! – Gracejou Mónica. – Passas o dia estendido.

-Então tenho que me poupar de dia para me evidenciar à noite. Vês esta camisinha…impecável para atrair gatinhas!

-Cuidado com as garras das gatinhas não rompam elas a camisinha…- Chalaceou Sara.

-Não há que ter receio, está tudo controlado.

Maria Madalena mesmo que quisesse não conseguia disfarçar a irritação que a começava a consumir e apetecia-lhe sair em busca de Magda e onde encontrasse aquela desmiolada, dar-lhe um par de estalos bem assentes!

Miguel sorriu-se, como se lhe lesse os pensamentos.

O toque da campainha do apartamento fez Lena dar um salto na cadeira. Não sabia porquê mas tivera um mau pressentimento.

Adília prontificou-se a abrir.

-Então menina… está tudo preocupado por tua causa. – Ouviu-se Adília dizer.

Lena não se aguentou mais e num ímpeto levantou-se, abandonando a sala onde decorria o jantar. Estava disposta a ter uma séria conversinha com Magda! Porém, a meio do trajecto:

-Trouxe convidado! – Ouviu-se a voz bem alta da rapariga, anunciar.

Maria Madalena ficou estática no meio do corredor. Só poderia ser Sérgio o convidado de Magda. Logo hoje que o jantar era em honra de Miguel. Que falta de gosto! – Irritou-se.

A voz de Magda fez-se de novo ouvir, agora já dentro de casa, falando certamente para Adília:

– Pareceu-me bem retribuir o amável convite da noite anterior. – Disse.

Adília cumprimentou o professor:

-Boa-noite prof., faça favor, já tínhamos começado a jantar. – Desculpou-se.

-Não faz mal que nós lanchámos bem! – Gracejou Magda.

Maria Madalena não lhe apetecendo nada, voltar a estar de novo, cara a cara com ele, ocultou-se na sala de banho.

Ouviu os passos do grupo dirigirem-se para dentro e ficou quieta avaliando a situação.

Sérgio estava a passar das marcas e a sua perseguição tornara-se doentia. O melhor era tratar o assunto com seriedade e apresentar queixa às autoridades. Mas de que crime o poderia acusar? Que provas tinha? E ela não era co-autora! E se Sérgio em jeito de retaliação colocasse Magda a par da aventura que tinham vivido. Começava a desconfiar daquela insistência de Sérgio em fazer de Magda sua aliada! E o maior problema de Lena estava no facto de Magda ser da família de Paulo e afilhada de D. Olívia!

Lavou o rosto e procurou serenar. Nada como enfrentar as feras na arena do circo!

Quando chegou à sala, todos se reuniam em volta da mesa e Magda servia Sérgio de um pouco de carne assada.

A rapariga levantou o olhar para Lena.

-Lena julguei que eras tu…quem afinal se tinha perdido! – Disse.

-Ai sim! – Respondeu Lena com animosidade. – E tu? Por acaso tens consciência da tua irresponsabilidade!

-Porquê? Incomodei alguém? – Disparou a rapariga.

-Vamos acalmem-se…mais tarde, em privado, podem continuar o bate-boca. – Alertou Pedro Dias.

-Lena…não há necessidade de se aborrecer, Magda fez-me apenas um pouco de companhia. – Sérgio procurou esclarecer.

Maria Madalena nem se dignou a olhar para o homem. Começava a sentir asco pela sua pessoa!

-Ora, ora…então cada um, já não pode escolher a companhia que quer?! – Magda mordeu as palavras. – Que eu saiba desde hoje, bem cedinho, que a minha priminha tem sido unha e carne com este amiguinho! – E indicou Miguel.

-Não abuses Magda. – Avisou Lena.

-Digo alguma mentira? – Voltou a desafiar Magda.

Mónica quis colocar um ponto final na discussão:

-Magda quem é convidada, não traz convidados! E com isto não quero ser desagradável para com o professor, mas compete-te a ti reconsiderares e ver que não procedeste bem!

Magda pareceu acatar as indicações de Mónica.

-Está certo. Demorei-me demais sem avisar. Não voltará a acontecer.

Os ânimos serenaram e o jantar voltou à normalidade. Excepto para Lena que tinha perdido completamente o apetite.

Magda tinha sossegado a língua mas as acções continuavam impertinentes. Rodeava Sérgio de todas as mordomias e parecia que jantava a sós com ele.

Miguel continuava a amiudar as reacções de Lena e pediu a Pedro que trocasse de lugar com ele.

Quando Lena constatou a proximidade de Miguel ainda se alarmou mais!

-Olha…lá estão eles novamente, tão juntinhos! - Comentou Magda sorrateiramente. Depois voltando-se para Miguel: - Conheces o meu primo Paulo, o noivo de Lena?

Miguel enfrentou a rapariga:

-Já tive o prazer!

-E uma jóia de pessoa. Mata-se a trabalhar na Suíça para dar à noiva tudo o que ela merece.

-Se o faz de vontade! – Retorquiu o rapaz.

-Resta saber se vai valer a pena! – Magda continuava insolente.

Maria Madalena fez querença de abandonar a mesa mas Miguel reteve-a.

-E será a prima quem tem a incumbência de zelar, em Portugal, pelos bens do primo. – Miguel disse trocista.

-Que bens? – Irritou-se Maria Madalena.

-Calma. Deixa que Magda responda, assim saberemos qual é a sua verdadeira missão. – Aconselhou Miguel.

-Não tenho qualquer missão! – Atrapalhou-se a rapariga.

-Então? – Questionou Miguel.

-Então que…meu primo está furioso porque a noiva nunca mais deu sinais de si.

Lena sufocou. Era verdade! Desde que chegara ao Algarve que não comunicava com Paulo. Tinha-o olvidado completamente, como se ele não existisse. Calou-se, na esperança de poder remediar a situação.

Miguel interrogou-a com o olhar.

A rapariga disparou:

-São assuntos meus com os quais ninguém tem nada a ver. E agora se me dão licença estou farta de tanta gente em meu redor. Intrometendo-se, vasculhando, insinuando, tomando partido, decidindo…Não!

Maria Madalena descontrolou-se e saiu da sala a correr. Mónica foi em seu alcance.

-Agora não! – Disse-lhe Lena, atirada sobre a cama. – Deixa-me sozinha, por favor. Sai e fecha a porta.

Mónica viu que não devia insistir e afastou-se.

No corredor cruzou-se com Miguel. Este quis saber:

-Nada feito…voltámos ao ponto de partida. – Disse Mónica com desânimo.

O rapaz também desolou.

-Eu vou lá…animo-a!

Mónica lançou-lhe um olhar de censura.

-Tudo bem! – Consentiu o rapaz. - É melhor não…estou demasiado desprotegido.

-Tenho a certeza que está no porta-luvas do carro mas não tenho conseguido encontrar as chaves! – Lamentou-se a rapariga.

-Necessito dela. Ou à terceira noite não respondo por mim!

-E as sequelas?

-Veremos!

-Estamos a ser postos à prova! – Mónica parecia agora uma criança.

-Uma prova demasiado violenta! – Miguel rangeu os dentes.

-Vamos. É preciso continuar…

Regressaram.

 

Nessa noite Lena já não regressou ao convívio dos amigos, nem os contactos telefónicos que procurou estabelecer com Paulo vieram a dar frutos. Falou com a mãe, na esperança de que esta lhe pudesse valer mas Maria Manuela estava perfeitamente descansada e nada sabia sobre as queixas de Paulo.

Sentiu a presença de Mónica no quarto, ainda a noite estava em princípio e a de Magda quando a madrugada já se aproximava. Desconhecia onde Miguel tomara guarida e desejava que Sérgio se tivesse eclipsado.

Quando a manhã seguinte chegou e o sol de Verão convidou à praia, Maria Madalena apercebeu-se que a azáfama na casa indicava que essa tinha sido a decisão da maioria. Como ninguém a incomodou e continuava sem disposição para os acompanhar, permaneceu quieta e calada até sentir o sossego da casa.

Depois levantou-se, dirigiu-se à cozinha, fez café e torradas. Sentou-se e comeu descansada. Iria mais tarde tentar avaliar como terminara o jantar.

Quando se dispôs a fazê-lo, entrou na sala comum e o que viu foram as roupas de Miguel dobradas sobre o sofá indicando que tinha sido ali que ele tinha pernoitado. De resto tudo se encontrava impecável como Mónica tanto gostava que acontecesse. Miguel tinha usado na noite anterior uns jeans e uma T-shirt azul celeste que Maria Madalena gostava particularmente. Pegou-lhe e apeteceu-lhe experimentá-la. Com a blusa do rapaz vestida, aspirando o perfume que dela emanava foi rodopiando pela sala até se sentir tonta e tombar sobre o sofá. Qualquer objecto no bolso das calças de Miguel a magoou na mão! A princípio julgou ter sido o próprio fecho, pois o bolso era fechado por uma corrente. Mas não. Tratava-se de algo um pouco mais volumoso! Abriu-o e rebuscou…

Uma chave! Uma chave de ignição! A sua chave! A chave do seu automóvel…

Não havia qualquer dúvida, Miguel tinha encontrado a sua chave mas como e onde? Se ela tinha uma extrema preocupação em deixá-la em paradeiro seguro. Tinha fobia a perder as chaves do carro, por isso as guardava em local sempre certo e a esse local Miguel não tinha tido acesso. Desde que chegara ao Algarve que o automóvel se mantinha estacionado na garagem do prédio de apartamentos já que Pedro Dias preferiu ter a carrinha sempre à ordem.

Então? Voltou a amiudar. Por muitas coincidências que pudessem existir não era fácil que houvesse na mesma casa duas chaves de veículos “Opel” e dois porta-chaves com a letra “L”!

