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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 14]

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O jantar começou animado, embora Lena tivesse levado mais tempo do que o razoável na toilette e Miguel chegasse tão acalorado que o seu rosto se mostrava visivelmente vermelho.

-Foi do ar da praia! – Desculpou-se.

Maria Madalena não ocupou lugar junto de Miguel pois este tinha-o destinado entre Pedro e Mónica. Também Magda não dava notícias e mesmo estando ainda ar de dia, a demora era já contestável.

O pessoal achou o seu procedimento deselegante e não querendo continuar à espera, sentaram-se à mesa e iniciaram a refeição.

Lena, porém, começava a sentir-se bastante inquieta:

-É uma irresponsável! – Vociferou. – Nunca mais deixo que me acompanhe!

Sara, tinha a certeza que ela não demoraria e Adília achava que estava bem acompanhada.

Mónica porém, questionada por Lena, sugeriu que ela aguardasse mais um pouco e se a ausência se mantivesse, telefonasse para a casa do professor.

Maria Madalena não via com bons olhos aquela aproximação de Magda e Sérgio. Inocente como era, depressa cairia nos dentes do lobo.

Miguel viu-a alheada e sugeriu-lhe.

-Se quiseres acompanho-te, para a procurarmos.

Lena olhou-o, ainda sentida, e respondeu:

-Não saberia onde encontrá-la!

-Então… o pessoal não disse já que ela está com o professor Sérgio…é só ir no encalço dele. – Lançou o rapaz.

Lena recordou-se do interesse de Sérgio em enfrentar Miguel!

-Aguardemos! Ela já é crescidinha, devia ser mais responsável. – Lançou em jeito de remate.

-Tudo bem! – Consentiu Miguel, retomando a refeição.

-Então vamos sair esta noite? – Questionou Pedro Dias, olhando para o amigo.

-Bem…não sei! – O rapaz procurou consultar Lena, com o olhar. – Onde estavas a pensar ir?

-A um barzito e mais tarde à disco!

-É pá! Eu…se queres que te diga, estou um bocado cansado. – Adiantou Miguel esperando a reacção de Lena mas a rapariga não parecia minimamente interessada.

-É noite de sexta-feira, a malta expande-se…-Comentou Adília com entusiasmo.

-Isso mesmo…vamos esticar-nos! – Congratulou-se Pedro.

-Mais do que tu te esticas! – Gracejou Mónica. – Passas o dia estendido.

-Então tenho que me poupar de dia para me evidenciar à noite. Vês esta camisinha…impecável para atrair gatinhas!

-Cuidado com as garras das gatinhas não rompam elas a camisinha…- Chalaceou Sara.

-Não há que ter receio, está tudo controlado.

Maria Madalena mesmo que quisesse não conseguia disfarçar a irritação que a começava a consumir e apetecia-lhe sair em busca de Magda e onde encontrasse aquela desmiolada, dar-lhe um par de estalos bem assentes!

Miguel sorriu-se, como se lhe lesse os pensamentos.

O toque da campainha do apartamento fez Lena dar um salto na cadeira. Não sabia porquê mas tivera um mau pressentimento.

Adília prontificou-se a abrir.

-Então menina… está tudo preocupado por tua causa. – Ouviu-se Adília dizer.

Lena não se aguentou mais e num ímpeto levantou-se, abandonando a sala onde decorria o jantar. Estava disposta a ter uma séria conversinha com Magda! Porém, a meio do trajecto:

-Trouxe convidado! – Ouviu-se a voz bem alta da rapariga, anunciar.

Maria Madalena ficou estática no meio do corredor. Só poderia ser Sérgio o convidado de Magda. Logo hoje que o jantar era em honra de Miguel. Que falta de gosto! – Irritou-se.

A voz de Magda fez-se de novo ouvir, agora já dentro de casa, falando certamente para Adília:

– Pareceu-me bem retribuir o amável convite da noite anterior. – Disse.

Adília cumprimentou o professor:

-Boa-noite prof., faça favor, já tínhamos começado a jantar. – Desculpou-se.

-Não faz mal que nós lanchámos bem! – Gracejou Magda.

Maria Madalena não lhe apetecendo nada, voltar a estar de novo, cara a cara com ele, ocultou-se na sala de banho.

Ouviu os passos do grupo dirigirem-se para dentro e ficou quieta avaliando a situação.

Sérgio estava a passar das marcas e a sua perseguição tornara-se doentia. O melhor era tratar o assunto com seriedade e apresentar queixa às autoridades. Mas de que crime o poderia acusar? Que provas tinha? E ela não era co-autora! E se Sérgio em jeito de retaliação colocasse Magda a par da aventura que tinham vivido. Começava a desconfiar daquela insistência de Sérgio em fazer de Magda sua aliada! E o maior problema de Lena estava no facto de Magda ser da família de Paulo e afilhada de D. Olívia!

Lavou o rosto e procurou serenar. Nada como enfrentar as feras na arena do circo!

Quando chegou à sala, todos se reuniam em volta da mesa e Magda servia Sérgio de um pouco de carne assada.

