Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rosa & Romances

Rosa & Romances

Atalaia 4 - [capitulo 18]

 

55895_000e5pzx1.jpg

 

 

-Meu irmão… - Um chamamento brusco rasgou o silêncio do lugar e Maria Madalena sobressaltou-se.

Junto ao cruzeiro da igreja, abaixo do rochedo que servia de guarita, uma figura masculina, de porte jovem e atlético, com os cabelos longos, esvoaçando à brisa da manhã, reclamava a atenção de Miguel!

-Miguel, meu querido e amado igual…como é doloroso o meu sofrimento! – O lamento de Gabriel denotava um infligido martírio!

Miguel despertou e alarmado desceu o rochedo em desenfreada corrida, deixando Maria Madalena entregue a si própria.

-Que se passa Gabriel? Porque te vejo aqui? – Questionava Miguel enquanto corria ao encontro do irmão.

Gabriel clamou, num brado rouco:

-Anuncio a morte de nosso pai!

Miguel já não conseguiu alcançar o irmão e atirou-se em desespero contra o chão pedregoso do caminho.

O irmão veio ao seu encontro e antes que Lena o pudesse consolar, os dois jovens abraçaram-se chorando.

-Que dizes? Que má nova me trazes! – Lamentava-se Miguel.

-Nosso pai expirou esta noite, depois de uma lenta agonia! – Explicava Gabriel.

-Por minha culpa, por minha tão grande culpa… - Responsabilizava-se Miguel, enquanto o irmão parecia confirmar, lançando sobre Lena um olhar trespassante.

Maria Madalena já tinha visto aquele olhar, era o mesmo que Gabriel lhe tinha atirado em casa de Mónica, no quintal da avó Bia.

-Vamos. Está na hora de regressar a casa. – Sentenciou Gabriel, enquanto amparava o irmão e o fazia acompanhá-lo.

Lena seguia-os como um autómato. Despertara de um sonho para viver um pesadelo!

Ao mesmo tempo, na cabana, com a agilidade de uma pequena gazela e os olhos argutos de um lince, Elizabeth catava sobre a almofada, uma considerável colecção de fios de cabelo feminino!

Maria Madalena teve que fazer um certo esforço para se aproximar dos irmãos e quando os alcançou fez questão de apoiar Miguel.

O rapaz porém parecia arisco e continuou a preferir a protecção do irmão. Em poucos minutos fizeram o caminho de volta e Gabriel fez saber que tinha o transporte junto à cabana central. Nessa altura Miguel, bastante desconsolado, retirou do bolso a chave e pediu a Lena que regressasse à cabana onde tinham permanecido e fosse buscar os seus pertences.

A rapariga acatou o pedido e encaminhou-se pelo trilho que a levava lá.

Quando se aproximava viu sair das traseiras da casa a pequena Elizabeth! Chamou-a:

-Elizabeth, necessitas de alguma coisa?

A rapariga abanou-lhe a cabeça em sinal negativo e desapareceu apressada, por entre a vegetação.

Lena meteu a chave à fechadura e entrou na cabana. Todo o espaço estava ainda impregnado pelos odores de cada um. Dirigiu-se ao quarto, afagou os lençóis brancos e aconchegou-se no local onde Miguel tinha descansado. Perdeu-se assim alguns segundos até que achou por bem terminar aquele lazer, recolher os seus pertences e a bagagem de Miguel.

Com os sacos arrumados, fechou a porta e regressou ao pavilhão central.

Quando chegou não viu ninguém e foi chamando Mestre Elias.

O homem apareceu do interior da casa e cumprimentou-a com um aceno.

-Pode dizer a Miguel que já tenho tudo!

-Sente-se menina… vamos tomar um chá. – E Mestre Elias dirigiu-se ao guarda-louça e retirou duas chávenas. Indicou a Lena, um lugar à mesa e preparou a bebida.

-Micha’el pede a sua compreensão.

-Sim. – Garantiu Lena.

-Ele e Gabriel optaram por não esperar…a viagem é longa e a cerimónia fúnebre não pode aguardar.

Lena ficou desiludida. Miguel tinha-a abandonado sem dó nem piedade!

-E os seus pertences?

-Que os entregue a Mónica que ela lhos guardará!

Lena sentiu o olhar turvo e uma lágrima teimosa, ameaçava cair. Limpou a cara e procurou recompor-se.

Não sabia ela ao que vinha?! Se não acabasse assim, acabaria de outra forma.

Estendeu a mão a Mestre Elias e o homem tomou-a entre as suas. O contacto porém foi arrepiante pois sentiu-lhas frias de neve, geladas, quase mórbidas!

-Quer que mande alguém acompanhá-la? – Perguntou o ancião.

-Não há necessidade! É só descer o trilho, atravessar a ponte e encontrar o carro.

-Isso mesmo! – Garantiu o homem. – Espero que a estadia tenha sido do seu agrado. – Lançou ainda, mas Lena já não estava disposta a sentir, ver ou ouvir mais nada.

Apressou o passo e foi desaparecendo. Logo que encontrou o veículo, despachou-se a colocá-lo em marcha.

Percorreu a estrada estreita e saiu pelo portão de ferro que servia de entrada para o retiro. Praticou, no entanto, uma fuga à tangente, porque a traseira do carro escapou-se por pouco, ao choque violento que o fecho imediato do pesado portão lhe poderia ter causado!

 

Pouco passava das nove da manhã quando entrou no apartamento. Todos os espaços permaneciam fechados e em silêncio, excepto a cozinha onde mexia gente.

Mónica parecia que a aguardava, sentada à mesa com a cabeça entre as mãos.

Lena soube de imediato que ela já estava informada do sucedido.

-Foi um duro golpe para Miguel! – Murmurou.

Lena sentou-se junto dela.

-Ele ficou arrasado! – Disse.

A amiga consentiu.

-E tu, como estás?

Lena queria gritar que estava desolada e que sentia muito a falta de Miguel mas nada disse.

