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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 16]

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Lá dentro havia um sossego que denotava o descanso dos ocupantes. Certamente o trio dos noctívagos ainda não tinha regressado. Maria Madalena dirigiu-se à cozinha na intenção de fazer um chá. Miguel não a seguiu e em pouco tempo apercebeu-se que o rapaz estaria disposto a tomar um duche, pois o esquentador disparou.

Deixou que a água fervesse, procurou o saquinho do chá e preparou a bebida com tranquilidade. Ela própria necessitava de alguns momentos de reflexão. Andavam a acontecer demasiadas situações obscuras e incompreensíveis. À sua volta moviam-se sombras, quase espectros que lhe ditavam comportamentos. Porque não se recolhia, regressava à aldeia e fechava-se em casa até que os seus dias se preenchessem apenas de coisas banais!

Agosto aproximava-se do fim e restavam-lhe apenas, pouco mais de três meses, para o enlace matrimonial. Às vezes desejava que ele acontecesse de imediato, assim ver-se-ia dependente da vontade de Paulo e protegida pela redoma que ele erguia para a enterrar. Era cómodo não ter que decidir, nem ficar à mercê do desconhecido. Saber sempre com o que podemos contar é uma mais-valia imprescindível. Depois deparava-se com Sérgio, aquele espinho encravado na sua existência e envolvia-se com Miguel, alguém ou algo que não se mostrava definido!

Andava à deriva, perdia-se, desafiava as leis da existência, caminhava sem rumo, nem destino certo.

O chá quente confortava-a e uma e outra vez a sua mente preenchia-se pelos reflexos cintilantes dos olhos ternos de Miguel e pelo amável sorriso do seu rosto.

Que lhe perguntara ele? Se seria capaz de manter uma relação platónica? Não deixava de ser um desafio intrigante. Não estava ela, demasiado envolvida, fisicamente! A relação com Paulo, a aventura com Sérgio e a obsessão corporal com Miguel.

Sempre invejou e temeu a vida de uma monja que se entregava apenas aos prazeres da espiritualidade. Ela sempre rebatera tal sacrifício. Era demasiado amante dos gozos da vida, gostava de bens materiais, boa cama e boa mesa. Nunca se julgaria capaz de tamanha penitência. E a perca de Miguel, que poderia significar para si? Provocar-lhe-ia certamente uma dor dilacerante. Deixaria um vazio e arrastar-se-ia como um mistério inacabado! E o amor? Onde entra esse sentimento apaziguador das paixões arrebatadoras! Que significava Paulo na sua vida: a parte cómoda da questão! Que ousara viver com Sérgio: uma exacerbada paixão carnal! Que via em Miguel: a partilha, o amparo, o porto seguro! Mas só isso chegaria?

Miguel entrou na cozinha, acabadinho de sair do duche. Trazia os cabelos desgrenhados e vestia um pijama de Verão com T-shirt de alças e calção curto.

-Também bebo um chá! – Disse, bocejando sonolento.

Maria Madalena levantou-se e fez questão de lhe preparar a bebida. Ao entregar-lhe a chávena os seus dedos roçaram-se e uma onda arrebatadora percorreu-a dos pés à cabeça. Sorriu-se.

-Pequenos toques de prazer! – Proferiu Miguel penetrando-a com o olhar.

A rapariga não lhe ligou e voltou a sentar-se, afastada dele.

-Vais manter-te assim…separada!

-Não és tu quem evoca relações contemplativas: entre o céu e a terra! Então nada mais te resta que me idealizares.

-Vale-me ao menos a extraordinária imaginação que possuo. – Sorriu e chegando-se um pouco mais à mesa, lançou um afago sobre a mão da rapariga:

-Não queres saber o que o meu pensamento tece?

-Deves-me vislumbrar no altar, de vestido celeste, coroa e manto! – Ironizou a rapariga.

-E se te visualizar em vestes menores…quem sabe num conjunto ousado de langerie vermelha como o fogo em que me consumo!

-Deduzo que seja o fogo do inferno! – Voltou a ironizar a rapariga.

-E se eu e tu…nos fossemos perder num leito de paixão. – Sugeriu o rapaz num sussurro rouco.

