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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capítulo 8]

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O “Jipe” colado ao “Opel Corsa” não deixava fuga à condutora, empurrando-a pela estrada fora, em direcção ao lugar da Atalaia. Pelo espelho retrovisor, ainda que com algum receio, a rapariga procurava visionar o condutor na esperança de o reconhecer, no entanto, os vidros esfumados, impenetráveis, impossibilitavam-lhe qualquer visibilidade. Desesperava por não ver fuga possível. Naquelas circunstâncias seguiria até Monte-do-Trigo e retomaria o IP2, voltando ao mesmo trajecto.

Entrava, agora, no terreiro entre a igreja e a escola. Alargando-se o espaço, o “Jipe” ultrapassou-a velozmente e voltou a atravessar-se na estrada. O “Opel Corsa” viu-se obrigado a travar a fundo, parando-se o motor pela violência da manobra. A porta do “Jipe” abriu-se e no entardecer profundo a figura conhecida de Sérgio fez a sua aparição!

Maria Madalena ficou boquiaberta. O homem não lhe deu tempo e ele próprio a arrancou de dentro do carro e a envolveu violentamente num abraço apertado. Em desejo ardente o homem procurou avidamente a boca da rapariga e em afagos demorados, profundos e envolventes, explorou-lhe saudosamente o corpo jovem. Pressionada contra a porta, acabada de fechar, Maria Madalena foi perdendo a noção da realidade. Decorreu o tempo até que o homem, numa pausa forçada, se inclinou ligeiramente segurando-a pela cintura e elevando-lhe as duas pernas sobre o seu braço direito. Transportou-a, depois, ao colo para o “Jipe”e sentou-a sobre o banco de couro ao lado do condutor. Com o comando automático trancou o “todo o terreno” e dirigiu-se ao “Opel Corsa”. Ligou a chave e retirou-o da estrada, deixando a passagem livre. Entrou no “Jipe”, jogou a chaves do “Opel” sobre o “tablier” e iniciando a marcha do seu próprio veículo galgou a irregularidade do terreno que envolvia a igreja escondendo o “Jipe” no espaço ladeado entre as paredes do edifício sagrado e os muros do cemitério. Depois respirou fundo e amiudou profundamente a rapariga. O vestido florido em tecido fino deixava transparecer as formas e as emoções. Maria Madalena tremia num misto de prazer e sofrimento.

-Quanto tempo...minha doce jovenzinha. A voz de Sérgio voltava rouca e sensual. A sua tez, tocada pelo sol do Verão, apresentava um ar saudável e cuidado. Os cabelos recentemente aparados estavam perfeitamente moldados, soltando deles um odor refinado que impregnava o espaço. As feições maduras rejubilavam na presença da rapariga e na profundeza dos seus olhos negros, era a figura dela que cintilava.

No cair da tarde, encerrada no espaço automóvel cheirando a novo e fortemente marcado pela presença masculina, Maria Madalena viu-se condenada. Foi com dificuldade que falou:

-Professor...

-Não, não...nada disso. O homem aproximou-se, ficando quase sentado sobre si. Depois ajeitou-lhe o rosto para que ficasse de frente para ele.

-Porque não aprecia-mos juntos, o pôr-do-sol. Veja... como se vai tão magnífico! Juntos...-abraçou a rapariga – poderemos ser tão felizes.

Maria Madalena não acreditava na felicidade. Muito menos ao lado de Sérgio. Não lhe interessava envolver-se de novo com ele. Era a figura de Miguel que acalentava agora nos seus sonhos. Era aquela envolvência, sentida no coração quando estavam juntos, que tornavam as emoções diferentes. Não físicas e sensuais como acontecia com Sérgio. Não cansativas e torturantes como aconteciam com Paulo mas deleitosas e tranquilas, suaves e permanentes. Sentiu um aperto envolvendo-lhe o peito. Miguel, quanto era difícil manterem-se juntos e entenderem-se. Parecia que estavam em dimensões diferentes.

O contacto físico do homem voltou a pressionar a rapariga. Escondia-se o sol a passos largos e Maria Madalena recusava entrar na noite, naquele lugar, com Sérgio a seu lado.

-Sérgio peço-lhe desculpa por todas as minhas leviandades. Estou arrependida e sei o quanto o posso ter prejudicado. Peço desculpa e desejo que me esqueça, faça a sua vida e deixe-me seguir a minha.

-Conheço tudo sobre a tua vida. - Os olhos de Sérgio brilhavam, reflectindo como fogueira acesa o vermelho intenso do pôr-do-sol. Um sorriso trocista marcava a ironia das suas palavras. - Sei onde moras, quem são os teus pais e já apreciei a tua nova mansão! Dou-te tudo em dobro! - As últimas palavras foram quase um grito de desespero e o homem transtornou-se. Voltou a apertar a rapariga sob o seu corpo, crescendo em desejo incontrolável.

-Dou-te o que me pedires...-sussurrava.

-Não quero nada! - Debatia-se.

Subia o vestido, desnudando as pernas. Descia o vestido, desnudando os ombros. Escusava-se a rapariga sobre o couro quente do assento, apertada e comprimida contra as formas interiores da porta. Descia o vestido. Cobria os ombros. Em vão. O turbilhão descontrolado das emoções masculinas não lhe deixava qualquer fuga. O homem galgou o espaço que dividia os dois assentos e sem tempo, recostou o lugar onde estava Lena, ficando a rapariga à sua inteira mercê!

Por estranho, não se debruçou de imediato sobre o corpo feminino, antes procurou desorientado qualquer objecto no interior do “tablier”. Achou e pegou, apressou-se então a colocar. Segurou a mão da rapariga e esticou-lhe o dedo anelar. A claridade do entardecer iluminava o recinto fechado do veículo. Mesmo à sombra das paredes da igreja os vidros brilhavam, os cromados luziam e a jóia ofuscava. A luz do dia fazia brilhar agora o anel que antes o escuro da noite ocultou. Era uma peça de extrema beleza! Uma pérola central, rodeada de quatro pequenos diamantes. Maria Madalena sentiu o objecto cingir-lhe o dedo com tal força como se a quisesse reter para sempre. O seu brilho incendiava-lhe a alma, consumindo-a por dentro. A sua beleza simbolizava ironicamente a sua própria leviandade. Também os atributos físicos de Sérgio ditaram a cruzada irreflectida em que se lançou para ganhar o seu interesse. Agora, parece, tinha-o em demasia.

A voz do homem agravou o tormento em que a rapariga se debatia.

-Com este anel, oficializo a nossa união. Agora podes ser minha!

E mais não disse. A sua força sobrepôs-se às palavras e foi a linguagem do corpo que ditou as sensações. A princípio Lena debateu-se, depois resignou-se e no clímax do momento entregou-se. Se houvesse um modelo divino de união carnal, ela e Sérgio seriam o arquétipo!

 

Quando o fulgor da paixão se esfumou o homem recostou-se no seu assento, tal qual rei vitorioso a saborear o troféu conseguido! Maria Madalena, caída em tentação e por momentos ignorada, engendrava com urgência um plano que a safasse de Sérgio, da noite e do lugar. Na tranquilidade do momento o homem abrira os vidros para circular o ar e descuidara o guardar da rapariga. Esta, por sua vez, fixava insistentemente a chave do seu automóvel jogada à pressa sobre o “tablier” e esquematizava mentalmente, modos de agir: primeiro agarrar a chave, depois pressionar com rapidez o puxador procurando abrir a porta. Quando o conseguiu, pulou de imediato para o exterior e num movimento brusco livrou-se do anel atirando-o com violência contra o homem sentado. Não esperou para ver a reacção deste e correu velozmente, procurando refugiar-se no carro. Trancou-se lá dentro na esperança de que Sérgio não a alcançasse, apressando-se a desaparecer dali. Angustiada a rapariga receava que o homem, ferido na sua vontade, a voltasse a seguir, já que ele próprio lhe assegurara conhecer todos os seus passos. Enquanto descia a estrada recta e estreita procurava, através do espelho retrovisor, certificar-se dos movimentos de Sérgio.

Alguns minutos depois o “Jipe” abandonou com velocidade, o lugar da Atalaia em sentido contrário ao seu e na direcção Monte-do-Trigo/Évora.

Maria Madalena viu-se sozinha no anoitecer e era agora a viagem o que mais receava! Continuava o carro a rolar pela descida pouco pronunciada, avançando vários metros, sempre em linha recta.

Seguia a rapariga no interior do carro, apreensiva pela sequência das situações, cada uma mais estranha que a outra. Os faróis do veículo, ligados no máximo, deixavam antever alguns metros do trajecto. Á direita um canavial e restos do que fora uma horta. Á esquerda o apartar de um curto caminho em terra batida, conduzindo a outro monte agrícola também ele parecendo abandonado. Por momentos desviou o olhar para as construções baixas e quase ocultas. Nunca sentira curiosidade de as conhecer e mesmo, na claridade do dia, nunca se interessara pela sua existência. A noite parecia agora avivar espaços que a luz do dia escamoteara. Aliviada da pressão de Sérgio, querendo mais esquecê-lo do que recordá-lo exigia à sua mente que não se ocupasse da sua figura, das suas palavras ou dos seus actos. Apenas o físico teimava em sentir.

Distraída sentiu também o carro bater! Um choque pequeno sobre qualquer obstáculo. Travou a fundo e interrompeu a marcha. Olhou e não viu nada.

A estrada desenrolava-se estéril, no entanto, tinha a certeza de ter embatido sobre qualquer coisa. Avaliou os riscos de se apear. Ali, no descampado, sob a noite recente. Ainda o lusco-fusco permanecia, ainda as formas eram perceptíveis se os olhos se desviassem da claridade das luzes e procurassem no escuro a verdade das coisas. Apeou-se, mantendo no entanto, o motor ligado e as luzes acesas. Assim que colocou os pés no chão ouviu logo um pequeno gemido.

Um magnífico cachorrinho, peludo e branco como a neve, suplicava socorro. O carro tinha-o ferido numa das patas traseiras e o animal ao ver a rapariga, começou a tecer um rol de ganidos. Maria Madalena sentiu-se desesperada. Tinha magoado o animal. Pegou-lhe ao colo e viu que só alguém com experiência poderia remediar o seu sofrimento. Viu-se a si mesma impotente e decidiu recolher o cachorro ao interior do carro e transportá-lo consigo para casa. No pescoço do animal uma coleira fina de couro mostrava aplicada uma pequena chapa com os dizeres “Rex”.

-Rex!... Rex!...- foram os gritos que se ouviram na noite e uma luz redonda movia-se caminho abaixo, vinda do monte que ficava ao lado da estrada. A luz incidia sobre o veículo, sobre a rapariga e o animal. Quem se ocultava por detrás da luz era ainda difícil de visualizar. Maria Madalena esperou que o dono da voz reclamasse o cão e preparou-se para a reacção pouco cordial que o mesmo viesse a ter.

-Senhor...peço desculpa. Sem querer magoei o seu cão.

-Não sabe por onde anda? - A voz era rude e as palavras pronunciadas com brusquidão. As feições porém continuavam ainda ocultas porque a claridade forte da lanterna encandeava o olhar da rapariga. A presença escura, no entanto, era ameaçadora.

-Foi sem intenção...nem me apercebi de onde ele apareceu! - A rapariga estendeu os braços e entregou o animal ferido ao homem que naquele momento baixou a luz que transportava, ficando ele próprio iluminado pelos faróis do carro. Uma figura masculina, magra, mediana na altura e na idade, cabelo curto, quase rente, rosto cuidado mas de traços tensos e pronunciados. Lábios grossos e salientes e olhos mortiços, cansados e sem brilho, mesmo perante a vivacidade da luz, de um verde apagado e bacento.

-Tem a perna partida. - O homem sentenciou – mulheres ao volante. - Resmungou entre dentes enquanto se dobrava com o cão no colo, avaliando os estragos.

-Sabe quanto custa um cão destes? - Os olhos incendiaram-se de cólera. Maria Madalena temeu a figura que lhe parecia fora de si. Depois resolveu agir com determinação.

-Já pedi desculpa. Se não tem carro dou-lhe boleia e vamos com o animal ao veterinário. Mais não posso fazer. - A rapariga impôs-se. - Não precisa de ser desagradável. Isto pode acontecer a qualquer um.

-A qualquer um...não. A qualquer um que seja irresponsável!

A rapariga não respondeu, seriamente contrariada. O homem continuava a mostrar-se pouco cordial e ela desejava remediar o incidente e retomar a viagem.

O pequeno cão de raça, certamente aparentado ao lobo, continuava a reclamar a atenção do dono e a olhar amedrontado a rapariga. Enquanto isso o homem verificava a pata do animal, revendo o diagnóstico.

-Pode ser só dorido. Afinal ele até a dobra. Mesmo assim, só ficarei descansado se consultar um especialista. - Falava como se estivesse sozinho e a rapariga não contasse para nada.

-Se quiser...podemos ir a Portel. A esta hora é que...não sei! - A rapariga procurava ser prestável e o homem dignou-se então a olhar para ela, fixando-a com frieza e desinteresse.

-Claro que a esta hora é impossível. Quem é que me vai atender....e em Portel há veterinário?

A rapariga encolheu os ombros em sinal de desconhecimento.

-Claro que não há. Continuamos atrasados. - O homem voltava a mostrar-se azedo – amanhã iremos a Évora, meu pequenino. - Agora o tom da voz soava mais ameno dirigindo-se ao animal enquanto lhe afagava a cabeça e o tronco peludo.

-Sendo assim...apresento mais uma vez as minhas desculpas e retomo caminho. - Maria Madalena falava para o homem enquanto dava alguns passos na direcção do veículo.

-E quem vai pagar as despesas do tratamento? - O homem era verdadeiramente indelicado, insuportável até.

-Queira apresentar contas. - A rapariga desafiou-o.

Foi nessa altura que o homem começou a rir, como se troçasse dela, como se a estivesse a diminuir.

-Não seja tola...não preciso do seu dinheiro. -estendeu a mão - Engenheiro Costa e Miranda, muito prazer.

Lena ficou um pouco desorientada, sem saber se haveria de retribuir o cumprimento. Não tinha simpatizado com o desconhecido e estava até irritada com a sua presunção. Por outro lado sentia uma pressão violenta sobre o peito, sobre a zona do pescoço, como se estivesse a queimar, a sufocar. Levou a mão ao peito e tocou no fino cordão que trazia pendurado. Escorregou os dedos até sentir a medalha. Ao toque retraiu-se imediatamente, porque a dor sentida na ponta dos dedos foi aguda e dilacerante. A medalha incendiava!

Viu o homem estranhar o seu comportamento, enquanto mantinha a mão direita estendida.

A rapariga recompôs-se e reagiu.

-Isabel...prazer. - agora foi a vez do homem se retrair e encolher a mão evitando assim tocar a rapariga. Depois, quase temeroso, segurou o cão com força e voltou a ligar a lanterna.

-Bem... sigo viagem. - Voltou-se e encaminhou-se para o monte.

Maria Madalena não esperou mais surpresas. Entrou no carro, cujo indicador de temperatura tocava já o vermelho e apressou-se a retomar a viagem.

Circulou um ou dois quilómetros, sobre a estrada estreita e plana.

Em determinada altura começou a ver incidir sobre o espelho retrovisor os faróis de um outro veículo. Quando se aproximava do cruzamento já o segundo veículo se colara ao seu. Virou à direita e avagou. Estava determinada a saber de quem se tratava.

O “Jipe” potente, de cromados brilhantes, virou à esquerda. Reconheceu imediatamente o modelo e estarreceu!

Jurava, no entanto, ter visualizado o focinho branco de um animal encostado à janela contrária ao banco do condutor!

 

 

Atalaia 4 [capitulo 7]

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Mal entrou em casa viu no corredor, prontas para carregar, as três malas do enxoval! Os lençóis bordados, as colchas de renda, os jogos de banho, as toalhas, etc., etc., etc. Sobre elas e em fila no chão, várias caixas de papelão: serviços de louça, cristais e talheres, adereços de decoração, quadros, candeeiros, sacos com edredons, reposteiros, naperons, etc., etc., etc.

Faltavam ainda cinco minutos para as oito da noite. Não esperou a chamada de Paulo. Foi ela quem lhe ligou!

Durante mais de uma semana voltou a vida ao normal, procurando fazer segredo sobre a necessidade de voltar a Évora. Um teste exigia ainda a sua presença. Faltavam dois dias para Julho terminar, o penúltimo era a data do exame. Há alguns dias, especialmente desde que encontrara Pedro Dias, que a ideia das férias no Algarve se misturava agradavelmente com a contrariedade dos afazeres obrigatórios na casa, mas procurava ignorá-la ou remetê-la para segundo plano, na preocupação de evitar desconfianças por parte de Magda e D. Olívia. As razões do segredo imperavam. Temia que Paulo a surpreendesse com perguntas incómodas sobre certos comportamentos, alertado pelas queixas da mãe, mas não! Nada.

Descansou.

Fez o exame sem preocupações. Temia, no entanto, outras surpresas e por isso mal terminou, correu ao carro e apressou-se a abandonar a cidade. Respirou de alívio quando tomou a direcção Évora - Portalegre!

Não conseguindo contactar Mónica estava determinada em fazer-lhe uma visita.

Era mais ou menos hora do almoço quando o automóvel parou em frente à casa de Mónica. Uma rua larga, ladeada de pequenos edifícios tradicionais de rés-do-chão, porta ao centro, uma janela de cada lado, pintados de branco, azul forte ou amarelo ocre.

Bateu. O postigo estava aberto. Costume ingénuo dos alentejanos. Abrir-se, dar-se aos outros! Não entrou e sentiu o arrojar de uns pés pelo corredor. Era a avó Bia. Conhecera-a na manhã apressada em que abandonou a casa da amiga depois de lá se ter refugiado amedrontada numa noite de Abril.

A velha não a reconheceu por isso meteu, apenas, a cabeça pelo postigo sem abrir a porta.

-A Mónica está? Sou eu a Lena, uma amiga. Já cá estive, avó Bia.

A velha era surda por isso esticou o pescoço e Lena aproximou-se dela.

-A Lena. Uma amiga da Mónica. Ela está?

A mulher olhou para o cimo da rua, indicando com a cabeça.

-Foi com uns amigos, três rapazes... – desaprovou – à loja comprar coisas para o almoço.

Depois desviou-se e abriu a porta.

-Entre. Deixe cá ver... - amiudou. - É a rapariga da noite!

Maria Madalena sentiu-se mal. Pareceu-lhe sentir nas palavras da velha alguma intenção de reparo. Não respondeu.

-Já a reconheci. Venha aqui para a cozinha que está mais fresco. Não tem janelas.

Apercebeu-se que a mulher estava sozinha. Onde estariam os pais de Mónica?

A velha pareceu ouvir:

-A minha filha e o marido foram a Vendas Novas, visitar o filho. O único irmão da Mónica, o Agostinho... - a velha avançava pelo corredor. A casa era de traçado antigo mas este tinha sido alterado por sucessivas remodelações.

-Sente-se aí. - Indicou-lhe uma cadeira pequena, antiga, de buínho, daquelas que em sua casa servem para sentar à chaminé.

Maria Madalena acomodou-se, sentada em frente da avó, esperando que a neta regressasse. Ela ficaria surpresa!

-Então... não é você que está para casar?

Os olhos da velha, de um cinza claro, cansados pelo tempo, fixavam-se nela.

Certamente Mónica tinha dado com a língua nos dentes.

-Não tenha receio...um bom marido é um companheiro. O meu morreu há vinte anos, nunca mais o esqueci. Olhe...-levantou-se muito a custo. - Quer ver? - Dirigiu-se ao quarto, arrastando-se mais uma vez em passos doridos. Voltou com uma moldura nas mãos.

-O meu Inácio. Quando assentou praça.

A imagem, desbotada e gasta, reflectia um belo rapaz. Cabelo rapado, pequeno bigode, apertado entre a farda deselegante do exército.

-Era tão bonito...-a velha embevecia.

Coitada. Tinha construído a sua vida, amparada no pilar masculino. Não conhecera outro. Sentia-lhe a falta. Ser eternamente viúva era uma condição e um estado de espírito.

Maria Madalena recusava uma velhice onde mostrasse com orgulho, fotografias de Paulo. E de quem, então?

Sorriu para a velhota e esta regressou ao quarto, guardando o tesouro sobre a cabeceira do leito de sonhos.

Impacientava-a a demora de Mónica.

-Não deve tardar. Eles combinaram almoçar no alpendre. Já têm a mesa posta. - A velha informava de volta à cozinha.

A rapariga abanou a cabeça em sinal de compreensão. Depois esperou. A velha sentou-se e também esperou. Durante algum tempo fez-se silêncio. Maria Madalena observou a cozinha. Paredes altas, tecto em escorrente, pintada a duas cores. Do chão ao meio, branco. Do meio ao tecto, azul. Só a antiga chaminé tinha sido revestida de azulejos azuis. Por sobre o friso, uma carreira de objectos artesanais de pequenas dimensões, em barro e cortiça, enfeitavam o espaço.

A velha calada, parecia dormitar.

-Deito-me sempre um pouquinho mas mais tarde....aí pelas quatro da tarde.

A rapariga voltou a sorrir, consultando o relógio: 13 horas e 20 minutos.

-Está com pressa? Está longe de casa, não é verdade? Não se apoquente que não demoram!

Passos soaram na rua e a porta abriu-se através do postigo.

Lena levantou-se. A cozinha não tinha porta era o desembocar natural do corredor.

Mónica surgiu primeiro e num primeiro impulso ficou surpresa, depois reagiu:

-Lenita...meu Deus! Já cá estás...! - E as raparigas abraçaram-se ruidosamente, pulando e rindo de felicidade. Não teve necessidade de procurar mais ninguém, por entre o abraço apertado de Mónica, Lena reconheceu, de imediato, três enternecedoras figuras: Rafael! Gabriel e Miguel! Não resistiu, desapertou-se de Mónica e correu desenfreadamente para eles. Abraçou e beijou Miguel com carinho. Saudou com dois beijos na face Gabriel e apertou carinhosamente as mãos de Rafael. Não cabia em si de contentamento. Como era possível estarem todos juntos?

A velha levantou-se, aquela agitação era demais para ela, depois, moças casadoiras a doidivar com rapazes só poderia dar em desgraça!

Mónica apressou-se a falar para os amigos:

-Vou pôr as pizas no forno e temperar a salada. Podem seguir para o alpendre.

Maria Madalena procurou Miguel. Sorriu-lhe e deu-lhe o braço. Avançaram, enquanto Rafael e Gabriel seguiram atrás. Enquanto isso, a avó Bia retirava-se vagarosamente para o seu quarto.

Sentada ao lado de Miguel, de frente para Rafael e com Gabriel à sua direita, Maria Madalena sentia um desejo incontrolável de encetar um interrogatório aprofundado e moroso sobre as razões deste inesperado reencontro. Foi o olhar de Rafael que a fez retrair-se. Pois bem aceitaria a sugestão e esperaria calmamente pelas explicações deles. Esperava, no entanto, que não demorassem.

Foi Miguel quem quebrou o silêncio.

-Então...essas férias estão certas? - Maria Madalena voltou a rejubilar.

-Foi por isso mesmo que cá vim. Ninguém me contacta. Os poucos números de telemóvel que tenho estão inacessíveis.

-Pequenos contratempos. O meu cedi-o a meu pai, enquanto esteve hospitalizado e depois acabei por lho dar. - Miguel respondeu.

Maria Madalena lembrou-se de perguntar sobre as melhoras do pai, situação que impedira Miguel de confirmar as férias.

-Está um pouco melhor, mas ainda debilitado para retomar a actividade. Enquanto isso eu e eles vamos dando conta do recado.

Lena entristeceu.

-Assim não poderás ir? - Olhou o amigo com desespero.

O rapaz desviou o olhar.

-Ainda faltam alguns dias. Pode ser que a situação melhore.

Mónica saiu de casa com as pizas na mão e os rapazes apressaram-se a ajudá-la.

-Então Lenita...eles já te disseram que vieram cá para saber das férias. Foi uma surpresa também para mim. - A rapariga vincava as palavras como se quisesse convencer a amiga de que não havia outras razões que explicassem a presença dos rapazes em sua casa.