Tudo bem. Nada melhor que verificar. Pegou na chave e dirigiu-se à “suite”. Procurou no interior do roupeiro a parte que lhe tinha sido destinada para guardar as bagagens. Abriu a mala onde trouxera a roupa e procurou na pequena bolsa, cerrada com um fecho. Não teve dúvidas aquela era mesmo a chave do seu carro, restava apenas saber como tinha ido parar ao bolso das calças de Miguel?

Maria Madalena quis então certificar-se de que nada tinha acontecido ao seu automóvel. No interior da garagem tal como o tinha deixado, havia precisamente uma semana, apresentou-se-lhe intacto o “Opel-Corsa”. A rapariga usou a chave e o veículo cedeu, abrindo-se.

Revistou então o seu interior, não tivesse sido assaltada, mas lá estava o rádio e a antena exterior que tinha guardado. Procurou então pelos documentos da viatura dentro do porta-luvas, arrastando para fora tudo quanto lá estava. Verificou primeiro a carteira e confirmou que nada lhe faltava. Depois ajeitou os outros objectos espalhados e voltou a guardá-los: Uma escova de cabelo e uma fita. Um maço de lenços de papel. Uma pequena caixa com comprimidos e algumas moedas à solta sem grande valia. Viu debaixo dos bancos e nos compartimentos das portas. Por fim saiu do carro e foi observar no porta-bagagens. Tudo vasculhado para poder concluir que, no seu carro, ninguém tinha mexido!

Voltou a cerrar o veículo, lançou-lhe mais um olhar de confirmação e regressou ao apartamento.

Guardou a chave em lugar que lhe pareceu seguro, vestiu-se e saiu. Iria dar uma volta por algumas lojas e almoçaria por lá. Mais tarde insistiria em estabelecer contacto telefónico com Paulo e procuraria acalmar a sua fúria. Agora precisava de um tempo só para si.

Caminhou descontraída, entrando e saindo, apreciando e comprando e o tempo passou sem que desse conta. Poderia comer qualquer coisa numa pastelaria ou talvez optasse por um almoço requintado num bom restaurante. Porque não haveria de se dar a alguns mimos. Longe de Paulo, ausente da aldeia, fora do reboliço da casa, distante das exigências dos amigos, podia ser quem muito bem quisesse. E essa sensação estava-lhe a saber muito bem!

O sol apertava e Lena tinha-se afastado demais da zona de residência. Deveria ter equacionado melhor e ter feito a viagem de automóvel. Foi nesta altura que lhe voltou à memória o episódio da chave e continuava a não encontrar razões que justificassem o seu aparecimento no bolso das calças de Miguel! Não era do feitio de Miguel usar coisas que não fossem suas e alguma explicação plausível ele lhe haveria de prestar.

Ia tão distraída que nem viu o semáforo vermelho para peões! O polícia de serviço chamou-lhe a atenção e ela retraiu-se de imediato. A medalha! Sim o cordão com a medalha, esse é que… já não se encontrava no seu porta-luvas!

-Mónica… - Resmungou. - Desta vez não te escapas!

Já não almoçou tal a pressa que tinha em regressar à residência. Galgou o caminho, ainda longo, sob o sol escaldante e entrou em casa com determinação.

Sara e Adília deram sinais de si.

-Já estás recomposta? – Perguntou Sara.

E Adília em alvoroço:

-Fostes às compras.

Lena abanou a cabeça duas vezes, em sinal de afirmação, e foi de fio à sala comum onde pensava encontrar Miguel. Nem as calças, nem a T-Shirt lá se encontravam e sobre o sofá só Pedro Dias se esparramava.

-Estás cheio de areia! – Lena não se pode conter.

-Já sacudo tudo! Não te stress’s… - Disse o rapaz.

-E Miguel?

-Foi ao banho primeiro que eu.

Lena saiu da sala e foi levar os sacos das compras para a suite, na esperança de lá encontrar Miguel.

Estava Magda.

A rapariga não lhe deu a cara e Maria Madalena resolveu fazer o mesmo. Atirou com os sacos para dentro do roupeiro e voltou a sair tão rápido quanto entrou. Agora sabia que Miguel estava na casa de banho individual.

-Mónica… - Chamou.

-Na cozinha. – Ouviu responder.

-Estás mais animada? – Perguntou Mónica quando se encontrou cara a cara com a amiga.

-E que te interessa a ti? – Respondeu Lena com azedume.

-Bem… vejo que é melhor não haver conversa!

Maria Madalena exasperou-se:

-Vai haver sim! Uma longa e detalhada conversa. – Sentou-se e indicou a Mónica uma cadeira em frente a ela.

-Recordas-te quando te quis entregar um cordão com uma medalha que guardava no porta-luvas do meu carro e que alguém me disse que era teu! – Retorquiu Lena com o dedo no ar, ameaçando Mónica.

-Sim…e que, por acaso, não era meu e por isso não o quis – Respondeu Mónica com muito calma.

-Mentiste! E pediste ajuda a Miguel para que o fosse buscar! – Continuava a insistir Lena.

-Eu?! Tu não estás bem… - A rapariga fez querença de se levantar.

Maria Madalena obrigou Mónica a manter-se no mesmo lugar.

-Ouve-me! Estou farta das tuas merdas. Já um dia to disse e tu arranjaste respostas esfarrapadas. Se andas metida em seitas, bandos ou capelinhas, isso é lá contigo. Não me azucrinas é mais a cabeça e dizes-me aqui que porcaria de medalha é aquela e para que serve?

Mónica enfrentou-a:

-Já viste que andas sob grande tensão e descarregas em quem menos merece!

-És tu quem me provoca este enervamento, com segredinhos, com enigmas, com mistérios. A chave do meu carro estava no bolso das calças de Miguel. Como foi lá parar? Eu digo-te, revolveste as minhas coisas, sacaste a chave e pediste ao Miguel que fosse buscar a bodega do cordão ao porta-luvas. Não és de confiança!

-Que é isso para aí… - Gritou Pedro Dias, perante a voz alterada de Lena e Sara correu à cozinha.

-Porque discutem? – Quis saber.

Maria Madalena achou melhor ir directa ao executante. Quis abrir a porta da casa de banho mas desta vez estava fechada. Bateu e chamou:

-Miguel…

-Vou já sair. – A voz do rapaz soou calma.

-Deixa-me entrar, quero falar contigo! – Insistia Lena fora de si.

Pedro Dias desatou a rir.

-Bem…é o que eu digo. Isto dá arranjinho!

Lena, não recebendo resposta directa de Miguel, encostou-se à porta e aguardou.

Miguel saiu. Vinha em tronco nu, descalço e com os cabelos em desalinho. Porém vestia as ditosas calças.

Maria Madalena não quis esperar e atacou o rapaz mal o viu:

-Neste bolso… - deitou a mão e Miguel retraiu-se, esboçando um ligeiro sorriso.

-Não te rias que já estou bastante irritada! – Ameaçou.

-Bem…que eu saiba essa irritação já dura há quase 24 horas. – Comentou o rapaz enquanto seguia pelo corredor em direcção ao quarto que Pedro ocupava.

-Que fazes? – Quis saber Maria Madalena sem o largar.

-Vou à minha mala buscar uma blusa para vestir! Posso? – Perguntou Miguel mantendo a mesma tranquilidade.

-Sabes que encontrei no bolso das tuas calças, as chaves do meu carro?

-Sim. Guardei-as lá para tas entregar.

-E onde estavam antes? – Desafiou Maria Madalena.

-Na suite… no teu roupeiro… dentro da mala de viagem… numa pequena bolsa, fechada com um fecho.

-Deves pensar que tens graça! – Assustou-se Maria Madalena.

-Há mais alguma coisa que a minha rainha deseje saber? – Gracejou Miguel.

-E para que quiseste a chave?

-Para ir ao teu carro buscar um cordão com uma medalha que me pertence!

-A ti? – Estranhou a rapariga.

-A mim.

-E porque a usas? – Quis ainda saber Maria Madalena.

-Porque me mandaram usá-la! Porque me protege. Olha… - E o rapaz puxou da carteira e mostrou-lhe o cordão. – Só o coloco à noite e ontem… fez-me falta!

-Mas julguei que esse cordão pertencia a Mónica…-Comentou Maria Madalena, um tanto ou quanto, baralhada.

-Pois… é meu! – Ditou Miguel, sem permitir retaliações.

Maria Madalena não queria permitir que o assunto morresse ali e voltou à carga, rodeando o rapaz que vestia, com toda a calma, uma camisola de manga curta de um cor-de-rosa muito claro.

-Miguel…estou a ficar cansada de tantas confusões. Se necessitavas tanto dessa medalha porque, simplesmente, não ma pediste!

-Quando precisei dela não estavas disponível. Qual bela adormecida, tinhas partido para outras paragens!

-Miguel…não me contes histórias da carochinha, pois já sou bastante crescida para perceber que anda aqui tramóia!

O rapaz começou a rir, enquanto ajeitava com a ponta dos dedos, os caracóis rebeldes do cabelo.

-Estás-me a irritar! – Vociferou Maria Madalena, sentando-se na cama visivelmente aborrecida.

Miguel deu um passo gigante, dobrou-se e deu-lhe um beijo estaladiço na face.

-Não quero! – Gritou a rapariga

-Tudo bem! - E Miguel beijou-a na outra face.

-Afasta-te Miguel…nem tu, nem Mónica brincam mais comigo!

-E quem deve brincar? O professor Sérgio! – Lançou Miguel em jeito de desafio.

Maria Madalena foi apanhada de surpresa. Ficou temerosa, engoliu em seco e humedeceu os lábios:

-Esse assunto não é da tua conta! – Sentenciou.