A rapariga levantou o olhar para Lena.

-Lena julguei que eras tu…quem afinal se tinha perdido! – Disse.

-Ai sim! – Respondeu Lena com animosidade. – E tu? Por acaso tens consciência da tua irresponsabilidade!

-Porquê? Incomodei alguém? – Disparou a rapariga.

-Vamos acalmem-se…mais tarde, em privado, podem continuar o bate-boca. – Alertou Pedro Dias.

-Lena…não há necessidade de se aborrecer, Magda fez-me apenas um pouco de companhia. – Sérgio procurou esclarecer.

Maria Madalena nem se dignou a olhar para o homem. Começava a sentir asco pela sua pessoa!

-Ora, ora…então cada um, já não pode escolher a companhia que quer?! – Magda mordeu as palavras. – Que eu saiba desde hoje, bem cedinho, que a minha priminha tem sido unha e carne com este amiguinho! – E indicou Miguel.

-Não abuses Magda. – Avisou Lena.

-Digo alguma mentira? – Voltou a desafiar Magda.

Mónica quis colocar um ponto final na discussão:

-Magda quem é convidada, não traz convidados! E com isto não quero ser desagradável para com o professor, mas compete-te a ti reconsiderares e ver que não procedeste bem!

Magda pareceu acatar as indicações de Mónica.

-Está certo. Demorei-me demais sem avisar. Não voltará a acontecer.

Os ânimos serenaram e o jantar voltou à normalidade. Excepto para Lena que tinha perdido completamente o apetite.

Magda tinha sossegado a língua mas as acções continuavam impertinentes. Rodeava Sérgio de todas as mordomias e parecia que jantava a sós com ele.

Miguel continuava a amiudar as reacções de Lena e pediu a Pedro que trocasse de lugar com ele.

Quando Lena constatou a proximidade de Miguel ainda se alarmou mais!

-Olha…lá estão eles novamente, tão juntinhos! - Comentou Magda sorrateiramente. Depois voltando-se para Miguel: - Conheces o meu primo Paulo, o noivo de Lena?

Miguel enfrentou a rapariga:

-Já tive o prazer!

-E uma jóia de pessoa. Mata-se a trabalhar na Suíça para dar à noiva tudo o que ela merece.

-Se o faz de vontade! – Retorquiu o rapaz.

-Resta saber se vai valer a pena! – Magda continuava insolente.

Maria Madalena fez querença de abandonar a mesa mas Miguel reteve-a.

-E será a prima quem tem a incumbência de zelar, em Portugal, pelos bens do primo. – Miguel disse trocista.

-Que bens? – Irritou-se Maria Madalena.

-Calma. Deixa que Magda responda, assim saberemos qual é a sua verdadeira missão. – Aconselhou Miguel.

-Não tenho qualquer missão! – Atrapalhou-se a rapariga.

-Então? – Questionou Miguel.

-Então que…meu primo está furioso porque a noiva nunca mais deu sinais de si.

Lena sufocou. Era verdade! Desde que chegara ao Algarve que não comunicava com Paulo. Tinha-o olvidado completamente, como se ele não existisse. Calou-se, na esperança de poder remediar a situação.

Miguel interrogou-a com o olhar.

A rapariga disparou:

-São assuntos meus com os quais ninguém tem nada a ver. E agora se me dão licença estou farta de tanta gente em meu redor. Intrometendo-se, vasculhando, insinuando, tomando partido, decidindo…Não!

Maria Madalena descontrolou-se e saiu da sala a correr. Mónica foi em seu alcance.

-Agora não! – Disse-lhe Lena, atirada sobre a cama. – Deixa-me sozinha, por favor. Sai e fecha a porta.

Mónica viu que não devia insistir e afastou-se.

No corredor cruzou-se com Miguel. Este quis saber:

-Nada feito…voltámos ao ponto de partida. – Disse Mónica com desânimo.

O rapaz também desolou.

-Eu vou lá…animo-a!

Mónica lançou-lhe um olhar de censura.

-Tudo bem! – Consentiu o rapaz. - É melhor não…estou demasiado desprotegido.

-Tenho a certeza que está no porta-luvas do carro mas não tenho conseguido encontrar as chaves! – Lamentou-se a rapariga.

-Necessito dela. Ou à terceira noite não respondo por mim!

-E as sequelas?

-Veremos!

-Estamos a ser postos à prova! – Mónica parecia agora uma criança.

-Uma prova demasiado violenta! – Miguel rangeu os dentes.

-Vamos. É preciso continuar…

Regressaram.

 

Nessa noite Lena já não regressou ao convívio dos amigos, nem os contactos telefónicos que procurou estabelecer com Paulo vieram a dar frutos. Falou com a mãe, na esperança de que esta lhe pudesse valer mas Maria Manuela estava perfeitamente descansada e nada sabia sobre as queixas de Paulo.

Sentiu a presença de Mónica no quarto, ainda a noite estava em princípio e a de Magda quando a madrugada já se aproximava. Desconhecia onde Miguel tomara guarida e desejava que Sérgio se tivesse eclipsado.