Rafael, de frente para ela pareceu-lhe, incomodado!

-Está tanto calor... - o rapaz levantou-se, enquanto arejava o pescoço, sacudindo o colarinho da camisa. Lena seguia-o com o olhar. Não sabia porquê mas sentia que Rafael tinha algo a dizer-lhe. O rapaz avançou para a sombra da laranjeira, uma das três, plantadas no quintal. De costas para a mesa, voltou a levar as mãos ao pescoço. Dele retirou um pequeno cordão que guardou apressado no bolso das calças!

Atraída pelos movimentos de Rafael, Lena descuidara o restante grupo. Mónica insistia para se manterem sentados que ela colocaria tudo sobre a mesa. Gabriel não consentindo acompanhava-a nas suas viagens ao interior da casa. Maria Madalena, de repente, lembrou-se que Gabriel era um óptimo partido para Mónica. Haveria de espicaçar a amiga sobre este possível romance!

Voltou a fixar a atenção em Miguel. Aproveitando a posição do seu braço direito, pousado sobre a perna, pegou-lhe na mão, ocultada pelo cair da toalha. O rapaz viu-se estremecer. Maria Madalena sentiu-se agradada. Depois foi Miguel que lhe envolveu a mão esquerda numa carícia profunda. Ficaram assim, parados no tempo. Alheios ao mundo que os rodeava. Pequenos afagos em olhares intensos. No castanho de Miguel, o castanho de Lena, fundia-se.

Foram obrigados a comer, sacudidos pelas ordens de Mónica que os ameaçava por as pizas já estarem a esfriar. Voltaram as mãos à sua função normal, trabalhar para o corpo, mas Lena preferia que continuassem a alimentar-lhe o coração.

Durante a refeição as amigas, empenhadas em envolver os rapazes naquela decisão de partir para o Algarve na segunda quinzena de Agosto, dispuseram-se a traçar um plano que não deixasse nada ao acaso. O grupo de amigos: quatro raparigas e quatro rapazes alugariam um apartamento T3, em Albufeira. Os contactos já Mónica os tinha, cedidos pelo irmão que durante anos fazia daquelas paragens, local de férias.

Ainda reticentes, os três irmãos alertaram para a incerteza de virem a integrar o grupo, atendendo às suas dificuldades de ordem particular mas as raparigas nem quiseram saber.

-Recusamos desistências.

Os rapazes riram, enquanto ajudavam a levantar a mesa e a lavar a louça. Depois combinaram ir beber café. Miguel, no entanto, falou para Lena, quase em sussurro:

-Como daqui a pouco teremos que partir, pedia-te que ficasses agora comigo...

Lena olhou Mónica, procurando a compreensão da amiga. Esta não se fez esperar:

-Vamos só os três. - E entrelaçou os seus dois braços em cada um dos rapazes, arrastando-os dali pelo portão do quintal.

Maria Madalena e Miguel ficaram a sós. O alpendre até ali rodeado de sombra, começava agora a ser invadido pelos raios brilhantes e tórridos do sol de Verão, por isso sentiram necessidade de procurar uma sombra mais aprazível. O extenso quintal dispunha de algumas árvores de frutos mas a mais frondosa era uma velha figueira que tinha por baixo um banco de pedra caiado de branco. Sentaram-se.

A rapariga, no seu delírio de saudade, não esperou a acção do rapaz. Afagou-lhe o rosto entre as duas mãos, olhando-o ternamente nos olhos:

-Miguel... tenho sentido tanto a tua falta. - Falava agora, quase colada ao peito do rapaz, sentindo-lhe a respiração trémula, ofegante e receosa. Apertava-se mais no banco de pedra comprimindo os dois corpos, sem nenhum ceder. Contornava-lhe o rosto em leves carícias e ajeitava-lhe os cabelos em gestos macios. Agora as mãos desciam pelo tronco másculo em movimentos suaves e torturantes. O rapaz via-se em sofrimento: Entre a loucura física e a sensatez.

-Que me querias dizer Miguel? -estava a boca agora, perigosamente perto, dos lábios ternos de Miguel e Maria Madalena ansiava que um ligeiro movimento os colasse. Um segundo foi quanto pareceu durar aquele idílio a seguir Miguel, retrocedeu. Contrariada a rapariga nada mais pôde fazer, do que forçar. Trocou o banco pelo colo masculino, envolveu-lhe o corpo entre os dois braços e apertou a sua boca contra a dele. Miguel ainda resistiu, procurando ficar imóvel, sem corresponder. Determinação fraca porém, segundos depois homem e mulher envolviam-se num turbilhão de carícias demoradas e beijos apaixonados, embalados no regaço da velha figueira. Outros olhos velhos, porém, espreitavam, por entre o vidro e a madeira da pequena janela. Em sinal de censura a figura abanava demoradamente a branca cabeça.

 

A presença de Gabriel foi quase uma visão. Plantado frente ao casal a figura do rapaz surgiu como uma ameaça. Parecia visivelmente perturbado, uma mão pressionando a fronte a outra ocultando, ligeiramente, a zona do nariz. Alguns segundos manteve-se calado, só os olhos se agitavam em louco sobressalto e um misto de cólera e pesar, parecia sobressair da sua visão magoada. Miguel desesperou. Num impulso afastou-se da rapariga, avançando em direcção ao irmão. Queria tocar-lhe mas este afastou-se com violência, depois mordeu as palavras numa mistura de raiva e queixume:

-Porquê Miguel...porque caíste em tentação?! Porque juraste ser forte, porque garantiste estar preparado?

Maria Madalena ficou preocupada. Aproximou-se dos rapazes, procurando saber as razões de tanta agitação mas Miguel pediu-lhe que se mantivesse afastada, enquanto falava em surdina na tentativa de acalmar Gabriel. O rapaz voltou a perder o controlo. Qualquer dor súbita pareceu avivar-lhe o sofrimento. Apertou a cabeça entre as duas mãos, enquanto a balançava dolorosamente, de um lado para o outro. Depois um pequeno gemido fê-lo contorcer-se e um fio de sangue, muito fino, saiu-lhe do nariz, escorrendo ligeiramente pelo rosto. Miguel apressou-se a limpar-lhe a face e a rapariga, contrariando as ordens recebidas, segurou Gabriel na tentativa de o confortar.

-Sentes-te mal? - Perguntava enquanto insistia com Miguel que o sentassem sobre o banco de pedra.

-O teu irmão está doente, precisamos de ajuda!

-Eu resolvo isto. Lena peço-te...-olhava a rapariga com ternura - por favor, deixa-nos sós.

-Porquê? - Maria Madalena olhava-o exigindo explicações.

-Não importa porquê...-desinteressou-se, enquanto voltava a limpar cuidadosamente o rosto do irmão. - Porque não regressam... a Mónica e o Rafael? - Resmungava entre dentes.

Lena estava irritada. Onde estava o Miguel que durante largos momentos se entregou nos seus braços. O que via agora era um homem descontrolado, dizendo coisas sem nexo. Pois bem não sairia dali. Se Gabriel tinha alguma doença que o afligia, também poderia contar com ela. Ficou.

Gabriel continuava a mostrar sinais de qualquer mal físico que o atormentava mas outro sofrimento o afligia também e esse mostrava-o na forma como lançava ao irmão olhares de culpa e condenação! Miguel não se inocentava, ao contrário, sussurrava-lhe ao ouvido, sucessivos pedidos de perdão!

Mónica e Rafael bateram violentamente com o portão e em corrida desenfreada, galgaram o terreno do quintal, por entre canteiros e árvores de fruto. A primeira coisa que todos fizeram, sem dizer uma palavra, foi uma corrente de força, utilizando oito mãos!

Maria Madalena sentiu-se ultrajada. Deu meia volta e avançou em direcção à casa. Estava determinada a ir-se embora.

Reuniu os pertences sobre a cadeira do alpendre e entrou na cozinha fresca, na penumbra. Não viu a avó Bia. Embora magoada com o grupo de amigos que tinha a certeza a queriam à distância, sentia-se na obrigação de dizer adeus à velha senhora que em nada tinha culpa de bizarros comportamentos. Procurou-a sem êxito. Estaria, certamente a descansar...eram horas. 16 Horas! Empurrou levemente a porta de madeira castanha que se encontrava encostada e o quarto amplo e asseado da avó Bia, convidou-a a entrar. Em frente, a cama de ferro, coberta pela colcha branca, muito direita. Sobre a mesa-de-cabeceira, o candeeiro e a moldura de Inácio Soldado e ao lado o copo da água devidamente tapado por pano bordado, de alva cambraia. Cadeira alta de assento em buínho, coberta nas costas por um xaile preto. Da avó Bia nem sombra. Ao canto esquerdo a cómoda antiga, de robusta nogueira, fazia de oratório. Á luz de uma vela acesa, o rosto de um Anjo Guerreiro empalidecia e perdia as forças na sua luta contra o dragão do mal. De testa enrugada e dentes cerrados, vibravam-lhe os olhos, esvoaçavam-lhe os cabelos, em esforço tremendo, suspenso nas asas. A mão direita empunhando a espada, ameaçava o diabo, retido e esmagado sobre o pé direito. No braço esquerdo, decepada a mão, um fio de linha fina, suspendia a foto de alguém! Maria Madalena aproximou-se. Quem guardava o Anjo Guerreiro? Pegou na pequena foto, tipo-passe, e segurou-a entre os dedos. Descontrolou-se quando se reconheceu! Arrancou-a com violência, fazendo tombar a estátua e apagar a vela. O que fazia a sua foto, no oratório particular da avó Bia?! Mónica devia-lhe muitas explicações. Sem qualquer controle e visivelmente irritada, abandonou o quarto em direcção ao quintal. A agitação dos momentos anteriores estava agora perfeitamente controlada. Nenhuma voz se escutava, ninguém se via, nem no quintal, nem na casa! Onde se tinha metido toda a gente. Correu pelo corredor em direcção à porta da rua. O calor da tarde aprisionava as pessoas no interior das casas e a rua estava vazia de transeuntes. Desistiu. Recolheu-se ao automóvel disposta a desaparecer de Portalegre magoada e ofendida. Ligou o motor, fez inversão de marcha e quando passava de novo em frente à casa, viu a porta escancarada. Certamente na sua pressa, tinha-se esquecido de a fechar. Contrariada apeou-se. Não lhe parecia bem deixar a casa à mercê, quando lhe parecera vazia. Subiu os poiais e meteu a mão para puxar a porta. Esta não cedeu e foi a sua mão que ficou segura!

Rafael apareceu repentinamente por detrás da porta. Antes que Lena o questionasse o rapaz fez-lhe o gesto do silêncio, encostando o indicador ao nariz. Depois retirou do bolso das calças um pequeno cordão com uma medalha suspensa e enfiou-o, à pressa, no pescoço da rapariga. Sem falar, indicou-lhe para ir, fechando a porta de imediato.

Maria Madalena ainda ficou parada no meio da rua, sem saber o que fazer. O automóvel, com o motor ligado, era o único barulho vivo naquela rua a queimar na periferia da cidade. Olhou para a casa. A porta e o postigo cerrados convidavam-na a partir!

 

 

Já iniciara a marcha há mais de uma hora e aproximava-se agora dos campos de Évora. Passara Monforte, passara Estremoz, estando muito perto de Evoramonte. O sol escaldava ofuscando a visão que procurava na paisagem, um lugar fresco e aprazível para repousar. Em vão. Os campos sedentos, amarelecidos e quietos confundiam-se com o seu estado de espírito. Também ela estava sedenta de explicações, amarelecida de esperas, quieta por presa nas vontades de outros. Sentia-se num beco sem saída. A felicidade que sentira por rever os quatro amigos dava agora lugar a uma violenta irritação. Apetecia-lhe voltar atrás e tirar todas as questões a limpo. Não sabia com qual dos dois estava mais magoada, se com Mónica que estava certa lhe escondia imensas coisas, se com Miguel que tinha a certeza lhe escondia ainda mais! Só o rosto angelical de Rafael, pairando na sua mente, lhe fazia abrandar a cólera. Levou as mãos ao peito e segurou entre os dedos a medalha suspensa no pequeno cordão. Não a tinha ainda apreciado. Na velocidade com que abandonou o local e nos cuidados que punha na condução não ousava desviar a vista da estrada que tomara. Esperaria até melhor ocasião.

Entrou em Évora quando passava pouco das 18.00 horas. A tarde refrescava a conta gotas. Aproveitou então para abastecer de combustível no posto junto ao “Pingo Doce”, avançando depois em direcção à “Nau” e parando numa pequena pastelaria. Pediu e sentou-se na sombra da esplanada. Um bolo e um sumo fresco encheram-lhe o apetite. Aproveitou aí para retirar do pescoço o pequeno cordão e amiudar a medalha. Em relevo, a figura de um Anjo Guerreiro, espezinhava o dragão do mal! Maria Madalena sentiu uma vontade, repentina, de deitar o presente ao lixo. No reverso da medalha as palavras “Guardarei a tua alma”, fizeram a rapariga retrair-se. Eram palavras carinhosas, como se fossem proferidas pela boca de Rafael. Em homenagem ao rapaz, Maria Madalena voltou a colocar o cordão ao pescoço.

Retomou a viagem e quando se aproximava de Monte-do-Trigo, voltou a sentir uma vontade irresistível de enveredar, mais uma vez, pelo atalho da Atalaia. As memórias ainda frescas da visita anterior impuseram-lhe, no entanto, alguma prudência e seguiu o IP2 sem permitir devaneios nem mudanças de direcção. Atravessou Portel, Vila e sede de Concelho e tomou a estrada 384 em direcção à aldeia. Circulou então, pela via recta e quase plana. Uma pequena subida, pouco pronunciada, não permite no entanto, visualizar com antecedência o entroncamento para a Atalaia, o qual só se alcança quando se inicia a descida.

Plantado sobre o estreito espaço do entroncamento, um veículo potente e arrogante, dominava! Sobre os cromados brilhantes, pequenas estrelas cintilavam pela incidência do sol e o designe moderno mostrava um exemplar recente de “Jipe” desportivo verde, muito escuro. Maria Madalena teve logo a sensação que o condutor a esperava, por isso acelerou a marcha determinada a não ser detida. Logo o “Jipe” se atravessou na sua frente. Aflita com a condução e pouco prática no engenho não viu outra saída senão virar à direita e avançar com o carro pela estrada secundária da Atalaia. O “Jipe” fez inversão de marcha e seguiu imediatamente, atrás de si!

 

 

Atalaia 4 [Capítulo 6]]

 

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O carro descia agora a estreita estrada, alcatroada, cerca de mil e quinhentos metros em linha recta depois uma ligeira curva reduzia a visibilidade. As luzes acesas guiavam a marcha e a rapariga não tinha tido ainda condições para reflectir tal o turbilhão de emoções que a sacudia.

Contornada a curva a estrada seguia, estendendo-se direita por quase três quilómetros.

A estrada deserta tem um transeunte! Ao longe uma figura parecia parada na berma da estrada. Maria Madalena voltou a incomodar-se. Talvez um pastor circulasse por ali mas há medida que o carro avançava, a figura permanecia imóvel.

A rapariga ponderava a hipótese de voltar para trás mas duas situações a impediam, a estreiteza da estrada e o terror de regressar ao lugar, por isso avançava em marcha lenta, fixando o vulto, envolto no que parecia uma longa capa. Maria Madalena estremecia só de pensar no momento em que tivesse que passar pela figura. Desconfiava que aquela imobilidade, qual estátua, fosse prenúncio de coisa ruim!

Podia agora vislumbrar que a figura se mexera, avançando ligeiramente para o centro da estrada. Aí, parou! Lena ficou apavorada, quem quer que era, estava a obrigá-la a parar. Parar ou passar-lhe por cima! Avagou, engoliu várias vezes em seco, sentia as mãos transpiradas pelo nervoso, segurou o corpo que teimava em tremer e fixou a figura nas suas longas vestes, capa e capuz. Só a posição dos pés e mãos indicava estar de frente para si, porque o rosto estava completamente coberto pelo capuz. Aproximou-se sem fuga possível, pé na embraiagem e no travão e o carro parou em frente da imagem. Esperou. Que mais poderia fazer. Gritar naquele descampado. Tinha o carro trancado, os vidros cerrados, o motor ligado. A qualquer momento, em situação de desespero, usaria o veículo para agredir quem insistia em permanecer estático na sua frente. Voltou a esperar, o que lhe pareceu uma eternidade. As luzes do automóvel iluminavam o vulto, relativamente alto, esguio, magro, exibindo na mão esquerda um pequeno bordão de caminheiro. Logo em seguida elevou-se a mão direita e o capuz foi afastado para trás. O rosto de um idoso surgiu na sua frente. Um velho de cabelos longos, grisalhos, puxados para as costas. Os lábios do homem moviam-se, parecendo estar a falar mas ao interior do carro não chegava qualquer som. Lena desejava que se quisesse aproximar dela, desviando-se assim, do centro da estrada. Aproveitaria então para sair dali imediatamente. Mas a figura não se moveu. Os lábios, no entanto, continuavam a mexer-se, consecutivamente, como se estivesse a rezar uma prece ou a recitar uma ladainha. Maria Madalena sentia-se impelida a fixar o velho, seguindo-lhe os movimentos dos lábios como que, hipnotizada. Sentia-se cada vez mais aterrada. Aquela situação era caricata. Uma jovem trancada dentro de um carro, bloqueada numa estrada secundária pela imagem de um velho louco!

Desesperada, entrelaçava as mãos, apertando-as em oração, chamando baixinho pela mãe, evocando Deus, Nossa Senhora e outros Santos conhecidos, fixava o velho nos olhos, de um mel brilhante, parados, esbugalhados quase em transe e sem pensar, um nome saiu-lhe da boca:

-Rafael!

Imediatamente palavras indecifráveis começaram a chegar aos seus ouvidos, uma mistura de letras, sílabas, sons, uma língua estranha, estrangeira, uma mistura de português arcaico, antigo... latim!

Ouvia agora, nitidamente, os sons que saíam da boca do ancião. Um remoinho de palavras que não conseguia interpretar. Em certos momentos da mensagem a palavra Maria parecia-lhe evidente, noutras era o som de Madalena que lhe parecia escutar. No desfilar torrentoso de signos apercebia-se do chamar do ancião. O que estava a dizer era para si por isso escutou com atenção:

-Honra o teu nome, piedosa mulher, durante séculos enviada à terra: nascer e viver, morrer e ressuscitar. Em nome de todas as mulheres, bendita sejas. Perseguida, ultrajada, renegada, esconjurada e no último dia elevada aos céus. Em nome de Deus, bendita sejas.

O velho fez o sinal da cruz.

-Perante ti me curvo, meus olhos baixo, minhas mãos te estendo, meu coração te entrego. Também eu fui escolhido. Ouve: “Onde se ergue o bem, o mal surgirá. Ao sexto dia, noite será. No sino calado doze badaladas baterão e o sinal da cruz os anjos farão. A serpente encontrará a feiticeira e dura batalha será travada. Tu…inocente, sacrificada, entre as mãos loucas do renegado. Está o tempo lançado, mil anos se cumprirão, noiva de Deus, esposa do Diabo. Salvação, Salvação, Salvação!

O velho ajoelhou-se. Lena quase estátua, avançou ligeiramente o corpo e esticou o pescoço. Só assim conseguia ver na totalidade, a figura esgazeada.

Tomará o corpo do homem comum, soprando sobre ele o bafo maligno. Seu espírito doente ficará cativo e dele fará seu instrumento. Instantes serão de dor, sofrimento e a alma perdida para sempre estará. Conhece o sinal que dos céus virá. O Guerreiro da Luz. Mistério de Deus, enviado à Terra. Ele é o caminho. A ti caberá, cumpri-lo! Apocalipse, Apocalipse, Apocalipse!

O profeta espumava em total delírio. Lena estarrecia perante a imagem. Que mais iria o ancião fazer? Que outras coisas sem nexo iria dizer?

Uma luz forte inundou o espaço. O velho ofuscou na claridade brilhante e a rapariga protegeu os olhos dos violentos raios que a atingiam. Depois tudo foi escuridão. As pequenas estrelas salpicando o espaço pareciam agora mais mortiças, apagadas até. A rapariga arregalou os olhos à procura da figura que se tinha prostrado no centro da estrada. Em vão. Nada já existia. Tinha-se extinguido, esfumado, desaparecido!

Durante minutos ficou inerte. Não conseguia reagir. Todo o pavor que sentia obrigava-a a manter-se estática, paralisada dentro do carro. Era tarde, muito tarde. Precisava de fugir dali, recolher-se a casa, organizar as ideias, reflectir sobre o ridículo dos acontecimentos.

Certificava-se, agora, de que na estrada comum, num espaço banal, uma rapariga normal continuava retida sem razão aparente. Sonhos, delírios, visões. Riu alto, muito alto. Procurava assim espantar os fantasmas que teimavam em tomar-lhe conta do espírito. Estaria a enlouquecer?

Recompôs-se. Respirou fundo. Desviou o olhar para a caixa de mudanças procurando a primeira, acelerador a fundo e momentos depois o automóvel rolava pela estrada estreita, sem obstáculos que o detivessem. No final do percurso, perto do ramal, apercebeu-se das luzes brancas reflectidas no retrovisor. Faróis de um outro veículo que seguia a curta distância, atrás de si. Na bifurcação um seguiu pela direita, o outro virou à esquerda!

 

Beijou a irmã com saudade ternurenta. Cumprimentou a mãe num beijo ligeiro e o pai num afago bem mais carinhoso. Seguiu-se o interrogatório pela demora, pormenores exigidos sem poderem ser dados, razões plausíveis, sem existirem. A mãe desistiu e o pai calado, sobre o sofá, lançou-lhe um olhar de mil palavras. Jantou sozinha, o prato aquecido e recolheu-se ao quarto na companhia da irmã. Momentos de refúgio e encanto, onde a inocência das emoções são bálsamo para os tormentos do espírito.

Seguiram-se os dias. Iguais na estrutura, iguais nas vivências, iguais nos espaços, nos rostos, nas palavras, nos sentimentos. Um dia porém uma nuvem negra surgiu. Estava na hora de deitar mãos à pintura da casa: A mãe, a D. Olívia e a tia Celeste, tal qual carrascos, executaram a sentença. E o sofrimento começou!

Já Julho ia adiantado. Esmeradas nos pormenores, a equipa de mulheres, lançava nas paredes, o branco da paz, o rosa das flores, o amarelo do sol. Maria Madalena via o branco negro, o rosa vermelho e só o amarelo da cozinha, ao “jeito tradicional”, lhe causava arrepios, vendo nele a luz forte e violenta, onde por magia o velho desaparecera!

-Amanhã...-Disse-lhe a mãe - começa-se a trazer o enxoval. Tanta coisa. Tanta mala. -

Falava alto, de forma a impressionar a comadre. Na sua contrariedade, D. Olívia, só ajudava ao final da tarde, fazendo os apuros e ao Domingo, depois da missa. Chegava calada e assim se mantinha. Acariciava com vaidade os pormenores da habitação. Esfregando com cuidado cada recanto, passando e repassando o pano de chão, ajoelhada, num ritual de afagos na face do filho. Maria Manuela e Celeste olhavam-na com desdém. “Julga que é tudo dela.”, Pensavam, crescendo nelas uma vaidade suprema porque a princesa da mansão encantada era um rebento da sua família, não uma bruxa velha, cheia de inveja! E a mãe voltava à carga:

-Amanhã traz-se já a mala dos lençóis bordados. Tudo lavadinho e passado a ferro!

Maria Madalena enjoava.

-Amanhã vou a Évora. Tenho exame de recurso.

Não houve resposta. Era Domingo. Na face da mãe, uma onda de tristeza. No olhar da sogra, um reflexo de desconfiança.

Sentiu-se feliz quando na manhã de sol, entrou no carro e partiu. Não estava segura da matéria. O que tinha estudado poderia não chegar para concluir a cadeira. Não importava. Hoje o dia era dela. Pegou no telemóvel. Devia ligar ao Paulo. Dar-lhe os pormenores sobre a pintura da casa. Todos os dias, infalivelmente, desde há duas semanas, que as oito da noite se tornavam a hora da confissão. Durante infindáveis minutos, contava e recontava todos os pormenores. No final do mês começariam a entregar os móveis. Paulo vibrava com as notícias, desejoso de estar presente.