-Porque não acatou ele os meus conselhos. – Mónica parecia agora falar sozinha.

-E que conselhos foram esses… - Quis saber Maria Madalena.

-Que ficasse, que não fizesse aquela visita!

-À madrinha? – Quis saber.

-Sim… aos familiares que ele evocou. Eu tinha um mau pressentimento.

Lena considerou então que Mónica desconhecia os factos verdadeiros inerentes aquela estadia. Então, também não seria ela, quem lhos confessaria.

-Miguel mandou que guardasses os seus pertences.

Mónica abanou a cabeça que sim:

-Vou fazê-lo. – Acrescentou. - Amanhã regressarei a casa! – Sentenciou.

-Porquê? – Quis saber Maria Madalena.

-Estou aborrecida destas férias, além de que esta situação que aconteceu ao Miguel, me deixou sem ânimo!

Lena ponderou a questão e viu que também ela, já nada fazia por ali.

-Amanhã partiremos juntas. Vou levar-te a Portalegre.

Mónica ficou-se por ali e Lena dirigiu-se à “suite”. Magda dormia tranquila.

O pior seria convencê-la a partir para a aldeia, uma semana mais cedo. E sem Magda, Lena nem poderia pensar em aparecer por lá.

Deitou-se de mansinho sobre a cama, aconchegou-se e lavou a alma com o sal das lágrimas. Vieram envolvê-la as recordações da noite anterior e reviveu-as uma e outra vez, até ficar vencida. Em determinado momento, entre a sonolência e o despertar, recordou-se que algo não fazia sentido. “Se Mónica acreditava que Miguel visitara a Madrinha, quem informara Gabriel do paradeiro do irmão. E se não foi Mónica, quem a informou a ela da morte do pai de Miguel!”

Um torpor dormente não a deixou reagir, teria que averiguar a questão só quando despertasse.

 

Pouco passava do meio-dia quando Lena reagiu, avivada pelo remexer que ia no espaço. Magda vestia-se e despia-se, parecendo não lhe agradar a indumentária. Estava certamente a preparar-se para sair por isso Lena, achou por bem, informá-la da sua anterior decisão.

-Magda…talvez tenhamos que regressar mais cedo.

-Porquê? - Questionou a rapariga.

-Sabes da fatalidade que envolveu a família de Miguel…

-Sim e daí? – Disse a rapariga sem grande embaraço. – Coisas que acontecem! – Acrescentou.

-Mónica tem intenção de partir e eu penso fazer-lhe companhia. – Evocou Maria Madalena.

-Então já estás atrasada porque Pedro acabou de a ir levar ao autocarro!

Lena ficou perplexa. Mónica também tinha partido em segredo. Era mais que evidente que ela não era bem-vinda por perto.

-Ah…e outra coisa. Meu primo tem tido o telemóvel estragado e por isso pediu à mãe que o contactasses para este número. Esperava o teu telefonema ontem pelas nove da noite! – Magda entregou-lhe um papel com um contacto telefónico anotado.

Maria Madalena procurou recordar-se do que fizera ontem às nove da noite e uma onda de prazer percorreu-a. De todas as formas o dever chamava-a e parece que estava na hora de ela regressar à vida normal.

Levantou-se, procurou o telemóvel, introduziu o número e afastou-se para a varanda da suite. Esperou apenas alguns segundos:

-Boa tarde, fala o Alexandre…

-Olá Alexandre é a Lena…

-Ah! Como estás? O Paulo está mesmo aqui.

A voz de Paulo soou-lhe com indiferença:

-Princesa há quanto tempo. Pensei que tinha que regressar mais cedo, só para poder ouvir a tua voz.

-Está tudo bem Paulo. Eu liguei-te várias vezes. – Quis confirmar a rapariga.

-Sim…pode ser, mas o meu telemóvel pifou e até que compre outro, vou ter que me valer da máquina do Alexandre. Então como têm sido os dias na praia?

-Um pouco aborrecidos…estou a pensar regressar mais cedo a casa.

-Fazes bem porque tenho um convite especial para te fazer!

A rapariga ficou muda com o aparelho colado ao ouvido.

-Não queres saber a surpresa que tenho para ti? – Perguntou Paulo com languidez.

-Sim… - Soltou Lena com apreensão.

-Soubemos ontem que vamos ter uma semana de folga, até que se inicie a construção de um novo empreendimento. Quero que venhas passar esses dias comigo!

Maria Madalena estarreceu.

-Que dias? – Balbuciou.

-A primeira semana de Setembro. Para mim torna-se muito apertado para ir a Portugal e voltar mas tu, que podes movimentar-te sem teres que cumprir prazos, virás até cá e passaremos juntos, esse tempo.

-Não sei se posso… - A mente da rapariga parecia um cata-vento, procurando razões plausíveis para se escusar a tal destino.

-E porque não? – Insistiu Paulo.

-Não sei Paulo… fui apanhada desprevenida. Que queres que te diga? – Lena respondeu com azedume.

-Que me amas, que tens saudades minhas, que queres correr para os meus braços!

-Ando nervosa com os preparativos do casamento. – Alegou a rapariga, sem saber que mais lhe havia de dizer que o contentasse.

-Sim…mas não vai entrando tudo nos eixos? Minha mãe informou-me que os documentos já estão nas mãos do padre e que ele está a tratar dos papéis.

-Sim claro…mas e o vestido?

-O que tem o vestido? – Questionou Paulo.

-Ainda não o escolhi e tinha precisamente combinado com a minha tia Celeste, que nos primeiros dias de Setembro, iríamos a Lisboa para o fazer.

-Ora se não fores nos primeiros, vais nos segundos. Linda como és qualquer trapinho te assenta bem! – Ironizou o rapaz, para depois concluir: Cá te espero Princesa, vou marcar a viagem de avião!

