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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 17]

 

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Miguel apareceu com um sorriso tentador:

-Entrai agora… sem roupa! – E aproximou-se para a segurar.

Lena averiguou se estariam mesmo sozinhos e Miguel garantiu-lho.

Em breves momentos a rapariga escorregou para dentro de água. O cheiro agradável a maçã era tão intenso que Lena sentiu-se estonteada.

Miguel amparou-a e disse-lhe baixinho:

-Deveis agora escolher uma dessas maçãs e dar-ma a comer!

Lena queria rir da situação mas estava tão imersa nela que não possuía entendimento nem vontade própria.

-Qual? – Perguntou.

-Terás que ser tu a escolher.

Lena entendeu o braço e pegou numa maçã das mais tentadoras: vermelha, macia e…

Miguel recebeu-a e trincou-a:

-doce! – Murmurou.

Deu-lhe então uma segunda dentada:

-Partilhemos…

Procurou a boca de Lena e depositou-lhe parte do pedaço arrancado.

-Saboreemos juntos.

Enquanto manjavam, beijavam-se, enquanto se beijavam, deliciavam-se…

Durou segundos, aquele enlevo, até que o pequeno naco de polpa se viu transformado em sumo de beijos.

Miguel reagiu a pouco e pouco, para ciciar depois, com ardor:

-Agora que tu me tentaste e eu cedi, abracei o pecado e a luxúria e deixei-me inebriar no perfume e sabor do fruto proibido, nada já me impede que te aprecie, te toque, te penetre, te possua e atinja, na prática da lascívia sexual, o auge do prazer humano.

Maria Madalena encostou a cabeça ao peito do rapaz e repousou sobre ele. Miguel acarinhou-a.

-Minha Deusa…é preciso revigorarmo-nos, pois espera-nos uma noite arrebatadora! – Comentou com malícia. - Que dizes a umas braçadas? – Acrescentou.

Lena não se fez rogada, mergulhou e ganhou-lhe a dianteira.

-Espera trapaceira, só ganha quem conseguir mordiscar mais maçãs! – Brincou Miguel.

Lena abocanhou a primeira com o intuito de iniciar a contagem mas as maçãs escapavam-se-lhe sucessivamente sem que conseguisse ferrar-lhe o dente!

Miguel qual ser natural, sofria do mesmo problema.

Gargalhadas de divertimento ecoaram então pelo ar e neste jogo de Adão e Eva, com maçãs pelo meio, o par conheceu a verdadeira felicidade, vivida no jardim do éden!

 

Ao toque dos sinos, Miguel fez saber que estava na hora de se prepararem pois o santuário estava aberto para a cerimónia. O par abandonou a lagoa, vestindo a pouco indumentária que tinha trazido e fez o caminho de regresso à cabana.

Quando se aproximaram do lugar, Miguel informou que precisava de se deslocar à cabana central para pedir as vestes e os adornos, que faziam parte da simbologia cerimonial.

Maria Madalena só entrou em casa quando viu Miguel atravessar a ponte e desaparecer. Depois foi averiguar se havia algo que se comesse. Procurou na pequena cozinha e abriu o frigorífico. Este estava recheado de manjares e acepipes. Carnes frias, alguns salgados e vários doces. Apeteceu-lhe sentar-se e desfrutar de uma fatia de semi-frio de chocolate. Enquanto saboreava a suprema delícia, averiguou a situação em que se encontrava envolvida. Desde que chegara aquele espaço que tudo o que a rodeava, de tão perfeito e sublime, lhe parecia etéreo e irreal. Quanto mais julgava ver em Miguel, um ser humano vulgar, mais o rapaz a surpreendia com reacções e confidências fabulosas. Depois vinha ainda aquele invulgar e fictício casamento. Essa era a brincadeira que menos lhe agradava. Se Paulo viesse a sonhar com tamanha irresponsabilidade, subiria pelas paredes!

Um pequeno toque na janela das traseiras, fez Maria Madalena sobressaltar-se. Virou-se e um sorriso angelical mostrou-se para ela. Elizabeth, a miúda loura, assomava-se à janela! Lena levantou-se e abriu a vidraça:

-Olá! – Cumprimentou.

-Estais sozinha? – Indagou a rapariga.

-Miguel foi à cabana central. E tu desejas alguma coisa?

-Não…andava por aqui! – Soltou a rapariga enquanto averiguava em redor.

-Queres entrar? – Perguntou Maria Madalena.

-Não…Micha’el ficaria zangado.