-Tu princesa. Vela pela nossa casinha. Está tão linda, não está? Sonho com ela. Sonho contigo. Não sei se aguento tanto tempo.

Procurava imediatamente descansar Paulo. Tudo estava controlado. Para quê vir mais cedo.

-E o vestido, e o meu fato? E o contacto com a empresa para fazer o casamento? E falar com o padre? - Desesperava.

E Lena desesperava também, sufocava!

-Tudo controlado. Há tempo para tudo. Quando chegares faremos o que falta. -Também ela desejava, ardentemente, que o telefonema terminasse.

Depois eram as despedidas, melosas, intensas, intermináveis!

Pois bem. Não ligaria. Às oito horas teria muito tempo.

Não largou, no entanto, o aparelho. Na luz do sol brilhante o sorriso de Miguel enterneceu-lhe o olhar. Ligou. Tocou. Chamou. E o sol escondeu-se, por momentos, na nuvem branca que passava. “O número do telemóvel que marcou, não está disponível”.

Contrariedades. Sentia desejos de rever Miguel. Se o amigo soubesse que durante longos e intermináveis dias, mofara entre paredes, pintadas com a cor da discórdia. Certamente a repreenderia, chamando-a mais uma vez à razão, pedindo-lhe que agisse, que se detivesse. Melhor era não falar com Miguel ou então, seria inevitável mentir-lhe!

Évora surgia no topo da colina, entre o branco das casas e o tom creme da Sé, erguendo-se altiva, como uma rainha. Não se deteve, foi de fio ao Palácio do Vimioso, onde rostos conhecidos aguardavam a hora. Nem Mónica, nem Miguel. Só Pedro Dias. Cumprimentaram-se com alegria.

-As férias? Têm sido boas?

-Mais ou menos. - Respondeu a rapariga – e as tuas?

-Óptimas. Sabes, vou pedir transferência. Lá para os meus lados. Com sorte, para o ano, já cá não estou.

Sentiu um aperto. Um certo desgosto. Pedro era um conhecido. Não um amigo íntimo, no entanto, o desfazer de laços era terrível. Dava uma importância exagerada aos últimos conhecimentos, como se a sua vida só tivesse começado agora.

-Tenho pena. - Disse. - Era um grupo tão porreiro.

-É verdade. Mas vou com vocês para o Algarve. Dessa não se safam.

Maria Madalena sentiu uma onda de felicidade. Já tinha esquecido os planos das férias, tal o emaranhado de obrigações em que estava envolvida.

-Mas...já falas-te com alguém...sobre isso. - Mostrava-se emocionada com a perspectiva.

-Encontrei o Miguel em Viseu. Lanchámos juntos e aproveitamos para falar da malta. Foi ele que me disse, que tu e a Mónica estavam a organizar uns dias lá em baixo. Vai ser de arrasar!

É verdade que tinha lançado esse desafio a Mónica e até a Miguel mas não tinham chegado a qualquer conclusão. No entanto não permitiria que Pedro Dias se sentisse desmotivado.

-Estamos sim. Em Agosto. Segunda quinzena. Dava-te jeito?

-Brilhante. Estou disponível.

-E...vês muito o Miguel? - Quis saber.

-Muito...não. Uma ou duas vezes. Mora lá para os meus lados, tu sabes.

Não, não sabia. Não sabia mesmo. Mas preferiu não dizer.

A porta da sala abriu-se e a professora convidou os alunos a entrar. Estava na hora do início do exame.

Pedro Dias estendeu um pedaço de papel com um número escrito.

-É da minha casa. Não tenho telemóvel. Telefona-me assim que estiver tudo certo. Que eu hei-de aparecer. Boa sorte...porque eu, devo sair, assim que entrar. Não sei nada!

Lena riu-se e aceitou o papel com agrado.

-Fica descansado que te informo. - Já a professora pedia silêncio e concentração.

Quase três horas depois, Lena viu-se liberta do compromisso do exame. Não tinha corrido mal, por isso sentiu-se satisfeita. Estava com fome, contornou o largo da Sé e desceu a Rua do Artesanato, como lhe chamava. Aí, entrou numa pastelaria. Pediu um sumo e uma tosta mista e acomodou-se numa das mesas vazias. Ainda não eram horas de almoço por isso havia espaço de sobra. Comeu com vagar, folheando uma revista vulgar. Empatou o tempo entre dentadas e ligeiras leituras. Festas de Verão, moda, sociedade. Por fim, levantou-se, para pedir um café.

Poucos passos, tinha dado em direcção ao balcão, quando a claridade vinda da porta de entrada, foi ofuscada. Primeiro sentiu a presença, depois reconheceu a mão, sem aliança, que apertava com força a pasta castanha. Foi subindo o olhar pela figura, sabia de cor cada detalhe, as pernas altas, o tronco másculo, o rosto esculpido, o odor forte e doce, os olhos negros, penetrantes! Estremeceu.

-Maria Madalena, bons olhos a vejam.

Parecia que o mundo lhe tinha caído em cima. Engoliu em seco.

-Bom dia, professor!

-Bom dia, querida.

Não pode ser. Enlouqueceu. Em público. Olhou em redor. Ninguém conhecido. Voltou-se sem o olhar.

-Faço-lhe companhia. - A afirmação não era um pedido, era uma ordem.

Podia dizer que estava de saída. Sim... seria conveniente.

-Está na hora do meu exame de recurso. Não me posso atrasar. - Baralhava-se, confundia-se, desorientava-se.

-Foi às nove horas! Estive lá...- o homem sorriu trocista, especado no meio da sala, sem ligar à empregada que cansada de perguntar o que ele desejava, servia já outros clientes.

Pegou no braço da rapariga, com carinho, empurrando-a levemente em direcção ao lugar que esta ocupava.

-Deixe-me oferecer-lhe um café. Ia tomar, não é verdade?

Maria Madalena atirou-se para a cadeira e ficou inerte, sem reacção. O homem dirigiu-se ao balcão onde a empregada o olhou enfadada, dando cumprimento ao que pedia.

Voltou. Sentou-se de frente, barrando o caminho. Os olhos brilhantes procuravam os seus. A rapariga incomodava-se, procurando escapar ao olhar. Não demorou a sentir presa uma das mãos, o que a obrigou a enfrentar o homem.

-Deve-me um pedido de desculpas. - O homem sussurrou -acha que pode brincar comigo. Você é uma irresponsável. - Murmurou entre dentes.

A rapariga não respondeu. Antes ignorou. Procurava no seu interior uma forma de escapar dali.

-Quando terminarmos o café, vai-me acompanhar. Tenho o carro junto à igreja de S. Francisco. Quero que vá lá a casa.

As palavras soavam como pedradas, duras, violentas, indesejadas.

-Hoje...não é oportuno. Tenho pessoas à minha espera. - Conseguiu balbuciar.

-Vi-a chegar sozinha. Não arranje desculpas.

Maria Madalena começava a odiar aquela situação e desejava respirar ar livre. A empregada, desconfiava do par, deitando-lhe olhares de soslaio, pelo canto dos olhos. A rapariga pensou pedir ajuda. Depois achou que seria ridículo. Ela própria tinha desencadeado a situação em que se encontrava.

-Ouviu o que lhe disse. Acompanhe-me até à praça junto à igreja de S. Francisco.

Entre a irritação que lhe causava aquela ordem, não conseguia, no entanto, deixar de estranhar a razão do automóvel estar em local diferente do tradicional lugar cativo do parque da Universidade.

O homem levantou-se, procurou a carteira, pegou na pasta e esperou. Maria Madalena não viu saída. Levantou-se e pegou nos pertences. O professor segurou-a pelo braço, transportando-a até ao balcão. Aí pagou.

-Tudo. Se faz favor.

A empregada olhou a rapariga.

-Sente-se mal? - Perguntou fixando-a.

-Está um pouquinho indisposta. A minha pequena está grávida.

Maria Madalena sentiu-se desmaiar, perder os sentidos. Sérgio não podia estar bem. Estava certamente desequilibrado, demente até.

-Hã...-a empregada sorriu mais descansada. Depois olhou outra vez a rapariga. - Dá alguns enjoos...eu tive muitos.

Sérgio preocupava-se em receber o troco mas a empregada, sentia-se na obrigação de alertar a jovem mamã para o futuro.

-Agora são os enjoos, depois a azia, o aumento de peso, o inchaço das pernas...

-Muito obrigado... fique com o troco. - O homem rematou, sem paciência. Saíram. O sol de Julho era violento, um brilho ofuscante, um calor de sufoco. Desceram o que faltava da Rua do Artesanato em direcção à Praça do Geraldo. A rapariga seguia, fazendo um esforço para acompanhar o passo apressado e largo do companheiro. Nem uma palavra. Sobre a pele nua a pressão dos dedos era incomodativa, tal qual cadeado apertado, vedando correntes. Os transeuntes passavam alheios ao drama da rapariga. Mulheres, homens, rapazes, raparigas como ela, um padre, crianças, dois polícias! Ninguém os deteve. Sobre o seu silêncio imperavam os barulhos da cidade. Vozes, motores, música, gritos...gritos...gritos!

-Lena! Lena! Lena!

Abandonavam a Praça em direcção à igreja quando a rapariga, desperta pelo chamamento, olhou para trás. Não sabia se havia de chorar, se de rir. Tal a situação era caricata. O homem deteve-se. Interrogou-a com o olhar. A rapariga que corria em direcção a eles vinha ofegante. À distância, estancada no meio da praça, uma mulher observava. Faíscas soltavam-se com violência dos seus olhos azuis, frios como o gelo, cruéis como o aço, trespassantes.

Lena tremeu. Magda respirou fundo antes de falar.

-Julguei que não te apanhava. Dás-nos boleia? A mim e à minha tia?

Lena sacudiu a mão que lhe prendia o braço. O homem nada fez. Ficou-se.

-Vocês estão cá? - Conseguiu dizer muito a custo.

-Viemos na camioneta. A minha tia andava com a mania de ver uma loja cá em Évora, de que muito se fala. A “Loja dos 300” quer fazer o mesmo no minimercado. Tanto me maçou que vim com ela. Nem se lembrámos que estavas cá. No entanto, ao atravessar a Praça, vimos-te seguir com esse senhor. - Magda procurava disfarçar a estranheza e o tom de censura. Já D. Olívia se aproximava.

Maria Madalena recompôs-se:

-Professor...- disse. - A minha amiga Magda e a minha...digo a mãe...-engasgou-se.

-A mãe do noivo dela, Olívia Maria. - A figura esguia da mulher estendeu a mão, em direcção ao homem, sem demonstrar qualquer simpatia.

-Muito prazer, minha senhora. Sérgio de Almeida, Professor universitário.

-É para vos dar boleia? Certamente. - Maria Madalena respirava de alívio. A figura autoritária do professor ficava na sombra, em cena surgia agora a aterradora rainha da direita razão!

-Sendo assim, Maria Madalena, não vai buscar a matéria para o próximo exame?

-Vou sim professor. Já estamos perto. Magda, D. Olívia é melhor acompanharem-me para não haver desencontros.

Seguiram. Cada um enganando o outro, neste jogo do faz de conta.

 

O desportivo Audi 3, cinza escuro metalizado, encontrava-se realmente estacionado em frente à igreja! A rapariga fez questão de acompanhar “com agrado” o professor. O homem apercebia-se também, da necessidade de continuar a representar, por isso e perante a plateia de convidados, abriu uma das portas traseiras e debruçou-se sobre o banco traseiro do veículo. Depois chamou Maria Madalena:

-Veja, entre esses maços de apontamentos o que mais lhe convém?

A rapariga entrou no jogo sob o olhar atento de Olívia Maria. Introduziu a cabeça e parte do tronco no interior do automóvel. O cheiro do espaço era inconfundível. Passou a mão pelo estofo aveludado do assento e sentiu a carícia de um tempo passado. Viu-se ali, perdida entre afagos, sonhos e ilusões. Com violência sacudiu a memória, pegou no primeiro maço que apanhou e convenceu:

-Este faz-me imensa falta. Agradeço-lhe muito. Devolvo-lho depois. - Afastou-se do carro e do homem, desejosa de se libertar daquela agonia.

O homem olhou-a intensamente. “Espero-te”, foi o que os seus olhos disseram.

Fugiu, arrastando consigo Magda e a tia aos tropeços pela calçada.

 

O silêncio que imperou durante a viagem foi fictício. Por dentro, cada uma gritava desesperadamente as suas razões.

Magda sabia que Lena já não era a mesma. Mudara, afastara-se, tinha outros interesses. Que professor se preocupa em levar uma aluna até ao seu automóvel para lhe facilitar a matéria de um teste. Nenhuns. Poucos. Um! Sentia necessidade de interrogar a amiga, tempos houve em que os assuntos e as palavras fluíam mais facilmente entre as duas. Agora existia um distanciamento que se agravava de dia para dia. Uma das razões era a sua familiaridade com Paulo. Disso não tinha a menor dúvida.

Olívia remexia-se, incomodada, no banco traseiro. Respirava fundo, ansiava! Nos reflexos normais da condução, Lena passava os olhos pelo espelho retrovisor e estremecia. Faíscas azuis, reflectidas, queimavam-lhe o olhar.

Olívia ponderava, analisava e concluía. Aquela cabra enganava o filho! Disso não tinha a menor dúvida.

Maria Madalena sentia-se cansada. Tão cansada. Sentia nos braços, como tenaz, os dedos apertados de Sérgio. A vontade do homem oprimindo a sua. A força do seu olhar dominando o seu, exigindo-lhe, cobrando, esperando. Tal como aves de mau agouro, guardiãs protectoras da honra familiar, as mulheres seguiram-na! Disso não tinha a menor dúvida.

Agir com cautela era o exigido. A fronteira entre o cativeiro e a liberdade estava ameaçada. Porque não deixava que a invasão se desse. Não seria mais fácil que outros resolvessem por si?

Absorvida e massacrada pelos seus pensamentos circulou, como autómato, pelas vias principais: IP2, Portel, estrada municipal 384. A meio do trajecto porém, assustou-se! Do ramal secundário da Atalaia um “Jipe”, não ligando ao “stop”, avançou violentamente virando à esquerda. Na velocidade descontrolada o potente veículo aproximou-se perigosamente do pequeno “Opel Corsa”, ameaçando-o! Lena amaldiçoou o condutor enquanto travava e reduzia a marcha, evitando o embate. Pelos vidros esfumados, sem visibilidade, foi impossível reconhecer o condutor!

 

Atalaia 4 [Capítulo 5]

 

 

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Acordou com dor de cabeça. Não viu cor-de-rosa nos seus sonhos, antes negrume e tristeza. Estava para embirrar com tudo e com todos. Mal cumprimentou Mónica quando se cruzou com ela no corredor para a casa de banho. Ontem quando entrou em casa e chamou a amiga esta respondeu-lhe do quarto indicando-lhe que já estava deitada. Não a procurou e foi desconsolar-se sozinha entre os lençóis. Estranhava, no entanto, que Mónica chegasse a casa primeiro que ela. Tinha deixado o bar e feito o caminho sozinha? Com Adília e Sara não veio porque estas chegaram muito mais tarde e já alegres, por sinal. Desconfiava. Passava-se qualquer coisa estranha.

Bateram ao de leve na porta do quarto e Mónica não esperou ordem para entrar.

-Ontem vim com o Gabriel e o Rafael. São uns porreiros.

Não precisou que Lena perguntasse.

-E tu...com Miguel. Acertaram?

-O quê? - Lena respondeu sem paciência.

-O passo. Como se costuma dizer.

-Não sei. Miguel anda esquisito. - Lena respondeu, procurando o material que tinha que levar.

-Acreditas que os outros dois gajos, também não são puros. - Mónica brincou.

-Porque saíste logo a seguir a mim? Não podias ter ficado mais um pouco. - Lena procurava saber mais.

-Imagina que os tipos insistiram. Até parecia que estavam desesperados. Levantaram-se logo e diziam-me: “Ela vai precisar de ti. Ela vai precisar de ti.”. Viemos embora. Apressadíssimos.

-Sabias que Miguel tinha irmãos, ainda por cima gémeos.

-Eu não. Julguei que fosse filho único. - Mónica referiu.

-Disseram-te alguma coisa sobre mim?

-Porquê? Deveriam dizer? Não...apenas insistiram em que fosse para casa, porque o Miguel tinha afazeres e tu não poderias ficar sozinha. Alarmaram-me e eu preocupada acompanhei-os.

-Viste alguma coisa estranha? Maria Madalena, questionava, enquanto as duas abandonavam a casa em direcção às aulas.

-Se queres que te diga, durante o trajecto só em pequenos momentos viemos os três. Por duas ou três vezes o Gabriel ausentou-se, sem dizer palavra. Eu bem que questionei o Rafael mas este respondeu-me que ele não demorava. Os gajos não as batem todas!

-Não sentiste medo? Não os conheces de lado nenhum. Ainda o Miguel é nosso amigo.

-Senti neles uma certa agitação. Como se estivessem a procurar algo ou alguém. A última vez que o Gabriel se juntou a nós foi já muito perto da casa e vinha ofegante, como se tivesse acabado de travar uma luta. Mas são pacatos. Junto deles senti-me sempre segura. Seja o que for que procurem não é para fazer mal.

Lena sossegou-se. Hoje, mais uma vez, queria estar com Miguel.

Mónica baixou o olhar e resignou-se. Há caminhos que por mais que os desvies, vão sempre cruzar-se num derradeiro ponto.

 

Procurou o amigo na sala de aula. Cumprimentou-o e sentou-se junto dele.

Não houve oportunidade de trocar palavras. Foi necessário esperar pelo intervalo.

-Almoçamos juntos? - Perguntou Maria Madalena, quando se encostaram no corredor à espera da próxima aula.

-Não sei se posso. - Miguel respondeu cordial. - Tenho os meus irmãos por cá até amanhã. Estava a pensar juntar-me a eles.

-Eu preferia que ficássemos juntos, gostava de falar contigo. Ontem ficou muita coisa por explicar.

Miguel pareceu retrair-se. Contrariado até.

-Vamos com calma. Tu és muito perguntadora. - Riu-se sem intenção de adiantar o assunto mas Lena não estava satisfeita.

-É verdade e os teus irmãos? Praticamente não tive oportunidade de conviver com eles. Podíamos almoçar os quatro.

Miguel voltou a contrariar-se por alguns momentos, amiudando a situação.

-Sinceramente não sei...mas pode ser. - Acabou por consentir.

Maria Madalena pareceu-lhe ser esta uma boa oportunidade para esclarecer alguns mistérios.

 

Escolheram um pequeno restaurante de refeições rápidas e económicas. Cumprimentaram-se cordialmente, com um beijo em cada face e deixaram que a rapariga se sentasse primeiro que eles. Entre sorrisos e palavras de circunstância, escolheram o prato do dia. Entre pequenos compassos de espera, Maria Madalena, amiudou os três rapazes. Deveriam andar pelos seus 25 anos. Não sabia a idade certa, nem nunca a perguntara mas Miguel sempre se intitulara o mais velho do grupo e, por diversas vezes, evocara a sua experiência no mundo do trabalho, alegando já ter tido alguns empregos antes de enveredar novamente pelos estudos. Os irmãos tinham algumas semelhanças físicas entre si mas não eram de forma alguma, idênticos, além de que Miguel parecia muito mais adulto. Dois eram mais morenos, cabelos castanhos com ligeiras ondas, Miguel e Gabriel, certo que o cabelo deste último lhe chegava aos ombros. Já Rafael era um pouco mais franzino, mais branco e de cabelos louros, um pouco abaixo das orelhas. Apercebeu-se de que pareciam um tanto deslocados, apresentando hábitos e maneiras um pouco diferentes dos jovens actuais, mais esmerados na educação, mais contidos, aparentemente sem vícios vulgares, tabaco ou bebidas alcoólicas, sem preocupações de modas ou de marcas. Enfim, um trio de estranhos. Não fosse a ligação emocional que teimava em sentir por Miguel não encontraria qualquer interesse naqueles miúdos.

Foi ela que quebrou o gelo.

-Então estão de partida em breve?

-Amanhã. - Respondeu Rafael com simpatia.

-Vieram visitar o Miguel? - Maria Madalena apetecia-lhe saber.

-E nem só. - Agora foi Gabriel quem respondeu, um pouco mais secamente.

Miguel olhou o irmão com alguma censura.

-Também estudam?

-Não. - Em duo.

Maria Madalena percebeu que estavam interessados em ficar por meias palavras. À sua direita Miguel permanecia calado. Gabriel estava sentado à esquerda e na sua frente ficara Rafael. Era, sem dúvida, o mais simpático. Gabriel parecia-lhe um tanto sisudo, para já não falar de Miguel que exigia sempre tudo pela direita razão.

Antes de iniciar a refeição, os irmãos ficaram algum tempo em silêncio, reservados, parecendo interiorizar pensamentos e Maria Madalena sentiu-se um pouco deslocada e à margem. Por outro lado, irritava-se que o almoço não estivesse a render absolutamente nada. Nada, quer dizer, informações.

Gabriel desviou ligeiramente os seus cabelos que teimavam em cair para a frente. Um leve aroma a jasmim, rosas, lavanda, baunilha, passou-lhe pelas narinas. Um momento, um local, uma sensação de “Dejá vu”, abanou-a. Uma leve tonteira desequilibrou-a.

-Sentes-te mal? - A voz de Rafael estremeceu-a. Procurou o olhar de Miguel, em busca de porto seguro, o amigo pegou-lhe na mão e com uma ligeira pressão, tranquilizou-a.

-Desculpem, por momentos, pareceu-me ser transportada a outros lugares.

Os rapazes não responderam, baixaram os olhos e continuaram a comer, só Miguel continuava interessado no seu estado.

-Estou bem, mas passou-me a fome. - Sentia-se um pouco enjoada, provavelmente iria adoecer. Afastou o prato e deu por terminada a refeição.

Levou algum tempo a recompor-se e pôde aperceber-se, entretanto, de uma ligeira contrariedade de Miguel em relação aos irmãos e que estes, por sua vez, apresentavam um certo ar amuado tal qual crianças quando são repreendidas. Ela própria estava insatisfeita, os pequenos incidentes que constantemente, teimavam em surgir, desconsertavam-na. Porque razão aqueles dois rapazes totalmente desconhecidos lhe pareciam, por momentos, tão próximos. Havia neles sinais reconhecíveis, impressões de momentos vividos. Quem eram eles afinal? Voltou a olhar Rafael insistentemente. Os olhos mel claro do rapaz brilharam, mas não se intimidaram. No entanto, continuava a acreditar que o elo mais fraco daquele trio estava em Rafael e se queria saber mais alguma coisa teria que o usar.

-Rafael tu pareces, realmente, mais novo. Custa a querer que tenham todos a mesma idade e que sejam gémeos.

O rapaz terminou a refeição, usou o guardanapo e sorriu.

-Tenho este ar frágil. Não sou tão dotado de atributos físicos como o meu irmão Miguel e tenho inveja dos cabelos longos e perfumados de Gabriel. Mas tenho os meus encantos, acredita. Gosto, especialmente, de povoar os sonhos das mulheres. Entrar-lhes no espírito, espiar-lhes os pensamentos. - Disse com uma certa malícia.

Maria Madalena arrepiou-se, não gostava que lhe espiassem os pensamentos e claro que isso era impossível.

Rafael pareceu perceber os seus temores.

-Posso revelar-te o que estás a pensar.

Gabriel incomodou-se:

-Rafael deixa-te de gracinhas. - Avisou.

O rapaz retraiu-se e olhou para Miguel como que à espera de retaliações.

-O Rafael é muito brincalhão. Está sempre a por à prova as mulheres que se dizem muito seguras de si. Assim como tu. - Miguel indicou trocista a figura da amiga.

-És segura de ti? Das tuas razões, convicções. Sabes sempre o que queres? - Gabriel perguntava com manifesto interesse.