Maria Madalena entrava em desespero e um grito rouco, libertou-se-lhe da garganta:

-Não vou… - Para depois se recompor e acrescentar: Não poderei fazer essa viagem sozinha de avião. Tenho pânico de voar!

-Como sabes se ainda não experimentaste? – Quase que Paulo também gritou.

-Não interessa, sei!

-Não queres vir? Não é verdade. Sabe Deus o que tens feito por aí sozinha. Aí não tens medo, nada te incomoda. Só quando estás junto de mim é que as queixas sucedem.

Lena escutava e sentia o comboio prestes a descarrilar mas não estava disposta a viajar para a Suíça e envolver-se numa lua-de-mel antecipada.

-Princesa…preciso de ti! – Paulo suspirava.

-Paulo acalma-te. Guarda o dinheiro da viagem para comprar-mos uma televisão para a cozinha. Já até escolhi o local! Daquelas fixas na parede! – Lena procurava apelar ao sentido económico do rapaz.

-Mas a cozinha está forrada de azulejos caríssimos até ao tecto! – Paulo começava a fazer contas de cabeça.

-Sim…por isso mesmo. Vai ser necessário partir alguns e substituí-los. – Lena acrescentava, deitando lenha na fogueira. – E além disso há mais umas tantas coisas que são necessárias para casa e que teremos de comprar mal tu chegues.

-É verdade…faltam sempre coisas. Talvez esta viagem esteja fora de oportunidade.

-Claro que está! Olha… Magda está mesmo aqui comigo.

-Dormem juntas?

-No mesmo quarto…

-Eu também queria aí estar…para te abraçar. – Balbuciou Paulo.

-E vais estar… é só dares tempo ao tempo.

-Princesa…envia-me algumas fotos tuas. Tenho muitas saudades.

-Vou mandar…-Lena consentiu.

-Vou beijá-las muito…

-Um beijo. – Disse Lena, disposta a rematar a conversa.

-Diz que me amas… - O rapaz insistia.

-Paulo…sabes em quanto este telefonema me vai ficar? Balúrdios.

-Sim…claro. Tens razão. Eu depois telefono-te. Não te esqueças de me escrever e envia as fotos. Amo-te muito. Sou louco por ti. Agora desliga, não gastes mais!

Lena apertou com força o botão vermelho e respirou de alívio.

 

Os dias sem a presença de Miguel e o apoio de Mónica, tornaram-se extremamente enfadonhos e Lena não via o dia de retomar o caminho de volta a casa.

Alegando com Magda que o primo a tinha incumbido de resoluções inadiáveis, conseguiu acordar com a rapariga que regressariam a meio da semana. Aproveitou então para meditar, passando muitas horas em casa e frequentando muito menos a praia. Mesmo assim ainda tirou, junto ao mar, várias fotos que despachou para a Suíça em nome de Paulo.

Na quarta-feira ao entardecer, foi dar um último passeio à beira-mar, enquanto o restante pessoal tinha preferido ir ao Centro Comercial.

Vagueou pela praia, deixando as ondas envolverem-lhe os pés. Apanhou algumas conchas interessantes que pretendia levar de oferta a Vera e foi, por fim, sentar-se na mesma duna onde tinha assistido ao pôr-do-sol, na companhia de Miguel.

O entardecer daquele dia de Verão estava tão morno e agradável, que a rapariga deixou-se ficar por tempo indeterminado. O rumorejar das ondas, qual canção de ninar embalava-a com delicadeza e uma sensação de relaxamento e bem-estar tomou conta do seu ser. Sentia a presença e a respiração de Miguel. As suas mãos que a aconchegavam e a sua voz doce que a confortava. Se um dia pudesse mudar a sua vida, se aquele compromisso com Paulo se esfumasse, partiria em busca de Miguel. No seu peito um vazio incomodava e uma mágoa tornava-se perturbante. Não sabia porquê mas tinha a sensação que devia prolongar aquele momento e aguardar pelo ocaso do sol. Talvez Miguel se manifestasse através desse momento mágico.

A areia vibrava ao sentir-se pisada e Maria Madalena fechou os olhos para aguçar a sua sensibilidade. Havia gente na praia, embora a sua maioria, permanecesse junto ao mar. Mesmo assim qualquer um poderia passar por aquela duna. Mas este era um sítio especial, um lugar dela e de Miguel e só ele teria a permissão de pisar o solo sagrado.

Nas suas traseiras, o ruído de passos pisando a areia, estava cada vez mais vincado e Maria Madalena desejava que a qualquer momento a figura desejada de Miguel fizesse o seu aparecimento. Não sabe como reagiria mas queria muito abraçá-lo e beijá-lo. Unir-se e realizar-se nele.

Miguel estava tão perto que lhe sentia a respiração ansiosa e o corpo de Lena já reclamava o toque suave das suas mãos.

Não o afugentaria, não questionaria as suas razões, não se mostraria ofendida ou atraiçoada. Ao invés seria meiga, doce e carinhosa, saberia falar-lhe ao coração e procurar junto dele, uma rota segura.

A presença do rapaz era agora real para Lena e a rapariga estendeu a mão na esperança de sentir o toque sedoso dos dedos de Miguel.

Uma pressão violenta envolveu-lhe o pulso e uma presença importuna, impôs-se!

Lena esbugalhou os olhos e viu, sentado a seu lado, Sérgio com toda a sua insolência.

O primeiro impulso da rapariga foi levantar-se e desaparecer dali, mas a força do homem mais uma vez se afirmou.

Encostou a sua boca ao ouvido da rapariga e sussurrou:

-Finalmente tenho direito ao meu passeio ao entardecer. Está atrasada cinco dias! – Sentenciou.

-Não estou atrasada, nem adiantada, simplesmente não estou disponível para o fazer.

-Veremos. – O homem levantou-se e quase arrastou a rapariga com a sua força, exigindo que o acompanhasse.

Aprisionada pela mão forte de Sérgio que continuava a apertar-lhe o pulso com violência, Lena foi caminhando ao lado do professor.