Maria Madalena sentiu um sufoco. Depois relativizou:

-E com quem o partilhamos, com Mónica ou com Pedro.

-Mónica dorme profundamente e Pedro demora a chegar… - Garantiu Miguel.

Maria Madalena espreguiçou-se:

-Sabes Miguel…estou muito cansada e além disso…o que essa medalha me amedronta! – A rapariga continuava a gozar com a questão.

Miguel levantou as duas mãos, levou-as ao pescoço e num ápice, retirou o cordão!

-Pronto…satisfeita!

A rapariga incomodou-se. Um certo mau estar assolou o seu corpo e um grito aterrorizado, rasgou a noite!

-Mónica… - Maria Madalena deixou a cozinha, correndo em direcção à “suite”.

Entrou, acendeu a luz e viu que a amiga parecia descansar sem incómodos. Mesmo assim quis certificar-se e chegou-se a ela. O corpo de Mónica via-se abandonado ao sono profundo. Não a quis acordar. E se fosse Sara que não estava bem. Foi então ao quarto que a rapariga ocupava. Também ali o sossego era total.

Regressou, Miguel também haveria de ter escutado…

A mesa estava arrumada e as chávenas do chá dentro do lava-louças. Miguel, porém, já lá não estava.

Correu ao quarto. Bateu.

-Lena… - Ouviu o rapaz perguntar.

-Sim!

-Tens razão… também estou muito cansado! Até amanhã!

Rodou o puxador mas a porta não cedeu!

-Posso entrar…quero falar sobre o som que ouvi e me pareceu um grito!

-Jovens a doidivar na rua! Descansa… - Disse-lhe Miguel.

-Pareceu-me dentro de casa! – Insistiu.

-Claro que não…foi na rua. – Respondeu o rapaz de dentro do quarto.

-Estou um pouco receosa! – Queixou-se.

-Ampara-te em Mónica…

-Porque não posso ficar contigo… - Teimou.

Ouviu-se uma chave rodar na fechadura. Pedro e as meninas estavam de volta.

Maria Madalena resolveu recolher-se antes que a enchessem de perguntas.

Amanhã, sempre amanhã! O presente nunca deixava de se projectar no futuro.

 

Na manhã de Domingo ninguém foi à praia e no geral todos ficaram recolhidos até mais tarde do que o normal. Cada um tomou o pequeno-almoço a horas diferentes e Mónica avisou que o almoço seria fora de casa. Foi escolhido um “pronto-a-comer” do outro lado da rua e mesmo assim Pedro e Adília não compareceram!

Maria Madalena só avistou Miguel à hora do almoço e o rapaz mostrou-se bem-disposto e atencioso. Ela, no entanto, estava aborrecida com a forma como ele a tinha banido da sua presença e foi logo procurando a medalha, cujo cordão vislumbrou por baixo da gola do “polo” que Miguel vestira.

-Estou a pensar ausentar-me esta tarde. Tenho familiares aqui perto e quero fazer-lhe uma visita. – Informou Miguel com serenidade.

Maria Madalena ficou alerta e estranhou tal comunicação.

Mónica porém retorquiu, fixando o rapaz insistentemente:

-A família é um bem precioso, especialmente os parentes mais chegados, pai, mãe e irmãos!

Miguel apenas se limitou a confirmar com a cabeça.

-Espero que não te percas…- Lançou Mónica com um certo azedume a que o amigo reagiu, mostrando-se contrariado. A rapariga quis remediar:

-Quero dizer…se sabes movimentar-te na zona?

-Minha madrinha virá buscar-me! – Informou Miguel. – Se alguém estiver interessado em fazer-me companhia.

-Eu dispenso! – Garantiu Mónica, levantando-se e dando o almoço por terminado.

-Eu iria de boa vontade não fosse ter combinado com Sérgio um lanche na marisqueira! – Lançou Magda com a maior das naturalidades enquanto Sara garantia que estava na disposição de passar a tarde na praia.

Lena preferiu nada comentar, enquanto avaliava as atitudes de cada um: Miguel que a surpreendera com aquela visita a familiares por perto. Mónica que parecia passar o tempo a controlar o rapaz e Magda que andava na trafulhice com o professor!