Os irmãos atacavam-na. Afinal, no seu íntimo, eram iguais. Interessados em questioná-la, pô-la à prova. Perdeu o interesse naquele jogo. Estava demasiado enfadada para falar de si queria era saber sobre eles.

-Eu não interesso. Vocês é que parecem um tanto misteriosos.

-Somos pessoas vulgares, nada mais. - Miguel rematou sem dar hipóteses.

Chegaram os cafés e a conta. Não demorou a levantarem-se da mesa. Miguel e Gabriel adiantaram-se, parecendo querer aclarar alguma questão sem a presença de estranhos. Rafael ajudou Lena a vestir o pequeno colete sem mangas. A rapariga agradeceu e voltou a sentir aquela sensação de amabilidade e simpatia que o rapaz emanava. Ele quase sussurrou procurando passar despercebido:

-Quando precisares de conforto, evoca-me, saberei acalmar os teus sofrimentos interiores.

Miguel já voltava à carga, querendo que saíssem todos juntos. Já não voltou a falar com Rafael mas não conseguia esquecer as suas últimas palavras.

 

 

-Miguel partiu. Foi com os irmãos à terra.

Sentiu-se desolada. Como se atrevia ele a desaparecer sem a informar. Sem lhe dar satisfações.

-Não me disse nada. - Queixou-se a Mónica.

A amiga encolheu os ombros. - Coisas de homem. - Disse desinteressada.

-É inadmissível. À beira dos exames. -Procurava arranjar razões para culpabilizar Miguel de uma decisão que julgava errada, no entanto sabia que era a forma secreta como o amigo tinha desaparecido que a estava a desesperar.

Era Junho e aproximava-se o final do ano lectivo. Muito rapidamente toda a gente se separaria e mesmo que em Julho ou Setembro, esporadicamente, se voltassem a encontrar, por ser época de exames, não haveria tempo, nem condições para estreitar laços. Isso doía-lhe. Especialmente ficar longe de Miguel. Aquela pessoa fazia-lhe imensa falta, precisava de continuar a vê-lo, de lhe falar, de estar com ele.

-Mónica não devemos estar separadas tanto tempo. Podíamos combinar umas férias no Algarve, todos juntos. - Maria Madalena já vibrava com esta ideia.

-Não sei...-Mónica um tanto pensativa. -Era o máximo... mas deixa lá ver como me correm os exames e se os meus pais irão concordar.

Lena ainda nem tinha pensado nos pais, nem em Paulo. Que distante estava Paulo dos seus pensamentos. Parecia impossível que fosse casar com ele daqui a seis meses! Quedou-se pensativa. Teria o direito de sonhar com férias no Algarve na companhia de amigos que tanto prezava e de ainda por cima ousar sentir aquele friozinho na barriga quando se lembrava que o mais importante dessas férias seria a presença de Miguel. Certamente que não. Era leviano o seu comportamento e estavam descontrolados os seus sentimentos. Deveria saber parar e o momento era oportuno. Aproveitar o final do ano para se recolher, voltar à aldeia, a casa, à família. Resignar-se com o seu destino, convencer-se das limitações que lhe estavam impostas.

O telemóvel tocou e alegrou-se imenso com a voz de Miguel:

-Olá, Rainha Cruela, estavas a pensar mal de mim?

-Sim...sim, estava a jurar-te pela pele. Como é que ousaste partir sem me avisares?

-Desculpa foi tudo muito rápido. Gabriel não se estava a sentir bem. Achei melhor acompanhá-los. Segunda-Feira já aí estarei. - Depois com uma voz muito doce - E tu sentes-te bem?

-Estava melhor se estivesses aqui. - Também a ternura se expressou na sua voz - Sinto muito a tua falta. - Afastou-se do grupo e saiu do bar da Universidade para escapar ao barulho e aos olhares indiscretos.

Houve um momento de silêncio, depois foi Miguel, o justiceiro, quem falou:

-Ainda estás a tempo de reconsiderares a tua situação. De escolheres um caminho diferente.

Maria Madalena sabia que Miguel se estava a referir ao casamento, uma questão difícil para ela, por isso quis aliviar a tensão:

-Eu e a Mónica temos estado a combinar ir passar umas férias ao Algarve. Que dizes tu?

Miguel ficou, por momentos, calado e Lena achou melhor insistir:

-Gostaria muito que também fosses. Era muito importante para mim.

-Porquê? - Miguel desafiava.

Maria Madalena não sabia porquê. Porque desejava tanto a presença de Miguel? Porque necessitava tanto dele?

-Tornaste-te um grande amigo... - Arriscou, na esperança que Miguel ficasse satisfeito.

-Ao ponto de me escutares e seguires os meus conselhos em relação ao teu futuro.

-Sim...estou disposta a reflectir. - Disse numa voz quase sumida, sem convicção. Se permaneceres ao meu lado...

-Estarei sempre ao teu lado...- a voz de Miguel, tão meiga, tão carinhosa estreitava-a num abraço apertado. - Até segunda-feira, minha Rainha. Beijos.

-Beijos. - Quis acrescentar mais e mais mas o silêncio que se seguiu denotava já não haver ninguém que a escutasse.

 

Afinal Miguel não voltara segunda-feira, nem nessa semana deu sinais de si. Telefonou-lhe várias vezes mas as conversas foram curtas e pouco esclarecedoras. Estava com problemas na família. A seguir ao irmão fora o pai que adoecera, estando mesmo hospitalizado. Custou-lhe muito a passar o tempo mas procurou aproveitá-lo, concentrando-se nos estudos pois as frequências multiplicavam-se e o número de disciplinas a concluir era considerável, tendo que remeter para exame pelo menos duas, para já não falar do “chumbo” a “Psicologia Educacional”. Aproveitou para insistir com o pessoal a necessidade de se encontrarem nas férias, apontando a segunda quinzena de Agosto como sendo a melhor para passarem algum tempo no Algarve. Voltara a abordar o assunto com Miguel mas este não pareceu muito motivado, por isso começava a ter dúvidas que viesse a ter sucesso nesta empresa. Desesperava com a proximidade das férias. Cada um a voltar para os seus locais. Separação. Ausência. Por onde andava Miguel? Onde o poderia procurar se necessitasse dele. Não sabia nada da sua vida particular. Só o nome completo das pautas de notas, de resto, pouco mais. Morada, nada. Lembrou-se das palavras de Rafael: evoca-me! E riu-se.

 

 

Miguel veio fazer as últimas frequências nos últimos três dias de aulas. Tinha conseguido essa benesse por parte dos professores já que, motivos de força maior o tinham impedido de estar presente nas datas marcadas. Os momentos a sós não abundaram e as conversas foram curtas e apressadas. Miguel mostrou-se preocupado com a saúde do pai e fez saber aos amigos que os negócios de família reclamavam a sua atenção. Uma pequena empresa de venda de madeira, que o pai tinha criado, teria que se manter activa e com o pai hospitalizado cabia-lhe a ele tomar as rédeas do negócio. Estaria assim comprometido o Verão, especialmente as férias no Algarve, pensava Maria Madalena contrariada. Não que Miguel tivesse assumido fosse o que fosse mas ela não via nele qualquer interesse. Perguntou ainda por Gabriel, se estava melhor?

-Recuperou. -Informou Miguel, secamente.

-E Rafael. É possível ter o contacto dele?

-Não usa telemóvel. Modernices que ainda não abraçou. - Riu-se o amigo sem dar importância. Depois, como se lhe viesse à memória qualquer esquecimento de que estava a ser vítima, disse:

-Lembro-me de que mandou avisar-te que...dará notícias!

-Podiam vir connosco em Agosto. Preparamos umas férias na praia. - Maria Madalena não queria desperdiçar esta oportunidade. - Tu vás, não é verdade?

-Não sei. Não posso prometer nada. Possivelmente já só nos veremos no inicio do próximo ano lectivo, isto se o meu pai não piorar.

Maria Madalena resignou-se. O amigo estava tão apressado que as despedidas foram curtas e secas. Nada os ligava, ao que parecia.

-Adeus. - Um beijo leve na face. Um aceno de mão e Miguel partiu para apanhar o autocarro.

 

Os últimos dias do mês de Junho, já com um sol de torrar corpos, gastaram-nos a arejar a casa, a emalar pertences, a consultar as pautas de notas e a confirmar datas de exames. Miguel tinha conseguido positiva a todas as disciplinas, Lena deixara para trás uma e necessitava de ir a exame de recurso a outras duas, por isso sabia que em Julho voltaria. Quanto à casa era melhor manter o contrato de aluguer e todas as ocupantes tinham o acordo dos pais para o fazerem. Conversas amenas de final de tarde em esplanadas da Praça do Geraldo, passeios, por baixo dos arcos, entrando e saindo em lojas de roupas, sapatarias, artigos de praia. Um novo biquíni, umas havaianas, um saco a combinar, pequenos mimos que antecipam o espraiar do Verão.

Na tarde da última sexta-feira do mês de Junho, Maria Madalena carregou o carro. Despediu-se de Sara e Adília, com abraços apertados e beijos ruidosos e ficou sozinha com Mónica.

-Lenita...que tudo corra bem. Como sabes tenho tudo feito. Pensei em levantar a nota a duas disciplinas mas, já não me apetece, chatear-me mais...por isso não volto a esta cidade antes do final do Verão.

Maria Madalena olhava a amiga. Tinha a certeza que o próximo ano já não seria tão bom. O próximo ano seria tenebroso! As lágrimas teimavam em surgir e teve que desviar o olhar e suster o queixo que insistia em tremer.

-Pareces triste.

-Não gosto de despedidas. Tenho esta mania de que as coisas boas deviam durar para sempre.

-É...mas quem segura o tempo. Ele não pára. -Mónica olhava em redor para a casa deserta, as janelas fechadas e ouvia o silêncio que impera nas coisas abandonadas. Também ela se sentia triste, por motivos muito mais profundos do que Lena poderia imaginar. Podia com clareza ver para além do tempo. A amiga posicionava-se na encruzilhada de três caminhos e desejava ardentemente que ela escolhesse o melhor.

-Então está combinado encontramo-nos em Agosto. Albufeira City...-Mónica brincou e abraçou Maria Madalena, apertando-a com força. - Como sabes os autocarros não esperam por ninguém.

-Levo-te lá. Estás muito carregada.

Não demorou que Mónica ocupasse lugar no autocarro para Portalegre e se perdesse do alcance de Lena. Ficou o vazio das partidas e a resignação do inevitável.

Entrou no “Opel Corsa” estacionado junto à igreja de S. Francisco e na tarde amena, empreendeu viagem.

Ligou o rádio e os sons alegres que acompanham os momentos de lazer entraram-lhe na alma. Cantou até, para espantar as mágoas. O sol reclinando-se, no seu lado direito, incomodava-a, tão pujante estava ainda no início de um ocaso vibrante. A distância era relativamente curta, até à aldeia. Quarenta quilómetros, até Portel, mais 17 até casa. Quarenta e cinco minutos, uma hora. Conforme o condutor. Para ela que detestava velocidades o mais certo era ultrapassar o tempo estabelecido.

Percorria o IP2 com desinteresse. Passou S. Manços, aproximando-se agora de Monte-do-Trigo. As modernas placas de identificação, nada se comparavam às existentes em vias secundárias e as direcções sul, bem sinalizadas, apontavam com clareza as localidades mais importantes: Monte-do-Trigo/Portel/Beja.

O sol teimava em não se esconder, sôfrego de brilhar até não poder mais. Dispunha-se a tirar a barriga de misérias invernias e do desalento de uma Primavera débil e chocha.

Viu-se subir, sem questionar, a rampa de acesso à entrada de Monte-do-Trigo. Virou à direita e tomou o atalho secundário da Atalaia!

Estava consciente e descansada. O sol brilhava agora de frente. Que trevas ousariam destronar uma luz tão brilhante. Nenhumas!

Escassos metros eram alcatroados, depois a estrada era de terra batida até à Atalaia, mas o piso era liso e fácil de transitar. Ficava o automóvel com um pouco mais de pó mas isso eram pequenas contrariedades que não punham em causa determinações momentâneas, movidas por uma força arrasadora que não se queria contestada. Poucos quilómetros e o lugar da Atalaia surgia no horizonte, expondo timidamente os seus traços brancos, envelhecidos pela passagem do tempo e o desleixo dos homens. Mesmo assim, ao longe, teimava em mostrar-se pujante, dominando a paisagem, qual rainha majestosa, impondo vontades a um tempo perdido. Encurtada a distância, já em cima do espaço, o automóvel entrava, ferindo-a de morte. A visão expunha-a nas vergonhas sentidas. Ruína visível ao sol claro. Cada canto, cada parede, cada espaço não tinha como esconder-se, ocultar-se, fugir à penetração furiosa dos raios vibrantes que tal como vizinhas coscuvilheiras, entravam sem licença na casa alheia para expiar as fraquezas e os segredos que cada um tem.

Maria Madalena estacionou o carro junto ao contraforte do edifício em ruínas, onde tudo indicava tratar-se de uma pequena igreja. A configuração, os restos do campanário, o cruzeiro a desmoronar-se, a pequena cruz férrea encimando a sineira, sinais evidentes de um espaço sagrado. À volta não há árvores nem arbustos. O terreno está árido e seco na sua planura exposta e desprotegida. Restos de seara, agora em restolho, cobrem a terra, tal como cabelos despenteados e fracos. A rapariga circula em redor, contornando a igreja pelo lado esquerdo até ficar de frente para ela. A fachada principal é desolante. O pequeno nartex de três arcadas redondas, mal se mantém de pé. Exibe ainda parte da coroa rendilhada de tijolo vermelho ornamentada por pináculos piramidais mas o cinzento, quase preto, cobriu o vermelho e os fungos amarelos, são o único tesouro a brilhar à luz do sol. Flanqueada a arcada principal, pisa-se o chão irregular de pedras levantadas e receia-se que a abóbada, ferida no centro, nos venha a cair em cima. A grossa porta, há muito arrombada, está apenas unida com um fio de arame. A nave e a capela-mor, resguardadas na penumbra interior, acolhem o mistério do templo. Para dentro não ousa passar!

Muros envelhecidos demarcam outros lugares: Horta.

Portão de ferro entreaberto mostra o espaço devassado do antigo cemitério. Ao lado casas de habitação. Restos.

Do outro lado da estrada, um pequeno edifício rectangular, mostra os traços de uma pequena escola de espaço rural. Escancarada, destelhada, à mercê de tudo e de todos. Nada resistiu naquele lugar. O sol começa a esconder-se e o vermelho fogo alastra no céu, projectando-se no horizonte. A vista espraia-se pelo descampado aberto que se estende para norte, oeste e sul. Somente a nascente se enlevam os montes, cobertos de árvores e vegetação. Maria Madalena respira fundo a aragem amena da tarde de Verão. Sente uma imensa paz e segurança. Aquele lugar embala-a, conforta-a, acalma-a!

Que razões a levaram ali? Para avaliar a estranha experiência que numa noite de Abril lhe pareceu viver: a mulher nua, o bouquet de noiva! Mistérios que a noite e o medo conseguem criar. Sorriu-se. A luz do dia tudo dissipa. À luz do dia, tudo é real, não há máscaras. Só o passado habita aquele lugar. Nada mais!

Está determinada a regressar. Entrar no carro, percorrer a distância que resta e aninhar-se no seio da família. O entardecer apressa-se agora a trazer a noite. O sol esconde-se, afogueado entre uma massa de nuvens laranja. Os raios, agora ténues, tocam debilmente as construções e a igreja povoa-se de pequenas sombras. Espaços abertos escurecem, ocultando vazios, guardando segredos. Há uma quietude sonolenta de final de tarde de Verão. Apenas o som dos grilos e cigarras se torna insistente. A rapariga afasta-se devagar caminhando ao longo da igreja, tocando-a ao de leve, passando-lhe os dedos pelas paredes rugosas, clamantes de cal que as protejam do fogo abrasivo do sol. Sente o calor que delas emana. Estão quentes de sol mas frias de vida!

Uma andorinha em voo rasante passa rente a ela produzindo um chilreio agonizante e aos tropeços, embate com violência contra a dureza da parede. Maria Madalena assusta-se ao ver o pássaro estatelado no chão. Apressa-se a pegar-lhe. O pequeno corpo está ofegante, agitado, tremendo de cansaço e medo. Passa-lhe os dedos pelas penas macias e a ave solta um gemido profundo. Uma das asas está praticamente arrancada. É essa a causa da dor. Aninha-a no colo, sentando-se sobre um pedaço de mármore escurecida e desgastada pelo tempo que se encontra no terreiro exterior da igreja. Afaga-lhe o corpo em sofrimento que arfa consecutivamente, em movimentos descontrolados e penosos. A rapariga sente-se impotente, apercebendo-se do inevitável: o pássaro acabará por morrer! Os pequenos olhos fecham-se sem resistência, o bico cerra-se sem nenhum queixume e o frio do corpo sem vida, trespassa agora a quentura das fofas penas, pretas e brancas. Não resistiu e em segundos já é cadáver!

A rapariga levanta-se, caminha como sonâmbula em volta da igreja. Atravessa o velho portão de ferro entreaberto. Está disposta a enterrar a pequena alma. Ali num lugar decente. Escava com uma pedra em bico, a erva seca e a terra dura. Uma pequena cova servirá de repouso ao corpo leve da pequena ave. Deita-a com cuidado. Tapa-a com a terra quente. Não há flores para embelezar o espaço, apenas umas malvas verdes, brotando nas frestas do muro envelhecido. Algumas cobrirão a cova e o verde aliviará a tristeza da terra árida e seca que acolhe a morte. A pouco e pouco escurece. Cai o manto da noite sobre o dia claro e risonho. Lena ajoelhada sobre o solo, cabeça baixa, arrasta no chão os cabelos longos e as mãos, cobertas de pó, sujam a camisa branca que vestiu de manhã. De repente, ouve, um silêncio que não é normal! Nem grilos que cantem. Nem pássaros que chilreiem. Nem pastos que se agitem. Nada! Esforça-se a rapariga por se levantar, apertada entre os “jeans” justos a moldar as pernas, curiosa desta ausência de ruídos. Durou uns segundos e é um choro suplicante de criança que o rompe! Maria Madalena, já de pé, fica colada ao solo, imóvel, sem reacção. Entre a estranheza e o receio, procura a razão do pranto assustado que escuta. Por mais que procure, desconhece-lhe a causa, o lugar, a razão. A garganta seca, o coração agitado de temor, as pernas tremendo em ligeiro movimento e o choro agudo, dilacerante, ficando mais perto, mais forte, mais presente.

O voo rasante de um pássaro produz o primeiro ruído natural e o choro, antes vibrante, abafa-se, tornando-se pouco a pouco mais fraco, até se extinguir totalmente. O bater das asas sobre a sua cabeça, obrigam-na a olhar para cima. Uma andorinha alegre, esvoaçante, gira à sua volta. No lusco-fusco da noite as penas brancas do pássaro brilham como candeia acesa para servir de guia. Maria Madalena estende a mão e a ave pousa, levemente, sobre a pele suave da rapariga. As pequenas garras são plumas macias, os olhos vivaços, redondos de mel, fixam-na com doçura. As asas quentes fecham-se, abraçando-lhe os dedos. Maria Madalena contempla a avezinha. Sorri-lhe e uma voz maviosa emana do peito arfante da ave:

-Afasta-te daqui....que hoje é sexta-feira!

A rapariga sente um terror que a obriga a sacudir o pássaro violentamente. A ave irrompe num voo incerto, cambaleante. Insiste em subir, escapando no ar mas só uma asa responde ao apelo. A outra está praticamente arrancada! O pássaro rodopia e cai estatelado no chão. A rapariga corre, desenfreadamente, para fora dali. Atravessa o portão, enfiando à pressa pelo corredor estreito entre o muro do cemitério e o alçado norte da igreja, tropeça nas pedras, enleia-se no pasto, desequilibra-se no piso irregular e só alivia quando alcança o desafogo do terreiro onde tem o carro estacionado. As formas ao redor começam a ficar irreconhecíveis. Serão árvores, serão rochas, serão montes? Ao lado, o que resta da escola, cobre-se de negrume, pronta a desaparecer na escuridão. Maria Madalena entra no carro, cerra vidros, tranca portas, sente-se exausta, aterrorizada, intrigada! Quanto tempo se passou? Uma, duas horas. Olhou o mostrador do automóvel e o relógio indicou-lhe 21:35 horas. Por esta altura, em casa, já receariam pela sua demora. Mais uma vez se sentiu irresponsável, imatura. Como se podia perder em situações inexplicáveis.

 

 

Atalaia 4 [Capítulo 4 - Final]

 

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-Só preciso de alguns minutos. Subirei ao quarto para usar a casa de banho, emprestas-me a chave? - Maria Madalena desejava libertar-se sem levantar suspeitas.

-Como combinado espero-te ali, no bar do hotel, para uma bebida.

Abanou a cabeça em sinal de concordância e apanhou a chave que Sérgio lhe estendia.

-Não demores. - Ainda ouviu.

A primeira coisa que fez foi abandonar sobre a mesa-de-cabeceira, o anel da discórdia.

Pegou no telemóvel e ligou.

-Querida Mónica como pôde esquecer-me de ti...

O saco ainda arrumado desde a decisão da tarde, um olhar de relance para que nada ficasse esquecido e a porta fechada sem arrependimento. Deixaria a chave na recepção!

 

 

A única saída era chumbar por faltas, a “Psicologia Educacional” e evitar reencontrar-se com Sérgio nos corredores e espaços da Universidade. O telemóvel já havia acusado várias tentativas de contacto, mas ela encontrava-se sempre indisponível. Mantinha-se esperançosa que Sérgio nunca mais lhe perdoasse aquela cobarde e secreta fuga e que a esquecesse de uma vez por todas. Recordava-se ainda da expressão atónita de Mónica quando a apanhou, escondida, encolhida na esquina deserta do hotel e com que dificuldades explicou a sua presença em Portalegre. Recebeu da outra, olhares de censura e palavras de advertência, mas foi recebida em casa dela com a melhor boa vontade e sem necessidade de grandes justificações. Isso não evitou que passasse uma noite agitada e temerosa. Muito cedo e a contragosto da amiga, apanhou o autocarro para Évora. Meteu-se no automóvel e correu a refugiar-se na aldeia onde ainda dormiu, Domingo à noite.

Depois retomou a sua vida normal, excepto na dedicação às aulas de Sérgio e à sua companhia. Daí, julgava, estar descansada!

Voltou ao convívio dos amigos. Às saídas nocturnas, aos jantares de grupo e procurava agora, a todo o custo, reatar a amizade sincera de Miguel. Sentia saudades da sua presença, do seu carinho, do seu apoio, sabia, no entanto, que o mais difícil, seria fazer Miguel entender que não permitiria interferências na sua vida particular. Se afastassem essa nuvem negra tudo entre eles, poderia acontecer na máxima paz e concórdia. Verdadeiramente sentia uma enorme ternura por ele, perdia-se na calma e segurança dos seus grandes olhos castanhos, na expressividade do seu rosto, na bondade do seu sorriso. Dava por si, procurando-o insistentemente, na sala de aula, no bar, no refeitório e senti-os vazios sempre que ele não estava. Abordava as amigas, perguntando por ele e desesperava sempre que elas, desinteressadas, encolhiam os ombros. Já o amigo parecia não corresponder, andava esquivo, desinteressado, alheado. Retribuía-lhe vagos cumprimentos, esboçava ligeiros sorrisos, trocava com ela meras palavras e afastava-se, parecendo sempre apressado em aliviar-se da sua presença e tomar rumo para outras paragens.

-O Miguel está diferente. - Comentou com Mónica – não achas?

-Estamos todos mais nervosos. Aproxima-se o final do ano e os exames. Há muito para fazer.

-Não me parece. Julgo que me evita.

-E porquê? Vocês nunca se deram por aí além. Sempre se espicaçaram e tu...-Mónica fez uma pausa e espetou o dedo em direcção à amiga. - Tens algumas culpas no cartório. Então já não te lembras de nos deixares plantados na festa em tua honra e desapareceres sorrateiramente com o teu noivinho. O Miguel sofreu um duro golpe, desde esse dia que ele mudou, praticamente desapareceu... até comigo se tornou diferente.