-Queres bolo? – Interrogou Lena.

-Não como doces… só legumes e fruta! – A criança mantinha o olhar suspenso sobre ela, quando voltou a pedir: – Podeis dar-me um fio de vosso cabelo?

Maria Madalena esboçou um sorriso, a miúda quase que a hipnotizava, ao mesmo tempo que voltava a insistir naquele insólito pedido!

-E para que o desejas?

-Para guardar! É bonito!

-Sim…é macio e brilhante mas o teu parece ouro!

-Ireis casar-vos hoje. Eu poderia adornar a vossa coroa com esse fio de cabelo. – Adiantou a rapariga.

-Sabes que este casamento é a brincar e que os adornos, da dita coroa, não me preocupam!

-Micha’el não brinca! Faz cumprir sempre a sua vontade.

-Tu sim…deves obedecer-lhe. E olha que ele… não pareceu gostar muito dessa ideia.

O som de passos no carreiro, fizeram a rapariga saltar como uma corsa e embrenhar-se, num ápice, por entre a vegetação, desaparecendo tal como tinha surgido.

Miguel apareceu munido de algumas vestes e vários adornos. Enquanto entrava e pousava os objectos foi logo informando:

-Falta pouco mais de meia hora. Teremos que nos apressar pois a comitiva virá buscar-nos muito em breve!

Lena que retomara o manjar do semi-frio ficou com a colher suspensa à entrada da boca:

-A comitiva?! – Quase gritou.

O rapaz viu-a transtornada.

-A família de Mestre Elias acompanha-nos até ao santuário…

Maria Madalena perdeu o apetite e levantou-se para enfrentar Miguel:

-Mas tu mesmo garantis-te que não haveria ninguém! Que não passaria de uma cerimónia fictícia.

Miguel reafirmou, muito calmo:

-O que eu disse foi que não haveria nem padre, nem juiz, nem papeis…

-E que comitiva é essa, um exército de gente.

-Tens razão! Uma legião de anjos…tudo gente boa.

A rapariga atirou-se para o sofá desconsolada. Detestava a forma como as coisas estavam a evoluir:

-Miguel… estamos num lugar paradisíaco do qual podemos desfrutar. Esta cabana é um dos espaços mais românticos a que já tive acesso e tudo à sua volta é edílico e fascinante. Tudo bem se achas que devemos passar por esta ou aquela nuance, respeito as tuas necessidades e até vibro com esses jogos eróticos mas…haverá necessidade de nos sujeitarmos a um casamento, ainda que simbólico.

-A ideia assusta-te não é verdade? – O rapaz aproximou-se e olhou-a de frente.

-Tu sabes muito bem…que estou comprometida.

-Na vida real.

-Sim…na vida real.

-Mas isso não te impediu de te entregares fisicamente a Sérgio! Então porque te há-de afligir, representar figurativamente, o papel de minha esposa!

-Porque me tortura esta brutal necessidade que todos têm, de casar comigo!

O rapaz sentou-se de mansinho junto dela:

-Para mim, esta cerimónia é apenas um meio para atingir um fim! A minha condição de renegado durará apenas doze horas. Aceitando-o, teremos a possibilidade de prolongar e consumar a união física, caso contrário, devo regressar à minha categoria e abandonar o retiro de imediato.

Lena nada respondeu e fez-se um momento de suspense entre os dois. A rapariga avaliava a decisão que deveria tomar. Abandonou-se ao abraço de Miguel e este beijou-lhe a testa com ternura ao reconhecê-la vencida.

-Creio em ti!

-E fazes muito bem.

-Que é preciso que eu faça? – Perguntou.

-Que te embelezes e sejas a noiva mais linda do Olimpo. – Miguel levantou-se e estendeu-lhe um vaporoso vestido branco que parecia tecido pelas mãos de uma fada. A rapariga ficou esmagada pela excelência da veste. Era apanhado no pescoço e caía a desejo até aos pés, deixando apenas os braços a descoberto.

-Sapatos? – Perguntou a rapariga.

-Pés desnudados. - E ela consentiu com a cabeça.

Depois Miguel mostrou-lhe a graciosa coroa de flores campestres que devia usar na cabeça.

Em pouco tempo estavam prontos. Miguel trajava de cinza e azul e o modelo da sua roupa aproximava-se muito dos primitivos, uniformes militares. Levava ainda traçada pelas costas uma sublime capa de tecido dourado.

No alpendre exterior da cabana mais de uma dezena de seres, vestidos com cores claras, aguardavam-nos.