Miguel fixou-a como se lhe lesse os pensamentos mas não lhe perguntou directamente se ela o queria acompanhar. Essa atitude acresceu ainda mais o seu descontentamento e resolveu que também ela, nada lhe sugeriria nesse sentido. Porém estava curiosa em saber mais sobre Miguel e essa família que desconhecia.

Aguardou então que o rapaz reflectisse!

Em vão. A refeição terminou, os cafés foram bebidos e a despesa foi saldada sem que Miguel tocasse mais no assunto.

Uma certa frustração apoderou-se de Lena. E se ele se fosse sozinho, sem sequer insistir em a querer levar? Rodeou-o:

-Então essa madrinha reside no Algarve?

-Não…também está em férias! – Respondeu o rapaz, enquanto esperavam para atravessar a rua, depois de terem deixado Sara e Magda para trás.

-Estás a pensar demorar-te? – Perguntou ainda.

-É provável que passe lá a noite! Insistente como a minha madrinha é…- Respondeu o rapaz enquanto lhe sugeria que atravessassem naquele momento, pois o sinal para peões já estava verde.

-Ah! Julguei que fosse uma visita rápida…assim talvez te pudesse acompanhar! – Adiantou.

-E tem mal, pernoitares por lá…não estaremos sós.

-Sim claro! – Entristeceu-se Maria Madalena, afinal parecia que Miguel estava mesmo decidido a cortar com as abordagens enamoradas.

-Vou pensar melhor…

-Se decidires fazer-me companhia, poderíamos fazer a viagem no teu carro, assim evitava que ela se deslocasse.

-E onde está ela?

-Em Quarteira…

-Tudo bem…apetece-me viajar! – Decidiu-se Maria Madalena, disposta a desbravar caminho desconhecido.

 

Em pouco menos de uma hora, Lena tinha arrumado um pequeno saco com bagagem para noite e dia e aguardava que Miguel lhe desse ordem de partida.

Enquanto apanhava o cabelo, pois o calor estava sufocante, Mónica entrou na sala de banho. Olhou Lena pelo espelho e a rapariga viu que a amiga não estava satisfeita:

-Mónica estás aborrecida com alguma coisa? – Perguntou.

-Estou um pouco descontente com algumas atitudes do Miguel e vinha, precisamente, pedir-te para não o acompanhares hoje! – Respondeu Mónica, fechando a porta e encerrando as duas no WC.

Maria Madalena foi apanhada de surpresa.

-E porque não iria, ficaremos em casa de familiares dele.

Mónica contrariou-se ainda mais.

-Lena recordas-te quando te disse, que a família de Miguel estava a passar um mau bocado! – Abordou Mónica com alguma cautela.

-Sim…mais ou menos, para além da doença do pai era também o Gabriel que às vezes ficava um pouco descontrolado… - Disse Maria Madalena apelando à memória.

-Exactamente…pois eu tenho receio que as coisas possam vir a piorar.

-Porquê…esta madrinha também está doente?!

-Não…não me parece que esta madrinha signifique alguma coisa! Receio muito mais pelo Miguel, ou pelo Rafael….digamos que não tenho um bom pressentimento!

Maria Madalena ficou novamente tentada em responder a Mónica com alguma desconsideração, pois começava a irritar-se com a incoerência das suas palavras:

-Mónica…desculpa! Queres sentar-te e falar olhos nos olhos, sem rodeios, nem obscuridades e dizer-me claramente o que te aflige, muito bem! Caso contrário não estou para aturar as tuas invenções, nem os teus palpites sobrenaturais…

Mónica desarmou:

-Muito bem…lavo daí as mãos como Pilatos e digo-te: Miguel está entregue a si próprio! Ameaçou Mónica com o dedo em riste.

-E não será já… suficientemente crescidinho! – Atirou Maria Madalena.

-Que sabes tu…-Praguejou Mónica, abandonando a sala de banho.

Lena ficou a pensar que talvez Mónica tivesse um fraquinho por Miguel e a aproximação entre o par lhe desencadeasse algum ataque de ciúmes. Bem… mas que tinha isso a ver com algum possível mau estar na família…Relativizou: Mónica e a sua turva bola de cristal!

