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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 10]

 

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À primeira vista, o cordão pareceu-lhe o seu. Tinha o mesmo Anjo Guerreiro esculpido na medalha, porém no reverso as palavras eram-lhe estranhas “Quem Como Deus, Gemelar Germanitate”. Abanou a cabeça contrariada e seguiu com o olhar o trajecto que o autocarro tinha tomado. Mais uma vez sentia que Mónica lhe escondia coisas! Quis agradecer à menina loura mas já não a viu. Segurou o cordão sem convicção e deixou que a medalha caísse pendurada. Esteve quase a lançá-lo ao ar para que voltasse à sua origem, porém, atirou-o para dentro do “porta-luvas” do carro e regressou a casa.

 

Magda abordou-a sorrateiramente, lançando o pedido:

-Lena será que há lugar para mais uma?

Maria Madalena estava distraída com a televisão, estendida sobre o sofá da sala e Magda já se encontrava em sua casa há um bom bocado sob o pretexto de lhe apetecer conversar.

-Onde? – Perguntou Lena completamente alheada, enquanto seguia com interesse o desenrolar do filme.

-Na viagem ao Algarve.

Lena ficou apreensiva. Certamente a sua mãe ou a pequena Vera já tinham abordado diante de Magda as previstas férias no Algarve.

-Vou para casa de uma amiga. – Apressou-se a confirmar.

-Sim, mas também a mim me apetece sair da aldeia e eu poderia pagar…

-Sabes Magda é um pouco embaraçoso, porque vãos os pais da Mónica, provavelmente o irmão, eu e ela, parece-me já bastante gente!

Magda esboçou um sorriso a contragosto.

-Tudo bem, eu compreendo. Só perguntei porque ontem falei com o Paulo e casualmente ele perguntou-me se eu, este Verão, ia à praia. Respondi-lhe que se tivesse oportunidade iria contigo.

Lena engoliu em seco e percebeu a ameaça, ainda que disfarçada. Não abordara o assunto com Paulo mas não demoraria que o noivo a questionasse.

-Bem…poderíamos combinar ir com outros colegas, alugar um apartamento e…dizer que ficávamos em casa dos pais da Mónica. – Lena cautelosa lá ia compondo o assunto.

Magda ficou entusiasmada.

-Sim, claro que sim.

-Bem…será um segredo nosso.

Magda abanou a cabeça satisfeita.

Faltavam três dias para partir rumo ao Algarve. Como ficara combinado, encontrar-se-ia com o grupo em Portel. Pedro Dias levava a carrinha de nove lugares do pai, ela prontificara-se a levar o seu carro. Havia portanto lugar para Magda e, pensando bem, levando a prima do noivo, diminuíam as desconfianças e amenizavam-se os atritos.

-Eu trato de tudo. Sábado é o dia da partida. – Informou Lena, resignada.

-Estarei pronta! – Confirmou Magda aos saltinhos.

Nessa mesma tarde recebeu um telefonema de Mónica. Queria a rapariga acertar pormenores da viagem:

-Lenita, então está tudo certo?

-Sim, tudo certo. Está tudo previsto para sair daqui Sábado às sete da manhã e encontrar-me convosco meia hora mais tarde em Portel. Convém não fazer a viagem pelas horas do calor.

-Sim…olha, para não ires sozinha, eu passo para o teu carro. – Sugeriu Mónica.

-Bem…sabes a minha amiga Magda e prima do Paulo, mostrou muito interesse em acompanhar-nos por isso achei melhor convidá-la.

-Sem problema. – Respondeu Mónica. – Mas mesmo assim eu irei contigo…

-Ok! E a restante malta vai toda.

-Toda.

-Então beijos. Até Sábado.

-Até Sábado.