Mestre Elias aproximou-se, apresentando a esposa e a prole:

-Bethshan, minha mulher e meus filhos: Eliasar, meu filho varão, sua esposa Karhain e as duas filhas Elika e Kelia. Elíada, minha filha do meio, seu esposo Emanuel e o filho Eliel, meu terceiro filho Elohin, sua esposa Zuar e seu filho Elizur e a nossa pequena Elizabeth já vossa conhecida.

Maria Madalena estranhou todos os nomes e surpreendeu-a a parecença entre si de todas as crianças. No entanto, agradou-lhe a simpatia dos seus modos.

Miguel deu a mão à prometida e seguiram na frente da comitiva, galgando o caminho que subia e rompia o acidentado do terreno.

No cume de um monte próximo, ficava suspenso o santuário. Estava virado a ocidente e o caminho que levavam, só permitia ao viajantes, constatarem as traseiras da capela, mesmo assim, Maria Madalena, estava para jurar que as suas formas não lhe eram desconhecidas. Quanto mais se aproximavam e rodeavam a construção para alcançar a entrada principal mais a rapariga se certificava de que conhecia a estrutura. Mas foi só quando ficou de frente para ela que pode constatar essa veracidade.

-Conheço este santuário. – Parafraseou enquanto estancava à entrada do pátio.

-É o Santuário da Vigia, virgem do retiro. A estrutura é medieval, igual a tantas outras.

-É demasiado semelhante a um lugar que conheço, só que aquele está profanado e em ruínas!

Mestre Elias veio saber se havia inconveniente.

Miguel sossegou-o. Rodeou os ombros da rapariga e fê-la continuar. Maria Madalena estava amedrontada e não fosse o abraço reconfortante de Miguel ter-se-ia evadido, ladeira abaixo.

Entraram. O espaço era fresco e acolhedor e o santuário estava majestosamente ornamentado.

A comitiva ficou no exterior e a porta fechou-se, isolando o par no interior da capela. Miguel conduziu Lena até ao altar. Uma imagem de Cristo feito homem adornava a capela-mor expondo ao seu lado uma encantadora figura feminina.

-Ajoelhemo-nos…- Indicou Miguel.

A rapariga obedeceu ficando perante a mulher e o rapaz perante o homem.

-Baixai a cabeça e cerrai os olhos! – As palavras de Miguel surgiam agora aos ouvidos de Lena como uma música inebriante.

-Perguntai-me com estas minhas palavras: Miguel, feito homem, aceitas receber como tua amante, esposa e companheira, Maria Madalena aqui presente!

E o rapaz respondeu:

-Sim, aceito!

Depois foi a vez de ele questionar:

-Maria Madalena, carne da minha carne, aceitas receber como teu amante, esposo e companheiro, Miguel aqui presente!

A rapariga foi impelida a balbuciar:

-Sim, aceito!

Neste momento os sinos tocaram aleluia, aleluia! E o casamento simbólico ficou consumado!

Miguel ajudou a jovem a levantar-se e selou a união encostando os seus lábios à boca dela. Depois o casal olhou-se demoradamente e sorriu com cumplicidade.

A porta principal da igreja abriu-se de par em par e uma salva de palmas despertou-os daquele enternecimento. Caminharam pela nave da capela e a comitiva ordenou-se à entrada, formando um corredor para eles passarem. Várias pétalas de flores foram atiradas, suavemente, sobre os noivos e todos os rodearam para os felicitar. Lena, por vezes parecia-lhe que haveria de acordar daquele sonho inebriante mas olhava para o lado e via Miguel tão forte e seguro que, não lhe restavam dúvidas, quanto à realidade dos acontecimentos.

Da mesma forma que subiram a ladeira do santuário, voltaram a descê-la, de mãos dadas e seguidos pela família.

Mestre Elias comunicou que daria um beberete no pavilhão central e que seu filho Eliasar tocaria harpa para acompanhar as danças e os cantares!

Miguel fez saber à rapariga que deveriam aceitar a hospitalidade e todos juntos encaminharam-se para lá.

Uma enorme mesa estava sobrepujada de iguarias, das quais se destacavam os mais variados frutos maduros e sumarentos.

Os presentes foram-se servindo, enquanto entoavam cânticos e apresentavam danças de roda. Depois foi a vez de o par ir ao meio para dançar sozinho e a seguir ser disputado entre os vários convivas. Lena dançou com os homens da casa, incluindo os mais novinhos e Miguel rodopiou nos braços das damas e jovenzinhas.