 

Miguel e Lena já tinham abandonado Albufeira e tomado rumo para Este.

Pouco depois de Mónica a ter deixado, Miguel entrou na suite, disposto a seguirem viagem. Saíram com um até logo ou até amanhã e só Mónica não lhe retribuiu a despedida.

-Mónica veio pedir-me para não te acompanhar! – Disse Lena, enquanto mantinha os olhos na estrada.

-Deixá-la…-Desapreciou Miguel!

-Parece-me que desenvolve por ti uma paixoneta! – Atirou a rapariga.

Miguel sorriu-se.

-Nada disso. É mais preocupação de irmã.

-E com o que se deve preocupar? Só se receia que eu te devore!

-Porquê… tens intenção disso! – Provocou Miguel, amarrando-a com o olhar.

-Longe de mim manjar carne santa… - Ironizou a rapariga.

-Pode ser divinal…

-Pois eu receio indigestões celestiais.

Miguel fixou a estrada.

-A próxima saída é já a nossa!

-Não…faltam ainda muitos quilómetros até Quarteira. – Reclamou a rapariga.

Miguel dirigiu-lhe um olhar matreiro:

-Pois eu quero encurtar caminho!

-Há outra estrada mais rápida!? – Questionou a rapariga.

-Não…mas há outro lugar mais perto.

Lena saiu à sua direita e tomou a direcção que Miguel lhe indicou.

-Sempre em frente. – Garantiu o rapaz.

Tomavam agora um caminho secundário.

-Mais três quilómetros e viras outra vez à direita.

A estrada era estreita mas seguia por uma zona muito bela do Algarve. Não se tratava de um espaço turisticamente embelezado mas de uma área mais inata.

-Na próxima indicação…-Alertou o rapaz.

Lena leu “Retiro das Almas” e guinou.

Miguel pediu:

-Estaciona naquele espaço aberto, ali ao lado.

Lena fez como Miguel ordenou.

-O carro ficará por aqui. O resto do trajecto será feito a pé!

A rapariga não deixou de ficar admirada mas a tarde estava tão aprazível e embora o sol ainda vibrasse, a vegetação era tão luxuriante que havia sombra por todo o lado.

Retiraram os pertences. Maria Madalena trancou o carro e iniciaram a caminhada. Uma estreita via, em terra batida, ladeada de loendreiras em flor, brancas e rosa, rompia a paisagem pejada de plantas, arbustos e árvores de fruto.

-São apenas alguns metros… - Comunicou Miguel.

-Até chegarmos onde? – Quis saber Maria Madalena. – Pelo que vejo nem a tua madrinha está em Quarteira, nem as suas férias são balneares.

O rapaz pegou-lhe na mão:

-A visita à minha madrinha não passou de um pretexto! – Confessou.

Maria Madalena não sabia se havia de ficar aborrecida ou contente.

-E que lugar é este? – Optou.

-Perfeito!

-Para quê?

Miguel não respondeu e em vez disso deu-lhe sinal para que olhasse em frente.

Umas construções feitas em madeira e pintadas de verde começavam a surgir no emaranhado da vegetação. Uma mais ao centro era de dimensões mais consideráveis mas à sua volta outras se desenvolviam, de proporções mais reduzidas. Um cuidado e harmonioso jardim envolvia as construções e os trilhos que levavam a cada estrutura eram agora ladeados por pequenos pinheiros cujo perfume era delicado e revigorante.

-Isto é lindo! – Soltou a rapariga com apreço.

Miguel apertou-lhe a mão com mais pressão.

Um estreito riacho, cujo caudal causava estranheza nesta época do ano, desenvolvia-se em ligeiras cascatas, cujas águas trepidavam por entre pequenos seixos brancos. A unir as margens uma graciosa ponte de madeira baloiçava ao peso dos viandantes.

O par, guiado por Miguel, dirigiu-se para ela e atravessou-a. Alguns metros mais à frente ficava a entrada da construção principal.

Miguel puxou a porta e flanqueou-a. Surgiu-lhes então um espaçoso átrio, esplendorosamente decorado com motivos orientais. Sentado num cadeirão, feito em ferro forjado e decorado com almofadas de tecido multicor, um idoso barbado, vestido de branco, bebericava uma chávena de chá!

