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Rosa & Romances

Rosa & Romances

Atalaia 4 [ capítulo 1 ]

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 2000. Março

“Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão”.

 

Desde há vários anos, como quem cumpre um ritual, Teresa e Catarina, mãe e filha, pegam nas crianças, aconchegam-se dentro do Renault Clio cinzento e metem-se à estrada. Uma recta longa de alcatrão negro, 8 km. Virar no cruzamento à direita e seguir uma outra estrada alcatroada, até lá. O mesmo local numa tarde quente de Primavera. Março de 2000, primeiro do terceiro milénio ou último ano do segundo milénio, não se sabe ao certo, não ficou esclarecido, pelo menos para elas. Passada que foi a “Era dos três noves...”, onde o mundo acabaria em fogo porque a primeira vez acabou em água e nada aconteceu e a terra continuou a rodar e a vida continuou o seu ciclo mesmo que para alguns, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo o seu ciclo de vida fosse interrompido. Mais uma vez as estações repetem-se, mais dissimuladas é certo, mas a Primavera é estação sempre renovada, de alento, de esperança e Março convida ao passeio e este é obrigatório todos os anos. Voltar ao mesmo lugar. Fazer os mesmos trajectos. Visitar os mesmos espaços. Exaltar as mesmas recordações. Contar às crianças as mesmas histórias de infância, povoadas de distantes e doces momentos.

-Aqui foi a tia baptizada. Aqui andou a tia à escola.

-Nesta casa vim eu a um baile. Aqui, debaixo desta pedra, foi enterrado um lavrador muito rico. Dentro destes muros era o cemitério. Ali uma horta.

Entre a admiração e o desinteresse as crianças correm e saltam animadas pelo desafogo do campo.

-Esta igreja está toda estragada! A escola está toda partida! Onde é que estão os meninos que andam à escola?

Os meninos já cá não estão, ou melhor estão, dentro de cada um de nós. É no nosso interior que os procuramos e os encontramos. E num olhar de relance ainda se podem ver as capas feitas de plástico transparente que abrigavam da chuva, penduradas nos cabides da entrada, as pelicas de pele e os capotes grossos, os gorros de malha feitos à mão. As sombrinhas e guarda-chuvas. Os talêgos das merendas. Ainda se ouvem os risos e o bater dos pés em corrida para o recreio. O ponteiro de cana da professora a bater na secretária, chamando a atenção para a aula que ia começar. Ainda se sente a vida mesmo sem bater um coração. É na memória que a vida pulsa. Nas suas memórias. Mãe e filha estreitam os mesmos laços por aquele local. Ali, uma viveu a infância, outra a adolescência. Ali, entre a serra e a planície, está uma parte delas.

Entram as crianças no monte abandonado. As casas de habitação, em completa ruína, são testemunhos de vidas passadas. Quantas pessoas viveram ali os seus sonhos. Foram felizes e sofreram. Nasceram e morreram. Hoje não passam de buracos abertos nas paredes grossas, restos de cozinhas com pias embutidas, pintadas a amarelo ocre, telhados de vigas grossas de madeira bichada, chaminés estéreis. Hoje não têm vida. Estão mortas. Enterram-se as casas como se enterraram ao lado os seus habitantes. Ali, no pequeno cemitério descansam, não sabemos se em paz, os que por ali morreram ou se à noite uma ou outra alma penada ousa visitar o espaço onde sofreu atrozmente e foi sacrificada. À noite piam as corujas e os “avejões” movem-se silenciosamente.

-Meninos aqui não entrem porque isto está perigoso, pode cair uma viga do telhado ou um pedaço de parede.

As crianças receosas, quase estáticas, observam a porta entreaberta que os convida a deixar o mundo vivo e entrar no mundo das recordações.

-Podemos ir à igreja?

-Também não. Está a cair. Vamos tirar uma fotografia aqui no cruzeiro. Cuidado com os degraus que estão a desfazer-se.

Ano para ano, a degradação é mais feroz. A dor é mais intensa. Perde-se tudo. Nada resiste.

-Podemos correr até aquela pedra?

E correm, um pouco para distante da igreja. Ofegantes e irrequietos, põem-se a dar pontapés nos torrões e a atirar pedras para longe.

-Olha Cátia o que eu achei. É um olho e aqui está uma parte da mão, e uns cabelos e outras partes. Avó…estão aqui pedaços de fotografias. Tantos espalhados nas ervas. Alguém rasgou fotografias em pedacinhos. Aqui vê-se uma perna. É uma mulher e não está vestida. Ou pelo menos está quase nua.

Teresa aproxima-se das crianças. Pelo chão vêm-se imensos pedaços de fotografias rasgadas, muitos já entranhados na terra antes charruada.

-E têm dedicatória. Há letras por trás. O que dirão? E aqui há pedaços de papel escrito. São cartas. Praticamente migadas. Não se consegue perceber uma palavra por inteiro.

Pelo chamar da mãe, Catarina é arrancada ao seu devaneio interior. Contemplava o pequeno poço nas traseiras da escola e via-se ali, junto a ele, com os irmãos a almoçar, grossas fatias de pão caseiro, duro, com marmelada, margarina ou ovo frito.

-Anda ver o que os miúdos encontraram. Alguém rasgou aqui cartas e fotografias. Alguém muito zangado ou alguém que queria destruir ou apagar parte de si e da sua vida.

Ou talvez fosse alguém que quisesse destruir as recordações que outra pessoa lhe deixara.

Em volta do local dobram-se todos. Olhos no chão e dedos como pinças catando os achados. A curiosidade aguça-se:

-Gostava de saber quem é e o que dizem mas reconstituir isto tudo é quase impossível. Metemos tudo num saco e lá em casa, com paciência, fazemos isso.

Esta mania da ressurreição, do negar a morte, do trazer para a vida o que já morreu. Este lugar é todo ele recordação, passado, esquecimento.

Recolhem num saco os muitos pedaços de papel e fotos e num olhar de despedida recolhem-se ao interior do carro. Mais uma vez partem com o sentimento de missão cumprida, como se todos os anos fosse necessário alimentar o coração com esta visita e ela se tornasse remédio para continuar a viver.

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