Saiu pouco depois e tomou a direcção da casa nova. Avisara-a uma vizinha que desde a noite passada ficara acesa a luz do quintal. Efectivamente tinha-se deslocado à casa na tarde anterior para assistir ao descarregar da mobília do quarto, aquela tão famosa, escolhida peça a peça. Quando a viu toda montada, sentiu um aperto no peito. Era esta a sua verdadeira condição. Deitar-se em leito escolhido. Sua mãe porém elogiou o bom gosto, a madeira trabalhada, os grandes espelhos e avisou a filha para não colocar qualquer adereço de decoração, porque o quarto de uma noiva é como o vestido, surpresa!

Contornou a rua e preparou-se para atravessar, olhando nos dois sentidos. Ao fundo, à esquerda, um veículo potente, de vidros esfumados e cromados brilhantes, desaparecia.

Maria Madalena viu dançar-lhe nos olhos a figura de Sérgio! Quem mais tinha um jeep novo e rondava-lhe a casa? “Meu Deus..,” pensou. “Um dia deparo-me com o inevitável!”. Correu, abriu a porta e entrou. Foi de fio ao interruptor da luz do quintal, desligou-o e saiu. Dava-lhe arrepios andar por ali sozinha. Sentia em cada espaço a presença de Paulo, via em cada canto acoitada a figura de Sérgio e o cheiro quente e abafado das tintas e das madeiras novas, sufocava-a.

Estava uma tarde amena, o sol tórrido ia-se escondendo e um passeio a pé sabia-lhe bem. Não voltaria pela mesma rua, nem tomaria a direcção por onde lhe parecera ver desaparecer o jeep novo de Sérgio. Evitaria a todo o custo deparar-se com ele, por isso subiu a rua e tomou caminho pela travessa da nora velha onde se localizava a adega vinícola da aldeia. Saudou o mestre Torres, antigo trabalhador, que estava sentado, como habitualmente, no banco de pedra a matar saudades e este perguntou-lhe pelo “Paulinho”.

-Está bom, obrigado. – Respondeu, sem abrandar o passo, disposta a evitar mais pormenores.

O grande portão da adega estava escancarado e vinha do casarão um ar fresco com odor a tijolo antigo e a taipa húmida que Maria Madalena inspirou com agrado fechando os olhos por breves momentos.

Um latido assustado, assustou-a também. Era uma bolinha de neve naquele entardecer tão quente. À pressa o dono do animal, abandonava a adega, carregado de caixas de vinho. Não demorou a reconhecê-lo mas o homem cruzou-se com ela parecendo nem a ver, enquanto exigia que o cão não se afastasse.

Maria Madalena não quis evitar:

-Rex…fofinho, estás bem? – E o animal abanou a cauda e foi-se aproximando da rapariga.

O homem olhou então na direcção de Lena. Os seus olhos verdes, à luz do dia, pareciam agora translúcidos e o seu rosto claro denotava uma certa palidez. Também as mãos tremiam um pouco, enquanto seguravam as caixas do vinho.

Lena voltou a sentir aquela estranha sensação de ameaça mas relevou-a de imediato para ser simpática.

-Boa-tarde senhor, então o cãozinho recuperou bem? – Perguntou com um sorriso.

O homem manteve-se estático, enquanto parecia vasculhar na sua memória quem era a jovem com que se deparava. Depois, pareceu fazer-se luz e ele exclamou:

-Ah! Menina…parece que o Rex não ficou melindrado.

Maria Madalena debruçou-se e apanhou o animal, aninhando-o no colo.

-És tão fofinho, desculpa se naquela noite te magoei…

Os olhos do cachorrinho fitavam a rapariga com meiguice.

-É muito mariquinhas gosta muito de mimos. – Disse o homem que continuava estático, enquanto Maria Madalena avançava para ele.

-Fico contente por saber que ele está bem e que o senhor já me perdoou aquela distracção.

-Já passou. Tudo bem. Então… habita por estas bandas? – Perguntou o engenheiro.

-Aqui mesmo na aldeia. – Confirmou a rapariga.

-É uma bela terra. Mas…naquela noite a menina parecia desterrada!

Lena baixou os olhos e sussurrou envergonhada.