-Procuro o Mestre Elias…-Miguel indagou.

O velho levantou a vista:

-O próprio. Entrai meu jovem e acercai-vos!

Miguel deixou Lena à entrada e aproximou-se:

-Fiz uma reserva… para a “Cabana Singela”!

O homem apreciou-o:

-Está no lugar certo. – Depois levantou-se, foi buscar um pesado livro e consultou o calendário.

-É preciso registar? – Perguntou Miguel.

-É o dever de um guardião! Nome, data e local de nascimento?

-Micha’el…

A mão de Mestre Elias tremeu.

-Deixe estar que eu mesmo anoto! – Decidiu Miguel.

O velho chamou:

-Elizabeth…

Uma menina muito loira, dos seus sete ou oito anos, surgiu do interior da casa.

-Meu pai! – Fez uma vénia.

-Leve…

-Miguel! – O rapaz apresentou-se.

-à Cabana Singela. – Indicou-lhe o pai.

A miúda correu a pegar a chave.

-É única! – Afiançou Mestre Elias.

-Aprecio a dignidade. – Assegurou Miguel.

Elizabeth mostrou o caminho e Miguel levou Lena pela mão.

-Qual o nome da donzela? – Perguntou a rapariga que, descalça, saltitava pelo trilho.

-Lena… - Informou Miguel.

-Maria Madalena. – Completou Lena.

Elizabeth estancou, retrocedeu e fixou em Lena, os seus extraordinários olhos azuis.

Lena amiudou aquele rosto e ficou com a sensação de se ter, algures, cruzado com ele!

A miúda fez então uma estranha pergunta:

-Podeis dar-me um fio de vosso cabelo?

-Claro que sim! – Disponibilizou-se Lena a rir.

-De forma alguma! – Impediu Miguel com um certo desconforto.

As duas viram-se impelidas a obedecer.

Elizabeth voltou a palmilhar o caminho e Lena, pela primeira vez, viu em Miguel uma força prodigiosa!

Mais alguns passos e a construção intitulada “Cabana Singela”, plantava-se no final do caminho.

Elizabeth colocou a enorme chave na fechadura e abriu a porta de madeira.

-Quereis que vos mostre o interior?

-Não é necessário. – Garantiu Miguel, indicando a Lena que ficavam por ali.

-Então…qualquer coisa é só ligar!

-Certo! Obrigado.

-Adeus ou até já! – Referiu Maria Madalena desconhecendo o seu rumo.

A miúda retrocedeu em marcha atrás e foi agitando a mão em sinal de adeus.

Miguel também retrocedeu:

-Deixai-me a chave!

-Ah! Perdão… - Disse a miúda, correndo para entregar a chave que levava consigo.

Miguel certificou-se que Elizabeth tomava o caminho de volta e acercou-se de Lena.

-Aguarda um pouco e dá-me o teu saco. Eu entro primeiro e venho buscar-te depois!

Lena atirou-se para um banco-baloiço, talhado em madeira, que se encontrava fixo às traves de pau do alpendre de entrada. Aí ficou, baloiçando-se, admirando a paisagem e inspirando o misto de agradáveis fragrâncias que exalavam das várias flores do jardim.

Miguel demorou-se pouco e quando voltou vinha descalço e muito à vontade. Chegou-se à rapariga e retirou-a ao colo do baloiço.

Maria Madalena mostrou-se divertida, enquanto flutuava nos braços de Miguel:

-Vou simular o ritual em que o esposo entra em casa com a companheira nos braços.

-Que exagero Miguel…-Perturbou-se a rapariga.

-Hoje tudo será feito como sendo a primeira vez! – Sussurrou o rapaz, malicioso.

Maria Madalena segurou-lhe o rosto entre as mãos e fitou-o no fundo dos olhos:

-Onde estamos e o que fazemos aqui?

O rapaz flanqueou a entrada e fechou a porta com a pressão do pé.

Girou quase sobre si próprio com a rapariga nos braços e pousou-a depois no chão, com toda a delicadeza.