Efectivamente, Maria Madalena tinha ignorado Miguel e como este não se queixara, passou completamente despercebido. Então de onde lhe vinha esta súbita necessidade de se reaproximar do amigo? De conquistar a sua atenção? Porque se via sozinha? Porque outros interesses não ocupavam, agora, a sua vontade? Porque necessitava sempre de alguém que a idolatrasse? Provavelmente.

-Vou falar com ele. Nós sempre nos entendemos e ele é muito sensato.

-Oh! Rapariga tu também és engraçadinha, tens que arranjar sempre uma. Andaste aí, metida contigo própria, escapando-te sorrateiramente, para aqui e para ali, com misteriosas companhias e agora voltas à carga, queres ir a todo o lado, queres falar com toda a gente, exiges as atenções todas para ti e fixaste-te no Miguel, deixa o rapaz em paz...-depois em tom mais sério - olha que podes fazer-lhe muito mal.

Lena calou-se, percebeu a amiga, recordando-se do beijo que Miguel lhe tinha dado. Estaria ele apaixonado por ela? Sentiu um prazer especial por esse pensamento. Tinha a certeza que Miguel era um doce de homem.

 

O som da música elevava-se para além das palavras, dos risos e de outros sons indecifráveis que as palavras e os risos faziam. Os vários ocupantes do bar esforçavam-se em vão por comunicar. Pequenas mesas redondas apinhavam-se de jovens, numa procurada pausa nocturna, para alguns, aliviante do stress diurno da época pré-exames, para outros pura rotina habitual. Num canto, o grupo sete, como lhe chamavam, ocupava o espaço que lhe estava reservado. O número sete, de que particularmente gostavam, já há algum tempo que não se atingia. Há meses que Lena não vinha comparecendo, agora era a falta de Miguel que se notava.

Nova rodada de imperiais chegava à mesa, animava-se a conversa, solta e um tanto desconexa, condicionada pelo ambiente envolvente e procurava-se entre os recém chegados, figura conhecida que nos consolasse a alma e alegrasse o espírito. Há bem mais de uma hora que Maria Madalena não desviava o olhar da entrada. Quase se traía, impelida pela vontade de comentar com Mónica, a ausência de Miguel. Uma ausência demasiado exagerada e sem justificação, considerava. Apressado na Universidade, ocupado nas aulas, desaparecido da casa, Miguel não deixava hipóteses de ser contactado. E quando as poucas ocasiões pareciam acontecer, desculpava-se cordialmente, evocando afazeres inadiáveis, chegando a alegar razões incompreensíveis ao comum dos mortais, por exemplo:

-Desculpa Maria Madalena mas as trompetas tocam... -desaparecendo sem demora. Ou então, na maior das calmas e serenidade:

-Convocam-me para a missão que me trouxe aqui...- e depois afastando-se a passo certo, murmurara ainda, lançando-lhe um último olhar – o tempo escasseia!

Decididamente Miguel andava estranho e ela estava determinada a saber porquê.

Não o identificou imediatamente, de tal forma este parecia absorvido em qualquer assunto que tratava com outro rapaz, dois, para bem dizer. Miguel ao meio fazia-se acompanhar de mais dois rapazes. Desconhecia-os e, por isso, procurou de imediato a atenção de Mónica, interrogando-a sobre esse facto:

-Miguel acaba de entrar com dois rapazes, quem serão?

-Onde?

-Logo a seguir à porta de entrada, junto ao primeiro arco.

-Sim...sim, já vejo. - Mónica amiudava, para concluir – Não conheço. Vou chamá-lo: - Migueeelll...aqui!

Em vão. O barulho impedia que Miguel ouvisse.

-Eu vou lá. - Lena levantou-se determinada. Atravessou aos atropelos a quantidade de gente que circulava, na pressa de alcançar o amigo.

-Miguel... estamos ali...no nosso canto. Maria Madalena apontava o local, puxando pela mão de Miguel.

-Olá Lena. Estou acompanhado.

-Há lá lugar. Podem vir todos. -Lena apressou-se a esclarecer.

-Estes são os meus irmãos. - Miguel apontou os dois acompanhantes, depois, respectivamente – O Gabriel e o Rafael.

-Prazer. Não sabia que tinhas irmãos! - Lena referiu sem qualquer interesse, ignorando os outros e fixando-se insistentemente em Miguel, entrelaçando-se no seu braço e puxando-o em direcção ao lugar.

-Somos gémeos! -Miguel referiu sem se mexer, enquanto os rapazes sorriam estendendo a mão para cumprimentar Lena.

-Desculpem...-Maria Madalena sentia-se envergonhada. - Sou a Lena, a amiga do Miguel, muito prazer em conhecê-los. - E aproximou o rosto, ignorando as mãos.

-Eu sou o Gabriel, encantando em conhecer-te.

Trocaram entre si o beijo de cumprimentos. Gabriel cheirava bem. Um cheiro identificável, não sabendo de onde!

-Rafael, sou o mais novo, e... já te conhecia dos meus sonhos! O rapaz falava já perto da face de Lena, que se aproximara para o cumprimentar. A voz de Rafael e especialmente as últimas palavras proferidas em surdina, pareceram-lhe estranhas mas ao mesmo tempo, havia na sua voz, qualquer coisa de familiar. Que ideia! Nunca sequer ouvira falar deles. Iria cobrar isso ao amigo mais cedo ou mais tarde. Julgava-se no direito de Miguel lhe contar tudo. Tudo!

-O mais novo!? Então vocês não são gémeos!? E já agora três gémeos não é demais...- perguntou Lena mais para fazer conversa.

Miguel sossegou-a:

-Tantas perguntas. Efectivamente somos gémeos. Trigémeos! Minha mãe foi a escolhida...mas não nascemos todos ao mesmo tempo. Há sempre algum que é o primeiro: Eu, depois o Gabriel e depois o Rafael. - Riu-se.

-Bem... parece-me que reclamam a nossa presença. Fazem-nos companhia? - Lena parecia dirigir a pergunta apenas para os dois novos conhecidos, quanto a Miguel estava determinada a não deixar escapá-lo. Continuava com o seu braço entrelaçado no dele, segurando-o, apertando-o, sugerindo-lhe que ficasse.

Os dois irmãos fixaram o irmão mais velho como que à espera de indicações.

-Ficamos. Acompanhamos a nossa Rainha como bons súbditos que somos.

Lena não pode deixar de sorrir. Miguel parecia estar de volta.

Os quatro atravessaram a sala até encontrar os amigos.

Dificilmente naquele ambiente, seria possível manter uma conversa e Lena tinha uma vontade enorme de falar com Miguel, de o questionar, de o envolver, de o tornar cúmplice.

Enquanto os outros se ocupavam dos novos conhecimentos, Lena apertou-se junto do amigo, procurando não perder tempo.

-Miguel, há muito tempo que não passas lá em casa. - Lena muito próxima, encostada ao ouvido do rapaz, roçando com os seus lábios as pontas do seu cabelo, castanho, ondulado, meio curto.

-Não tenho tido tempo. – Miguel seco, desinteressado.

-É verdade. Tenho curiosidade em saber que ocupações te tomam? - Mais uma vez muito perto, quase sobre… os lábios roçando a orelha, o hálito soprando como brisa quente em final de tarde.

-Não queiras saber...- Miguel mantinha a mesma postura que há já algum tempo vinha adoptando. Um distanciamento assustador, uma barreira intransponível. Mas não para ela.

-Amanhã, ou ainda hoje, se quiseres podemos falar, eu e tu, sozinhos. - Na penumbra da sala, entre o piscar das luzes, os olhos de Lena procuravam insistentemente os de Miguel. O que se diz em palavras nem sempre os olhos confirmam e foi isso mesmo que numa faísca rápida o olhar de Miguel denunciou.

Maria Madalena soube, instintivamente, que ainda havia para ela, uma réstia de esperança por isso insistiu em manter a atenção de Miguel, abordando assuntos que lhe pudessem interessar. Perguntou sobre os estudos, tentou saber o que faziam os seus irmãos por cá, se partiria logo para a terra assim que as aulas terminassem ou se se mantinha por Évora mais algum tempo. Falou, falou, subindo cada vez mais o tom da sua voz, desesperada por se fazer ouvir. Miguel por sua vez, continuava a responder-lhe com meias palavras, outras vezes recorria simplesmente a gestos de negação ou afirmação e alegava por diversas vezes, não perceber o que ela dizia. Quando Maria Madalena se sentiu exausta, jogou a última cartada!

Encostou os seus lábios à orelha esquerda de Miguel, exercendo sobre ela uma pressão desnecessária. O seu hálito quente penetrou fundo levando com ele o rumor da língua.

-Não vou casar!

Miguel sentiu-se incomodado. Desviou-se de Lena, interrogando-a com o olhar.

-Podemos sair daqui? Perguntou secamente.

-Já. E Lena levantou-se num ápice.

Miguel olhou os irmãos sem nada dizer. Pegou no blusão e encaminhou-se para a saída onde alcançou Lena que se adiantara.

Mónica torceu-se contrafeita, mas a amiga nem olhou para trás, tão desejosa estava de estar a sós com Miguel.

 

 

A noite estava amena. O final de Maio já se manifestava bastante quente, deixando adivinhar mais um Verão de intenso calor. No céu estrelado, a lua redonda e cheia, dominava. Durante mais algumas horas reinaria e só a claridade da manhã se encarregaria de a destronar.

Os dois amigos deixaram o bar. Tomaram caminho pela travessa estreita e empedrada, de marcado traçado medieval, ladeada de altos edifícios de habitação e comércio, em direcção ao centro da cidade. Caminhavam devagar, lado a lado, inspirando profundamente o ar da noite, aproveitando para expelir os resíduos inalados, presentes na viciosa atmosfera do espaço fechado do bar. Era um prazer aquele sossego. Nem um som, nem ninguém. Mais tarde com o encerramento do bar, o desacato e a desordem poderia levar ao desespero alguns moradores. Agora nada. Pelo menos por segundos. Dava para descontrair, dava para saborear e Lena deliciava-se com aquele momento. Miguel a seu lado, sós. Há quanto tempo isso não acontecia? Estava verdadeiramente feliz e desejava que se perpetuasse tão agradável sensação.

Miguel aproximou-se. Não a olhou. Nada disse. Procurou a sua mão, entrelaçando-se nela. Uma emoção forte sacudiu-lhe todo corpo, um sentimento de conforto e protecção envolveu-a, um desejo intenso de entrega, impeliu-a. Miguel conduzia-a em silêncio, levemente embalada pelo ritmo cadente que juntos conseguiam marcar. Leve como numa valsa ao luar.

Passaram-se segundos, minutos talvez, Lena continuava a sentir Miguel pelo calor da sua mão, aí sentia-o de corpo e alma. Quanto mais tempo duraria aquele idílio? Quando se quebraria aquela envolvência, quando lhe exigiria Miguel explicações? Angustiava-se por lhe ter mentido. Com Miguel era tudo ou nada. A verdade era inevitável. Ao menor ruído do amigo estremecia, por isso não quis adiar, antes redimir-se, arrepender-se:

-Miguel...

-Shhh! O rapaz levou o indicador direito junto ao nariz, parou, fixou-a e sorriu. - Não digas nada... não quebres a magia deste momento.

Lena ficou muda, contemplou Miguel, parecia-lhe agora mais velho e ainda mais maduro do que a sua maneira responsável sempre o evidenciara. Estava mais sereno, mais confiante, mais seguro. Continuava a sentir a pressão carinhosa da sua mão contra a dela, de instante a instante ligeiros afagos, entrelaçar de dedos. Era uma sensação maravilhosa, um contacto físico tão puro, tão diferente dos que são impelidos pela força avassaladora do desejo carnal e por isso deixou-se levar, embalada, aconchegada, protegida, disposta a percorrer qualquer caminho ao lado daquela pessoa que lhe conseguia transmitir esta imensa paz.

A rua acabou. Entraram na praça. Aqui e ali, alguns ao luar. Sentados na pedra, sentados no colo em volta da fonte. O par avançava, descia a cidade. De dentro para fora. Silêncio na voz, vozes no coração. Às vezes um olhar, intenso, meigo, especial, castanho como a terra arada que espera a semente da vida. Harmonia, cumplicidade, compreensão.

Onde a luz artificial escasseava, a lua redonda tornava-se guia. Um pequeno beco, um recanto, uma rua mais estreita e o brilho entre os dois parecia esbater-se. Um silêncio tão longo denota entendimento mas ficava tudo por dizer. Miguel desfrutava, via-se entregue aquela envolvência e não parecia querer sair dela. Maria Madalena de momento a momento despertava, alertada por este ou aquele ruído, desligava em pensamento, fixando o espaço físico com necessidade de sentir a matéria. De repente parecia-lhe necessário descer à terra. Ocupar-se das coisas diárias, tratar do quotidiano. Apetecia-lhe falar com Miguel. Tentou. Olhou-o mas viu-o distante, vagueando celestialmente. Olhou em volta, sentindo a noite, a cidade, a vida. Lembrou-se de si, do que a pressionava, do que a aprisionava. Quis acreditar que a mão de Miguel era o único elo que a mantinha presa. Mas não era verdade. Transcendia aquele momento de calmaria, um total desassossego. Voltou a olhar-se por dentro e sentiu-se sozinha, como se a presença de Miguel não passasse agora de uma sombra, um vulto, nada. Algo insistia que estivesse alerta. Algum sinal a impelia a procurar em redor. Ruídos, passos, respiração, vigia. Não demorou que o entendimento disparasse o alarme. Alguém os seguia!

Inquieta agitou-se e Miguel manifestou-se, apertando com força a sua mão, sossegando-a:

-Nada a temer! - A voz de Miguel soou grave – está longe!

Maria Madalena alegrou-se por ter Miguel de volta mas continuava a interrogar-se. Porque denotava o seu instinto a presença de perigo estranho?

-Pareceu-me ver alguém. - Disse.

-A presença física não é importante são as perturbações do espírito que deves temer. Miguel respondeu, rodeando-lhe agora os ombros com o seu braço esquerdo.

Circulavam já pela periferia da cidade, uma zona mais nua, de ruas mais largas, casas separadas, o espaço mais amplo. Maria Madalena aproveitava a extensa visibilidade que a área lhe dava, para procurar certificar-se. Se havia alguém, a sua presença tornava-se agora mais difícil de ocultar. Não estava segura, por isso, exigiu a atenção de Miguel. Que procurasse com ela. O rapaz sorriu-lhe:

-Estamos quase a chegar. Em casa estarás a salvo!

Lena irritou-se:

-Que raio Miguel só falas por enigmas. Acho que alguém nos vinha a seguir. Tenho quase a certeza. - E mais uma vez o seu olhar se desdobrou em várias direcções, amiudando, investigando.

Miguel, demasiado calmo, voltou a sorrir-lhe:

-Já te disse que és linda? - Segurou-lhe o queixo, procurando-lhe os olhos, hipnotizando-se neles.

Lena abanou a cabeça em sinal de desalento mas todo o seu corpo vibrava à ternura de Miguel. Como podia o amigo não se inquietar com o seu temor.

-O que queres dizer com certas palavras estranhas? Pareces querer avisar-me mas nunca dizes do quê.

-Deves satisfazer-te com o necessário e neste momento o necessário é a minha presença. - Beijou-a na testa e encaminhou-a para o pátio de entrada.

-Não está ninguém em casa. Sozinha não fico. - Maria Madalena recusava-se.

-Mónica já está em casa. Saiu do bar logo a seguir a ti. - Miguel sentenciou – Sonhos cor-de-rosa, Rainha minha. - E atirou-lhe um beijo com a mão, enquanto se voltava e se afastava.

Maria Madalena foi assolada por soluços incontroláveis. Chorou de mágoa e de desespero. Por entre a névoa que as lágrimas provocavam no seu olhar, dançava-lhe a rua deserta. Quem quer que fosse havia-se esfumado, dissipara-se.

 

 

 

Atalaia 4 [Capítulo 4]

Anéis-de-noivado-do-Vintage-para-mulheres-de-luxo

 

 

 

 

Quando se conseguiu refazer do terror que sentia, ganhou velocidade e galgou os restantes quilómetros daquela misteriosa estrada até avistar Monte-do-Trigo. Alcançado o IP2, com mais desafogo, lançou-se rapidamente dali para fora.

À medida que o tempo passava, um pouco mais calma, sentia-se na obrigação de reflectir sobre o que lhe parecia ter acontecido. Dizia parecia-lhe, porque quanto mais avaliava a situação mais duvidava dela. As circunstâncias da viagem podiam, sem qualquer dúvida, ter sido o motor que desencadeasse as visões e ela não era mulher para se deixar abater por coisas que não faziam sentido. Muitas vezes, sozinha, já tinha escutado vozes que lhe falavam do interior, nada que não relativizasse imediatamente, por sentir que não se tratava de outra coisa que não da voz da sua consciência. A situação piorava, no entanto, quando reflectia, ainda que muito a custo, sobre a terrível imagem de mulher que a sua mente insistia em ter visto e o seu bom senso lhe negava. Quem poderia ser aquela assustadora figura? Ninguém. Nada. Certamente as suas preocupações, as suas ansiedades, os seus temores, personificaram-se. Ali, sozinha, naquele estranho lugar, numa noite escura, a imaginação pregou-lhe uma partida. Mesmo assim uma réstia de dúvida pairava sobre o assunto e quanto mais queria esquecer mais lhe vinha à memória aquela figura de mulher nua, com um bouquet de noiva nas mãos e uma coroa de flores na cabeça. O seu rosto, gostava de conhecer os seus traços, mas nada, nada tinha ficado se não o esboço de um ligeiro sorriso, com o qual parecia estar a troçar dela!

-Que ideia! Nada disto aconteceu e numa próxima vez, de dia, irei avaliar a situação. Agora tenho muito mais que fazer. - Concluiu, predisposta a arrancar da memória estas visões, certa de que nada mais eram que pequenos truques da imaginação.

 

Entrou em Évora ainda não eram nove horas. A cidade, aquela hora, muito se movimentava, especialmente junto às zonas comerciais, por isso perdeu algum tempo no emaranhado do trânsito até chegar à residência que ocupava. A casa estava vazia o que lhe permitiu respirar fundo e descontrair. Sem gente que a rodeasse, sem perguntas que lhe fizessem, sem justificações que apresentasse, sentia-se no paraíso. Amanhã, muito cedinho, estava determinada a reincidir. Logo que Paulo partiu, há praticamente um mês, tinha decidido alterar o seu comportamento. Jurou redimir-se, arrepender-se e prometeu que a sua vida seguiria pela direita razão. Ainda hoje, na festa do seu aniversário, a tia Celeste, sua madrinha, eufórica com o casamento, insistia que fosse vendo modelos de vestidos e ela, mais uma vez, comprometeu-se em visitar todas as boutiques para noivas que existissem em Évora. Sabia no entanto, que tal não iria acontecer e o mais provável era apagar totalmente da sua memória tal comprometimento ou então, quando se cruzasse com tais instalações sentir-se-ia, imediatamente impelida, a mudar de direcção. Toda a semana, antes da interrupção das aulas por ocasião da Páscoa, tinha sido alvo constante dos olhares de Sérgio. Desde aquela quinta-feira em que não compareceu ao segundo encontro em sua casa, julgou que ele lhe telefonasse insistentemente procurando justificações, o certo é que tal não aconteceu e ela, desorientada e sem rumo, decidiu também evitar que intimamente se voltassem a cruzar. O tempo foi passando sem alterações e nem da sua parte, nem da dele houve qualquer tentativa em reatar a relação. Melhor assim, longe do seu contacto, muitas vezes duvidava que se tivessem conhecido. Esta quinta-feira à noite, precisamente um mês passado sobre aquele dia, quando depois de ajudar a mãe na preparação da pequena festa de aniversário que iria fazer no dia seguinte, mais por desejo de sua irmãzinha do que por seu próprio gosto, se preparava para deitar, soou o telemóvel e soube, instintivamente, que era a voz de Sérgio que iria ouvir.

-Boa noite, minha indomável criança. Continua perdida e eu continuo procurando-a.

O primeiro impulso foi desligar. Voltar ao mesmo, não! Sérgio era um inconstante. Queria, não a queria. Conhecia-a, não a conhecia. Não estava disposta a estas incertezas e iria dizer-lhe isso, imediatamente.

-Sérgio...-Começou – eu e você... - mas foi, imediatamente, interrompida.

-Só quero fazer-lhe uma oferta. Soube do seu aniversário e quero dar-lhe um presente. - Sérgio falava com meiguice. - Sábado de manhã, espero-a no meu apartamento. Tenho um programa inesquecível. - Concluiu com mistério.

-Desculpe...professor. Não estou interessada. - Teve coragem para rematar.

-Não sabe o que é. Certamente quando souber, irá mudar de ideias. Não devia decidir sem consultar o seu coração. - Sérgio voltava a falar-lhe ternamente.

-O meu coração e o seu não são para aqui chamados – e avançou – o nosso relacionamento deve muito mais à atracção física do que às razões emotivas.

-Está sabidinha a minha menina. Olhe que pode enganar-se. - Fez uma pequena pausa e mudando o tom e o timbre da voz, acrescentou - E se eu te dissesse que me apaixonei por ti... ao ponto de perder a cabeça.

Lena sentia agora, a sua coragem desmoronar-se. Ouvia a voz cálida de Sérgio, dizer-lhe coisas tão graves. Tão graves como o amor. Ficou calada, tremendo, sentada na cama e ele continuou:

-Preciso de te ver. Não suporto mais esta separação. Levei todo este tempo a afastar a tua presença e a esquecer a tua imagem. Nada resultou. - Sérgio falava desconsolado. - A conclusão é só uma: Quero-te desesperadamente.

As palavras apaixonadas de Sérgio foram entrando na vontade de Lena, pressionando-a até a dominar totalmente e ela viu-se ceder, envolvida num desejo louco de provar, mais uma vez, do fruto proibido.

Por isso se encontrava em Évora numa sexta-feira à noite, final de semana. Tinha combinado com Sérgio encontrar-se com ele, Sábado, bastante cedo. Não o conseguiria cumprir se não tivesse escapado hoje mesmo.

Pegou no telemóvel e falou para casa, descansando a família sobre a viagem. Não falou ao pai na mudança de itinerário e recusava-se terminantemente a recordar tão má experiência. A seguir não resistiu e ligou para Sérgio.

Não demorou uma hora que não estivesse a subir a escadas do seu prédio. Não houve hipóteses de recusar tão insistente convite: Vem aquecer-me, nesta noite fria!

 

 

Partiram juntos, sábado, muito cedo, para passar o fim-de-semana em Portalegre, conhecer a Serra de S. Mamede e visitar Marvão, essa foi a proposta que Sérgio lhe fez e a incitou a aceitar, alegando que necessitava daquele momento e daquele espaço mágico para a surpreender. Esperou toda a manhã no quarto de hotel, que chegasse a hora do almoço, momento em que Sérgio estaria livre dos seus afazeres de conferencista e a procuraria para ficarem juntos. A tarde seria, então, dos dois.

O almoço decorreu agradável, num restaurante típico da região, fora da cidade. Sérgio sempre enigmático alternava a sua atitude, mostrando-se por vezes completamente alheado e outras demasiado próximo dela. Também ela se sentia instável, receosa. Algo tinha mudado na atitude de Sérgio, estava mais atencioso, mais terno, mais carinhoso mas também mais agitado.

-Minha querida – pegou-lhe na mão, assim que o empregado acabou de servir os cafés – neste momento encontro-me completamente disponível. - Acrescentou, levando a mão dela á sua boca, beijando-a levemente e passando-a depois, ternamente pelo seu rosto. Lena tremeu de emoção e olhou-o demoradamente á espera que concluísse.

-Eu e tu vamos ficar juntos...para sempre. - A sua voz era grave e decidida – entrei em processo de divórcio. Vou casar-me contigo!

Lena engoliu em seco, sentiu o coração e o cérebro em completo desnorte, recusando-se a assimilar tal realidade. Um sussurro saiu do seu interior...

-Não!

Sérgio olhou-a com severidade:

-Estou loucamente apaixonado por ti. Desafiaste-me, mexeste comigo, entraste-me no sangue ao ponto de questionar tudo e todos. Quero-te só para mim e farei o que for preciso para isso acontecer.