-Perdi-me!

-Aconselho a quem não conhece que não se aventure. Pode tomar caminhos estranhos e ter encontros desagradáveis. – Agora o engenheiro esboçava um sorriso, mostrando-se mais à vontade.

Maria Madalena sorriu também.

-E o senhor de onde apareceu? Também andava perdido?

-Pode-se dizer que sim. – Depois com um certo azedume. – Há muito tempo que não encontro o meu rumo.

Maria Madalena ficou curiosa.

-Um dia, poderemos confessar-nos.

-Um dia…quando se voltar a perder! – Respondeu o homem enigmaticamente.

-Mas se eu o quiser ver, posso procurá-lo por lá?

-De forma alguma. Estou apenas de passagem!

A rapariga colocou com cuidado o cão no chão. Depois estendeu a mão.

-Então até à próxima.

-Como disse que se chamava? – Perguntou ainda o engenheiro.

O turbilhão de emoções que envolveu Maria Madalena não tinha qualquer razão aparente mas um nome martelava na sua cabeça:

-Isabel…

O homem engoliu em seco, agitou-se e recuou ligeiramente.

-Perdão mas tenho as mãos muito ocupadas.

Maria Madalena voltou a sentir uma certa animosidade, encolheu a mão e resignou-se.

O homem chamou o cão.

-Até um dia…- Disse num sufoco.

Cada um seguiu em caminho contrário e Lena sentiu-se aliviada.

Mestre Torres resmungou:

-Este diabo é esquisito…

Maria Madalena voltou a cabeça para trás e viu o velho fazer o sinal da cruz.

 

Sábado amanheceu radioso. Lena dirigiu-se primeiro à casa de Magda, onde apanhou a rapariga e as suas bagagens e depois voltou a casa para recolher os seus pertences. Foi, em surdina, dar um beijo à irmã Vera que ainda dormia profundamente. Despediu-se da mãe sem grandes demoras e encaminhou-se para o automóvel.

Maria Manuela fitou a filha com apreensão e não resistiu a lançar-lhe um aviso:

-Lena tem cuidado. Honra a família e respeita a tua condição de moça casadoira.

Maria Madalena estancou no trajecto e voltou-se na direcção da mãe:

-Mãe já reparou que levo cão de guarda.

Maria Manuela sentiu-se envergonhada por perceber que a filha se referia a Magda e aconselhou-a a moderar as palavras.

A rapariga soltou uma sonora gargalhada:

-Deixe estar que rezo todas as noites: “Anjo da guarda minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia”

A mãe voltou a desaprovar tal blasfémia:

-Minha filha, brincas com a vida.

-Não faz mal mãe, ela também brinca comigo…adeus.

-Vai com Deus. – Sussurrou a mulher.

A viagem até Portel foi rápida e o carro de Lena chegou antes da carrinha dos amigos, estacionando no “posto Galp”, onde tinham combinado aguardar.

Tomaram um café e compraram “chiclets”. Magda estava muito bem-disposta e olhava Lena com fascinação.

-Ainda não acredito que sempre vamos.

-Vamos pois…-Afirmou Lena.

-Quem são os teus amigos que nos acompanham?

-Então…é a Mónica, que conheces-te outro dia.

-Sim.

-Mais duas colegas da casa: a Sara e a Adília e o Pedro Dias…

-É giro? – Perguntou Magda com um sorriso travesso.

-Não é nada mau! – Respondeu Lena, para depois continuar. – E vão ainda três gémeos.

-Três gémeos?! – Admirou-se Magda.

-Sim, três gémeos encantadores.

-Já estou curiosa. Como se chamam?

-Três “el(s)”: Gabriel, Rafael e Miguel que é o meu favorito.

Magda retraiu-se um pouco e Lena apressou-se a tirar-lhe as dúvidas:

-Miguel é meu colega de curso e é uma pessoa muito sensata. Tu própria terás oportunidade de comprovar que trata as meninas com toda a delicadeza e respeito.