-Para quê tanta pressão, se somos adultos e civilizados. – Quis Lena apaziguar.

O homem pareceu enlouquecido:

-Não me venha com falinhas mansas. Estou farto de me ver passado para trás. Tem um dever para comigo e vai cumpri-lo!

Lena voltou a falar com toda a delicadeza:

-E que dever é esse? Poderemos entrar num acordo.

-Sim…claro que sim é só diante do juiz, utilizar a palavra sim!

Sérgio, por incrível que lhe parecesse, estava certamente a falar em casamento.

-Saiba o senhor que casei há pouco tempo! – Atirou a rapariga como quem lança uma pedrada. E foi assim que o homem a recebeu. Deu um puxão no braço de Lena e obrigou-a a deter-se.

O seu olhar estava mesclado de desespero e ira.

-Se tal acontecimento fosse real, a sua vida ficaria nas minhas mãos!

Pela primeira vez Lena teve receio do comportamento de Sérgio. Parecia uma pessoa totalmente descontrolada, obcecada, paranóica.

-Queira libertar-me ou faço queixa às autoridades. – A rapariga jogou.

-E de que te queixarias? – Questionou com ironia.

-De perseguição, de atentado ao pudor, de violentação…-Lena vincava as palavras de forma a fazê-lo entender que estava na hora de parar.

-Se acaso o fiz, quero repará-lo. Poderás seguir comigo hoje para Vilamoura. Em vinte e quatro horas terei tudo tratado e sexta-feira, já estaremos casados.

Embora receosa Lena tinha vontade de rir. A sua situação era tão caricata que se tornava até divertida.

Olhou em redor. Poucas pessoas já permaneciam na praia e com o caminhar, Sérgio tinha-a levado para um lugar mais deserto.

-Professor, o senhor é um homem íntegro, inteligente e agradável…em tempos os nossos caminhos cruzaram-se… hoje sigo outro rumo. Lamento. Somos adultos, compreendemos que as coisas têm um princípio e um fim. O nosso relacionamento terminou. Eu casei por procuração, antes de vir para o Algarve. O meu actual marido está no estrangeiro e em breve vou juntar-me a ele.

-Claro que eu não acredito em uma única palavra do que disse. Mas saiba que o tal rapazinho vai ser posto ao corrente da situação e talvez o divórcio ocorra ao mesmo tempo do casamento.

O sol começava a perder-se no horizonte. Maria Madalena sentia-se agora extremamente melancólica. Sentia a pressão de Sérgio a magoar-lhe o pulso e a sua ameaça directa sobre a sua vontade.

-Veja…como o sol se vai tão vibrante! – Disse a rapariga com resignação.

-Lena sentemo-nos, sempre sonhei com este momento. – A voz de Sérgio era agora uma prece.

Que mais restava a Lena. Sentou-se na esperança que Sérgio afrouxasse o apertar do seu pulso.

Os vários matizes de luz vermelha pareciam afoguear e um brasido incandescente avivava ao soprar da brisa. Lena fixou a bola de fogo e esticou o indicador da mão direita.

-Veja que fenómeno extraordinário…o sol no ocaso solta raios como se estivesse a nascer!

Sérgio olhou o sol de frente e um clarão resplandecente, como um relâmpago, produziu uma faísca. O homem sentiu uma dor aguda e dilacerante. Levou as mãos aos olhos e gritou, em sofrimento:

-Estou cego, estou cego!

Lena levantou-se com rapidez e não raciocinou. Em vez disso o instinto animal comandou-a. Correu, correu muito… para longe do alcance de Sérgio.

 

 

Refugiou-se em casa, procurando esquecer aquele indesejado encontro e sem nada querer saber do seu final.

Aproveitou para emalar todos os pertences e informou Magda de que pretendia fazer a viagem de regresso, logo de manhã, pela fresca.

Dado que Pedro e as meninas, Sara e Adília, acabaram também por resolver seguir com elas, a noite de quarta-feira serviu para o grupo se despedir do Algarve.

Quando eles saíram, Lena trancou bem a porta e foi resguardar-se na sala de estar a ver televisão.

Aqueles momentos de meditação trouxeram-lhe à memória várias situações vividas durante aquelas férias, especialmente as que envolveram Miguel e as últimas passadas no “Retiro das almas”. Alguns rostos povoavam-lhe as lembranças e um deles era o de Elizabeth. Aquela fisionomia angelical, quase lhe parecia irreal. Mesmo assim, sabia que já se tinha cruzado com ela. Devia ter sido apenas num flash, porque só o brilho do olhar que parecia reflectir o céu, Lena tinha retido. Quanto às restantes feições não tinha fixado pormenores suficientes. Por outro lado, também estranhava a diferença considerável entre a idade da criança e a dos restantes irmãos.

Enfim… apenas pormenores que acentuavam o caricato da situação e não deixavam de fazer sorrir Maria Madalena. Para que quereria Elizabeth os fios do seu cabelo?

Se tivesse podido comentar algumas destas questões com Mónica, que respostas metafísicas não teria esta arranjado. Gostava de Mónica, embora ficasse melindrada com a forma como a rapariga a passava para trás. Talvez faltasse entre as duas um diálogo franco e aberto…talvez!

A mente de Lena fixou-se depois nas lembranças vivas que envolviam aquele casamento simbólico! O ritual com a lagoa das maçãs, a indumentária e especialmente aquele santuário tão idêntico à igreja do lugar da Atalaia. Parecia apenas que o espaço tinha parado no tempo, aliás como todos os seus moradores!

Os olhos azuis de Elizabeth perseguiam-na e Lena começava a ficar incomodada com essa insistência mental.

-Elizabeth…? – Lena chamou sem razão.

A televisão ligada apresentava uma série estrangeira, que a rapariga seguia sem interesse.

Não queria ser ridícula mas, naquele momento, tinha a sensação de não estar sozinha em casa!