Lena escutava as palavras como sentenças. Que mal tinha feito para que Sérgio a quisesse castigar? Não lhe pediu nada, não lhe exigiu nada. Atreveu-se, isso era verdade, forçou a situação, também era verdade, mas não queria compromissos. Gostava de estar com Sérgio, assim, no limiar do proibido e não queria passar para o lado de lá.

-Sérgio... - disse – eu...estou para casar! - E ficou à espera da reacção do outro.

-Não...não casarás. - Sérgio parecia-lhe desnorteado, descontrolado, muito diferente daquele homem seguro e enigmático que a atraía – ou melhor, casarás sim, mas comigo. - Concluiu possessivo.

Lena olhou-o sem entender as razões que este evocava e sentiu raiva daquela paixão repentina que ele insistia em sentir.

Sérgio, desesperado, continuava:

-Ficarás comigo...lutarei contra tudo e contra todos para te ter. Já comecei a passar dificuldades. Tive de enfrentar a família, deitando por terra tudo o que acreditava ter construído. Não permitirei que te afastes de mim. Serei teu protector, teu amante, teu senhor.

Lena começava a sentir medo. Um medo estranho, sufocante mas ainda se encorajou a dizer:

-Eu...não estou disponível.

-Ficarás...o teu coração chama por mim. Sérgio sorriu, afagando-lhe os cabelos. - Vou levar-te de volta ao hotel.

Afinal a tarde não foi dos dois e ela viu-se novamente sozinha entre as quatro paredes do quarto. Melhor assim.

 

À noite, antes do jantar, já tinha decidido sobre a necessidade de esclarecer tudo com Sérgio. Uma coisa era determinante, esta não era a melhor altura para ele entrar na sua vida. Não havia condições para tal. Dir-lhe-ia isso mesmo, logo que ele chegasse. A sua realidade era outra: agora, com a casa totalmente pronta, a sua mãe, impaciente, exigia-lhe que logo que o tempo levantasse, encetassem as pinturas. Nos próximos meses seriam entregues todos os móveis encomendados e Paulo, continuava insistente, nos telefonemas e cartas para que não descurasse qualquer pormenor. Afinal o tempo movimentava-se apressadamente em direcção à data fatídica. Podia, efectivamente, classificá-la assim. Fatídica! Trágica! Funesta! Tal a forma como a via o rematar de todos os seus sonhos, no entanto, como se desenvencilhar dela? Avançar num compromisso com Sérgio? Inadmissível! Que diria o seu pai, que se matava a trabalhar, se ela lhe apresentasse um futuro genro mais velho que ela 20 anos, ainda que muito bem conservado mas divorciado e com filhos. Seria um verdadeiro escândalo. Sua mãe, essa, não resistiria, todos os sonhos por água abaixo, a vergonha da família! Da aldeia então, era melhor desaparecer. Mas o maior problema era outro. Não amava Sérgio, como não amava Paulo. Essa é que era a derradeira verdade e se Sérgio insistisse num compromisso não teria outra solução senão afastar-se definitivamente dele. Mais confusões, não poderia suportar.

O barulho da chave na porta do quarto activou-lhe a necessidade de se preparar.

Sérgio entrou, sorrindo, pousou a pasta sobre a cadeira e dirigiu-se a ela:

-Mil desculpas, por te ter deixado tanto tempo, sozinha. Julguei que a minha presença não fosse necessária esta tarde mas faltou um conferencista e tive que o substituir na mesa de honra. Vou recompensar-te esta noite de muitas maneiras. - Aproximava-se dela e procurava-lhe a boca, com paixão.

Lena de braços caídos, desejava que os seus pensamentos se traduzissem em palavras claras, transmitindo a Sérgio que, para eles, não havia futuro. Nem ela o queria.

Afastou-se assim que pode da sua presença e sentou-se na cama.

-Sérgio...professor – e olhava para ele que franzia o sobrolho em sinal de desentendimento – há, entre nós, um mal entendido.

Sérgio não respondeu e olhava-a, agora, com desconfiança.

-É verdade que me atrai e tenho a certeza que foi devido a isso que tudo começou, uma atracção física que nos foi envolvendo. Nunca falámos abertamente sobre a minha situação. Como já lhe disse, estou noiva. Tenho o casamento marcado para o final do ano e ninguém… espera de mim outra coisa.

-Eu espero de ti outra coisa! - A expressão de Sérgio mostrava-se séria e as suas palavras arrogantes - não brinques comigo – ameaçou, fulminando-a com o olhar. Aquele olhar negro, penetrante que tantas vezes a excitara.

-Não estou a brincar, desculpe. - Lena encolhia-se por achar que aquele homem, afinal, era um verdadeiro desconhecido e isso fazia-a sentir algum temor. Detestava o imprevisível e começava a ter a noção de que conhecia muito mal ou quase nada aquela pessoa. Mas isso agora não tinha importância, era preciso ganhar coragem, enfrentar a situação e agir com determinação:

-Isto, esta relação, este envolvimento, esta atracção ou o que quer que seja, vai terminar aqui e agora mesmo. Não pretendo compromissos, chegam-me os que tenho. Gostaria que me levasses de volta para Évora, ou então parto sozinha.

Sérgio virou-se repentinamente e já de costas avançou em direcção à porta. Deitou as mãos à chave sobre a escrivaninha e com ela deu duas voltas na fechadura.

Lena apercebia-se agora, que alguma coisa não estava bem, mas a voz de Sérgio soou-lhe calma e terna à medida que avançava para ela:

-Minha doce pequena, não tenha medo. Não vou retroceder. Tenho para contigo a melhor das intenções. O que se passa entre nós é uma relação séria sobre a qual quero construir o meu e o teu futuro - mais uma vez a abraçava – Estarás certamente aborrecida por te ter deixado só mas espera-nos uma noite maravilhosa que vou selar com o melhor dos presentes.

Lena começava a ficar irritada e por isso, desenvencilhou-se. Quem julgava Sérgio que era? Seu dono. Outro? Isso é que era bom!

-Julgo que não entendeu professor. O que houve entre nós termina aqui. Lamento se o levei a pensar outras coisas mas também nunca me deu a entendê-las, pelo contrário sempre se mostrou frio, distante e reservado em relação aos seus verdadeiros sentimentos. Passamos bons momentos e está tudo dito. Agradeço que me abra a porta pois pretendo voltar, ainda hoje, para Évora ou, na impossibilidade de o fazer, procurarei outro alojamento.

Sérgio nem se mexeu, estático em frente a ela. Lena pelo contrário procurava a sua mala, o casaco e o saco que tinha trazido com outras roupas, determinada a sair, nem que tivesse que provocar um escândalo.

Sérgio nervoso esfregava as mãos e respirava fundo, depois deu alguns passos em direcção à porta e num ímpeto, abriu-a.

-Pode sair. Não a quero forçar a nada. - Disse enquanto se encostava á parede do pequeno átrio que o quarto de hotel fazia para o interior.

Lena apressou-se a cumprir e ao passar rente a Sérgio, sentiu-lhe a respiração ofegante e a presença ameaçadora. Quando o seu corpo transpunha a porta prendeu-se-lhe a mão que segurava o casaco, entre a força poderosa de Sérgio.

-Maria Madalena...-Sussurrou - peço perdão. Fique só mais esta noite e garanto-lhe que não se irá arrepender. - A voz sufocada, o tom suplicante, o olhar meigo penetrante.

O professor, o bomzão, o homem com H maiúsculo, esse que lhe tinha dado tanto prazer, estava de volta e pedia, subjugando-se, pedia mais uma noite. Sim, era de noite, oito horas, nove, não sabia. Não tinha transporte para regressar a Évora e teria que ficar naquele hotel, pois não conhecia outro. Quanto custaria uma reserva? Não lhe parecia que estivesse precavida para despesas extras. Mas seriam essas as verdadeiras razões que a faziam vacilar ou pelo contrário era aquele seu desejo irresponsável de mais uma vez, pisar o risco!

 

Depois do jantar, passeavam, lado a lado, pelo rossio da cidade. Arrefecera à noite mas nem um, nem outro, se atrevia a aconchegar-se. Poucas pessoas se viam na rua, um ou outro transeunte apressado pelo calor do lar, desejoso de estender o corpo. O majestoso plátano de copa larga e frondosa, dominando o espaço ajardinado, sentia-se levemente acariciado pela brisa da noite. O par, pelo contrário, não evidenciava qualquer sinal de aconchego, caminhando separado e em silêncio. Interiormente, Maria Madalena sentia-se fortemente determinada: esta seria a última vez que ela e Sérgio estariam juntos. Não haveria mais espaço para a fantasia, para a irresponsabilidade, para a incoerência. Aquela relação estava condenada. Procurava no seu íntimo as palavras certas que fizessem Sérgio entender o inevitável desfecho: uma separação urgente e inadiável, sem ressentimentos, sem lamentos, sem acusações, nem saudosismos.

Sentiu a respiração do companheiro, agora mais próxima, impondo a sua presença e o braço de Sérgio rodeou-lhe os ombros ao mesmo tempo que perguntava baixinho:

-Tens frio?

Ela abanou a cabeça em sinal de negação. Mesmo que estivesse gelada, era melhor continuarem a evitar a todo o custo proximidades e novo envolvimento físico. Era aí que se perdiam. Nesse turbilhão de sensações e prazeres do corpo. Depois, vividos os momentos de arrebatadora paixão, eis que surgia a insatisfação, o vazio, o desnorte.

-Sentemo-nos um pouco -convidou Sérgio amavelmente -ainda não te dei o presente de aniversário. - Acrescentou.

Lena não esperava tal gentileza, nem lhe agradava receber algo que tivesse de agradecer ou retribuir. Não agora, quando estava decidida a dar aquela relação pouco mais que algumas horas de vida. Até amanhã, quando fosse dia.

Sérgio, sentado, puxava-a agora levemente para ocupar um lugar junto dele, enquanto tirava do bolso do casaco uma pequena caixa. Depois, olhando demoradamente para ela, falou:

-Desejo amar-te eternamente. Este presente tem o simbolismo disso mesmo. O meu desejo de me unir a ti.

Lena incomodou-se. Não gostava do que ouvia. Desconfiava que não era nada de bom.

-Toma. Abre.

Lena engoliu em seco desejosa que Sérgio não insistisse. Não estava minimamente interessada em ser presenteada.

O homem abriu o estojo. Na penumbra do jardim e no interior escuro da pequena caixa, uma jóia brilhou. Era um anel! Um anel de noivado!

Lena deu um pulo e ficou de pé. Sérgio levantou-se instantaneamente.

-Deixa-me acabar. – Ordenou. – Não te precipites.

Retirou a jóia do estojo, procurando-lhe a mão e o dedo.

Foi aí que Lena reagiu.

-Não vou colocar esse anel. Não o quero! - Voltou-se repentinamente e começou a caminhar.

Não chegou a ouvir os passos de Sérgio, só sentiu a força dele, sobre si.

Agarrou-a pelo braço, obrigando-a a deter-se. Sem a largar, virou-a de imediato para si, apertando-a, colando-se a ela e sobre a sua orelha esquerda, ameaçou:

-Coloca o anel no dedo e acompanha-me. Falaremos em privado, a rua é demasiado pública.

Lena ia retaliar mas a boca do homem tapou a sua com violência. Praticamente arrastada, seguiu-o.

Na outra ponta da praça, um grupo de jovens, conversavam. Um riso aberto, sincero e despreocupado chegou até si, aquecendo-lhe a alma, reconfortando-a.

-Pára. - Pediu a Sérgio, baixinho.

-Estou à espera que de tua livre vontade, coloques o anel no dedo.

-Vou fazê-lo. Foi apenas um momento de surpresa. É uma bela jóia. - Disse convencendo.

Sérgio deteve-se mais calmo e continuando colado a ela, voltou a procurar a jóia. Alguns segundos depois o anel brilhava insistentemente, no dedo de Lena!

 

 

Atalaia 4 [Final do 3 capítulo e início do 4]

 

 

 

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Nada do que viveu naquela noite a tocou íntima ou emocionalmente. Tudo o que fez, tudo a que correspondeu foi por mera conveniência. Controlar a reacção de Paulo para que o castelo não desmoronasse. A partida dele, aquele momento porque tanto ansiava como se de uma libertação se tratasse, estava prestes a acontecer.

 

Faltou às aulas na sexta-feira e graças a Deus que só Adília e Sara estavam em casa quando foi buscar as suas coisas para acompanhar Paulo de volta à aldeia. Jantou na casa dele, nesse dia à noite, como lhe fora exigido, participando na festa de despedida que a D. Olívia e a Maria Gertrudes, tia de Paulo e mãe de Alexandre quiseram preparar.

Quando o “expresso internacional” passando na Vidigueira, apanhou os dois passageiros solitários às nove e trinta da manhã, daquele Sábado ensolheirado, após uma despedida demorada, feita de beijos sufocantes e abraços apertados, prolongada num agitar de braço em sinal de adeus e numa efusão de beijos atirados com a mão, Lena pode ver, com felicidade, Paulo cada vez mais longe...

 

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 Capítulo IV

 

ainda 99

 

Conduzia com prudência o novo “Opel Corsa”, adquirido muito recentemente. Sozinha

ao volante, atravessava o descampado naquela noite de sexta-feira que encerrava o dia do seu aniversário. Tinha determinado empreender a viagem de regresso apenas na segunda-feira de manhã, após um breve período de interrupção nas aulas, coincidente com a celebração da Páscoa, mas planos inesperados levaram-na a partir mais cedo e a fazer a viagem ao anoitecer. Era uma experiência nova para ela, quer pela pouca prática de condução que possuía, quer pelo receio que a noite lhe trazia. A sua mãe ainda procurou dissuadi-la, desconfiando da pressa da filha e da sua alteração de planos, sendo preciso inventar várias desculpas para se desenvencilhar dela. Mal acabaram de lhe cantar os parabéns e soprou as velas, pegou nas malas e veio-se embora. O pai ainda lhe deu alguns conselhos:

-Cuidado não te encandeies com os faróis dos carros com que te cruzas e não te esqueças tu também de desligar os máximos. Não carregues o pé no acelerador não surja algum imprevisto e te vejas incapaz de controlar o carro.

A velha estrada que ligava a aldeia à sede de Concelho, com muitas zonas de mau piso e muito estreita, obrigava-a a manter-se atenta na condução de forma a evitar algum descontrolo. Seguia à risca os conselhos do pai, sem que alguns pudessem ser colocados em prática pois até ali, nem um único carro se tinha cruzado com ela. Os velhos eucaliptos que ladeavam a via pendiam os seus braços folhudos em direcção a ela e sempre que o vento lhes dava agitavam-se como se quisessem envolver o veículo e transportá-lo para outras paragens. Assolada por alguns receios provocados pela imaginação via-se a guinar o volante instintivamente, afastando o carro da berma e conduzindo-o, irreflectidamente, pelo meio da estrada. Não tinha anoitecido há muito tempo e os dias de Abril, bem mais longos, só viam esconder o sol já muito depois das sete e meia da tarde, no entanto a noite aproximava-se agora, a passos largos.

A estrada era recta, longa e rotineira. A marcha constante e certa do veículo, mantendo-se, quase sempre, entre os 60 e os 80 km hora, provocava-lhe um embalar sonolento agravado pelo calor que vinha do aquecimento ligado. Abria a boca, fechava ligeiramente os olhos e agarrava-se com força ao volante sempre que lhe parecia estar a perder o controlo e só por isso alarmou-se, quando, sem justificação aparente, deu por si a manobrar o carro alterando-lhe a direcção e entrando de rompante num pequeno cruzamento à sua esquerda.

Com os dois pés ao mesmo tempo, pisou violentamente a embraiagem e o travão e o carro estancou repentinamente. Desorientada procurou os dizeres já muito sumidos da velha placa de direcção. Só podia indicar aquele caminho que o seu pai lhe havia dito, existir entre a aldeia e Monte do Trigo, sem necessidade de passar a Portel, mas de noite? É certo que se poupavam alguns quilómetros e segundo o seu pai lhe tinha informado eram bastantes mas, logo na primeira vez que alterava o percurso não deveria fazê-lo de dia, com mais visibilidade? Já vinha sentindo algum nervosismo provocado pelas circunstâncias da viagem e pelas dificuldades em que se encontrava, não havia necessidade de arranjar mais problemas. Olhando em frente, ajudada pela claridade das luzes, nada mais conseguia ver que uma nova recta, mais estreita e escura. Não diz aqui qual a distância até Monte-do-Trigo, efectivamente nem fala na povoação – pensava, enquanto avaliava a hipótese de poder estar enganada e não ser aquele o caminho de que seu pai lhe falara. Tinha pressa de chegar a Évora e a ideia de poupar alguns quilómetros não lhe desagradava mas daí até enveredar por um trajecto desconhecido é que já exigia alguma reflexão e coragem. Que mal me pode acontecer? Com o carro em marcha e trancada cá dentro quem me poderá chegar? E depois quem andará por estas paragens que me possa fazer mal, ninguém – desdramatizou, enquanto encaixava a primeira mudança e reiniciava a marcha. Pelo menos ficaria a conhecer outros rumos, ainda que, de tão curtos, não dessem para altos voos.

Com a velocidade controlada o carro avançava pela estreita estrada de alcatrão que, logo ali, era também a rua de um pequeno Monte. Aquela hora todos já pareciam recolhidos, pelo menos era o que a porta fechada deixava transparecer e as réstias de luz que atravessavam as suas frestas pareciam confirmar. Os cães de guarda ladraram à passagem do automóvel e Lena, sentiu-se acompanhada. Afinal isto aqui não é assim tão deserto. - Pensou - e bem mais confiante acelerou a marcha vendo a estrada desenrolar-se, sempre muito direita, à sua frente.

Poucos quilómetros tinha feito, quando lá mais ao longe, à sua esquerda, vislumbrou outro ponto de luz, indicando, certamente, outro Monte rural. Não podia jurá-lo, porque a noite estava escura e não deixava ver muito para além do que os faróis do carro, ligados no máximo, lhe permitiam alcançar. Sem vivalma o que mais temia era ter algum acidente e ninguém a encontrar. Quem pensaria procurá-la naquele ermo. E se telefonasse para casa, perguntando ao seu pai, se estava no caminho certo, assim, pelo menos poderia deixar algumas pistas. Para quê? Ir desassossegar a família... já bastava as contrariedades que lhes impunha e os desgostos que lhes estaria para dar. Seguia caminho, sem vacilar e as luzes do carro batiam agora, fortemente, sobre um emaranhado de velhas construções, ruínas até.

-O que é ali? - Pensou em voz alta e de imediato arrepiou-se, contraindo-se o que a levou a reduzir a marcha.

-Que sítio tão triste e desolante... - Não pôde deixar de exclamar – Aqui, onde parece não chegar ninguém, está tão perdido como eu.

Muito devagar, conduzia o carro em direcção ao lugar porque a estrada que seguia o atravessava completamente, dividindo-o em duas partes de construções muito diferentes. O que seria cada uma delas? Certamente faziam parte de outro Monte agrícola. O espaço rural alentejano estava povoado dessas construções, hoje, a maior parte delas em desuso, desabitadas e em ruínas. Era um lugar ao mesmo tempo tenebroso e calmo e na noite escura, sozinha, em vez de se sentir aterrada sentia-se agora invadida por um sensação de paz, como há muito tempo não vinha sentindo e por isso não hesitou em parar o carro, ali mesmo, no centro, onde parecia bater o coração daquele lugar.

-Não terei coragem para me apear mas sinto-me tentada a saber onde estou. - Afirmou em voz alta.

A resposta que pareceu ouvir, vinda de uma voz estranha, quase em surdina, soou-lhe alarmante:

-À esquerda a casa do pai, sentados à direita do pai, ficavam os filhos.

Lena aterrorizou-se. Quem falou? Quem disse? - descontrolada deitava as mãos à chave na ignição, procurando, sem demora, colocar o carro em marcha. O terror que sentia, fazia-a tremer descompassadamente, recusando-se a olhar para o exterior por imaginar medos terríveis que à solta por ali andassem. Sentia até raiva de si própria, de ter sido tão parva e tão pouco cautelosa. Quem a mandou ser leviana e avançar por lugares desconhecidos. Acaso era alguma Joana D'Arc que não tinha receio de quaisquer perigos. Quais perigos? Quem lhe falou? Era voz de homem ou de mulher? Veio de fora ou de dentro do carro? Afinal até poderia ser tudo fruto da sua imaginação. O dia tinha sido muito cansativo, exausto até e extremamente emotivo. Tinha dado muito e tinham-lhe exigido outro tanto, por isso não admirava que o cansaço a assolasse e a pressão que sentia a desequilibrasse mentalmente levando-a a ouvir e a ver coisas que não existissem. Continuava, no entanto, muito alarmada e o que lhe interessava era desaparecer dali o mais rápido possível. Levantou a cabeça e num ímpeto, olhou em frente, o descampado deixava avançar a estrada, pois também ela avançaria sem olhar para os lados nem para trás. O escuro da noite ocupava todos os espaços onde a claridade das luzes não chegava. Arrancou, pressionando a fundo o acelerador mas de imediato o carro soluçou, quando o pé se retraiu impelido pelo salto que o seu corpo deu no assento. Através do espelho retrovisor, a figura de mulher nua, com um bouquet de noiva na mão e uma coroa de flores na cabeça, despedia-se dela.

 

 

 

Atalaia4 [capitulo 3 - continuação]

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Terminaram as aulas de quarta-feira e pouco passava das sete da noite.

Miguel, afastado do grupo, atravessava já o pátio do Palácio do Vimioso e Lena correu a alcançá-lo.

-Miguel – chamou – preciso que me ajudes.

Miguel parou, encarou-a de frente, faiscando-a com o olhar.

Lena não precisou de saber mais nada, bastou sentir sobre si o olhar acusador de Miguel. Os seus olhos, os seus grandes olhos castanhos eram o espelho da sua alma. Os olhares de Miguel sempre a incomodaram. Não era necessário ele dizer nada, bastava que a olhasse intensamente para ouvir a voz da sua consciência. Depois ele próprio a interrogou:

-Então...minha amiga. Aprendeste a viver de mentiras.

-Desculpa Miguel...devia ter pensado que Mónica falaria contigo.

-É. Disse-me que nos alongámos nos horários. Ela própria não resistiu a esperar-te – Miguel enfrentava-a com uma atitude irónica.

-Precisei de sair e só me lembrei de ti – Lena baixava o olhar numa atitude envergonhada.

-Agradeço imenso que te lembres de mim...não aceito é ser usado.

-Miguel... foi uma desculpa inocente, não é para ficares tão ofendido. Mónica quer sempre saber onde vou e ontem não lhe podia dizer.

-Eu sei onde foste. – Miguel sentenciou.

Lena sentiu um tremor que a agitou da cabeça aos pés e nem se atreveu a olhar para ele.

-Tem cuidado...minha rainha. Vai um dia e não haverá cavaleiro que te salve, nem anjo que te proteja. – E afastou-se sem olhar para trás.

Lena sentiu as lágrimas aflorarem-lhe à face. Era urgente pedir perdão a Miguel.

 

 

Mais uma vez, encontravam-se num “stand” de mobiliário em Beja. Faltava decidir qual das três mobílias de quarto seria a eleita para ocupar uma das instalações do primeiro andar da nova habitação. Paulo preferia o roupeiro de uma mas agradava-lhe mais a cómoda de outra e tinha especial preferência pela cama de outra. O vendedor sorria e colocava-se ao dispor:

-Com muito gosto mandaremos fazer um conjunto de quarto à vossa vontade, ficará apenas um pouco mais caro.

-O que achas, Princesa. Encomendamos uma nova mobília, escolhendo peça por peça? – Perguntava Paulo, sentado sobre a cama que mais lhe agradava.

-Achas necessário? Qualquer uma é bonita. - Lena respondia, desinteressada.

-Mas...não pode ser bonita. Tem que ser linda. Única. – Paulo puxava-a para si e Lena, cordialmente, desenvencilhava-se.