-Longe de mim imaginar coisas. – Acertou Magda.

-Nem inventar…- Maria Madalena lançou o aviso e Magda recebeu-o um tanto envergonhada.

A entrada de uma carrinha azul metalizada, anunciou a chegada do grupo.

Lena levantou-se num ápice e correu para o veículo. Mónica abriu a porta ao lado do condutor e saiu ao seu encontro:

-Lenita, beijinhos. Nós também nos vamos apear porque as meninas estão aflitas para fazer “xixi”.

Ouviram-se gritinhos e risos e as portas abriram-se. Dos bancos traseiros saíram as jovens Sara e Adília que em duo se atiraram para os braços de Lena.

Com mais serenidade, apeou-se Pedro Dias, fechando o veículo.

Lena tinha à sua volta, quatro amigos mas sentiu-se sozinha. Uma mágoa ardente feria-lhe o peito.

Mónica olhou-a no fundo dos olhos:

-Os manos não vieram! – Comunicou.

-Nem Miguel? – Suplicou Lena.

-Nem Miguel.

-Porquê?

-Não sei…algum contratempo.

-É sempre o mesmo. – Exclamou Lena desolada.

-Aconteceu alguma coisa? – Interrompeu Magda.

-Olá. Não aconteceu nada. – Apressou-se Mónica a esclarecer.

-Lena estás aborrecida? – Voltou Magda a interrogar.

A rapariga respirou fundo e olhou para o céu, procurando evitar as lágrimas que a atentavam.

-Não… vamos divertir-nos.

-Vamos arrasar. – Concluiu Mónica.

Feitas as apresentações e passado o momento de pausa para aliviar, os dois veículos retomaram a viagem. Pedro Dias era o condutor particular de Sara e Adília. Já a condutora Lena levava Magda ao lado e Mónica, qual anjo da guarda, atrás.

Metade da viagem, até entrar na auto-estrada junto a Ourique, foi feita por estradas secundárias e marcada pela banalidade das conversas. Entre as raparigas do “Opel Corsa” nada se disse que as satisfizesse. Lena queria aprofundar com Mónica as razões injustificáveis que levaram Miguel a não comparecer mas sabia que só o devia fazer longe dos ouvidos de Magda. Mónica, por sua vez, preparava-se para tecer um rol de justificações: umas mais plausíveis do que outras! Magda sentia-se de certa forma incomodada, porque lhe parecia que incomodava. A paragem para o pequeno-almoço foi a meio da manhã, num “Snack-Bar” de beira da estrada. Aí juntaram-se de novo e a tensão desanuviou.

Retomada a marcha e poucos quilómetros depois, os condutores começaram a receber sinais de uma provável “operação Stop”. Lena apressou-se em pedir a Magda que retirasse do porta-luvas uma carteira com os documentos da viatura. A amiga vasculhou e cumpriu o pedido. Mostrou a carteira a Lena para que esta certificasse de que era a correcta e apercebeu-se do pequeno cordão que saiu de dentro dela.

-Olha…quase que caía! – Exclamou a rapariga, enquanto lhe pegava pela ponta dos dedos e este se desenrolava, mostrando a medalha.

-É da Mónica. Podes entregar-lho! – Referenciou Lena sem retirar os olhos da estrada.

Ao ouvir o seu nome, Mónica chegou-se um pouco à frente no banco e Magda estendeu-lhe o cordão.

Maria Madalena acrescentou:

-No dia que me vieste visitar à aldeia e te levei depois ao autocarro, parece que deixas-te cair da bolsa esse cordão.

-Quem o disse? – Perguntou Mónica.

-Uma miúda que o apanhou do chão e me o veio entregar já o autocarro tinha partido.

-Deve ter havido algum engano, porque esse cordão não é meu! – Concluiu Mónica.

-Vê a medalha porque de certo te é conhecida. – Disse Maria Madalena.

Mónica pegou no cordão e amiudou.