Maria Madalena pode então apreciar a envolvente:

Lá dentro a cabana era graciosa e muito acolhedora. A cor verde do exterior, perfeitamente integrada na paisagem, era ali totalmente substituída pelos vários tons acastanhados da madeira que cobria as paredes, os tectos e o chão. Os móveis, objectos e adornos primavam pelas cores claras, entre o pastel, o creme e o branco. Várias carpetes e tapetes estendiam-se sobre o espaço, definindo graciosos recantos.

Miguel guiou-a pela mão:

Desenvolvia-se desde a entrada uma confortável sala de estar, com kitchenette incorporada, de onde se alcançavam mais dois compartimentos: uma moderna e sofisticada sala de banho e um magnífico quarto de casal. Ali tinha Miguel já depositado os seus pertences:

-Pernoitaremos aqui…

Maria Madalena olhou em redor:

-Só… nós dois!

Miguel atirou-se sobre a cama e abriu os braços:

-Eu, tu, o silêncio, a tranquilidade, a perfeição, o amor e a paixão… -Enumerou o rapaz! – Quantos somos? – Riu-se.

Suspenso no pescoço de Miguel, o cordão medalhado agitava-se.

Maria Madalena não pode resistir.

-É hoje que te desproteges? – E indicou o objecto com o olhar.

O rapaz segurou-o entre os dedos.

-Decisão irrevogável. – Levou as mãos ao pescoço e retirou o cordão que depositou dentro do seu saco de pertences.

Maria Madalena ficou alerta, esperava que de imediato qualquer situação alarmante se desencadeasse mas em vez disso, Miguel tomou-a nos braços.

-Esposaremos às sete da tarde… no santuário do retiro!

-O quê!? – Alarmou-se Lena.

-Nada receies…trata-se apenas de uma cerimónia simbólica. Não há padre, nem juiz, nem papeis e a única condição é que te adornes com uma coroa de flores!

-Porquê e para quê?! – Maria Madalena continuava incomodada.

O rapaz aconchegou-a mais a si.

-Deixa-me confessar-te algumas coisas. Sentemo-nos um pouco. – Convidou.

Maria Madalena acabou por se interessar e sentar-se ao lado de Miguel.

O rapaz falou com calma e serenidade:

-Encontro-me na condição de pura castidade, como já te tinha indicado nunca me foi permitida a consumação do acto sexual. Para que tal possa vir a acontecer, estou sujeito a um ritual de iniciação. A rendição aos prazeres da carne implica que me despoje de toda a parte espiritual e entregue a minha alma para guarda. Esta opção entre a crua materialidade e a espiritualidade física ser-me-á permitida durante escassas doze horas – as horas das trevas, equivalentes a uma noite, desde que para isso apresente uma consorte e que juntos aceitemos os esponsais.

Miguel averiguou o estado de Lena e apressou-se a concluir:

-Passado esse tempo, tudo voltará à normalidade, tu ficarás livre e eu reclamarei a minha alma e poderei regressar à condição de ser espiritual.

Maria Madalena dava sinais de desorientação:

-Queres dizer que és virgem?!

-Ok…virgem! Se quiseres. Embora saibas tão bem como eu que entre nós já se ateou e inflamou, vezes sem conta, a chama da paixão…-O rapaz pegou-lhe na mão e suplicou. – O que te peço é que me permitas arder nesse fogo!

-E todas essas coisas que disseste e que…não me fazem sentido e…essa exigência de um casamento fictício.

Miguel tornou-se mais sensual e murmurou, semicerrando os olhos:

-Amo-te Maria Madalena. Amo-te muito… e esse sentimento, incorpóreo e afectivo nem tu, nem ninguém me poderá tirar. Mas eu quero mais, quero a união física, quero satisfazer este desejo que numa força colossal, me arrasa e consome. Arrisco tudo, posso até perder-me, sofrer as mais terríveis consequências mas estou determinado em possuir-te!

Maria Madalena sentiu o coração bater descompassadamente:

Miguel mostrava-se tão atraente. Era um misto de menino rebelde e homem sensual exposto a seus pés. E como ela o desejava! Os vários jogos eróticos que antecederam estes momentos tinham despertado um interesse difícil de apaziguar mas, havia sempre um mas, não lhe agradava aquela cerimónia ainda que ela fosse figurativa. Como poderia simbolizar um casamento e não se tornar uma esposa? E se Miguel viesse posteriormente a reclamá-la!?