-E o outro não é da tua! Digamos que tinhas em tua posse algo que me pertence e que ontem a situação ficou regularizada. – Rematou o rapaz, saindo do quarto a passos largos.

Maria Madalena correu em seu alcance.

-Quero este e outros assuntos deslindados! – Insistiu.

Miguel não respondeu. Entrou na cozinha e dirigiu-se ao frigorífico para se servir de água fresca.

Mónica ainda por lá permanecia.

-Ora muito bem…agora que vos apanho juntos, vamos tirar o assunto a limpo!

Mónica olhou-a com um certo enfado enquanto Miguel permanecia impávido.

-Não vale a pena fazeres-te de santinha…- Disse para Mónica. - E tu de inocentinho! – Esticou o dedo em direcção a Miguel.

O rapaz sentou-se numa cadeira e Mónica fez o mesmo, parecendo aguardarem os ditames da amiga.

Maria Madalena preparou-se.

-Recordas-te…quando visitámos aquele lugar da Atalaia e tu, a meio da viagem, procuraste algo entre os pastos secos da berma da estrada?

Mónica fez um gesto que sim com a cabeça.

-Tenho a certeza que foi nessa altura que achaste e guardaste o cordão com a medalha que Miguel diz, agora, pertencer-lhe.

A amiga voltou a confirmar afirmativamente com um gesto de cabeça.

-Pois, pergunto-te: como raio foi parar tal objecto à berma daquela estrada?

-Parece que alguém o perdeu… - Respondeu Mónica, sem convicção.

-E esse alguém só pode ter sido o Miguel! Certo? – Interrogou Maria Madalena, convicta de que os esclarecimentos estavam prestes a acontecer. Continuou:

-Miguel… - Voltou-se então para o rapaz que se continuava a mostrar na maior descontracção. – Já estiveste naquele local?

Miguel enfrentou-a, fixando-a no fundo dos olhos:

-Eu estou em toda a parte… - Riu-se ele e Mónica também!

-Parem! – Quase gritou Maria Madalena, colocando-se em pé. – Que treta…estou a viver um inferno!

Os amigos silenciaram-se.

-Quero respostas, quero esclarecimentos…já disse! – Insistiu.

-E se não te puderem ser dados? E se não estiver na hora, nem for chegado o momento?! – Falou Mónica.

-Eu é que decido quanto às horas e aos momentos da minha vida! E eu quero que este seja o momento das revelações!

-Bem… - Disse Miguel, coçando a cabeça. – Para tal…é necessário que Rafael esteja presente já que toda a tramóia é obra dele!

-De Rafael?! – Admirou-se Maria Madalena. – Porquê dele? Não o vejo há séculos! – Confundiu-se a rapariga.

-Que te ofereceu ele? – Questionou Miguel, segurando as mãos da rapariga. Lena deu voltas ao cérebro e recordou-se de um outro cordão, quase idêntico, que deixara em casa.

-Um cordão com uma medalha! – Disse numa voz sumida.

-Pois é. Por ti… ficou desprotegido! – Respondeu Miguel. – Situação que eu tive que remediar e que ele, desastradamente, voltou a piorar! Enfim…crianças!

Maria Madalena sentia-se num beco sem saída. Que mais deveria perguntar, quando não parecia haver respostas para lhe darem. Permaneceu em silêncio, amiudando o suspeito par. Mónica era alta e magra, tinha uma pele branca, quase cera, olhos claros e um cabelo longo ruivo e com franja. Já Miguel era um jovem robusto, com os traços do rosto marcadamente masculinos, os cabelos claros ondulados e uns fantásticos olhos castanhos! Ok! Mostrar-se-ia satisfeita, mas a partir de agora, Mónica estaria debaixo do seu olhar e Miguel passaria a ser atormentado por ela. Se queriam guerra iriam tê-la! Levantou-se.

-Muito bem! Vocês é que sabem. E se tratássemos do almoço.

Mónica pareceu felicíssima:

-Claro que sim. Qualquer coisa rápida e saudável. Salada e grelhados.

Miguel pegou-lhe ao colo e levantou-a no ar:

-Minha rainha…quanto te venero!

Maria Madalena aproveitou e sussurrou-lhe ao ouvido:

-Desejo-te!

O rapaz estremeceu e Lena riu-se para dentro.

 

Atalaia 4 - [capitulo 13]

 

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O primeiro colega que encontraram foi Pedro Dias, que estava estendido no sofá a ver televisão.

-Então Pedro… só boa vida. – Comentou Miguel, dando uma palmada no joelho do rapaz.

-Ah! Já estás mais satisfeito? – Pedro piscou-lhe um olho.

-Porquê? Ele chegou indisposto? – Perguntou Lena com curiosidade.

-Cansado. Não é Lena? Seis horas de viagem… é dose! – Informou Miguel.

-Ah! Ele vinha era louquinho para te pôr a vista em cima. Nem trazia luz nos olhos!

-Cala-te meu pateta! – Exigiu Miguel. – Para pôr a vista em cima da praia…

-Sim, sim, engana-me que eu gosto. Se não fosse saber que a menina está noivinha ainda acreditava noutro consórcio.

Maria Madalena recordou-se com azedume do seu compromisso. Um compromisso que parecia longe mas estava cada dia mais próximo.

-Chega de balelas, ó meu chanfrado…Onde está o resto da malta.

-As restantes mulheres da casa foram às compras. – Informou Pedro.

-E tu ainda foste à praia? – Questionou Lena.

-Sim…cheguei há pouco.

-E ficaste lá sozinho? – Questionou outra vez Maria Madalena.

-Estou de olho numa gaja muito sexy…tenho que aproveitar, quando estou só, para me exibir! – Gracejou Pedro.

Os amigos abanaram a cabeça e lançaram uma careta de troça.

-E vocês vão sair? – Perguntou ainda o rapaz.

-Miguel quer ir até à praia. – Lançou Lena em jeito de comentário.

-Vai que a água está um espectáculo. – Incentivou Pedro. – Mas não te esqueças que hoje o jantar é em tua honra, pelo menos foi isso que a sargenta Mónica garantiu.

-Ai é? Convidado VIP… muito bem. – Explanou Miguel.

-Vê lá não te armes…que eu tenho sido aqui o rei da casa e sinto-me muito bem nesse papel.

-Abundância de miúdas giras…anh! – Gracejou Miguel.

-Lindas!

-Vocês são uns convencidos. Homens…ó raça! – Disse Maria Madalena, enquanto se dirigia ao frigorífico e tirava um iogurte líquido.

-Vamos Lena… deixemos o Pedro a tecer redes de pesca.

-Amanhã mostro-te como me estou a safar.

-Estou doido para ver. – Lançou Miguel

-Não se atrasem que eu esfaimo muito rapidamente.

-Está bem. – Ainda respondeu Maria Madalena, seguindo Miguel que já a aguardava à porta de saída.

 

O caminho até à praia foi feito de mãos dadas. Houve apenas entre os dois conversas de circunstância e comentários sem interesse. Parece que um e outro queriam apagar da sua memória o que estava para trás e que apenas só contasse o momento presente.

Quando os pés já descalços pisaram a areia morna da praia puderam constatar que a maior parte do espaço era deles.

Caminharam à beira-mar, deixando a água beijar-lhe os pés, ir e voltar como uma carícia vezes sem conta repetida.

Ainda levaria algum tempo até que o ocaso do sol acontecesse. No horizonte silhuetas de barcos e voos de gaivotas.

-Sentamo-nos um pouco? – Sugeriu Miguel.

A rapariga consentiu e ele levou-a até onde a areia estava mais seca. Acomodaram-se.

-Vês esta concha? – Mostrou Miguel. – Foi criada para guardar um mistério.

-Um molusco, queres tu dizer! – Adiantou a rapariga troçando.

-Não… tens que ter a capacidade de ver para além do físico e do material. Enquanto cofre seguro saberá guardar um supremo bem: o da vida. Mas nem sempre o bem que se protege se consegue manter seguro, ou porque tem vontade própria ou porque segue os ditames da vida. Vai um dia aventura-se, expõe-se e fica à mercê. Num momento de infortúnio é surpreendido pelo inevitável, sacudido pelas forças adversas e definitivamente sugado por vorazes predadores.

-Todo esse tratado filosófico por causa de uma simples concha. Mais triste é vê-la tão só, qual coração partido, reclamando a outra metade querida. – Disse Maria Madalena enquanto se estendia na areia e colocava a cabeça sobre o colo do rapaz.

Miguel afagou-lhe os cabelos e brincou com a ponta do seu nariz. A rapariga olhava-o e via através dele o azul sereno do céu.

-Estás confortável? – Perguntou Miguel, contornando-lhe as linhas do rosto com as pontas dos dedos.

-Muito. – Respondeu Lena com letargia. – Se fosse possível manter-me-ia assim eternamente.

-E quem te impede? – Parafraseou Miguel.

-Provavelmente eu própria.

-Ás vezes somos nós os nossos maiores inimigos. – Lançou o rapaz em jeito de desabafo.

A rapariga, procurando evitar que Miguel quisesse abordar assuntos incómodos, questionou:

-Então conta lá, como avisaste a Mónica da tua chegada?

-Telefonei-lhe!

-Quando e para onde? – Frisou Maria Madalena.

-Ontem, já noite adiantada. – Informou Miguel, perdendo o olhar na imensidão do mar.

-Ela não me contou. – Reclamou.

-Quis fazer-te uma surpresa. – Garantiu o rapaz.

-Fiquei maravilhada. – Maria Madalena fixou Miguel olhos nos olhos.

-Eu também. – O rapaz respondeu num sussurro.

Maria Madalena abandonou-se aquela empatia. Aquele momento era seu, ninguém lho poderia roubar.