-Então não é o teu, aquele…

-Não! – Sentenciou Maria Madalena. – Lê as palavras.

Mónica olhou de relance.

-Desconheço-as.

-E eu também. – Afirmou Lena já aborrecida.

-Deixa cá ver. – E Magda quase arrancou o cordão das mãos de Mónica.

-“Quem Como Deus, Gemelar Germanitate”. Que quer isto dizer? – Questionou.

-Ninguém sabe. – Respondeu Mónica com uma certa brusquidão.

-Não conhecias quem to entregou? – Magda questionava agora, directamente, Maria Madalena.

-Não… - Respondeu a rapariga secamente.

Depois Magda naquela sua ingenuidade provinciana alertou:

-Cuidado. Pode ser bruxedo!

-Cala-te Magda. Vê se te instruis. – Irritou-se Maria Madalena. Este descontrole da amiga levou Mónica a pedir-lhe contenção pois os veículos da frente tinham reduzido a velocidade devido à possibilidade de surgir a Brigada de Trânsito e a fila de carros começava a adensar-se.

-Guarda o colar Magda. Ainda me pode vir a ser útil! – Rematou Maria Madalena em jeito de desafio.

Magda atirou o colar de novo para o “porta-luvas” e ficou-se muito quieta.

Mónica estendeu a mão e colocou-a sobre o ombro de Lena.

-Depois falamos, minha amiga. – Disse.

-Ai…falamos, falamos! – Resmungou Lena entre dentes.

Afinal a Brigada não os fez parar e quando era meio-dia já estavam em Albufeira. O sol brilhante, o mar calmo e tão azul, a sensação de liberdade e descontracção que só as férias proporcionam, alegraram o grupo e dissiparam contrariedades. O apartamento, embora ficasse um pouco distante do mar possuía instalações muito cómodas, bem equipadas e bastante espaçosas para cinco utentes. Como a fome apertava e a tarde estava reservada à praia, não se desfizeram as malas e foram de imediato a um daqueles restaurantes onde lhes serviram, grelhado, o melhor peixe fresco.

Pedro Dias queixava-se da sua sorte, abafado entre tantas mulheres e Sara aconselhava-o a aproveitar o momento porque para ele, sorte como aquela, devia ser rara. Aplausos e risos. Desacordo do jovem que teceu, de imediato, um rol de proezas de conquistador. Trejeitos de descrédito das raparigas. Risos do grupo. Bem-estar, convívio, amizade.

Um café, um gelado. Uma passagem pelo apartamento para se equiparem. Sacos e toalhas. Um guarda-sol que Mónica com a sua pele branca, não dispensava. Uma caminhada por ruas, sobre passeios e passadeiras, fazendo pequenas paragens para apreciar montras e no fim do trajecto, sentir os pés sobre a areia escaldante e procurar entre os corpos estendidos ao sol, um espaço que sirva para alojar o grupo.

A tarde é esgotada entre mergulhos e conversas, leitura de revistas, jogos de cartas e pequenos rituais de beleza: aplicação de cremes, escovagem de cabelos, protecção de olhos e lábios;

Entardeceu. O grupo regressa. Desfazem-se as malas, escolhem-se as instalações. Sara e Adília, juntas num quarto. Pedro Dias, solitário, no grande quarto da casa e Lena dividida entre Magda e Mónica. Foi esta, precisamente, quem colocou ordem na questão. Pedro passaria para o quarto mais pequeno, dado que os gémeos não tinham vindo e as três raparigas ocupariam a chamada “suite”. Ficavam ainda, como reserva, os dois sofás da sala. Com Magda por perto, Mónica estava certa, que Lena evitaria perguntas impertinentes!

Porque era a noite da chegada, o grupo deu-se mais uma vez ao luxo, de fazer outra refeição fora de casa e na agradável esplanada de uma churrasqueira, elegeram o frango na brasa, como um excelente jantar.