O rapaz pareceu adivinhar-lhe os pensamentos:

-Maria Madalena fecha os olhos… -Pediu.

Lena obedeceu.

-Agora escuta-me. – Fez uma pausa até recomeçar numa voz calma e envolvente: Hoje, Domingo, no “Retiro das Almas”, quando são precisamente cinco horas da tarde, eu Micha’el, participando num ritual de iniciação, renuncio por doze horas ao meu ânimo espiritual e desposo Maria Madalena no santuário sagrado da irmandade. Quando os primeiros raios de sol romperem no firmamento e as sombras das trevas se esfumarem, surgirá desfeito este nó. Eu voltarei à idealidade e tu continuarás como carne do meu ser.

O rapaz ajoelhou-se e pediu no mesmo tom de voz:

-Maria Madalena…aceitas desposar-me? Por doze horas…

Lena foi assolada por uma comoção maravilhosa. Que mais poderia reconhecer naquele sentimento, senão a felicidade transbordante.

Aproximou-se de Miguel e uniu os seus lábios contra os deles. O rapaz aprisionou-lhos e beijou-a sofregamente.

Quando uma ténue paragem surgiu entre as carícias, Lena pode confirmar:

-Sim…por doze horas!

O rapaz debruçou-se sobre ela e fê-la tombar sobre a cama.

Maria Madalena ofereceu-se a Miguel e o par envolveu-se em audaciosos mimos. Cada toque, cada pressão, cada afago mais ousado, elevavam-nos até dimensões antes desconhecidas. Miguel mostrava-se mais solto e mais arrojado, como se, desde sempre, soubesse chegar ao mais íntimo de Lena. Em poucos instantes a situação ameaçou descontrolar-se e foi o rapaz quem foi saindo de mansinho, reclamando:

-Para meu desespero…este ainda não é o momento!

Lena ficou estendida na cama até conseguir recuperar a percepção.

-Vamos minha rainha, um banho revigorante aguarda-nos. – Disse Miguel enquanto procurava no saco uns calções de banho.

Lena olhou o rapaz a trocar de roupa e apreciou a nudez escultural do seu corpo. Não podia negar que cobiçava arrebatá-lo em toda a sua intensidade!

-Vamos deliciar-nos num lugar encantador. Podes colocar qualquer coisa mais leve.

-Biquini? – Perguntou Lena, ao ver Miguel em calções de banho.

-Pode ser…

A rapariga vestiu um biquíni que lhe realçava a perfeição das formas e o rapaz admirou-a embevecido.

-O quanto me apetece delinear-te na ponta suave dos meus dedos! – Sussurrou o rapaz enquanto lhe lançava um sedoso toque.

-Então…permaneçamos! – Desafiou Maria Madalena.

-Não…tudo terá que ser feito, segundo as regras. Vamos!

O par saiu para o exterior e de mãos dadas, foram seguindo o riacho. Não foi necessário atravessar a ponte e numa zona mais abaixo, as sucessivas cascatas projectavam-se numa belíssima lagoa.

-Estas são as águas do éden. Aqui lavarei a minha alma, para que seja guardada limpa e sadia. Entrarei primeiro sozinho.

Maria Madalena estava disposta a deixar que Miguel dirigisse a situação, até porque ela sentia-se em total transcendência. Sentou-se sobre um pequeno penedo e viu, mais uma vez, o rapaz desnudar-se!

Miguel mergulhou e manteve-se imerso durante algum tempo. Um tempo para além dos limites sustentáveis. Maria Madalena observando a lagoa, começou a ficar perturbada. O silêncio era total e as águas pareciam suspensas. Olhou em redor e viu apenas a natureza resplandecente, avivada pelo cantar dos pássaros. E Miguel que não surgia…

Debruçou-se sobre o leito e viu aparecer à superfície um pequeno objecto verde, depois outro vermelho e mais verdes e amarelos, e mais vermelhos. Lena amiudou-os e um odor a fruta fresca inundou o ar. Eram maçãs. A lagoa estava sobrepujada de maçãs, roliças, brilhantes e sumarentas!