Aumentou o volume da televisão para afugentar possíveis ruídos que a poderiam deixar alarmada e procurou fixar a atenção no enredo da história.

Era uma vulgar série de investigação onde, qualquer mente criminosa dava trabalho à polícia.

Seguiu o enredo com algum interesse e foi sossegando o espírito. Relaxou, apaziguou e procurou ocupar a mente com memórias mais comuns. Entre os olhares que deitava à série e o semicerrar dos olhos que já sentia pesados…viu surgir-lhe uma mão branca e pequenina que lhe estendia um objecto:

-A sua amiga deixou cair isto…da bolsa, quando tirou a carteira.

Lena deu um pulo no sofá.

Era Elizabeth… a miúda loura que lhe entregou o cordão que Mónica tinha perdido. Esse cordão era o amuleto de Miguel que Mónica catou entre os pastos secos da berma da estrada. Miguel tinha perdido o cordão naquele lugar! Como e porquê?

Se pudesse Lena iria de imediato ao lugar da Atalaia. Só não sabia muito bem para quê! Mais fácil seria voltar ao “Retiro” e questionar Elizabeth. Mas neste momento, pela calada da noite, tal resolução seria impossível, até para ela que não se julgava impressionável!

 

Atalaia 4 - [capitulo 17]

 

amorr no paraíso.jpg

 

Miguel apareceu com um sorriso tentador:

-Entrai agora… sem roupa! – E aproximou-se para a segurar.

Lena averiguou se estariam mesmo sozinhos e Miguel garantiu-lho.

Em breves momentos a rapariga escorregou para dentro de água. O cheiro agradável a maçã era tão intenso que Lena sentiu-se estonteada.

Miguel amparou-a e disse-lhe baixinho:

-Deveis agora escolher uma dessas maçãs e dar-ma a comer!

Lena queria rir da situação mas estava tão imersa nela que não possuía entendimento nem vontade própria.

-Qual? – Perguntou.

-Terás que ser tu a escolher.

Lena entendeu o braço e pegou numa maçã das mais tentadoras: vermelha, macia e…

Miguel recebeu-a e trincou-a:

-doce! – Murmurou.

Deu-lhe então uma segunda dentada:

-Partilhemos…

Procurou a boca de Lena e depositou-lhe parte do pedaço arrancado.

-Saboreemos juntos.

Enquanto manjavam, beijavam-se, enquanto se beijavam, deliciavam-se…

Durou segundos, aquele enlevo, até que o pequeno naco de polpa se viu transformado em sumo de beijos.

Miguel reagiu a pouco e pouco, para ciciar depois, com ardor:

-Agora que tu me tentaste e eu cedi, abracei o pecado e a luxúria e deixei-me inebriar no perfume e sabor do fruto proibido, nada já me impede que te aprecie, te toque, te penetre, te possua e atinja, na prática da lascívia sexual, o auge do prazer humano.

Maria Madalena encostou a cabeça ao peito do rapaz e repousou sobre ele. Miguel acarinhou-a.

-Minha Deusa…é preciso revigorarmo-nos, pois espera-nos uma noite arrebatadora! – Comentou com malícia. - Que dizes a umas braçadas? – Acrescentou.

Lena não se fez rogada, mergulhou e ganhou-lhe a dianteira.

-Espera trapaceira, só ganha quem conseguir mordiscar mais maçãs! – Brincou Miguel.

Lena abocanhou a primeira com o intuito de iniciar a contagem mas as maçãs escapavam-se-lhe sucessivamente sem que conseguisse ferrar-lhe o dente!

Miguel qual ser natural, sofria do mesmo problema.

Gargalhadas de divertimento ecoaram então pelo ar e neste jogo de Adão e Eva, com maçãs pelo meio, o par conheceu a verdadeira felicidade, vivida no jardim do éden!

 

Ao toque dos sinos, Miguel fez saber que estava na hora de se prepararem pois o santuário estava aberto para a cerimónia. O par abandonou a lagoa, vestindo a pouco indumentária que tinha trazido e fez o caminho de regresso à cabana.

Quando se aproximaram do lugar, Miguel informou que precisava de se deslocar à cabana central para pedir as vestes e os adornos, que faziam parte da simbologia cerimonial.

Maria Madalena só entrou em casa quando viu Miguel atravessar a ponte e desaparecer. Depois foi averiguar se havia algo que se comesse. Procurou na pequena cozinha e abriu o frigorífico. Este estava recheado de manjares e acepipes. Carnes frias, alguns salgados e vários doces. Apeteceu-lhe sentar-se e desfrutar de uma fatia de semi-frio de chocolate. Enquanto saboreava a suprema delícia, averiguou a situação em que se encontrava envolvida. Desde que chegara aquele espaço que tudo o que a rodeava, de tão perfeito e sublime, lhe parecia etéreo e irreal. Quanto mais julgava ver em Miguel, um ser humano vulgar, mais o rapaz a surpreendia com reacções e confidências fabulosas. Depois vinha ainda aquele invulgar e fictício casamento. Essa era a brincadeira que menos lhe agradava. Se Paulo viesse a sonhar com tamanha irresponsabilidade, subiria pelas paredes!

Um pequeno toque na janela das traseiras, fez Maria Madalena sobressaltar-se. Virou-se e um sorriso angelical mostrou-se para ela. Elizabeth, a miúda loura, assomava-se à janela! Lena levantou-se e abriu a vidraça:

-Olá! – Cumprimentou.

-Estais sozinha? – Indagou a rapariga.

-Miguel foi à cabana central. E tu desejas alguma coisa?

-Não…andava por aqui! – Soltou a rapariga enquanto averiguava em redor.

-Queres entrar? – Perguntou Maria Madalena.

-Não…Micha’el ficaria zangado.

-Queres bolo? – Interrogou Lena.

-Não como doces… só legumes e fruta! – A criança mantinha o olhar suspenso sobre ela, quando voltou a pedir: – Podeis dar-me um fio de vosso cabelo?