-Acreditas que estou a ver o Stor Sérgio? – Proferiu Miguel como uma sentença.

O coração de Lena disparou e a sua primeira reacção foi ocultar-se, esconder-se, refugiar-se no colo protector do rapaz.

-Então que é isso? Medo do lobo mau? – Riu-se o amigo, enquanto a estreitava mais contra si.

A rapariga receou que Miguel suspeitasse do seu relacionamento com Sérgio e procurou recompor-se, enfrentando o assunto.

-É provável. Ele está por perto. – A sua voz soou embaraçada.

-Em sua casa de Vilamoura. – Afirmou o rapaz sem qualquer perturbação.

-Como sabes? – Interrogou Lena com espanto.

-Então…se todos vós pernoitaram lá esta noite!

-Sim…é um facto! Depois de aceitarmos um convite para jantar, fez-se tarde…

-Fez-se tarde…Pedro bebeu demais, as meninas foram para a disco, etc, etc. – Comentou Miguel com indiferença.

Lena começava a acreditar que Miguel sabia para além do justificável.

-Falas como se estivesses lá estado. – Comentou Lena

Miguel esboçou um sorriso.

-Vamos! – Disse resoluto. – Até aquela duna, apreciar o pôr-do-sol.

Lena não queria expor-se. Ainda mais sabendo que Sérgio andava por perto. “Veio de certo reclamar a presa” – Pensou.

Miguel ergueu-se e ajudou a rapariga a levantar-se, amparando-a nos braços.

Seguiram muito juntos até ao local escolhido. A praia estava agora a ficar deserta.

Lena procurava em cada recanto a presença indesejada de Sérgio mas nada via que a denotasse.

-Vamos aquele bar comprar um refrigerante ou uma água fresca. – Sugeriu Miguel.

Lena amiudou os clientes do bar, cerca de quatro ou cinco. E se um deles fosse Sérgio?

-Vai tu…eu fico aqui a marcar lugar. – Brincou.

-Ok! -Concordou o rapaz. – Compro-te um refrigerante.

-Traz-me antes uma água.

Miguel afastou-se em direcção ao bar e Maria Madalena manteve-se sentada, visualizando o sol a esconder-se. Semicerrou os olhos e deixou-se embalar pelo cantar das ondas.

-Este lugar está reservado?

Constatar a presença real de Sérgio foi um verdadeiro tormento.

A rapariga abriu os olhos e viu a figura alta e máscula ocultando o pôr-do-sol.

-Estou acompanhada! – Informou Maria Madalena com firmeza.

-Pelo inocente Miguel? Já tive a oportunidade de o comprovar!

-Então…queira desculpar mas agradecia que continuasse desocupado o lugar ao lado do meu.

Em resposta o homem sentou-se no preciso alto de areia, que a duna fazia.

Maria Madalena contrariou-se e mostrou intenções de se levantar.

O homem segurou-a pelo ombro, exercendo sobre ele uma pressão que a obrigou a manter-se no mesmo lugar.

-O que é prometido é devido. Este passeio ao entardecer pertence-me! – Sentenciou. – Não deixarei que nenhum badameco se interponha entre nós.

A rapariga enfrentou-o:

-Digo-lhe…nada me fará abdicar deste momento. Miguel é um amigo muito querido, devo-lhe a minha atenção!

-Atenção?!… não será antes interesse! Que pensas que esse frouxo te pode dar? Nada! É um incapaz!

Lena começava a ficar seriamente irritada com a grosseria de Sérgio.

-Queira controlar-se. Eu não sou propriedade sua e nada lhe devo! Agora se faz favor, ausente-se…

Sérgio olhou na direcção do bar e viu que Miguel já estava servido.

-Ausento-me por agora mas…veremos se esse inútil terá coragem de medir forças comigo!

Maria Madalena exasperou. Em que aberração Sérgio se tinha tornado!

O homem levantou-se e desapareceu por detrás da duna, o mesmo lugar de onde tinha surgido.

A rapariga procurou Miguel e tranquilizou-se ao vê-lo encaminhar-se para ela.

-Água fresca. – Indicou o rapaz quando chegou, oferecendo-a à rapariga. – Queres que a abra? – Perguntou com gentileza.

Ela sorriu e ele retirou a tampa da garrafa. Lena esticou a mão para a apanhar.

-Espera! Deixa-me dar o primeiro gole.

Maria Madalena estranhou mas não se incomodou.

Miguel deu um gole, outro e depois outro.

-Ó meu doido então…a água não é para mim! – Retaliou a rapariga.

-Calma. Deixa-te estar que primeiro que bebas vou…baptizar-te!

Maria Madalena soltou uma divertida gargalhada.

-Para tua informação já sou baptizada, comungada e crismada!

-Por mim não! – Disse o rapaz com seriedade. Depois deitou um pouco de água sobre a mão em concha e espalhou-a sobre a cabeça da rapariga. Em seguida segurou-lhe o rosto entre as duas mãos e ordenou:

-Olha-me nos olhos. Bem dentro deles.

Maria Madalena satisfez o pedido e fixou com profundeza o olhar de Miguel.

De imediato todos os males do mundo pareciam ter desaparecido. Todos os medos tinham deixado de existir, todas as misérias humanas haviam sido banidas! Se algum sentimento se podia apelidar de felicidade, paz ou concórdia só podia ser aquele que, naquele preciso instante, partilhava com Miguel.

A intensidade das emoções era tão forte que segundos depois diria que nos olhos do jovem dançavam figuras imperceptíveis e raiavam imagens, tal qual flashes, reproduzindo-se e expirando a uma velocidade irrefreável. A rapariga queria manter a sua racionalidade, procurando respostas plausíveis para as sensações que a assolavam. Mantinha-se presa aos olhos de Miguel, levitando e pairando acima do inteligível e sentia que perdera o controlo sobre si e que estava prestes a perder a consciência. Em vez de se alarmar, continuou envolta numa doce e serena paz. Abandonou-se e mentalmente evadiu-se. Ainda sentiu o amparo dos braços de Miguel, depois mais nada.

 

A pressão que experimentava no peito, só a incomodava porque a trazia de volta á realidade. O rumorejar das ondas e o bater da água embalavam-na docemente e experimentava na boca o sabor amargo do sal.

Um rumor abafado chegava-lhe ao ouvido

-Está consumado o sacramento! Falta apenas iniciar-te na procura da luz…

Foram novamente os braços de Miguel que a ampararam e a retiraram do mar.

A rapariga deixou-se levar. Ele sentou-se na areia da duna, com ela no regaço e aconchegou-a com meiguice.

-Abre os olhos lentamente, está na hora de assistir ao pôr-do-sol!

Maria Madalena obedeceu e viu surgir um espectáculo exuberante. Uma bola de fogo produzindo uma explosão magnífica de cores.

Prendeu a visão à luz derradeira do sol, encostou a cabeça ao peito de Miguel e relaxou.

-Um dia… assistiremos juntos ao nascer da estrela. – Disse-lhe o rapaz com suavidade. – Agora regressemos que se aproxima o crepúsculo.

 

Maria Madalena fez um esforço para se levantar, parecendo-lhe a ela que tinha passado uma eternidade. As suas roupas, embora leves e frescas, tinham secado num instante e as sensações que tinha vivido, estavam a apagar-se da sua memória.

-Sinto-me ainda um pouco tonta! – Lançou a título de desabafo.

Miguel apoiou-a:

-Também eu me assustei!

-Sim e porquê?

-Pareceu-me uma brincadeira de mau gosto não ter avaliado que a água quase gelada sobre a tua cabeça a escaldar poderia provocar-te um choque térmico violento. – Disse o rapaz com convicção.

-Sim. Recordo-me de quereres baptizar-me. – Lena sorriu.

-É. Não medi as consequências e por instantes perdeste a consciência.

-Verdade. Mas nada receei, nem entrei em pânico. – Garantiu a rapariga.

Miguel ficou em silêncio para depois mudar de assunto.

-Vamos…de certo já nos aguardam para jantar.

Lena, perfeitamente restabelecida, encaminhou-se de braço dado com Miguel.

-Porque me levaste para o mar!

-Estava indeciso com o que deveria fazer. Às vezes são necessárias medidas drásticas. Em poucos segundos estavas a recuperar a consciência.

-É. Devo estar fraca.

-Eu estou aqui para te fortalecer. – Sorriu o rapaz apertando-a contra ele.

-É preciso eu comer bastante? – Questionou Lena a gracejar.

-Um certo tipo de alimento sim.

-Ok. Estou esfaimada.

-E eu também. Perdi imensas energias!

-A carregar comigo? – Brincou novamente a rapariga.

-Claro. Estás a ficar pesadinha. – Censurou Miguel amiudando as formas de Lena.

-Mentiroso. Tenho tudo no lugar certo. – E a rapariga fez querença de se exibir.

-Tudo nas devidas proporções. – Embebeu-se o rapaz.

-Onde dormes? – Quis Maria Madalena saber.

-Desconheço mas tenho a certeza que é Mónica quem o vai decidir.

-Também me parece. – Assentou Lena. – É ela quem tem gerido estas férias. Não tem outras ocupações.

-Ela acha que tem bastantes.

-Devia arranjar um namorado. Gabriel era a pessoa ideal!

Miguel pareceu constranger-se quando ouviu o nome do irmão.

-Que dizes? Isso é um absurdo!

-Porquê? O teu irmão é um jovem muito bem-parecido e eles parecem entender-se.

-Não. Gabriel é um ser muito complexo!

-Sim complexo, estranho, alucinado…aliás características comuns aos três! – Determinou Lena.

-Que sabes tu…minha tontinha? – Miguel roçou os seus lábios pelos cabelos da rapariga.

-Sei umas coisas.

-Tais como?