Perdem-se as horas a passear pela cidade e já noite dentro, entram num dos bares recomendados.

É já madrugada quando o apartamento acolhe, os seus novos inquilinos.

 

Sucedem-se os dias neste idílio entre o Algarve e as férias, entre o sol e o mar, entre a amizade e o bem-estar. No dia seguinte à chegada, ainda se cumpriu a promessa de tomarem o pequeno-almoço todos juntos e continuarem a descer para a praia em grupo. Depois o recolhimento tardio, o cansaço da farra e a escala de serviço que Mónica impôs, depressa contribuíram para desmobilizar o grupo. Pedro Dias já dispensara as manhãs na praia. Adília sempre que lhe cabia tratar do almoço, passava a manhã entre o mercado e as panelas. Sara, se ficara incumbida do jantar, voltava da praia a meio da tarde. Lena e Magda, preocupadas com a arrumação e limpeza do apartamento, perdiam tempo de manhã e de tarde e Mónica que geria as compras e cuidava das roupas, remetia as tarefas para os horários que lhe davam mais jeito.

Entre os amigos não existiam discórdias ou dissabores mas manter o bando coeso durante o dia tornava-se cada vez mais complicado. Naquela quinta-feira, precisamente cinco dias depois de se terem instalado no Algarve, toda a gente fez questão de voltar a reunir o grupo e passar a manhã na praia. As raparigas quase arrancaram Pedro Dias à força da cama e juntos decretaram um almoço numa pizaria para aliviar Adília da sua tarefa.

Já o dia ia adiantado e o sol escaldava quando os amigos assentaram arraiais. Mónica e Lena apressaram-se a entrar na água. As restantes alegaram necessidade de uma prévia preparação do corpo para um banho gelado em águas que, já há alguns dias, vinham acusando uma temperatura mais baixa. Pedro Dias por seu lado, preparava com azáfama uma cama no areal, estendo a toalha e colocando a mochila a servir de almofada de forma a dar continuidade ao sono interrompido.

Sara e Adília entretinham-se a aplicar os diversos protectores solares e Magda optou por se sentar a ler, sem despir a T-shirt.

O espaço em volta começou a ficar totalmente preenchido e foi preciso ajeitar o guarda-sol para que a sombra acertasse sobre a toalha de Mónica. Sara e Adília, deitadas de bruços, dedicavam-se como era seu costume, a cuidar do bronzeado. Pedro Dias já dormitava e Magda, imersa na leitura, acabava de ter uma leve sensação de escurecer que a fez levantar os olhos e olhar em frente.

Um homem extremamente elegante, alto e cuidado, com um jornal numa mão e uma cadeira de repouso noutra, óculos de sol, pequena bolsa à cintura sobre os calções pretos e emanando um odor extremamente refinado, estava estancado à sua frente, tapando-lhe o sol.

O homem olhou-a também e apercebendo-se de que estava a ser indelicado deu um passo em frente e depois, mais decididamente, avançou para Pedro Dias. Magda seguiu-o com o olhar, até porque as suas feições não lhe eram totalmente desconhecidas!

O homem pousou a cadeira e acocorou-se. Os seus músculos das pernas ficaram contraídos e aumentaram de volume e o seu peito másculo sobressaiu. Tocou ao de leve com o jornal na perna do rapaz.

-Então Pedro que fazes por aqui? – Perguntou enquanto esboçava um sorriso encantador.

O rapaz estremunhado procurou abrir os olhos mas foram as raparigas, Sara e Adília, quem deram o alerta:

-Stor Sérgio. – Gritaram.

O homem olhou na direcção do duo enquanto as cumprimentava com um aceno de cabeça e o mesmo sorriso nos lábios. Elas voltaram-se e sentaram-se na toalha e Pedro Dias estendeu a mão para cumprimentar o professor:

-Um grupo de malta veio passar uns dias ao Algarve. – Informou enquanto esfregava os olhos e procurava os óculos de sol.