Aproximava-se o lusco-fusco quando Miguel fez querença de se despedir, agradecendo a amabilidade.

Todos compreenderam e o casal partiu em direcção ao local onde estavam instalados.

O braço de Miguel apertava a rapariga que o tinha rodeado também pela cintura. Os passos que davam eram lentos e o caminho demorava a trilhar, pois em vários momentos, paravam para se mimarem.

Mais uma vez Miguel abriu a porta da cabana e veio buscar, ao colo, a rapariga.

-Finalmente sós! – Balbuciou o rapaz completamente transtornado pelo desejo.

Maria Madalena estava pela primeira vez, a entregar-se plenamente a alguém e no seu peito, há muito que transbordava uma onda de emoção que a fazia rodopiar. Às vezes ainda a atormentavam as impressões que acompanham a prática de acções erradas, mas estas vinham apenas em pequenos flash e duravam agora pouquíssimos instantes. Em seguida eram totalmente tragadas pelo turbilhão maravilhoso de sensações que a assolavam sempre que Miguel lhe tocava e a arrebatava.

Via-se nesse momento a desejar ter trazido algo que a deixasse ainda mais maravilhosa. Mas quem lhe diria, horas atrás, que desposaria Miguel num retiro selvagem, povoado de curiosos seres! Tempos houve em que simbolizou uma noite de núpcias, anos errantes, quando Paulo entrou no seu quarto pela calada da noite. Em nada, porém, se comparava com o temor sensual que a assolava neste preciso momento, enquanto sentia os lábios quentes de Miguel, afagarem-lhe o pescoço em generosas carícias.

-Vais ter de me ensinar todos os passos! – Sussurrava o rapaz mordiscando-lhe a orelha.

Lena sorria, pois tinha a certeza que Miguel era um mestre na arte do erotismo.

Foram-se aproximando do leito e Miguel desapertou com cadência as duas faixas de seda do vestido, que se apertavam ao pescoço de Lena. A veste deslizou pelo corpo da rapariga, desnudando-lhe os seios, o ventre, as coxas e as pernas, até esmorecer aos seus pés. Miguel contemplou-a, como se a visse pela primeira vez! Foi pousando os seus lábios sobre a pele nua, demorando-se em esmerados retoques, aqui e ali, na curva dos seios, na concavidade do umbigo…

Agora foi a vez da rapariga, retirar com quietude, o fato de Miguel e ver surgir a pouco e pouco a deslumbrante nudez do seu físico. Ela retribuiu-lhe as carícias e viu-o crescer, aumentar e descontrolar-se. Naquela digressão voluptuosa, os corpos viam-se assolados pela ânsia de se tomarem, sem entraves, nem impedimentos…

Ficava a cama a tão escassa distância e era o entrelaçar tão empolgante que demorava o seu alcance. Miguel apresou Maria Madalena sob a vontade do seu querer e como se elevasse uma pena, transportou-a e pousou-a sobre a maciez do leito. Não se debruçou de imediato sobre ela e foi iniciar a jornada de afagos pelo dedo mindinho do seu pé! Veio então, muito detalhadamente, explorando cada recanto escondido que se abria agora à sua vontade. Carícias elaboradas e infinitamente intermináveis foram repetidas até à exaustão, enquanto o corpo feminino era torturado por um frenesi incontrolável. Mesmo assim, Miguel ainda queria saborear e prolongar os momentos que antecediam a entrega e foi mais uma e outra vez, procurar avidamente os lábios da rapariga e embeber-se com volúpia na sua boca.

Os corpos agora sobrepostos, quentes e suados, anseiam juntos pela ultimação. As bocas fundem-se, as mãos tacteiam-se, os braços e as pernas apertam-se e entrelaçam-se… e numa ânsia vertiginosa, o falo de Miguel penetra o vaso íntimo de Maria Madalena. Ficam assim imóveis, na sublime uniformidade, antes que se desencadeie um arquejar conjunto, ofegante e repetitivo, que os fará atingir dimensões superiores. Os corpos esmagam-se e aliviam-se, sempre unidos pelo mesmo sentir. Ondulações cada vez mais sucessivas, arfares cada vez mais violentos, latejares cada vez mais exuberantes, revelam a explosão íntima que está prestes a acontecer. Um jorro de prazer carnal inunda o espírito e vagas de deleite fazem disparar-lhes o coração! Depois é a plenitude total, o delírio, a evasão e o regressar de mansinho, para continuarem aninhados no bem-querer deste amor!