-Que me fazes feliz. – A rapariga semicerrou os olhos com ternura.

O rapaz já não respondeu. Acabavam de deixar a tranquilidade da praia e entravam nas ruas movimentadas de Albufeira. Calcorrearam-nas unidos, separando-se apenas à entrada de casa.

A azáfama do jantar era bem visível e até Pedro Dias andava em refrega.

-Malta…estamos de volta! – Anunciou Lena.

-E já não era sem tempo… - Foi o desabafo de Pedro.

Miguel sorriu-se e o rapaz chamou-o:

-Está na hora de entrares ao serviço. Vá…substitui-me.

-Eu? Mas eu não sou o convidado de honra? – Riu-se Miguel. – Tenho que tomar um duche e vestir-me de acordo com a ocasião.

-Olha as mordomias…estava eu a viver uma vida de sonho, qual sultão no meu harém e surge vossa majestade para me destronar. Pois saiba que o desafio para um duelo! – E o rapaz voltou-se na direcção de Miguel com a colher em punho.

Maria Madalena interrompeu o gracejo:

-E Magda?

Mónica incomodou-se mas foi Adília quem respondeu.

-Quando fomos às compras, encontrou-se casualmente com o prof., ele convidou-a para lanchar e…até agora!

Maria Madalena alarmou-se, embora procurasse disfarçar a agitação.

Mónica e Miguel entreolharam-se.

-Essa gatinha…onde lança as garras, prende! – Comentou Pedro sem grande interesse na questão.

-Amiga Mónica, onde posso purificar-me! – Interrompeu Miguel, questionando a amiga.

-Enquanto não reorganizarmos o espaço, podes tomar banho na nossa “suite”.

-Eu também necessito de um duche, estou coberta de sal. – Comentou Maria Madalena.

Mónica apreciou-a.

-Não tomem é banho juntos! Que a casa pode explodir tal a tensão acumulada que Miguel revela em cada poro. – Gracejou mais uma vez Pedro Dias.

O amigo foi junto dele e fez menção de lhe apertar os colarinhos.

-Continuas a dizer baboseiras e vou-te chegar a roupa ao pêlo.

-Vá…se és homem! – Empeitou-o Pedro. Depois quase em surdina. – Estás pelo beicinho.

Miguel mostrou-se levemente contrariado e Mónica apressou o final da brincadeira.

-Miguel se queres… podes seguir já.

-Sim. – Concordou o rapaz.

-E apressa-te que estou cheia de comichão. – Ordenou Lena vendo-o desaparecer da cozinha.

Maria Madalena dirigiu-se a Mónica que tratava de um assado no forno.

-Vou-te ajudar. – Disse.

-Não é necessário. Está tudo pronto. É só vocês os dois se despacharem.

Maria Madalena segurou a mão da amiga e comentou num sussurro:

-Magda vai-me dar chatices.

-Azares…! – Proferiu Mónica em jeito de desabafo!

-Vou chamá-la à varinha… - Determinou-se Lena, sem esperar o consenso de Mónica.

A amiga resmungou:

-Nem que fosse de condão…terias sorte!

-Alguém está a usar a outra sala de banho? – Perguntou Lena no meio da cozinha.

-Era eu…mas já terminei. - Informou Sara, entrando na cozinha mesmo acabadinha de sair do duche.

-Posso? – Questionou Lena.

-Claro. – Se quiseres serve-te do champô e do gel de duche.

-Ok! Obrigado. Podes-me emprestar também um lençol de banho?

-Sim. – Consentiu a rapariga voltando ao quarto e trazendo uma toalha de banho que estendeu a Lena.

Depois desapareceu na cozinha e Lena encaminhou-se para a sala de banho. Recordou-se então que nada tinha para vestir. Ao fundo do corredor que distribuía os quartos era a suite. Bateu à porta com o nó dos dedos e como ninguém lhe respondeu, abriu-a e entrou. Escutava ainda o som da água a cair do chuveiro. Miguel ainda se encontrava no duche. A rapariga dirigiu-se ao compartimento do roupeiro onde tinha as suas roupas e escolheu um vestido leve e solto, apanhando igualmente, a roupa interior e as sandálias.

Prontificou-se a sair tão oculta quanto entrara mas… não o fez! Deitou sobre a cama as roupas escolhidas e encaminhou-se com um sorriso matreiro até à porta da sala de banho. Segurou o puxador e rodou-o. A porta abriu-se e ela espreitou. Se Miguel soubesse que observava as suas formas através da protecção de fibra do polibã, iria ficar em pânico. Só essa lembrança a divertia.

Entrou muito sorrateiramente e apanhou a escova de dentes. Foi nesse preciso momento que o rapaz abriu a protecção e expôs perante ela a sua tentadora nudez.

Em vez de se mostrar embaraçado Miguel esboçou um sorriso malicioso e ostentou-se!

Maria Madalena engoliu em seco. E foi ela quem ficou acanhada. Virou a cara, puxou o lençol de banho e atirou-o para cima de Miguel.

O rapaz rodeou-a.

-Gosto de andar como vim ao mundo! – Disse com zombaria.

-Não estarás já demasiado crescidinho? – Sorriu-se Lena, voltando-lhe as costas.

O rapaz seguiu-a e pressionou levemente o seu corpo contra o da rapariga.

-Que fazes? – Perguntou ela num sussurro rouco.

-Shiu… - e Miguel inclinou-se roçando o seu rosto molhado pela nuca de Lena enquanto lhe saboreava a pele.

-Sabes a sal… - Lambeu-lhe o pescoço uma e outra vez e foi rodeando com os seus braços o tronco da rapariga.

Maria Madalena abandonou-se e foi deixando que os afagos de Miguel se tornassem cada vez mais ousados, enquanto crescia nela uma plenitude exuberante.

Perfeitamente controlado o rapaz passava as suas mãos para o interior da blusa branca e acariciava-lhe o ventre com uma delicadeza extrema. Subindo e descendo, em volta do umbigo, nos estreitos flancos e mais uma vez subindo, subindo… quase tocando-lhe os seios!

-Tenho que ir…

-Onde? – Sussurrava-lhe Miguel ao ouvido, continuando a explorá-la com deleite. Desapertando-lhe o botão dos calções e contornando com a ponta dos dedos a sua fina cintura.

Maria Madalena prendeu-lhe as mãos, procurando que ficassem quietas e não a atormentassem mais.

O rapaz deixou que apenas uma se entrelaçasse entre as dela, a outra desceu até às suas coxas desnudadas, roçando-lhe as formas e a suavidade da pele.

Maria Madalena fez querença de se voltar. Queria ficar de frente para ele e estreitar-se sobre o seu peito mas Miguel mostrou-se determinado em manter-se como estava e as suas mãos em total desatino foram buscando a repetição das formas e o contacto cálido da pele, contornando e ameigando, subindo, crescendo e elevando-se…até roçarem e amimarem as pontas erectas dos seios.

Miguel mostrava-se agora muito mais ofegante enquanto partes do seu ser se avolumavam!

A rapariga estremecia e mostrava-se disposta.

Num disparo de voluptuosidade contida, o rapaz encrespou-se, apertou os punhos e muito a custo abandonou o físico da rapariga:

-Porquê? Porque me é negado este deleite?! – Rosnou.

Maria Madalena voltou-se de vez e Miguel apressou-se a ficar de costas para ela!

-Olhos nos olhos…não! Não me poderia controlar! – Quase mendigou!

A rapariga acariciou-lhe o tronco e agora foi ela, ainda em desejo, que se apertou com força contra ele.

O rapaz debatia-se para não se entregar, segurando-lhe as mãos apertadas sobre o seu ventre musculado.

Maria Madalena saboreou-lhe a pele, lambendo-lhe aos poucos a parte detrás do tronco, seguindo-lhe o dorso e a forma apurada da estrutura óssea.

-Sabes a açúcar…! - Sussurrou a rapariga com meiguice.

Miguel esboçou um trejeito de riso e Lena aproveitou a quebra para libertar uma das mãos e deixá-la descer pelo ventre do rapaz.

Num impulso incontrolado, Miguel apertou-lha não lhe permitindo que a movesse em zona proibida!

Maria Madalena soltou um riso maroto!

-Deixai-me rainha… que este jogo é perigoso. – Ouviu-se Miguel proferir. – Quereis que nos surpreendam com a boca na botija!

-Siiimmm!

-Nãaaooo!

-Foste tu que começaste! – Disse a rapariga, continuando colada a ele e como não lhe chegava à nuca mantinha os lábios em derretidas carícias, entre a cintura e os ombros. Por vezes arrastava demoradamente a língua sobre a pele do rapaz e este vibrava de prazer! Num desses toques sentiu, abaixo da zona dos ombros, uma ligeira protuberância!

Desviou-se um pouco e quis senti-la com o tacto.

Miguel apercebendo-se de imediato da sua intenção. Retraiu-se, esticou-se e apanhou o lençol de banho, cobrindo-se com ele!

-Migueell…estás demorado?

A voz de Pedro Dias quebrou a envolvência. Lena desorientou-se e quis esconder-se.

Numa voz clara, ainda que embargada de emoção, Miguel respondeu:

-Estou mesmo de saída!

-Vá lá pá…estás pior que a noiva de Arraiolos!

-Vai…que em três segundos, apareço!

-Ok! Agora vou-me à outra noivinha! – Resmungou Pedro, afastando-se da porta. - Ó gentinha sem pressa! Estou prestes a definhar de fraqueza.

Miguel foi o primeiro a abandonar a sala de banho e Lena seguiu-o com rapidez.

-Porque não tomas banho aqui mesmo! – Disse-lhe o rapaz com aparente serenidade.

A rapariga olhou-o.

-Voltas a entrar comigo?