-Então está decidido. Peça por peça. – Sentenciou Paulo e o vendedor apressou-se a tomar nota:

Roupeiro de quatro portas espelhadas. Cómoda de espelho embutido e trabalhado. Cama larga de madeira e ferro, com gavetões.

-Quando estará pronta? – perguntou Paulo ansioso.

-O prazo de fábrica são 60 dias. Mas se for necessário mais cedo, mexeremos os nossos cordelinhos.

-Precisamos dela no Verão, Julho ou Agosto – Paulo retorquiu com desembaraço.

Lena arregalou os olhos interrogando-o e Paulo apressou-se a esclarecer:

-Quero que no Verão, depois das pinturas, a casa fique logo mobilada. Não há necessidade de deixar tudo para Dezembro.

Lena respirou de alívio. Fictício é certo mas sete ou oito meses é o dobro de três ou quatro.

 

-Mónica preciso de falar contigo e com o Miguel – Lena dirigia-se à amiga que via televisão enroscada no sofá da sala.

Mónica, sem desviar o olhar do ecrã, retorquiu:

-Para quê? Não me deves justificações. És maior e vacinada. Saberás certamente o que andas a fazer? Se naquela noite não foste ter com Miguel nem saíste com o teu namorado...tenho a certeza que outros valores mais altos se levantaram. No entanto, digo-te... – Mónica voltava-se agora em sua direcção – sou tua amiga e preocupo-me contigo. Não esperes muito do Stor Sérgio e...antes que cases vê o que fazes, como diz a minha avó e olha que ela tem sempre razão.

Lena sentou-se desalentada.

-Querida Mónica sinto-me entre a espada e a parede. Quando estou cá, longe daquela pasmaceira, quando não escuto a minha mãe, quando não vejo o meu pai matar-se a trabalhar para me fazer um grande casamento, quando não sinto os olhares acusadores da mãe de Paulo, quando não oiço os comentários das linguareiras da minha rua, quando não me lembro da casa, nem dos móveis, nem das madrinhas, quando faço de conta que Paulo não existe, quando acredito que não estou para casar... – a sua expressão tornou-se sonhadora - nesses momentos, doces momentos, sinto-me completamente livre e desejo desesperadamente viver essa liberdade. Preciso dela. Quero descobrir os meus gostos e interesses, as minhas capacidades e qualidades. Quero dedicar-me a novas experiências, agarrar novas oportunidades e recuso a ideia, de me dedicar eternamente a Paulo e à vidinha que escolheu para mim e...- a voz agora era angustiante - no entanto, sei que caminho a passos largos para ela.

-Lenita...-Mónica estava seriamente sensibilizada pelo dilema da amiga – gostaria de te ajudar mas não sei como. Só tu o poderás fazer. Tenho a certeza que sem resolveres uma situação não poderás viver plenamente as outras. Além disso parece-me que estás a ser pouco consciente e andas a sobrepor situações. Utilizas escapes que não te levam a lado nenhum. O problema é que não amas o Paulo, nem desejas aquele casamento mas quanto mais sabes isso, mais te envolves nele. É inadmissível! Tens que reagir e pôr um ponto final nessa situação.

-E a coragem, Mónica? Onde a vou buscar? Só se desaparecesse. E mesmo assim, julgo que Paulo nunca desistiria de me procurar – Lena enxugava as lágrimas enquanto Mónica a abraçava com ternura.

 

 

Só Miguel se mostrava mais reticente. No intervalo ou no final das aulas, procurava em vão reatar o diálogo com o amigo sem que da parte dele houvesse qualquer correspondência. Miguel evitava-a, afastava-se do grupo e não escondia mesmo estar seriamente ofendido com ela, embora uma ou outra vez os seus olhos se cruzassem e ela visse no fundo daquele olhar um misto de tristeza e de ternura. Nessa altura apetecia-lhe abraçar Miguel, procurar nele refúgio e porto seguro.

-Miguel não podes continuar a fugir de mim. – Lena procurava-o, no bar do colégio Espírito Santo, onde estava sentado numa mesa ao canto.

Miguel, interrompendo a leitura da revista, dignou-se a olhar para ela.

-Quem disse que fujo de ti. Simplesmente...não me interessas. – Miguel mostrava-se contrariado.

-Miguel só peço a tua amizade... e a tua compreensão – Lena suplicava.

-Amizade, compreensão – Miguel remoía as palavras – como se pode compreender que não tenhas amor-próprio e te estejas a destruir.

-Não falemos disso. O meu casamento é um facto consumado. Só gostava que voltasses ao nosso grupo e que as minhas questões pessoais não interferissem na nossa amizade.

-Isso eu não consigo Lena. Eu só entendo as relações de amizade numa base de confiança mútua. A partir do momento que me fizeste teu confidente e me confiaste o teu dilema é minha obrigação ajudar-te a resolvê-lo. O problema é que tu recusas tomar as medidas que a situação exige. E tu sabes quais são. Esse casamento é um erro, mas quanto mais te desejas afastar dele mais caminhas na sua direcção. Pelo caminho, entretanto, vais cometendo outros erros. Envolves-te em aventuras irreflectidas e arrastas palermas como eu, num desejo desenfreado de te salvarem.

Lena achava que não tinha feito nada disso...ou teria?

Miguel voltava ao ataque, vincando as palavras, para que doessem mais.

-O que mais me incomoda é a tua falta de carácter...a tua falta de personalidade – e olhava-a fixamente nos olhos – Tu... sabes o que queres. Queres ser tu própria e no entanto, só vives a vida que os outros te deixam viver.

Fez-se um momento de silêncio incómodo, depois Lena respirou fundo.

-Miguel...desculpa mas não te posso prometer nada. Vou seguir a minha vida como estiver destinada – e levantou-se.

Miguel segurou-a pela mão e falou-lhe com determinação:

-Cada um de nós traça o seu próprio destino. E tu estás cavando o teu.

Lena desprendeu-se sem que Miguel oferecesse resistência e pensou que o amigo só poderia estar a exagerar.

 

 

Nunca mais vira Sérgio desde a primeira vez que tinha estado em sua casa. Ele próprio a avisara de que, na próxima semana, não estaria em Évora, devido à sua participação numa conferência em Braga.

Quarta-feira, no entanto, bem cedo, tocou o telemóvel e quando atendeu, escutou ao ouvido uma voz suave e sensual:

-Bom dia...minha jóia. Acordei-a?

Lena sentou-se na cama e apressou-se a perguntar - Sérgio...está cá?

-Então...esses é que são os cumprimentos que me dispensa, depois de uma semana...privada de paixão? – Sérgio continuava a falar com languidez.

-Desculpe mas...como disse... disseste que estarias ausente toda a semana...não te esperava – Lena atrapalhava-se.

-Quero ver-te amanhã. À noite. Em minha casa – Sérgio falou com determinação. Depois com suavidade – diz-me que sim.

-Sim… julgo que sim. A que horas?

-Às nove. Chegarei aí, por volta das seis ou sete da tarde...às nove está bem. Jantamos lá. Depois em tom de ordenação: -Procura não dar muito nas vistas.

-Tudo bem. – Lena concordou com voz apagada.

-E agora, minha doce jovenzinha, diz-me o que quero ouvir...

Lena ficou atordoada: o que queria Sérgio ouvir? Não sabia. Tão mal conhecia aquele homem.

E perante o seu silêncio, Sérgio voltou a indagá-la:

-Então minha querida...quero saber se ainda... me desejas?

Lena estava embaraçada.

-Sim...claro.

-Muito? – Sérgio voltou a perguntar, maliciosamente.

-Demais. - Lena respondeu num sussurro.

-É assim que eu gosto. Em exclusivo. Só para mim. - Sérgio saboreava as palavras.

Lena sorriu e sentiu-se importante, ainda que usada.

Na Quinta-Feira, depois da aula de Português, ficavam com uma hora livre, que quase sempre aproveitavam para se encontrarem e tomarem, descontraidamente, o pequeno- almoço no bar da Universidade.

Mónica segredava sorrateiramente com Luísa e Pedro Dias, sobre assunto que Lena desconhecia e, na verdade, não lhe interessava. Neste momento estava muito mais envolvida em imaginar os pormenores do seu reencontro com Sérgio, logo à noite em sua casa, no jantar a dois e nos momentos íntimos com que, indubitavelmente, terminaria a sua noite romântica do que envolver-se em programas de grupo, dos quais, há já algum tempo, andava afastada. Continuando alheada, bebia pausadamente o “galão” quente entre pequenas dentadas de “croissant” misto, de queijo e fiambre, mal se apercebendo da chegada de Miguel, que havia faltado à aula de Português.

-Pessoal, tudo bem? – Miguel cumprimentou os amigos, demorando o olhar sobre Lena.

-Senta-te aqui, Miguel. Junto de nós. – Mónica fazia espaço, entre a sua cadeira e a de Luísa – precisamos de combinar as coisas.

Miguel contornou a mesa, tocando suavemente o ombro de Lena. Esta despertou da sua letargia e constatou a sua presença sem rejubilar, tal a tensão que se estabelecera entre ela e o amigo.

Com Miguel acomodado, Mónica apressou-se a tomar notas:

-É preciso pizas...certo! Quatro devem chegar. Pedro tratas dos frangos e Miguel da bebida. Eu e a Luísa tratamos do resto – Depois voltou-se para Lena – Surpresa...

Lena olhou-a com estranheza.

-Mónica...estás-te a passar? – Indagou, franzindo o sobrolho.

-Não. Todos nós te adoramos. Amamos-te de paixão e vamos provar-to.

 

 

Lena entrou em casa, pouco passava das cinco e meia da tarde. Nem Sara, nem Adília ainda se encontravam e Mónica tinha-se separado dela logo no final das aulas, agarrando Luísa pelo braço e encaminhando-se para o centro da cidade.

-Lena… chego a casa mais tarde, Ok? – Disse Mónica, acenando-lhe.

Lena abanou a cabeça que sim e nem se preocupou em saber porquê. Preferia não fazer perguntas assim também não tinham de lhe exigir satisfações.

Durante todo o dia magicou em desculpas possíveis que justificassem a sua saída nocturna, sozinha, sem sequer jantar para se dirigir ao encontro de Sérgio e não conseguiu que alguma fosse aceitável. Depois, decidiu que não haveria mais invenções. Sairia, pura e simplesmente de casa, sem dar satisfações a ninguém.

 

 

Depois do duche, tratava o cabelo e maquilhava-se. Ao quarto chegava o barulho de vozes e risos.

Está cá mais gente que o habitual – pensou – possivelmente vão sair todos juntos. Vou ter que me escapar à saída e ao interrogatório.

Estava envolvida no ritual estético e absorta nos seus pensamentos, quando a voz de Mónica a despertou.

-Lena, ainda demoras?

Não respondeu à amiga, procurou o despertador digital sobre a mesa-de-cabeceira: 19:53 H. – São quase oito horas. Depois encaminhou-se para a porta e abriu-a.

-Diz Mónica? – Interrogou.

-Estamos todos à tua espera. – Informou Mónica, muito enigmática.

-Todos? À minha espera... – Lena estranhou – combinei alguma coisa a que esteja a faltar?

-Acaba de te arranjar e vem ter à sala. – Disse Mónica, afastando-se.

Lena voltou a recolher-se e pensou, visivelmente preocupada. -O que é que estes estão a tramar hoje. Logo hoje.

 

Quando atravessou o corredor que ligava os quartos à sala, estranhou a porta fechada e o silêncio repentino. Colocou a mão no puxador, empurrou e flanqueou a entrada. A sala estava às escuras. Procurou o interruptor. Fez-se luz e som:

-A Lena é boa companheira! A Lena é boa companheira! A Lena é boa companheira...como ela não há nenhuma.

Lena arregalou os olhos para o colorido das serpentinas e dos muitos balões pendurados na sala ao mesmo tempo que vários braços a envolviam e várias bocas a beijavam nos cabelos, no rosto.

-Calma...Estão malucos? – Interrompeu. Todos se afastaram rindo e em sua direcção seguia agora um enorme “bouquet” de rosas brancas. Por entre o ramo, vislumbravam-se dois olhos castanhos, grandes, meigos e leais. As mãos macias de Miguel tocaram as suas, quando lhe depositou nos braços as flores.

-Flores para a Minha Rainha...-Miguel olhou-a com ternura – depois com leve tristeza e quase num sussurro – que...não é Santa!

Lena baixou o olhar e pensou – não façam isto!

A mesa grande da sala, composta e decorada, aguardava que os convidados tomassem os seus lugares: sete ao todo.

-Preparámos esta festa surpresa, com jantar em tua honra. – Mónica falou - sabemos que estás a passar um mau bocado e queremos oferecer o nosso ombro amigo...- depois em tom de brincadeira -...sem choradeiras. A vida são três dias e queremos gozá-los...não?! – Mónica continuava eufórica – Comeremos, beberemos, estaremos todos juntos, como nos bons velhos tempos. Miguel... – e puxou o amigo - diz que te queres redimir e pedir perdão.

Fez-se um silêncio incomodativo.

-A Lena sabe que pode contar sempre comigo. – Miguel falou meigamente, olhando-a intensamente nos olhos. Depois, procurando quebrar o embaraço, ajoelhou-se e pegou-lhe na mão:

-Para o bem e para o mal, nos bons e nos maus momentos, na saúde e na doença, na vida e na morte.

Lena sorriu contrafeita enquanto todos batiam as palmas.

-Viva! Viva!...temos caso. Miguel...tens futuro. És um galã... – Pedro batia-lhe efusivamente nas costas, enquanto outros se acomodavam nos lugares e Mónica e Sara regressavam da cozinha com os frangos, as batatas fritas, o arroz, a salada...

Só Lena se mantinha estática, praticamente no mesmo lugar, desde quando entrou. Miguel aproximou-se:

-Passa-se alguma coisa...minha rainha?

Lena engoliu em seco. Sentia um tremor nas pernas e um nó no estômago. Nem uma desculpa, nem uma única desculpa e o tempo a passar – pensou estarrecida.

Miguel, agora de frente para ela, aproximava-se ainda mais, passando-lhe os dois braços pelo pescoço. Miguel tão junto dela, tornava-se embaraçoso e Lena ia pedir-lhe que se afastasse.

-Porque não procuramos um lugar mais reservado...para falar. Vejo que não estás bem. Anda. Vamos para o teu quarto – Miguel com o braço por cima dos seus ombros, quase a arrastava e ninguém parecia dar por isso.

Não posso, tenho que me ir embora... – pensava, mas seguia Miguel, sem resistência, encostando-se e amparando-se nele.

Entraram e Miguel fechou a porta.

-Vem. Senta-te um pouco. Estás indisposta? – Miguel preocupava-se, enquanto a aconchegava junto ao seu peito.

-Posso beijar-te? – E não esperou resposta. Pousou, suavemente, os seus lábios sobre os dela, com ternura, com afago e numa carícia demorada fez-lhe bater o coração descompassadamente.

Lena assustada foi impelida a agir. Segurou o rosto de Miguel, entre as suas mãos, afastando-o ligeiramente. Depois com a voz entrecortada, à beira de um soluço, disse:

-Miguel...não faças isso, não te quero magoar.

Miguel, deixou cair os braços em desalento e Lena apressou-se a limpar as lágrimas que teimavam em aparecer.

-Princesa...! - Alguém chamou ao mesmo tempo que abria a porta do quarto com determinação.

 

Paulo ficou, por momentos, paralisado, para depois se dirigir violentamente para eles.

-O que é isto?! Que faz este gajo aqui? – Gritava, completamente fora de controlo enquanto Lena e Miguel se recompunham.

Ao mesmo tempo, Mónica quase colada a Paulo, explicava-se aflita, dirigindo-se à amiga:

-Não o pude evitar. Ele chegou e insistiu em procurar-te. Não me deu tempo para...

Lena apercebia-se da gravidade da situação e descontrolava-se. Saiam todos – gritava – Todos. Quero ficar a sós com o Paulo.

-Com que então não recebem homens cá em casa. Nada que eu não desconfiasse – fora de si, Paulo avançava sobre Lena.

Miguel não perdeu tempo e empurrou-o.

-Deixa-a anormal. Não percebes nada. Nem deves ter cérebro.

-Meu badameco... – Paulo atirava-se agora sobre Miguel – Sai-me da frente.

Lena metia-se no meio.

-Afastem-se já disse. Sai Miguel. Sai Mónica. – E depois para os restantes que haviam acudido – todos... não quero aqui ninguém. Só o Paulo fica.

-Não te vou deixar sozinha com esta aberração – disse Miguel ainda furioso.

-Sai Miguel. Sei o que faço – Lena lançou-lhe um olhar determinante – afasta-te. Não compliques mais as coisas.

Mónica abraçou o amigo e Pedro Dias empurrou-os dali para fora, fechando a porta.

 

Lena aturdida procurava compreender o que se passava. 20:37 HORAS, marcava o despertador e Paulo voltava à carga, agarrando-a pelos ombros.

-Explica-me tudo. O que fazias com este gajo, sozinha, no teu quarto - os olhos azuis de Paulo faiscavam de ciúmes – andas brincando comigo? Que história de merda vem a ser esta?

-Podes acalmar-te, se fazes favor. O que fazes aqui, também posso saber?

-Porquê? Já vi que não posso fazer nenhuma surpresa à minha noiva, senão corro o risco de a ver... ser montada por outro – Paulo recorria à ofensa verbal.

-Cuidado...Paulo. Não digas nada de que te possas vir a arrepender. Estás a tirar conclusões precipitadas. O Miguel é um colega de curso. Já te tinha dito. Não existe nada entre eu e ele – Lena falava com determinação.

-Então...o que fazia aqui? Sentado na cama contigo – Paulo continuava a berrar.

-É a festa de anos da Mónica e... eu fiquei, de repente, mal disposta e... Miguel tinha acabado de entrar para saber como eu estava – Lena olhou para ver a reacção de Paulo.

-Mas...desde quando recebes homens no teu quarto, mas...isto é uma devassidão. Bem me têm avisado e eu, parvo, não vejo nada.

-Paulo. – Lena procurava ser convincente - Miguel estava aqui casualmente. Antes já aqui tinham estado a Mónica, a Adília. É a mesma coisa. Não há qualquer intenção por trás – e depois num tom mais meigo – diz-me porque vieste cá e a esta hora?

Paulo, um pouco mais calmo, sentou-se na cama, com a cabeça baixa. Depois suplicou:

-Princesa...não me abandones. Não resistiria!

Lena sentiu-se sufocar. Paulo voltava a reconstruir a muralha intransponível, á sua volta, onde desejava mantê-la aprisionada.

-Tenho a partida marcada para Sábado. Amanhã a minha mãe quer dar um jantar, por isso, pensei...vou fazer uma surpresa à minha princesa. – Levantou-se e aproximou-se sorrateiramente dela, segurando-lhe nas mãos – Passaremos a noite juntos. – E apressou-se imediatamente a esclarecer – não aqui. Num hotel. Num bom hotel. Já marquei. Será uma noite de sonho. Como se fosse a primeira noite da nossa lua-de-mel – e afagava-lhe o rosto, puxando-a para si.

Passar a noite juntos...num hotel – Lena atordoada, sentia dificuldades em decifrar a mensagem. Tanta coisa para uma só noite. Tanta exigência. Tantos planos fabricados para si. Todos exigiam que correspondesse, que estivesse disponível, que se entregasse.

Paulo abraçava-a agora, beijando-lhe os cabelos e o rosto.

-Princesa...fica comigo. Jantamos no Hotel...- falava com emoção – nos próximos meses estaremos tão longe um do outro. Mereço esta despedida.

Lena sentia-se completamente dividida. De um lado Sérgio que a esperava em casa. Do outro lado os amigos que se haviam empenhado numa festa surpresa e reclamavam a sua companhia, no meio destes Miguel, que nutria por ela uma estranha afeição e à sua frente Paulo, exigindo-lhe que continuasse a cumprir o compromisso que tinha estabelecido com ele. Em qual situação estava mais envolvida. Comparecer ao encontro com Sérgio, seria impossível, neste momento. Ficar com os amigos. Paulo não compreenderia, nem aceitaria. Restava-lhe seguir o noivo ou então tomar medidas mais drásticas em relação a ele, o que a acontecer, um dia antes da partida, desencadearia múltiplos e gravíssimos problemas e tornar-se-ia extremamente inconveniente para ela.

Decidiu-se pelo mais fácil.

 

Com Paulo abraçado a ela, atravessou a sala em direcção à saída. Colocando o dedo no nariz, pediu silêncio aos amigos, especialmente a Mónica. Com o olhar pediu compreensão a Miguel.

Enquanto abandonava a casa, para entrar no carro de Paulo, ainda ouviu tocar, demoradamente, o seu telemóvel que esquecera, de propósito, fechado no quarto.

 

 

 

 

 

Atalaia4 [Capítulo 3 - continuação]

 

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Durante toda a viagem para Lisboa, Paulo pareceu-lhe frio e distante o que, para com ela, não era uma atitude normal. Depois, já sentados na sala da prima Mariana, madrinha de Paulo, estranhou que este, antes de expor ao que vinham, lhe dissesse:

-Este é o momento para não haver dúvidas. A minha madrinha é uma pessoa de respeito. Não admitirei que, depois deste dia, se altere seja o que for no casamento. Estás certa...de que é isto que queres? – Paulo olhava-a agora firmemente.

A madrinha Mariana entrou na sala, com a filha mais nova, de três anos ao colo.

-Então...o meu Paulinho já quer casar?

-É verdade madrinha. Tenho tudo: trabalho, casa, dinheiro e...noiva só preciso de si para casar – Paulo brincou.

-A Lena é muito bonita. Não me lembro muito bem dela em criança. Há mais de quinze anos que não vou à terra. Desde as partilhas... a herança dos meus pais, depois da morte da minha mãe, deu algumas desavenças. A vida em Lisboa não é fácil, três filhos, desempregada, só podendo contar com o ordenado do meu marido, ir fazer um casamento à terra, ainda mais madrinha do noivo, será preciso, quase uma fortuna. - Fez uma pausa. - Não fosse adorar este afilhado dizia-te já filho que procurasses outra pessoa mas, quero honrar a promessa que fiz no teu baptismo e, por isso digo-te, que podes contar comigo. Depois virando-se para Lena:

-Faz esta jóia de rapaz feliz, peço-te como se fosse mãe dele. As madrinhas são as segundas mães.

Lena engoliu em seco e esboçou um sorriso.

-A Lena é a minha Princesa, madrinha. Nunca nos iremos separar.

-É bonito o amor quando se é jovem – Mariana olhava embevecida para eles – vê-se que estão muito apaixonados.

-Então madrinha. Fica certo assim. No mês de Dezembro. Para aí...último fim-de-semana antes do Natal. Está bom para si.

-Compra-se a tua roupa aqui em Lisboa. E o vestido de noiva se a Lena quiser também se pode escolher cá. Ela que venha com a madrinha. Quem é?

-É a minha tia Celeste, irmã da minha mãe. Mora lá na terra. – Lena respondeu, completamente enfadada.

-Então...combinamos tudo depois.

Despedidas. Beijos e abraços. Agradecimentos e acenos de mão.

Ficava escrita e selada mais uma folha da escritura. O cerco apertava. Não havia fuga possível.

 

 

Não poderia continuar a faltar às aulas práticas da disciplina do prof. Sérgio, por isso, na sexta-feira, não o fez.

Evitou, no entanto, que durante a aula manifestasse algum interesse particular ou se cruzassem olhares indiscretos. Sérgio também lhe pareceu completamente alheado, mais preocupado em especificar correctamente a matéria do que em concentrar atenções específicas em si.

Antes do final da aula, no entanto, estranhou tal aviso:

-Quem, neste semestre, já tiver dado três faltas seguidas em aulas práticas da minha disciplina, deve procurar-me, agora à hora do almoço, no meu gabinete – Sérgio parecia não se dirigir a ninguém em particular mas Lena sabia que o recado era para si.

-Pois bem...não irei – pensou, sem sequer se dignar a olhar na direcção dele.

O recado também pareceu passar despercebido à amiga Mónica ou esta não deixaria de a alertar.