O professor, que já se tinha levantado e ficara de novo enorme, soltou uma pequena risada:

-Pelo que me parece tu vieste mesmo...foi passar umas boas noitadas ao Algarve.

-Também… - Confirmou Pedro com um sorriso matreiro.

-Posso sentar-me? – Perguntou o professor enquanto desdobrava a cadeira, colocando-a entre o guarda-sol e a toalha de Pedro.

-Faça favor. – Indicou Pedro, aproveitando também ele para se ajeitar, abandonando a sua postura de corpo estendido.

-Então quem compõe o vosso grupo? – Perguntou o professor curioso.

Pedro olhou-o e brincou um pouco.

-Ainda bem que o tenho aqui porque a sua ajuda pode ser muito bem-vinda.

O professor franziu o sobrolho em jeito de desentendimento.

-Durante quase uma semana, fui um homem entre mulheres, com todas as dificuldades e perturbações que isso acarreta. – Afirmou Pedro Dias, com o dedo estendido, enquanto olhava as amigas de soslaio.

-Mentiroso. Foste tratado como um príncipe! – Contestou Adília, mudando-se de imediato para junto do amigo, enquanto ameaçava apertar-lhe o pescoço.

-Vê professor! Como um homem corre perigo estando à mercê de mulheres.

-Presumo… que podem acontecer coisas muito graves. – Gracejou o professor. - Mas digam-me, para além deste jovem tão desprotegido e destas duas jovens tão ameaçadoras, quem mais terei a honra de encontrar por cá?

Sara veio por sua vez, juntar-se ao grupo e foi ela quem informou:

-Mónica e Lena.

O professor não deixou de esboçar um sorriso enigmático que não passou despercebido a Magda.

-Ah! E está também connosco, aquela jovem ali…bastante prendada, diga-se de passagem, que se chama Magda. – Apontou Pedro Dias.

Sérgio levantou-se e aproximou-se da jovem, entendendo-lhe a mão.

-Muito prazer. Sérgio de Almeida, professor universitário.

-Magda, prima de Lena. – Respondeu a rapariga enquanto deixava estreitar a sua mão direita.

O homem retirou os óculos e olhou-a com intensidade. Embora estivesse mais moreno e despido de vestes formais, Magda apercebeu-se de imediato de onde o conhecia. Tinha-o visto com Lena, na Praça do Geraldo em Évora.

Sérgio por sua vez não lhe reconheceu as feições e depois de a cumprimentar, voltou-se, colocou os óculos e lançou um olhar para a beira-mar, procurando por certo, outro rosto mais apetecido.

Pedro Dias pareceu ler-lhe os desejos:

-As duas excelentes donzelas que fazem parte desta nossa comitiva: a serena e doce Mónica e a intempestiva e atraente Lena, foram ao banho.

-Ah! Claro…está imenso calor – Comentou o professor procurando mostrar-se desinteressado.

-Quer almoçar connosco, prof. – Perguntou Adília. – Hoje faço questão de convidar porque estou aliviada da árdua tarefa de encher a barriga a estes golipões.

-Mas também não fazes mais nada. - Contestou Pedro Dias.

-Ai não? E tu o que fazes, para além de te deitares na manhã, do mesmo dia, que te levantas à noite. – Gozou Adília.

-Olha…aturo-vos!

-Então meninos comportem-se que já são crescidinhos. – Riu-se Sérgio. - Quanto ao convite, aceito almoçar convosco se aceitarem jantar comigo.

-Onde ficou alojado, professor? – Perguntou Sara.

-Em casa própria. Tenho uma pequena vivenda nas imediações de Vilamoura, dez a doze quilómetros daqui.

-E vem à praia aqui!? – Admirou-se Adília.

-Bem…não vim cá de propósito. Apenas procuro aproveitar o resto da manhã depois de ter resolvido compromissos profissionais.

-Olha… aí vêm as meninas. – Alertou Sara.