Miguel desviou o olhar.

-Ficamos por aqui! – Sentenciou.

Maria Madalena amuou. Pegou nas roupas e saiu porta afora com uma lágrima teimosa rasando-lhe a vista.

 

Atalaia 4 - [capitulo 12]

 

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A rapariga assustou-se e debateu-se, atirando com as flores contra o rosto masculino. Este, ferido no seu orgulho, reagiu apertando-a com força contra ele. Sobre o vestido fino da rapariga as formas desnudadas do homem, moldavam-se às suas, procurando encaixar-se em lugar prazenteiro.

Sérgio aprisionava-a no seu enlace pleno e arrastava-a consigo em direcção à cama. Apenas as pernas, ainda que sem forças e o rosto se mantinham a salvo mas já o homem se apercebera e passara a beijá-la sofregamente. Os dentes afiados de Lena aproveitaram a proximidade e cravaram-se afincadamente no lábio inferior do homem. A dor retraiu-o por alguns segundos mas depressa se recompôs e redobrou a sua força sobre a rapariga, empurrando-a de uma vez para cima da cama. Quando se debruçou sobre ela e a olhou intensamente no fundo dos olhos, a sua bestialidade pareceu enfraquecer e a pressão deu lugar a demoradas carícias.

Maria Madalena sentia sobre si o peso do homem e os afagos excitantes que ele lhe fazia, pensava em gritar mas que ridículo seria acordar a casa toda e ver-se censurada pelos amigos.

-Sérgio…-Sussurrou-lhe ao ouvido.

O homem abrandou a sua avidez e ficou alerta.

-estás a quebrar as tuas promessas! – Acrescentou sorrateiramente.

De imediato o homem se retraiu e aliviou a pressão.

Lena voltou a falar-lhe baixinho:

-assim nunca mais poderei confiar em ti.

A racionalidade do homem deu razões de si e ele ficou estático sobre a rapariga.

-Juraste a que nada me obrigarias! – Voltou Lena a sussurrar enquanto era ela agora que, segurando-lhe o rosto, o procurava fixar lá bem no fundo do seu negro olhar.

-Não me queres? – Perguntou Sérgio com amabilidade.

-Acho que…deveríamos ter em conta a tua própria proposta. Retrair agora a irracionalidade física e promover a verdade dos sentimentos.

O homem foi abandonando aos poucos o corpo da rapariga e ficou sentado sobre a cama.

A sua voz soou com desalento:

-Sou uma besta! Não mereço a tua dádiva…

Lena, aproveitando a aparente debilidade do homem, colocou-se de imediato em pé. Ajeitou o vestido e passou várias vezes as mãos pelos cabelos.

Sérgio segurou-lhe a mão com afectividade:

-Não me abandones, preciso de ti…sou adulto mas tenho alma de menino. Vejo em ti a minha própria salvação!

A rapariga sentiu que Sérgio estava à sua mercê e que colocava sobre os seus ombros mais uma inglória tarefa.

-Estou aqui! – Garantiu para o tranquilizar.

-Posso contar contigo? – Mendigou o homem, para depois acrescentar mostrando honradez: - Amizade. Dá-me a tua amizade e até que os nossos corações se encontrem, jamais te pressionarei!

Maria Madalena estava a ficar enjoada de tanta lamechice e desejava que aquele desditoso encontro terminasse. Para que tal acontecesse estava até disposta a garantir fosse o que fosse!

-Estou disponível para aceitar que a nossa relação floresça com base na amizade, na partilha e na compreensão mútua.

-Eu também. – Garantiu o homem com reconhecimento. Convido-te para amanhã passearmos juntos à beira-mar.

-É… um passeio ao entardecer, pode ser um bom começo. Até amanhã Sérgio. – E a rapariga beijou, ao de leve, o rosto do homem.

-Sonhai com todas as cores do arco-íris…minha adorada! – Lançou o homem em jeito de despedida ainda que, em toda a sua nudez, a rigidez dos seus músculos mostrasse uma contenção desesperante!

Maria Madalena foi-se afastando aos poucos e quando alcançou a porta do quarto, acenou em jeito de despedida.

Os olhos negros de Sérgio, continuaram a persegui-la e a penetrá-la até à mais ínfima essência do seu ser!

Maria Madalena fechou atrás de si todas as portas que a sua curiosidade tinha aberto e subiu as escadas, entrando no quarto. Deu duas voltas à chave na fechadura e preparou-se para adormecer em paz!

-Empenhaste mais uma vez a alma e um dia vais vendê-la… – A voz da sua consciência fez-se ouvir vinda da cama ao lado.

-Mónica não me azucrines! – Ameaçou Maria Madalena, enquanto apagava a luz e se deitava.

-Promessas, juras, comprometimentos…que vida! – Proferiu a amiga com enfado.

-Cala-te! Quero dormir. – Fez soar Lena com brusquidão.

-E amanhã… quando chegar o entardecer, como pagarás?

Maria Madalena já não respondeu.

-És uma inconsequente. Porque não entraste na porta da direita?

-Porque estava encerrada! – Quase gritou Lena sem se conter!

-Tu própria tens a chave!

-Mónica…desculpa, mas não estou para joguinhos e não me apetece aturar o teu azedume e as tuas lições de moral.

Levantou-se e mudou de quarto. Quando as raparigas regressassem, faria Magda, dormir com Mónica.

Enroscou-se no sofá e ainda que sobressaltada, acabou por adormecer.

Os ruídos destabilizadores das jovens vieram despertá-la daquela letargia. Apercebeu-se de imediato que tinha trancado a porta á chave e por isso, correu a abri-la.

Sara e Adília vinham tão alegres que julgaram ter-se enganado no quarto. Lena sossegou-as.

-Optei pelo vosso sofá, pois tive dificuldades em adormecer e estava a incomodar a Mónica.

-Então e agora? – Perguntou Adília, soltando uma sonora gargalhada.

-Eu permaneço no sofá e Magda pode dormir na cama que me estava destinada! – Respondeu Maria Madalena, regressando ao seu lugar.

-Essa é boa… perdemo-la! – Exclamou Sara, atirando-se para cima da cama.

-Quem? – Perguntou Maria Madalena embora já se sentisse inquieta pois não via Magda em parte alguma!

-A tua priminha…é má bicha! – Ainda acrescentou Adília, enquanto se dirigia para a sala de banho que o próprio quarto tinha em anexo.

-Onde está a Magda? – Perguntou Lena, dirigindo-se a Sara que quase se apagava sobre a cama.

-Ficou com o prof. Foram caminhar pela praia sob a luz prateada do luar!

-E a vós, quem vos trouxe?

-Dois excelentes amigos.

-Mas não ficou o professor Sérgio de vos ir buscar?

-Sim e foi. Ai…não me apetece dar mais pormenores. Quero descansar o canastro! – Sentenciou Sara, voltando-se para o lado e tapando a cabeça com a almofada.

Lena avançou para a sala de banho. Bateu.

-Adília…para onde foi a Magda?

-Fugiu! – Respondeu a rapariga com evidente despropósito.

-Vocês estão a ser inconsequentes e eu estou deveras chateada. – Ameaçou Lena, já com um certo receio, por não saber o paradeiro da rapariga que tinha levado à sua guarda.

-Ela regressa. Deixa estar. – Proferiu Adília, ainda do interior da sala de banho, onde ruídos estranhos denotavam a indisposição da jovem.

Lena resolveu sair do quarto e ir ela própria procurar a rapariga. Certamente estaria entretida a exibir-se para Sérgio.

Desceu as escadas, foi ver à sala e depois à cozinha. Ninguém. As portas encerradas dos aposentos de Sérgio ainda lhe inspiravam algum respeito. Não lhe apetecendo nada voltar a pressioná-las.

Mas será que Magda não estava lá dentro! E se estivesse? Que fazia por lá? Envolvia-se com Sérgio!

Se entrasse poderia evitar essa inconsequência. Amiudou primeiro se ouvia ruídos. Apurando a audição apercebeu-se que o som de uma voz feminina, ainda que dissimulada, fazia-se escutar.

Era Magda, só podia ser! Rodou o puxador da porta e esta abriu-se. A saleta privada de Sérgio estava na escuridão total. Ligou a luz e reconheceu sobre a mesa as duas taças de cristal usadas e abandonada meio-cheia, a garrafa do espumante. No bengaleiro apenas um casaco. Sinal que Sérgio tinha saído! Olhou então demoradamente para a porta do quarto, visivelmente encerrada. Num momento de interior reflexão apercebeu-se de que já não chegava até si quaisquer murmúrios de vozes. Caminhou decidida até á porta e abriu-a. O espaço encontrava-se deserto. A cama ainda amassada pelos afagos anteriores em que o seu corpo se viu envolvido e sobre o leito, largado, o conjunto branco de langerie. Não vislumbrava nada que denotasse a presença de Magda naquele lugar. Saiu.

Quando se viu novamente no hall, o som da voz feminina fez-se de novo ouvir. Lena deitou o olhar à porta da direita. Era dali que os rumores soavam!

Aproximou-se e rodou o puxador. Em vão! A porta continuava encerrada.

“Tu própria tens a chave” – recordou-se do comentário de Mónica. Pois bem iria desassossegar a rapariga e fazê-la trocar tudo por miúdos.

Subiu as escadas com desenvoltura e lançou-se num ímpeto quarto adentro.

A cama que Lena antes ocupara, continuava vazia e ao seu lado cama idêntica, não tinha ninguém.

Foi ver na sala de banho, ao fundo das escadas. Não. E no quarto de Sara e Adília? Entrou.

Perfeitamente entregues ao descanso, apenas as duas raparigas se estendiam sobre a cama.

Sala de banho, aberta. Não.