Maria Madalena esboçou um sorriso, a miúda quase que a hipnotizava, ao mesmo tempo que voltava a insistir naquele insólito pedido!

-E para que o desejas?

-Para guardar! É bonito!

-Sim…é macio e brilhante mas o teu parece ouro!

-Ireis casar-vos hoje. Eu poderia adornar a vossa coroa com esse fio de cabelo. – Adiantou a rapariga.

-Sabes que este casamento é a brincar e que os adornos, da dita coroa, não me preocupam!

-Micha’el não brinca! Faz cumprir sempre a sua vontade.

-Tu sim…deves obedecer-lhe. E olha que ele… não pareceu gostar muito dessa ideia.

O som de passos no carreiro, fizeram a rapariga saltar como uma corsa e embrenhar-se, num ápice, por entre a vegetação, desaparecendo tal como tinha surgido.

Miguel apareceu munido de algumas vestes e vários adornos. Enquanto entrava e pousava os objectos foi logo informando:

-Falta pouco mais de meia hora. Teremos que nos apressar pois a comitiva virá buscar-nos muito em breve!

Lena que retomara o manjar do semi-frio ficou com a colher suspensa à entrada da boca:

-A comitiva?! – Quase gritou.

O rapaz viu-a transtornada.

-A família de Mestre Elias acompanha-nos até ao santuário…

Maria Madalena perdeu o apetite e levantou-se para enfrentar Miguel:

-Mas tu mesmo garantis-te que não haveria ninguém! Que não passaria de uma cerimónia fictícia.

Miguel reafirmou, muito calmo:

-O que eu disse foi que não haveria nem padre, nem juiz, nem papeis…

-E que comitiva é essa, um exército de gente.

-Tens razão! Uma legião de anjos…tudo gente boa.

A rapariga atirou-se para o sofá desconsolada. Detestava a forma como as coisas estavam a evoluir:

-Miguel… estamos num lugar paradisíaco do qual podemos desfrutar. Esta cabana é um dos espaços mais românticos a que já tive acesso e tudo à sua volta é edílico e fascinante. Tudo bem se achas que devemos passar por esta ou aquela nuance, respeito as tuas necessidades e até vibro com esses jogos eróticos mas…haverá necessidade de nos sujeitarmos a um casamento, ainda que simbólico.

-A ideia assusta-te não é verdade? – O rapaz aproximou-se e olhou-a de frente.

-Tu sabes muito bem…que estou comprometida.

-Na vida real.

-Sim…na vida real.

-Mas isso não te impediu de te entregares fisicamente a Sérgio! Então porque te há-de afligir, representar figurativamente, o papel de minha esposa!

-Porque me tortura esta brutal necessidade que todos têm, de casar comigo!

O rapaz sentou-se de mansinho junto dela:

-Para mim, esta cerimónia é apenas um meio para atingir um fim! A minha condição de renegado durará apenas doze horas. Aceitando-o, teremos a possibilidade de prolongar e consumar a união física, caso contrário, devo regressar à minha categoria e abandonar o retiro de imediato.

Lena nada respondeu e fez-se um momento de suspense entre os dois. A rapariga avaliava a decisão que deveria tomar. Abandonou-se ao abraço de Miguel e este beijou-lhe a testa com ternura ao reconhecê-la vencida.

-Creio em ti!

-E fazes muito bem.

-Que é preciso que eu faça? – Perguntou.

-Que te embelezes e sejas a noiva mais linda do Olimpo. – Miguel levantou-se e estendeu-lhe um vaporoso vestido branco que parecia tecido pelas mãos de uma fada. A rapariga ficou esmagada pela excelência da veste. Era apanhado no pescoço e caía a desejo até aos pés, deixando apenas os braços a descoberto.

-Sapatos? – Perguntou a rapariga.

-Pés desnudados. - E ela consentiu com a cabeça.

Depois Miguel mostrou-lhe a graciosa coroa de flores campestres que devia usar na cabeça.

Em pouco tempo estavam prontos. Miguel trajava de cinza e azul e o modelo da sua roupa aproximava-se muito dos primitivos, uniformes militares. Levava ainda traçada pelas costas uma sublime capa de tecido dourado.

No alpendre exterior da cabana mais de uma dezena de seres, vestidos com cores claras, aguardavam-nos.

Mestre Elias aproximou-se, apresentando a esposa e a prole:

-Bethshan, minha mulher e meus filhos: Eliasar, meu filho varão, sua esposa Karhain e as duas filhas Elika e Kelia. Elíada, minha filha do meio, seu esposo Emanuel e o filho Eliel, meu terceiro filho Elohin, sua esposa Zuar e seu filho Elizur e a nossa pequena Elizabeth já vossa conhecida.

Maria Madalena estranhou todos os nomes e surpreendeu-a a parecença entre si de todas as crianças. No entanto, agradou-lhe a simpatia dos seus modos.

Miguel deu a mão à prometida e seguiram na frente da comitiva, galgando o caminho que subia e rompia o acidentado do terreno.

No cume de um monte próximo, ficava suspenso o santuário. Estava virado a ocidente e o caminho que levavam, só permitia ao viajantes, constatarem as traseiras da capela, mesmo assim, Maria Madalena, estava para jurar que as suas formas não lhe eram desconhecidas. Quanto mais se aproximavam e rodeavam a construção para alcançar a entrada principal mais a rapariga se certificava de que conhecia a estrutura. Mas foi só quando ficou de frente para ela que pode constatar essa veracidade.

-Conheço este santuário. – Parafraseou enquanto estancava à entrada do pátio.

-É o Santuário da Vigia, virgem do retiro. A estrutura é medieval, igual a tantas outras.

-É demasiado semelhante a um lugar que conheço, só que aquele está profanado e em ruínas!

Mestre Elias veio saber se havia inconveniente.