Miguel não queria que o tempo passasse e fez prolongar a noite até ao infinito! Quando o serão já ia adiantado, o casal preparou uma agradável ceia que saborearam com gosto e regaram com um vinho especial. Entre afagos e carinhos, o par trocou também mimos verbais e Maria Madalena, viu-se a murmurar ao ouvido de Miguel, palavras de afecto que nunca nada tinham significado, no seu sentir:

-Adoro-te meu anjo…

O jovem deliciava-se e retribuía com doçura:

-Minha esposa querida!

Nessas alturas a força das palavras abalavam a estrutura emocional de Maria Madalena e uma sensação de promessa inquebrável, amedrontava-a um pouco. Depois logo vinha o alívio ao recordar-se que ela apenas duraria doze horas e desejava então, viver estas, intensamente.

Durante a noite, o par repetiu fogosamente o seu envolvimento íntimo e já a madrugada rompia, quando os corpos adormeceram e os espíritos sossegaram.

 

Maria Madalena abriu os olhos, estendeu o braço e tacteou com a mão, a presença de Miguel. Tinha adormecido entrelaçada a ele e o vazio que lhe surgiu, indicou-lhe de imediato a falta do jovem. O quarto encontrava-se na penumbra, embora alguns laivos de claridade já se denotassem pela madeira da janela. A rapariga sentou-se na cama e procurou aperceber-se do espaço e do que a rodeava. Nenhum ruído soava da casa de banho contígua e ou Miguel estava na sala de estar ou tinha-se, efectivamente, ausentado.

Ainda demorou algum tempo a raciocinar, até que um impulso a fez levantar-se. Procurou então pelas dependências mas a cabana encontrava-se vazia e acusava um silêncio sepulcral, que só os seus passos rompiam.

Dirigiu-se então à porta principal no intuito de procurar o rapaz, no exterior da casa. Rodou o batente mas esta não cedeu. Não se via a chave na fechadura mas estava trancada por ela. O coração de Maria Madalena disparou. Estava a clarear e o sistema de iluminação já não respondia às insistências de Lena que procurava insistentemente ligá-lo. Precisava de se acalmar e agir com sangue frio. Foi consultar o seu relógio e viu que eram precisamente cinco horas da manhã!

No quarto, mesmo com a visibilidade fraca, não encontrava o vestido de noiva, nem as vestes de Miguel. Também a coroa de flores tinha desaparecido.

Que lhe tinha dito Miguel? Que aquela envolvência duraria doze horas. Realmente parecia que tinha razão.

Enroscou-se no sofá da sala e aguardou…

Não sabe se hibernou, mas só despertou quando a chave rodou na fechadura.

Miguel entrou e a rapariga apressou-se a questioná-lo:

-Porque te ausentas-te tão cedo?

-Minha amiga…sabes que não posso continuar á mercê das tentações carnais. O meu tempo acabou.

A rapariga ficou oprimida e foi chegar-se a ele. Mesmo com a claridade a rarear, vislumbrou-lhe de imediato, o cordão e a medalha, presos no pescoço!

O rapaz abraçou-a de mansinho:

-Veste-te. Tenho um último desejo para concretizar a teu lado!

-Vamos sair? – Questionou Lena.

Miguel abanou a cabeça afirmativamente e Lena apressou-se a satisfazer o seu desejo.

 

Saíram da cabana e subiram o trilho que, já antes, os tinha levado ao santuário. Lena não se queria contrariar mas não lhe agradava voltar aquele lugar. Tinha receio que forças superiores manejassem o seu destino.

-Porque subimos?

-Para assistir ao nascer do sol e recordar-te que este poderia ser o momento fulcral, para iniciares uma nova vida!

Maria Madalena reconhecia o Miguel dos tempos ido e desconhecia o jovem apaixonado com quem se tinha casado ontem à tarde! Preferiu não responder.

Passaram o santuário e alcançaram, um pouco mais acima, um curioso rochedo. O rapaz deu-lhe a mão para a ajudar a escalar as pedras e atingiram o topo, precisamente, quando o sol rompia no horizonte.

Miguel rodeou-lhe os ombros e aconchegou-a levemente, beijando-a com ternura na fronte.

Os raios vibrantes do sol de Agosto vinham tão intensos que quase feriam a visão da rapariga. Miguel, porém, fixava-os frontalmente e as centelhas de luz projectavam-se sobre si, fazendo-o brilhar como uma estrela. Momentos houve em que o rapaz pareceu em transe e Maria Madalena sentiu-o evadir-se para espaços recônditos.