 

 

 

1999. Março

 

Voltou a entrar na mesma sala, às oito da manhã de terça-feira. Prestou a atenção possível à matéria tal o cansaço físico e emocional que a dominava. Passou todo o fim-de-semana a escolher mobiliário. A sala e a sala de jantar: estantes, sofás, mesas e cadeiras. Candeeiros e apliques. Electrodomésticos variados e outros acessórios. Restava apenas decidir sobre a mobília do quarto. Essa não tinha ainda ficado escolhida. Exigia momentos especiais e particulares, tal a importância simbólica de que se revestia.

Certamente, o próximo fim-de-semana era o momento crucial, até porque no outro, Paulo partiria.

Era-lhe particularmente agradável pensar que, mais alguns dias, podia ficar livre da presença de Paulo. Sabia, no entanto, que esta liberdade sonhada não passava de uma ilusão. Neste momento, encontrava-se muito mais amarrada à sua condição de mulher comprometida do que anteriormente. O compromisso que estabelecera com Paulo tinha passado de namoro a noivado e caminhava sem retorno para o casamento. Tempos houve em que sonhou com os momentos que antecediam a preparação do casamento e via-se vibrar e envolver-se com o ultimar de todas as questões. Hoje, no entanto, sentia pena de si própria e só lhe apetecia chorar.

Quando a aula terminou, apressou-se a recolher o material e a abandonar o local.

-Maria Madalena... – a voz de Sérgio soou forte e grave nas suas costas – se não se importa?

Lena voltou-se lentamente. Os seus olhos cruzaram-se profundamente. Depois Sérgio disse:

-Como informei, a semana passada, você é uma das pessoas que tem faltas injustificadas em algumas aulas práticas, gostaria que rectificasse essa situação.

-Vou entregar um atestado médico. – Lena respondeu com a mesma frieza.

-Poderá não ser necessário. Basta que apresente um relatório sobre a matéria. Tenho aqui a bibliografia que deve consultar – e estendeu-lhe uma folha com registos manuscritos.

Lena olhou com desinteresse:

Lena perdoa-me. Espero-te hoje, às 9 da noite, em minha casa.” – E indicava a morada.

Lena nem levantou o olhar. Guardou a folha e saiu apressadamente ao encontro dos colegas que a esperavam no exterior.

 

Tinham acabado de jantar e apressavam-se a arrumar a cozinha para que cada uma pudesse dedicar-se às suas obrigações ou interesses.

Lena, no entanto, aparentava algum nervosismo, que a sua amiga Mónica não deixou de notar.

-Então...Lenita, estás chateada? O que queria o Stor Sérgio, quando te chamou? Passar-te algum raspanete pelas faltas?

-Mais ou menos...vou ter que apresentar um relatório. – Respondeu Lena alheada. Depois aproveitou:

-Ainda saio hoje, vou à residencial do Miguel, ele ficou de me ajudar com a matéria.

-E porque não veio ele cá? Eu...já sabes. Não me ofereço. Não petisco nada daquilo.

Lena já não respondeu. Pegou na mala e no casaco e dirigiu-se para a saída.

Mónica ainda lhe gritou:

-Não levas mais nada.

-Não é necessário. Miguel tem.

 

Avançava pela rua, afastando-se da casa onde morava. Pretendia, um pouco mais à frente, apanhar um táxi que a levasse a casa de Sérgio. Durante todo o dia enfrentou o dilema de comparecer ou não ao encontro. Se não o fizesse, mantendo-se fiel ao seu compromisso, sossegaria a sua alma, sem pecados, nem remorsos. Se o fizesse, tinha a certeza, voltaria a trair Paulo, desassossegando os demónios que habitavam em si, quer os do desejo e da paixão que se personificavam através de Sérgio, quer os da liberdade, da emancipação e da independência que a obrigavam a repudiar Paulo, quer ainda os que a incitavam a lutar contra as regras sociais estabelecidas, a moralidade e a ética. E isso não era bom!

Não demorou a entrar num táxi e às nove horas já se encontrava à porta da casa de Sérgio que ficava num prédio de apartamentos, numa nova área residencial da periferia de Évora. Provavelmente alugado, pelo tempo que necessitasse de estar em Évora. Não sabia. Efectivamente, pouco ou nada sabia sobre aquela pessoa. De certa forma preferia assim. Nada saber ou saber muito pouco. Quanto mais se sabe e se confessa a alguém mais estreitamos os laços que nos unem. E estreitar laços era o que menos lhe convinha neste momento. Por outro lado, esta atitude que lhe parecia conveniente, não passava de um gesto de leviandade e de irresponsabilidade que não gostava de reconhecer em si.

Pressionou, ao de leve, o botão da campainha e a porta geral do prédio abriu-se. O 1º C ficava a dois lanços de escadas. Quando lá chegou, não precisou de tocar, a porta estava entreaberta. Entrou devagar sem ver ninguém, apenas escutando uma melodia clássica agradável de ouvir. Avançou mais alguns passos, até ao meio da sala. Esta encontrava-se na penumbra, apenas iluminada por um castiçal de ferro, com oito pequenas velas de cheiro. Os móveis distribuíam-se harmoniosamente, deixando o meio, para dois sofás brancos, de dois lugares e uma pequena mesa de vidro. Sobre ela uma garrafa e duas taças de cristal.

Ia chamar por Sérgio, não estivesse enganada no local, quando sentiu nas suas costas uma presença forte e vigorosa.

-Porque não fazemos de conta que é a primeira vez que nos encontramos... – Sérgio sussurrou-lhe à orelha esquerda, encostando-se completamente a ela.

Lena sentiu-se estremecer de emoção. Era sempre assim, quando estava junto dele.

-Que me dizes...minha doce jovenzinha. Pode ser. Esqueces quem eu sou que eu nada quererei saber sobre ti... – neste momento já Sérgio a tinha voltada para ele, apertando-lhe o tronco com os braços, afagando-a entre as mãos, falando sobre a sua boca:

-Disponho este meu santuário para te receber. Acredita... estou a correr sérios riscos... que só por ti valem a pena. Não quero que me desiludas. – E beijava-a com paixão uma e outra vez.

Lena não conseguia raciocinar. Gostaria de perguntar o que era isso de desilusão mas...a música suave, as várias fragrâncias libertadas pelas velas a arder, o perfume de Sérgio e a sua presença envolviam-na num turbilhão de emoções incontroláveis.

Sérgio conduzia-a:

-Vem senta-te aqui. Vamos beber um pouco de champanhe.

Lena retirou o casaco e acomodou-se sobre o sofá branco. Sérgio serviu-a. Depois sentou-se junto dela.

-Brindemos – levantou o seu copo, tocando ao de leve no dela – ao amor - e olhou-a intensamente com um sorriso enigmático.

-Ao amor... - Lena sorria interiormente. Sérgio estaria a ser sincero. É verdade que ele mexia completamente com a sua sensualidade e que não seria fácil libertar-se daquela atracção mesmo que quisesse. Mas daí até ser amor.

Sérgio envolveu as mãos dela entre as suas.

-Em que pensas?

Lena olhou para ele e respondeu.

-Prefiro... não pensar em nada.

-Sim... esqueçamos quem somos e o que se passa lá fora – Sérgio dizia-lhe, sussurrando-lhe ao ouvido.

-Reparo... que não trazes aliança – Lena alvitrou.

Sérgio afastou-a levemente de si, olhou-a com uma expressão séria.

-Estabeleci regras. Eu retiro a aliança e tu...enquanto estiveres comigo, não recebes, nem fazes telefonemas. É justo! As situações são idênticas, não é verdade?

-Mais ou menos – respondeu Lena – eu ainda não sou casada.

-O que está em causa, minha querida não é a cerimónia em si ou o papel assinado, o que nos prende chama-se compromisso, obrigação, promessa...

Lena concordou sem retaliar. Voltou a aninhar-se nos braços de Sérgio e viveu intensamente todos os momentos íntimos que se seguiram.

 

 

Atalaia4 [Capítulo 3 - continuação]

 

 

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O fim-de-semana decorreu normal. Pode dizer-se normal, quer nas atitudes, quer nos sentimentos. Estava completamente confusa. Tinha dormido muito mal. Entre as lembranças prazenteiras que a assolavam, misturavam-se os sentimentos de culpa e as dúvidas sobre Sérgio. O que significava ela para ele? Ao que parece nada. Sérgio devia ser um homem habituado a aventuras, daquelas que não deixam laços nem rasto. Possivelmente nunca mais teriam um encontro pessoal.

Depois, foi preciso ainda, conviver com as cenas do costume. Convencer Paulo, que também ela teria preferido regressar ontem. Visitar com ele a casa e escolher os pontos de luz e os locais para colocação das tomadas. Saírem à noite, para o descampado. Sentir o seu corpo sem dar nada de si e interrogar-se se apenas traíra Paulo envolvendo-se com Sérgio, ou se o fazia todas as vezes que estavam juntos. Almoçarem juntos, em sua casa, no domingo, depois da missa. Lanchar com Magda que a acusava de estar a substituir a sua antiga amizade por outros interesses. Voltar a sair, à noite, com Paulo para se despedirem. Estar de novo em Évora, segunda de manhã.

 

A semana passou, sem novidades. Faltou a todas as aulas do professor Sérgio e não o avistou em parte alguma. Pouco falava, recusava-se a sair com o grupo, alegando estar indisposta ou atrasada no estudo desta ou daquela matéria. Refugiava-se no quarto, em silêncio, muitas vezes na penumbra, sem querer ser incomodada.

Mónica sabia que algo se passava. Mas Lena não dava hipóteses de conversarem.

-Miguel, tens que passar lá por casa e falares com a Lena. Ela não anda bem. Deve ter algum problema. Hoje voltou a faltar às aulas da manhã e recusa-se a dizer-me porquê – dirigia-se a este por o considerar o mais maduro e o mais sensato do grupo.

-Eu...e o que me vai ela dizer a mim! Que eu saiba as raparigas não fazem confidências aos homens. O mal de Lena, como de todas vós, é serem imaturas, muito protegidas e mimadas. Ela tem que aprender a conhecer-se, a ser dona do seu querer e das suas vontades. Tem que aprender a assumir as suas próprias decisões e a não fugir das responsabilidades...- Miguel sentia-se sempre na obrigação de chamar à razão aquele bando de putos irresponsáveis.

-Miguel não é comigo que quero que fales, é com ela. Procura-a.

 

Leves pancadas na porta do quarto.

-Miguel...- anunciou baixinho – deixas-me entrar?

-Não podes entrar no quarto de uma senhora – respondeu, sentindo-se aliviada.

-Tu...não és uma senhora – riu baixinho. Estamos preocupados contigo. Posso? – Esperava autorização para avançar.

-Entra.

Miguel rodou o puxador e empurrou a porta devagar. O quarto, mesmo de dia, com os estores corridos e a luz apagada, permanecia na penumbra.

-O que queres Miguel...- a voz de Lena soou com desalento.

-Não te venho importunar...juro – fez uma cruz com os dois dedos indicadores e beijou-a.

-Deixa-te de palhaçadas. – Lena esboçou um sorriso.

Miguel avançou, sentando-se na cama.

-Então...o que se passa com a minha rainha. Entregou as armas, perante as agruras da vida? Quem foi o cavaleiro andante, o cavaleiro negro ou o príncipe encantado que a desencantou? – Miguel fazia gestos teatrais e entoava a voz – se quiser canto-lhe a canção da Rita Guerra e do Beto que deve ser apropriada à situação.

Lena abanava a cabeça com um ar trocista.

-Miguel...tu não sabes nada.

-Mas vou saber se a minha querida amiga me fizer seu confidente. Aqui ao Sr. Padre Miguel, lá da guarita... - levantava-se e apresentava-se.

-Ninguém pode falar a sério contigo. Quando não brincas, pregas sermões, que belo padre, me saístes.

Miguel ficou em silêncio, depois seriamente respondeu:

-Também sei... ser amigo. Porque não experimentas.

-Não tenho nada para dizer.

-Faz um esforço – insistiu Miguel.

Sentia necessidade de desabafar. Falou-lhe da sua situação. Do compromisso assumido com Paulo e de como ele se tornara um fardo. Em casa ninguém estava preparado para que ela recuasse. Na aldeia todos contestariam tal decisão e ela própria não sabia que rumo tomar.

-Só isso...- rematou Miguel, mostrando-se decepcionado – julguei que carregasses o castelo às costas.

-Achas pouco, porque não é contigo – Lena mostrava-se contrariada.

-Sabes em que século vives ou melhor em que milénio? Não estás propriamente na Idade Média. Sugiro-te que reflictas sobre a situação e que encares com responsabilidade as decisões que tiveres que tomar. Conhece as tuas forças e combate as tuas fraquezas. Não te escondas sob a capa do inevitável. O destino somos nós que o traçamos. – Miguel fazia uma pausa e olhava directamente para ela - Fazes ideia de quantos compromissos se dissolvem, por segundo? Nada é eterno. Casamentos que duraram décadas, terminam em poucos dias. Porque te martirizas por tão pouco – Miguel fazia outra pausa - Sugiro-te uma reflexão em conjunto. Vejamos: Não amas o miúdo, essa é a principal razão. Sem amor nada vale a pena, por isso todas as outras questões te parecem incontornáveis. – Falava agora, muito perto dela – não procures muletas para te encostares, não precises de pretextos, para decidires. Escuta o teu coração e age conforme os teus desejos.

-Será que isto passa, Miguel? Será que volto a ser a mesma Lena? Deverei desistir dos estudos, julgo que é este ambiente que me faz mal.

-Achas? Alguma vez te preocupaste contigo própria, ou deixaste pura e simplesmente que as coisas fossem acontecendo e os outros decidissem por ti. Bastou uma brisa leve soprar e as estruturas sobre as quais a tua vida assentava, de tão frágeis, vieram abaixo. Tens que as reconstruir a partir de ti. Olhando para dentro. Se quiseres...- estendeu-lhe a mão – posso ajudar-te, mas aviso-te, não admito recaídas, senão perco a confiança em ti – Miguel levantou-se – primeiro passo: adias o casamento.

-Já o fiz.

-Óptimo e para quando?

-Para o final do ano.

-É muito cedo. Ficas com pouco tempo.

-Para quê?

-Para te ires afastando.

-Tu não conheces o Paulo, não me deixa respirar. A minha sorte é que ele vai voltar para a Suíça mas até lá a casa ficará concluída, os móveis escolhidos e todos os pormenores do casamento acertados ou seja, fica o compromisso selado. - Lena rematava em agonia.

-Então...exigem-se medidas drásticas. Dizes que gostas de outro.

Lena deu um salto na cama.

-Nenhum homem resiste a uma traição. - Acrescentava Miguel, confiante.

-Estás louco. Paulo matava-me.

-Eu protejo-te. Ofereço-me para o lugar. Podemos fingir que andamos juntos.

Lena não pôde deixar de sorrir. Miguel seria o último homem que ela escolheria. Era um bom companheiro mas como homem em nada a atraía: demasiado vulgar, diferente de Paulo é certo, física e intelectualmente mais bem formado, mas muito formal, correcto, perfeccionista até. Quantas vezes, ao escutar a voz da sua consciência, a confundia com ele. Tirando os seus grandes olhos, castanhos, pouco mais se realçava em Miguel.

-Miguel não brinques. O que tens para me dar – sentia-se mais aliviada e apetecia-lhe brincar.

-Tudo...- Miguel de pé, escancarava os braços - Tudo o que vossa alteza desejar?

-Tens casa? Tens carro? Tens dinheiro? – Lena continuava a brincar.

-Não...só me tenho a mim – Miguel baixou os braços desalentado.

-Então... meu plebeu não te quero.

Seguiu-se um momento de alguma tensão e foi Lena que a aliviou:

-E se fossemos comer qualquer coisa?

-Pizza... - gritou Miguel.

-Hambúrguer... – gritou Lena, levantando-se.

 

 

Recebeu com um misto de alegria e alívio a notícia de que Paulo teria que partir mais cedo. Meados de Março, quinze ou vinte, talvez. A empresa telefonara ao Alexandre, informando-o que as condições climatéricas na Suíça permitiam o avanço dos trabalhos e que pretendiam antecipar os contratos em cerca de um mês. Paulo, no entanto, mostrou-se contrariado. Um mês fazia-lhe imensa falta para a concretização das obras na casa, acertar pormenores e escolher os móveis.

Lena procurou apaziguá-lo:

-Porquê escolher os móveis. Não podemos fazer isso, quando vieres em Dezembro?

-Nem pensar, Princesa. Nessa altura já é tudo muito apertado. Quero deixar todos os pormenores resolvidos – fazia uma pausa e apelava à memória – ora bem... na cozinha... falta escolher e colocar a pedra da bancada. É preciso, com urgência, ir escolher a pedra. Este fim-de-semana mesmo – falava consigo próprio. - Com o electricista e o canalizador está tudo certo. Falta terminar o chão da garagem e dar os últimos retoques no quintal – depois voltou-se directamente para ela - No Verão tu e a tua mãe tratarão da pintura e da limpeza. Depois mandas entregar e montar os móveis que já estarão escolhidos. Se houver o risco de alguma coisa falhar, fico cá, não volto para a Suíça. Não preciso! – Paulo esquematizava e decidia.

Lena sentiu as palavras morrerem-lhe na garganta. Queria dizer que já não suportava mais ouvir falar na casa. Que não tinha preferência por nenhum estilo de móveis. Que a cozinha podia ficar sem bancada. Mas nada disse.

-Princesa é urgente tomarmos decisões. Adia todos os teus assuntos e vamos fazer a última inspecção à casa.

E fizeram. Paulo levava os pormenores à exaustão. Cada recanto, merecia a sua total atenção. Pegava nas revistas de decoração e decidia se este ou aquele móvel, este ou aquele adereço estava indicado ou não, para o átrio das escadas, para o recanto da sala, para o pequeno corredor de acesso aos quartos. Lena seguia arrastada, pela força e persuasão de Paulo e pelos ditames das circunstâncias.

Sábado e Domingo foram preenchidos por estes afazeres. Foram a Montemor-o-Novo, escolher a pedra da bancada. Foram a Beja escolher e encomendar móveis, alguns feitos por medida, de forma a adaptarem-se perfeitamente a este ou aquele recanto.

Ao final de Domingo, Paulo informou:

-Esta semana ainda quero ir a Lisboa, falar com a minha madrinha. Com o meu tio Custódio, que é meu padrinho, está tudo acertado mas, com a minha madrinha, quero lá ir pessoalmente. Devias faltar, terça ou quarta-feira. No próximo fim-de-semana já começa a ser tarde.

-Não posso – respondeu Lena, secamente.

-E porquê? Há motivos mais fortes em Évora, do que eu e o nosso casamento? – Paulo olhava-a insistentemente.

-Não... – respondeu, baixando os olhos.

-Então...vamos terça-feira. Passo lá para te ir buscar.

 

Caminhavam juntos, pelo extenso corredor do antigo colégio dos Jesuítas, edifício oficial da Universidade de Évora. Era urgente pesquisar algumas obras na Biblioteca de forma a preparar em grupo a próxima aula. Em grupo de dois, disse a professora. Fico com a Lena – apressou-se a dizer Mónica. Não... fica um rapaz e uma rapariga – decidiu a professora.

-Fico contigo...Miguel – escolheu Lena.

-Que bom... – Miguel lambeu os lábios.

-Que parvo. – Rematou a amiga.

 

-Preparamos a aula esta noite? Tem que ser...ou então faltamos às aulas amanhã, da parte da tarde, que são mais teóricas. – Propôs Miguel.

-Eu...amanhã vou faltar...todo o dia. – Respondeu Lena.

-Então...temos que fazer isto hoje. Não há mais tempo – Miguel colocou-se à sua frente, caminhando de costas. -Vais resolver coisas importantes? – Sorria.

-Sim...

-E... o que é?

-Deixa isso Miguel. Não vale a pena. - Lena queria que ele desistisse.

-É sobre a tua situação? Vais encostar o miúdo à parede. Eu sei que tu és forte.

-Vamos falar com a madrinha. – Lena adiantou.

-Com a madrinha. A fada madrinha? Está tudo assim tão difícil que tenhas que recorrer à magia. - Miguel brincava.

Lena calou-se, continuando a avançar em direcção à Biblioteca.

Miguel sentindo que o assunto era sério, virou-se e segurou-a ao de leve, no braço.

-Então...minha rainha conte-me tudo. Quem é a madrinha, alguém que pode ajudar, como na Cinderela.

-Alguém, que neste caso, faz mais o papel de madrasta da “Gata Borralheira”...-Lena contraiu os lábios.

Apresentaram os cartões e pediram a bibliografia exigida. Sentados, procediam à sua consulta e Miguel voltou ao assunto.

-Desculpa Lena mas...estou curioso.

-Amanhã, vou com o Paulo, informar a madrinha dele que o casamento se realizará antes do próximo Natal. Convocar os padrinhos, é um passo extremamente importante num casamento. À madrinha compete vestir o noivo. É preciso dar-lhe tempo para se preparar para a despesa. Depois, levando a decisão para fora da esfera familiar, e estando os padrinhos convidados é uma vergonha alterar seja o que for – Lena informou, forçando as palavras.

-O quê?! – Miguel tinha dificuldades em aceitar e o seu tom de voz subiu um pouco, de forma que outros utilizadores da Biblioteca deslocaram as suas atenções directamente para eles, mas o rapaz não se incomodou – e os progressos que ias fazer? E as decisões que ias tomar ou pelo menos o esforço que prometeste fazer para tentares sair dessa situação? - Interrogava.

-Não há fuga possível – Lena concluía desanimada.

-Claro que há...minha rainha. Não te deixes abater. Evita certos passos que se podem tornar perigosos.

-Não insistas Miguel. Vou mesmo casar com Paulo.

-Não vou permitir. Não te quero ver sofrer.

-Miguel estás proibido de tocar neste assunto com alguém – Lena ameaçou – ou perdes a minha amizade.

-Paz... – disse Miguel, levantando as mãos no ar.

 

 

Já Paulo esperava na sala, quando bateram à porta.

-Deixe estar que eu abro - sorriu Adília – deve ser para nós.

-Bom-dia Adília. Lena já está levantada? – Miguel entrava no pequeno átrio e dali seguiu para a sala.

Adília indicou-lhe.

-O Paulo...espera por ela.

Miguel olhou para o sofá junto à janela e vislumbrou a figura mediana de Paulo.

Encaminhou-se para lá. Paulo levantou-se e, formalmente, estendeu-lhe a mão - Como está – cumprimentou.

-Olá...temos uma aula para apresentar...eu e a Lena. Há ainda pormenores para acertar...por isso, procuro-a – Miguel sentia-se na obrigação de apresentar justificações, ao mesmo tempo que se irritava consigo próprio por o fazer.

-Hoje...ela tem coisas bem mais importantes para fazer... – Paulo, agora de pé, colocou as mãos nas algibeiras e adoptou uma postura desafiante, depois continuou:

-A Lena é comprometida. Está noiva. Em breve será casada. Possivelmente deixará de estudar. Não lhe faz falta. A mim... compete-me zelar para que não lhe falte nada.

-Há sim? – Miguel revirava a vista e esboçava um sorriso trocista.

-É verdade...Lena mal pode esperar pelo casamento.

-Imagino – retorquiu Miguel e continuando trocista – não se nota nada.

-E porque se havia de notar? Lena não fala das suas intimidades com ninguém muito menos com homens.

-Claro...desculpe. Mas há coisas que...basta alguma inteligência, se verem para além das palavras e Lena... – arriscou - se quer que lhe diga, não me parece feliz.

-Que sabes tu da vida dela? – Paulo abandonou a formalidade e colocou-se frente a frente com Miguel.

-Sei que devias prestar mais atenção ao que se passa à tua volta. A Lena pode ter alguma coisa a dizer...sobre os seus sentimentos, sobre os seus próprios gostos, sobre os seus interesses...que podem muito bem não ser os teus...homenzinho – Miguel apetecia-lhe clarificar muito mais mas a promessa que tinha feito a Lena, exigia-lhe que fosse comedido.

-Afasta-te da minha noiva...ouviste. E à minha frente nunca mais apareças – Paulo ameaçava enquanto atravessava a sala e chamava pelo nome de Lena.

Miguel conteve a fúria de o esmurrar, ali mesmo. Aquele atrasado.