Miguel sossegou-o. Rodeou os ombros da rapariga e fê-la continuar. Maria Madalena estava amedrontada e não fosse o abraço reconfortante de Miguel ter-se-ia evadido, ladeira abaixo.

Entraram. O espaço era fresco e acolhedor e o santuário estava majestosamente ornamentado.

A comitiva ficou no exterior e a porta fechou-se, isolando o par no interior da capela. Miguel conduziu Lena até ao altar. Uma imagem de Cristo feito homem adornava a capela-mor expondo ao seu lado uma encantadora figura feminina.

-Ajoelhemo-nos…- Indicou Miguel.

A rapariga obedeceu ficando perante a mulher e o rapaz perante o homem.

-Baixai a cabeça e cerrai os olhos! – As palavras de Miguel surgiam agora aos ouvidos de Lena como uma música inebriante.

-Perguntai-me com estas minhas palavras: Miguel, feito homem, aceitas receber como tua amante, esposa e companheira, Maria Madalena aqui presente!

E o rapaz respondeu:

-Sim, aceito!

Depois foi a vez de ele questionar:

-Maria Madalena, carne da minha carne, aceitas receber como teu amante, esposo e companheiro, Miguel aqui presente!

A rapariga foi impelida a balbuciar:

-Sim, aceito!

Neste momento os sinos tocaram aleluia, aleluia! E o casamento simbólico ficou consumado!

Miguel ajudou a jovem a levantar-se e selou a união encostando os seus lábios à boca dela. Depois o casal olhou-se demoradamente e sorriu com cumplicidade.

A porta principal da igreja abriu-se de par em par e uma salva de palmas despertou-os daquele enternecimento. Caminharam pela nave da capela e a comitiva ordenou-se à entrada, formando um corredor para eles passarem. Várias pétalas de flores foram atiradas, suavemente, sobre os noivos e todos os rodearam para os felicitar. Lena, por vezes parecia-lhe que haveria de acordar daquele sonho inebriante mas olhava para o lado e via Miguel tão forte e seguro que, não lhe restavam dúvidas, quanto à realidade dos acontecimentos.

Da mesma forma que subiram a ladeira do santuário, voltaram a descê-la, de mãos dadas e seguidos pela família.

Mestre Elias comunicou que daria um beberete no pavilhão central e que seu filho Eliasar tocaria harpa para acompanhar as danças e os cantares!

Miguel fez saber à rapariga que deveriam aceitar a hospitalidade e todos juntos encaminharam-se para lá.

Uma enorme mesa estava sobrepujada de iguarias, das quais se destacavam os mais variados frutos maduros e sumarentos.

Os presentes foram-se servindo, enquanto entoavam cânticos e apresentavam danças de roda. Depois foi a vez de o par ir ao meio para dançar sozinho e a seguir ser disputado entre os vários convivas. Lena dançou com os homens da casa, incluindo os mais novinhos e Miguel rodopiou nos braços das damas e jovenzinhas.

Aproximava-se o lusco-fusco quando Miguel fez querença de se despedir, agradecendo a amabilidade.

Todos compreenderam e o casal partiu em direcção ao local onde estavam instalados.

O braço de Miguel apertava a rapariga que o tinha rodeado também pela cintura. Os passos que davam eram lentos e o caminho demorava a trilhar, pois em vários momentos, paravam para se mimarem.

Mais uma vez Miguel abriu a porta da cabana e veio buscar, ao colo, a rapariga.

-Finalmente sós! – Balbuciou o rapaz completamente transtornado pelo desejo.

Maria Madalena estava pela primeira vez, a entregar-se plenamente a alguém e no seu peito, há muito que transbordava uma onda de emoção que a fazia rodopiar. Às vezes ainda a atormentavam as impressões que acompanham a prática de acções erradas, mas estas vinham apenas em pequenos flash e duravam agora pouquíssimos instantes. Em seguida eram totalmente tragadas pelo turbilhão maravilhoso de sensações que a assolavam sempre que Miguel lhe tocava e a arrebatava.

Via-se nesse momento a desejar ter trazido algo que a deixasse ainda mais maravilhosa. Mas quem lhe diria, horas atrás, que desposaria Miguel num retiro selvagem, povoado de curiosos seres! Tempos houve em que simbolizou uma noite de núpcias, anos errantes, quando Paulo entrou no seu quarto pela calada da noite. Em nada, porém, se comparava com o temor sensual que a assolava neste preciso momento, enquanto sentia os lábios quentes de Miguel, afagarem-lhe o pescoço em generosas carícias.

-Vais ter de me ensinar todos os passos! – Sussurrava o rapaz mordiscando-lhe a orelha.

Lena sorria, pois tinha a certeza que Miguel era um mestre na arte do erotismo.

Foram-se aproximando do leito e Miguel desapertou com cadência as duas faixas de seda do vestido, que se apertavam ao pescoço de Lena. A veste deslizou pelo corpo da rapariga, desnudando-lhe os seios, o ventre, as coxas e as pernas, até esmorecer aos seus pés. Miguel contemplou-a, como se a visse pela primeira vez! Foi pousando os seus lábios sobre a pele nua, demorando-se em esmerados retoques, aqui e ali, na curva dos seios, na concavidade do umbigo…

Agora foi a vez da rapariga, retirar com quietude, o fato de Miguel e ver surgir a pouco e pouco a deslumbrante nudez do seu físico. Ela retribuiu-lhe as carícias e viu-o crescer, aumentar e descontrolar-se. Naquela digressão voluptuosa, os corpos viam-se assolados pela ânsia de se tomarem, sem entraves, nem impedimentos…

Ficava a cama a tão escassa distância e era o entrelaçar tão empolgante que demorava o seu alcance. Miguel apresou Maria Madalena sob a vontade do seu querer e como se elevasse uma pena, transportou-a e pousou-a sobre a maciez do leito. Não se debruçou de imediato sobre ela e foi iniciar a jornada de afagos pelo dedo mindinho do seu pé! Veio então, muito detalhadamente, explorando cada recanto escondido que se abria agora à sua vontade. Carícias elaboradas e infinitamente intermináveis foram repetidas até à exaustão, enquanto o corpo feminino era torturado por um frenesi incontrolável. Mesmo assim, Miguel ainda queria saborear e prolongar os momentos que antecediam a entrega e foi mais uma e outra vez, procurar avidamente os lábios da rapariga e embeber-se com volúpia na sua boca.