Correu escadas abaixo. Encostou a orelha destra à porta da direita! Continuava a ouvir rumorejar!

Deu mais um empurrão na porta mas esta continuou sem ceder.

Sala, sala de jantar, cozinha, quarto do Pedro. Achou absurdo ir destabilizar o amigo mas mesmo assim, à cautela, lá foi espreitando. Com a luz do corredor acesa, para evitar que a claridade directa o incomodasse, vislumbrou, atirada sobre o leito, a forma individual de Pedro. Nada mais.

Onde se teria enfiado Mónica? E Magda e Sérgio?

Em passo apressado foi colocar-se novamente em frente à misteriosa porta. Encostou-se a ela. Apurou a audição. Escutou atentamente. Aguardou, aguardou e…nada! Nem um sussurro, nem um rumor, nem um murmúrio!

“A casa estava agora numa quietude plena”

A rapariga mostrando evidentes sinais de fadiga, atirou-se sobre o primeiro degrau da escada e aí procurou aquietar.

-Lena…que fazes aí? – A voz de Mónica soou do cimo das escadas.

Maria Madalena retorceu o pescoço e fixou a amiga como se de uma assombração se tratasse.

-Onde tens estado? – Perguntou com aspereza.

-No sótão! O professor Sérgio tem lá montada uma excelente biblioteca.

-O quê? – Estranhou Lena.

-Sim. Ele próprio me indicou o acesso.

-Quero ver! – Assegurou Lena, desconfiando das informações de Mónica.

-Então sobe. – Aconselhou Mónica, esperando por ela no cimo das escadas.

Lena não se fez esperada e galgou as escadas com velocidade.

Mónica que se encontrava no hall, entre as escadas e a casa de banho, deu alguns passos em direcção a um roupeiro de madeira embutido na parede.

-Nestes projetos de construção não é autorizado o aproveitamento de forros, por isso o prof. ocultou a entrada com este roupeiro.

A rapariga fez deslizar a porta e uma nova escadaria, embora mais estreita, desenrolava-se.

-Vamos sobe… atrás de mim!

Seguiram. Dez degraus depois entravam numa espaçosa e cómoda dependência, toda forrada a madeira, desde o tecto às paredes e com chão de corticite. O próprio forro das paredes permitia o encaixe das estantes que estavam carregadas de livros. Num dos cantos uma lareira de tijolo antigo, uma mesa de trabalho e vários instrumentos de pesquisa. Dois cadeirões em pele assentavam sobre um artesanal tapete de Arraiolos e vários outros móveis e objectos de decoração faziam daquele espaço um lugar extraordinário para relaxar, pesquisar e estudar.

-Vês! Foi aqui que estive. Assim que saíste do quarto mal-humorada, acordei, deambulei e lembrei-me de vir ler qualquer coisa.

Atiraram-se as duas sobre os cadeirões vazios.

Foi Maria Madalena quem interrompeu o silêncio que ficou entre elas.

-Mónica estás a ver a porta que fica à mão direita, no hall inferior das escadas?

-Sim. – Disse a rapariga com interesse.

-Está fechada! – Assegurou Lena.

-E daí? Que mal tem? – Perguntou Mónica, desviando o olhar.

-Escutei de lá voz de mulher!

-A sério?

-Sim. Apenas um leve rumorejar, não se percebendo o que dizia. – Garantiu Lena.

-Devem ser as raparigas. Já chegaram certamente, porque a madrugada vai adiantada! – Alvitrou Mónica.

-Sim chegaram e duas já adormeceram. Vinham levemente alcoolizadas.

-Sara e Adília. Estava-se mesmo a ver! – Sorriu-se Mónica.

-Mas da Magda nem sombras. – Comentou Maria Madalena.

-Não chegou ainda?

-Não. Está com o professor. – Adiantou Lena.

-Essa está mortinha e aflitinha. Onde estão? – Incomodou-se Mónica.

-Devem estar no compartimento vedado por aquela porta!

-Daí a voz de mulher?

-Exacto. – Confirmou Lena.

-Não devem lá ficar a noite inteira. – Comentou Mónica.

-Podíamos ir juntas ver se a porta cedia.

-E como cede se está trancada?

-Recordas-te de teres dito que eu própria tinha a chave? – Inquiriu Maria Madalena, fitando a amiga de frente.

-Eu?! Quando?

-Quando regressei ao quarto para me deitar.

Mónica desatou a rir.

-Só podia estar a sonhar! Que posso eu saber dos teus passos perdidos…

-Vês… lá estás tu outra vez com enigmas. – Aborreceu-se Lena, levantando-se. – Vou descer e procurar Magda. Se ela se descontrola e algo de mal lhe acontece quem há-de ouvir as gentes da aldeia. Não me bastava ter de guiar os meus passos, senão ainda os daquela estouvada.

-Vamos juntas… - Consentiu Magda. – Alguma coisa haveremos de descobrir.

Apressaram-se a abandonar o sótão, descendo as escadas num ápice.

Mónica entrou no quarto que ocupava, disposta a agasalhar-se melhor, não houvesse necessidade de terem que sair para o exterior. Embora fosse Verão, o ar marítimo arrefecia as madrugadas.

Maria Madalena aguardou que a amiga ficasse pronta e juntas desceram a escadaria principal. Quando passou junto à porta destra, não resistiu a encostar-lhe o ouvido e voltar a empurrá-la. Mónica auxiliando a amiga, fez o mesmo.

-As minhas ilustres meninas desejam alguma coisa dessa porta?

As raparigas sobressaltaram-se.

Sérgio em pijama leve e roupão aberto mostrava-se, encostado à soleira da porta da sala.

-Stor… - Foi o que Mónica conseguiu dizer mas Maria Madalena, dirigiu-se decididamente para ele.

-Pareceu-me há pouco soarem vozes daqui.

-Vozes? – Estranhou Sérgio.

-Bem…rumores de vozes ou pelo menos voz sussurrante de mulher! – Acrescentou Lena.

-Não me parece. – Desacreditou Sérgio.

Lena lembrou-se então que nada sabia ainda, sobre o paradeiro de Magda.

-E Magda onde está? – Questionou.

O homem pareceu admirado.

-No seu quarto. Pelo menos eu…vi-a subir para se recolher. – Respondeu.

-Mas não chegou com Sara e Adília. – Desafiou Maria Madalena.

-E quem controla essas vossas duas amiguinhas? Eu não… -Assegurou o homem.

-Elas informaram-me que o senhor e Magda mostraram interesse em passear ao luar! Antecipou-se ah… - Disse Maria Madalena entre dentes.

Mónica qual espectadora entediada, retrocedeu e foi sentar-se nas escadas, mirando a misteriosa porta.

Sérgio sorriu para Lena e sussurrou:

-Será que vejo em si…uma leve pontinha de ciúmes?

-Não. Nem uma pequena beliscadura. Agora, se me dá licença, vou confirmar o paradeiro de Magda.

-E amanhã? – Lançou o homem em voz baixa.

-O amanhã já é hoje… - Respondeu a rapariga contrariada.

-E o entardecer? – Sérgio relembrou.

-Para que quer alguém o entardecer quando já teve o luar! – Rematou Lena, virando-lhe as costas.

-Prof…-Chamou Mónica. – Para onde dá esta porta?

-Para a cave! – Respondeu Sérgio com desagrado.

-Vês Lena…coisa simples. – Concluiu Mónica.

Lena não proferiu nem mais uma palavra. Subiu as escadas, entrou no quarto e deparou com Magda enroscada no sofá, perfeitamente adormecida. Regressou ao seu quarto e ocupou a sua anterior cama. Antes que Mónica comentasse algo, ela advertiu:

-Se disseres seja o que for, irrito-me deveras e abandono de imediato esta casa infernal.

A amiga limitou-se a manter-se calada.

Lena voltou a levantar-se e foi trancar à chave a porta do quarto.

Mónica não conseguiu controlar um riso abafado e num rumorejar imperceptível ainda comentou:

-Depois de casa arrombada, trancas na porta!

 

Já a manhã de Sexta-feira ia adiantada, quando os convidados se preparavam para abandonarem a casa do professor Sérgio. Pedro, Magda, Sara e Adília fizeram questão de fazer companhia a Sérgio num demorado e nutritivo pequeno-almoço, confeccionado e servido pela D. Eunice. Lena e Mónica apenas tomaram café e a cada oportunidade incentivavam os amigos para se apressarem. Sérgio não deixava de lançar demorados olhares sobre Maria Madalena e insistir com a malta para que se voltassem a encontrar à tarde na praia. Maria Madalena apercebia-se do interesse de Sérgio em manter o contacto mas ela já se tinha decidido a não lhe dar nem mais uma oportunidade. Além do mais queria esclarecer algumas coisas com Magda que, até agora, parecia evitá-la!

Dormira pouco e desejava tomar um banho e descansar assim que chegasse ao apartamento. Se tivesse levado o seu carro há muito que teria regressado mas estava dependente de Pedro Dias pois desta vez, seria com ele que toda a gente regressaria.

Depois de mais alguns impasses tudo se parecia consumar para que saíssem de vez e Lena apressou-se a ser das primeiras. Sérgio seguia os seus passos com o olhar e no último minuto acabou por inventar outro estorvo dissimulado, lembrando-se que ainda não tinha mostrado a Pedro a “mota de água” que tinha na garagem! Por lá se demoraram com a conivência das meninas, excepto Mónica e Lena que não acompanharam a comitiva e ficaram a trocar impressões com a D. Eunice.

Finalmente Pedro carregou no comando automático da carrinha e as portas abriram-se para alojar os passageiros.

Quando Lena se viu em sossego dentro do veículo, desejou nunca ter feito aquela visita.