Efectivamente as duas raparigas, saídas do banho, atravessavam o areal a passo cauteloso, abrindo caminho entre o amontoado de banhistas. Mónica vinha na frente e a sua pele branca, ainda destoava por entre os corpos bronzeados que abundavam. Lena seguia-a um tanto distraída. Mais alta e mais morena, exibia um biquíni de várias cores e trazia o cabelo apanhado no alto da cabeça. A sua pele coberta de gotículas de água, brilhava sob a incidência do sol.

Mónica fixou o guarda-sol e descobriu na sua proximidade, uma figura masculina que a perturbou. Estancou o passo e aguardou que Lena a alcançasse. Depois falou num sussurro:

-Lena temos visitas inesperadas.

-Miguel! – Deixou escapar a rapariga, enquanto elevava o olhar à procura do rapaz.

-Não! Repara…é o professor Sérgio.

Lena sentiu um arrepio que a gelou. “Fez de propósito” – pensou.

-Queres voltar à água? – Perguntou Mónica.

-De forma alguma. As minhas questões com o professor Sérgio já estão perfeitamente resolvidas. – Afirmou com segurança.

Mónica sorriu-se para dentro e as duas raparigas avançaram. Agora era Lena quem seguia na frente!

Sérgio fixava-a através das lentes escuras e via-a aproximar-se num passo seguro e desafiante. Por instantes sentiu um desejo que o sacudiu, mas logo desviou o olhar e voltou o rosto na direcção de Adília:

-Então aceitam o convite para jantar?

-Por mim tudo bem. – Respondeu Adília e Sara e Pedro confirmaram, abanando a cabeça que sim.

O rosto do homem voltou-se então para Magda:

-E a gentil menina? Dar-nos-á o prazer da sua companhia?

-Onde? – Interrompeu Maria Madalena que a passos largos já alcançara o grupo.

O Professor levantou-se.

-Maria Madalena...como está?

-Bem obrigado. – Respondeu a rapariga secamente.

O homem não reagiu e optou por cumprimentar Mónica que se aproximara.

-Mónica, a guardiã! Bons olhos a vejam.

-Professor Sérgio… que surpresa! – Exclamou Mónica sem a evidenciar.

-Olhe que a minha não é menor. Quem me havia de dizer que encontraria aqui os meus melhores alunos! – Comentou o homem, mostrando sinceridade, enquanto Lena lhe lançava um olhar de desconfiança.

-Estava precisamente a endereçar aos vossos amigos um convite para jantar. – Confessou o professor. – E…porque eles estão todos de acordo, faltam apenas as meninas dizerem de vossa justiça.

Maria Madalena agarrara a toalha, embrulhando-se nela para tapar o corpo exposto e Mónica vestia sobre o fato de banho uma túnica longa. Nem uma, nem outra se dignaram a responder.

Magda mais atenta, denotou um certo embaraço e voltando-se para o professor:

-Não tive oportunidade de responder à pouco. Mas será uma honra aceitar esse convite, para jantar em sua casa.

-Em sua casa? – Admirou-se Maria Madalena.

-Sim, em minha casa, Lena. Estou alojado aqui bem perto.

Foi a primeira vez que a rapariga o fixou de frente.

-Em Albufeira? – Perguntou.

-Em Vilamoura. Conhece?

-Não.

-Então será com muito prazer que a receberei!

Lena procurou o rosto de Mónica.

A rapariga veio em seu auxílio:

-Eu…sinceramente, apetecia-me hoje jantar qualquer coisa leve e deitar-me cedo.

Pedro Dias mostrou o seu aborrecimento.

-Mónica não sejas desmancha-prazeres. Insistiram tanto para estarmos todos juntos e agora querem separar o grupo. Porque eu, minhas amigas…irei.

-Eu também me apetece ir. – Afirmou Adília.

-E eu também. – Reafirmou Sara.

-E como a menina Magda também já confirmou que está disposta a ir, vence a maioria. – Concluiu o professor.

Lena e Mónica já não vincaram mais a sua posição.

 

 

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