Os corpos agora sobrepostos, quentes e suados, anseiam juntos pela ultimação. As bocas fundem-se, as mãos tacteiam-se, os braços e as pernas apertam-se e entrelaçam-se… e numa ânsia vertiginosa, o falo de Miguel penetra o vaso íntimo de Maria Madalena. Ficam assim imóveis, na sublime uniformidade, antes que se desencadeie um arquejar conjunto, ofegante e repetitivo, que os fará atingir dimensões superiores. Os corpos esmagam-se e aliviam-se, sempre unidos pelo mesmo sentir. Ondulações cada vez mais sucessivas, arfares cada vez mais violentos, latejares cada vez mais exuberantes, revelam a explosão íntima que está prestes a acontecer. Um jorro de prazer carnal inunda o espírito e vagas de deleite fazem disparar-lhes o coração! Depois é a plenitude total, o delírio, a evasão e o regressar de mansinho, para continuarem aninhados no bem-querer deste amor!

Miguel não queria que o tempo passasse e fez prolongar a noite até ao infinito! Quando o serão já ia adiantado, o casal preparou uma agradável ceia que saborearam com gosto e regaram com um vinho especial. Entre afagos e carinhos, o par trocou também mimos verbais e Maria Madalena, viu-se a murmurar ao ouvido de Miguel, palavras de afecto que nunca nada tinham significado, no seu sentir:

-Adoro-te meu anjo…

O jovem deliciava-se e retribuía com doçura:

-Minha esposa querida!

Nessas alturas a força das palavras abalavam a estrutura emocional de Maria Madalena e uma sensação de promessa inquebrável, amedrontava-a um pouco. Depois logo vinha o alívio ao recordar-se que ela apenas duraria doze horas e desejava então, viver estas, intensamente.

Durante a noite, o par repetiu fogosamente o seu envolvimento íntimo e já a madrugada rompia, quando os corpos adormeceram e os espíritos sossegaram.

 

Maria Madalena abriu os olhos, estendeu o braço e tacteou com a mão, a presença de Miguel. Tinha adormecido entrelaçada a ele e o vazio que lhe surgiu, indicou-lhe de imediato a falta do jovem. O quarto encontrava-se na penumbra, embora alguns laivos de claridade já se denotassem pela madeira da janela. A rapariga sentou-se na cama e procurou aperceber-se do espaço e do que a rodeava. Nenhum ruído soava da casa de banho contígua e ou Miguel estava na sala de estar ou tinha-se, efectivamente, ausentado.

Ainda demorou algum tempo a raciocinar, até que um impulso a fez levantar-se. Procurou então pelas dependências mas a cabana encontrava-se vazia e acusava um silêncio sepulcral, que só os seus passos rompiam.

Dirigiu-se então à porta principal no intuito de procurar o rapaz, no exterior da casa. Rodou o batente mas esta não cedeu. Não se via a chave na fechadura mas estava trancada por ela. O coração de Maria Madalena disparou. Estava a clarear e o sistema de iluminação já não respondia às insistências de Lena que procurava insistentemente ligá-lo. Precisava de se acalmar e agir com sangue frio. Foi consultar o seu relógio e viu que eram precisamente cinco horas da manhã!

No quarto, mesmo com a visibilidade fraca, não encontrava o vestido de noiva, nem as vestes de Miguel. Também a coroa de flores tinha desaparecido.

Que lhe tinha dito Miguel? Que aquela envolvência duraria doze horas. Realmente parecia que tinha razão.

Enroscou-se no sofá da sala e aguardou…

Não sabe se hibernou, mas só despertou quando a chave rodou na fechadura.

Miguel entrou e a rapariga apressou-se a questioná-lo:

-Porque te ausentas-te tão cedo?

-Minha amiga…sabes que não posso continuar á mercê das tentações carnais. O meu tempo acabou.

A rapariga ficou oprimida e foi chegar-se a ele. Mesmo com a claridade a rarear, vislumbrou-lhe de imediato, o cordão e a medalha, presos no pescoço!

O rapaz abraçou-a de mansinho:

-Veste-te. Tenho um último desejo para concretizar a teu lado!

-Vamos sair? – Questionou Lena.

Miguel abanou a cabeça afirmativamente e Lena apressou-se a satisfazer o seu desejo.

 

Saíram da cabana e subiram o trilho que, já antes, os tinha levado ao santuário. Lena não se queria contrariar mas não lhe agradava voltar aquele lugar. Tinha receio que forças superiores manejassem o seu destino.

-Porque subimos?

-Para assistir ao nascer do sol e recordar-te que este poderia ser o momento fulcral, para iniciares uma nova vida!

Maria Madalena reconhecia o Miguel dos tempos ido e desconhecia o jovem apaixonado com quem se tinha casado ontem à tarde! Preferiu não responder.

Passaram o santuário e alcançaram, um pouco mais acima, um curioso rochedo. O rapaz deu-lhe a mão para a ajudar a escalar as pedras e atingiram o topo, precisamente, quando o sol rompia no horizonte.

Miguel rodeou-lhe os ombros e aconchegou-a levemente, beijando-a com ternura na fronte.

Os raios vibrantes do sol de Agosto vinham tão intensos que quase feriam a visão da rapariga. Miguel, porém, fixava-os frontalmente e as centelhas de luz projectavam-se sobre si, fazendo-o brilhar como uma estrela. Momentos houve em que o rapaz pareceu em transe e Maria Madalena sentiu-o evadir-se para espaços recônditos.