Pedro ao volante e Sérgio com a cabeça ainda debruçada para dentro do carro, procurava agendar novo encontro: hoje, amanhã, Domingo!

A rapariga recusava-se a assimilar. Sentia-se exausta, esgotada, desesperada!

Foi Mónica quem colocou um ponto final naquele marasmo.

-Depois agendamos Stor. Eu estou mesmo muita pressa pois tenho um compromisso às três da tarde.

-Certamente… - Desculpou-se Sérgio. – Sei onde vos encontrar!

-É isso mesmo prof. lá o esperamos. – Confirmou Pedro dias, colocando a carrinha em andamento.

Finalmente puderam seguir viagem.

 

Chegados a casa, cada um fez o que bem entendeu e Maria Madalena, depois de tomar um banho relaxante, vestiu uma T-shirt fresca e deitou-se. Não deixou primeiro de avisar os amigos que não almoçaria e que a deixassem dormir até ela querer! Para tal cerrou todos os estores, deixando o quarto na penumbra.

Ninguém a incomodou e já a tarde ia adiantada quando começou a dar sinais de si. Na espaçosa suite onde se acomodava com Mónica e Magda, tudo se mantinha numa quietude perfeita. Maria Madalena acordava a pouco e pouco, esfregando os olhos, bocejando e sacudindo a preguiça com movimentados esticões de braços e pernas. Mais uma volta, uma reviravolta e num desses impulsos, sentiu os seus pés tocarem em algo ou alguém que ocupava com ela parte da cama.

-Mónica…, Magda…- Chamou.

Não obteve resposta mas um riso divertido chegou aos seus ouvidos.

A rapariga não deixou de se sentir incomodada e sentou-se imediatamente na cama. Na impossibilidade de vislumbrar fosse o que fosse devido à penumbra do quarto, estendeu a mão disposta a acender a luz. Antes que o conseguisse fazer, sentiu o aperto de uma outra mão, cativar a sua!

Não foi uma pressão incómoda mas sim um doce contacto. Sempre que um único poro da sua pele tinha o privilégio de ser assim acariciado, todo o seu corpo reagia com gratidão. A rapariga estendeu a outra mão e encontrou a maciez dos cabelos e os traços familiares do rosto. Procurou os olhos e tocou-os levemente, depois a face e por fim os lábios. O rapaz beijou-lhe as pontas dos dedos com suavidade e foi deixando a sua mão subir lentamente pelo braço desnudado da rapariga, até a entrelaçar na suavidade dos seus longos cabelos.

-Miguel! Só pode ser um sonho. – Sussurrou Lena, encostando o seu rosto ao dele.

Miguel soltou um riso abafado e depois beliscou com ternura a rapariga.

Esta fingiu um momento de dor e soltou um gritinho sufocado.

-Então já me sentes em carne e osso? – Disse-lhe ao ouvido.

-Nãaaoo. – Brincou Maria Madalena.

-E assim? – Questionou Miguel, enquanto a puxava para junto de si e a estreitava nos braços.

-Também não! – Voltou a reinar a rapariga.

-E assim?

Miguel procurou-lhe os lábios e beijou-os com ternura.

-Pouco… muito pouco. – Conseguiu a rapariga dizer quando o rapaz abrandou a pressão.

-E assim?

Miguel encostou-a sobre a cama e pressionou o seu corpo sobre o dela.

-Assim…Sim! – Confirmou a rapariga num misto de diversão e incontrolado deleite.

-Então…já que mesmo na penumbra total, a minha soberana rainha me reconheceu. Queira dar-me agora o prazer de ver brilharem os seus olhos. – Foi proferindo Miguel, enquanto o seu corpo jovem, sob as roupas de Verão, se desligava aos poucos do físico da rapariga.

Maria Madalena perdeu o contacto com Miguel e receou que ele desaparecesse tal como tinha surgido.

O rapaz abriu os estores das janelas e a claridade inundou o quarto.

-Ó minha preguiçosa…se dormes tanto de dia é porque te passeias de noite!

Maria Madalena nem queria recordar a noite anterior tão cheia de contrariedades. O que lhe interessava agora era aquela graciosa visão. Miguel em todo o seu esplendor, pois a luz viva do sol que entrava agora pela janela fazia irradiar a figura jovem do rapaz, reflectindo nos seus cabelos alourados e aumentando o brilho cintilante dos seus grandes e amendoados olhos castanhos.

Miguel encaminhou-se de novo para a cama e segurando num dos pés de Lena, puxou-a com cuidado para fora do leito.

A rapariga divertiu-se com a determinação do rapaz em a expulsar da cama e decidiu-se a pôr a moleza de lado.

-Veste-te que vamos sair. Esqueces-te que tenho que recuperar o tempo perdido. – Disse o rapaz com simpatia.

-E onde vamos? – Perguntou Maria Madalena, enquanto se dirigia para o roupeiro do quarto em busca de algo para vestir.

-A qualquer lado. Que me importa. Estou de férias. Livre que nem um passarinho. Quero mais é aproveitar. – Respondeu Miguel com entusiasmo.

-Assim mesmo Miguel…assim é que eu te adoro.

-Adoras mesmo? – O rapaz questionou, mesmo junto ao ouvido de Lena.

-Sim! – Respondeu a rapariga em jeito de desafio.

-Muito! – Miguel sussurrou-lhe de modo sensual.

A rapariga voltou o rosto e ficaram de frente. Olhos nos olhos. Tão perto, tão seguros, tão maravilhados.

-Já…-Ordenou Miguel, quebrando a envolvência e dando-lhe uma leve pancadinha no traseiro.

-Menino! Está muito ousado? – A rapariga fingiu desagrado.

-Ó majestade…longe de mim faltar-lhe ao respeito. Apenas desejo que vossa senhoria mexa esse rabo, que estou impaciente.

-Mas que horas são? – Comentou Lena em jeito de pergunta.

-Muito perto das 19.00 horas e eu hoje tenho direito a assistir a um espectacular e deslumbrante pôr-do-sol na praia!

Maria Madalena recordou-se do inoportuno convite para um passeio ao entardecer!

-A sós…uma excelente experiência para relaxares e deleitares-te com a quietude e a beleza do momento. – Fantasiou Maria Madalena.

-A sós? – O rapaz mostrou um trejeito de descontentamento. – Quem disse tal? A quietude do meu espírito, a mansidão do meu corpo e a plenitude do meu ser passa por ti, pela nossa partilha.

A rapariga sorriu enquanto se dirigia à sala de banho privativa que a suite possuía.

-Vou vestir-me.

-Vou contigo… meu olhar reclama-te. – Galhofou o rapaz, enquanto dava um salto e ficava junto à porta da sala de banho.

-Se quiseres dispo-me e visto-me… aqui mesmo! - Desafiou Lena, olhando-o com malícia.

Miguel fixou-a no fundo dos olhos.

-Minha cruel Rainha…não me tente!

E a rapariga aparentou que levantava a T-Shirt com que dormira.

-Calma…não cries uma situação que eu não possa inverter! – O rapaz, embora divertido não deixava de aparentar um certo tremor.

-Tens medo de cair em tentação? – A rapariga tornava-se ousada, rodeando com os seus braços o pescoço do jovem.

Miguel retirou-lhe os braços com meiguice.

-Ó mulheres…levam eternidades a prepararem-se. Olha para mim T-Shirt prática e calções de banho.

-Vou já…azucrinador!

-Rápido! Vamos…aguardo-te lá em baixo.

-Miguel…-Chamou a rapariga. – Espera por mim aqui. Quero ter a certeza de que estás por perto.

-Lenita…estou em cima de ti! Poupa-me. – Brincou o rapaz.

-Como estás? Se nem um dedinho encostas em mim. – Divertiu-se a rapariga.

-Ai encosto, encosto…e daqui a pouco é a palma da mão bem assente!

Maria Madalena soltou uma gargalhada e entrou na casa de banho.

Miguel deambulou pelo quarto, até se sentar sobre a cama que Maria Madalena ocupara. Afagou o lugar com as mãos e mordeu o lábio em sinal de contenção. Depois pousou levemente o rosto sobre a almofada e inspirou profundamente o perfume que dela emanava.

-Miguel…-O som da voz da rapariga, vinda do interior da sala de banho, sobressaltou-o.

-Sim…-Respondeu.

-Como chegaste?

-De autocarro. – Respondeu com desinteresse.

-Mas foi de surpresa!

-Sim e Não…Mónica já estava informada! Falei com ela ontem à noite.

Então Miguel sabia que tinham estado na casa do Professor. – Reflectiu Maria Madalena. Mesmo assim queria certificar-se.

A rapariga já preparada encontrou Miguel junto à janela.

-A que horas contactas-te a Mónica? – Inquiriu Maria Madalena.

-Já era tarde. Foi quando me resolvi a vir! E consegui ter as questões todas resolvidas. – Respondeu o rapaz, olhando pela vidraça.

-E o teu pai está melhor?

-Já saiu do hospital mas ainda se encontra em convalescença! – Informou Miguel.

-E os teus irmãos?

-Ficaram lá. Não nos devemos ausentar todos. – Acrescentou o rapaz voltando-se para ela. – Estás pronta?

-Sim.

-Estás um encanto. – Garantiu Miguel.

-Vou dar uma voltinha, para apreciares melhor. – Rodopiou Maria Madalena, vestindo uns calções curtos de ganga e uma graciosa blusa branca de alças.

-Muitas não… que me dás a volta à cabeça. – Sorriu o jovem, semicerrando os olhos.

-Ficas tonto? – Sorriu também a rapariga com malícia.

-Já sou! – Miguel abanou a cabeça a confirmar.

-Sim és um tonto…adorável. – Disse a rapariga, pegando na bolsa e apanhando a mão que o rapaz lhe estendia da porta do quarto.