Quando a manhã seguinte chegou e o sol de Verão convidou à praia, Maria Madalena apercebeu-se que a azáfama na casa indicava que essa tinha sido a decisão da maioria. Como ninguém a incomodou e continuava sem disposição para os acompanhar, permaneceu quieta e calada até sentir o sossego da casa.

Depois levantou-se, dirigiu-se à cozinha, fez café e torradas. Sentou-se e comeu descansada. Iria mais tarde tentar avaliar como terminara o jantar.

Quando se dispôs a fazê-lo, entrou na sala comum e o que viu foram as roupas de Miguel dobradas sobre o sofá indicando que tinha sido ali que ele tinha pernoitado. De resto tudo se encontrava impecável como Mónica tanto gostava que acontecesse. Miguel tinha usado na noite anterior uns jeans e uma T-shirt azul celeste que Maria Madalena gostava particularmente. Pegou-lhe e apeteceu-lhe experimentá-la. Com a blusa do rapaz vestida, aspirando o perfume que dela emanava foi rodopiando pela sala até se sentir tonta e tombar sobre o sofá. Qualquer objecto no bolso das calças de Miguel a magoou na mão! A princípio julgou ter sido o próprio fecho, pois o bolso era fechado por uma corrente. Mas não. Tratava-se de algo um pouco mais volumoso! Abriu-o e rebuscou…

Uma chave! Uma chave de ignição! A sua chave! A chave do seu automóvel…

Não havia qualquer dúvida, Miguel tinha encontrado a sua chave mas como e onde? Se ela tinha uma extrema preocupação em deixá-la em paradeiro seguro. Tinha fobia a perder as chaves do carro, por isso as guardava em local sempre certo e a esse local Miguel não tinha tido acesso. Desde que chegara ao Algarve que o automóvel se mantinha estacionado na garagem do prédio de apartamentos já que Pedro Dias preferiu ter a carrinha sempre à ordem.

Então? Voltou a amiudar. Por muitas coincidências que pudessem existir não era fácil que houvesse na mesma casa duas chaves de veículos “Opel” e dois porta-chaves com a letra “L”!

Tudo bem. Nada melhor que verificar. Pegou na chave e dirigiu-se à “suite”. Procurou no interior do roupeiro a parte que lhe tinha sido destinada para guardar as bagagens. Abriu a mala onde trouxera a roupa e procurou na pequena bolsa, cerrada com um fecho. Não teve dúvidas aquela era mesmo a chave do seu carro, restava apenas saber como tinha ido parar ao bolso das calças de Miguel?

Maria Madalena quis então certificar-se de que nada tinha acontecido ao seu automóvel. No interior da garagem tal como o tinha deixado, havia precisamente uma semana, apresentou-se-lhe intacto o “Opel-Corsa”. A rapariga usou a chave e o veículo cedeu, abrindo-se.

Revistou então o seu interior, não tivesse sido assaltada, mas lá estava o rádio e a antena exterior que tinha guardado. Procurou então pelos documentos da viatura dentro do porta-luvas, arrastando para fora tudo quanto lá estava. Verificou primeiro a carteira e confirmou que nada lhe faltava. Depois ajeitou os outros objectos espalhados e voltou a guardá-los: Uma escova de cabelo e uma fita. Um maço de lenços de papel. Uma pequena caixa com comprimidos e algumas moedas à solta sem grande valia. Viu debaixo dos bancos e nos compartimentos das portas. Por fim saiu do carro e foi observar no porta-bagagens. Tudo vasculhado para poder concluir que, no seu carro, ninguém tinha mexido!

Voltou a cerrar o veículo, lançou-lhe mais um olhar de confirmação e regressou ao apartamento.

Guardou a chave em lugar que lhe pareceu seguro, vestiu-se e saiu. Iria dar uma volta por algumas lojas e almoçaria por lá. Mais tarde insistiria em estabelecer contacto telefónico com Paulo e procuraria acalmar a sua fúria. Agora precisava de um tempo só para si.

Caminhou descontraída, entrando e saindo, apreciando e comprando e o tempo passou sem que desse conta. Poderia comer qualquer coisa numa pastelaria ou talvez optasse por um almoço requintado num bom restaurante. Porque não haveria de se dar a alguns mimos. Longe de Paulo, ausente da aldeia, fora do reboliço da casa, distante das exigências dos amigos, podia ser quem muito bem quisesse. E essa sensação estava-lhe a saber muito bem!

O sol apertava e Lena tinha-se afastado demais da zona de residência. Deveria ter equacionado melhor e ter feito a viagem de automóvel. Foi nesta altura que lhe voltou à memória o episódio da chave e continuava a não encontrar razões que justificassem o seu aparecimento no bolso das calças de Miguel! Não era do feitio de Miguel usar coisas que não fossem suas e alguma explicação plausível ele lhe haveria de prestar.

Ia tão distraída que nem viu o semáforo vermelho para peões! O polícia de serviço chamou-lhe a atenção e ela retraiu-se de imediato. A medalha! Sim o cordão com a medalha, esse é que… já não se encontrava no seu porta-luvas!

-Mónica… - Resmungou. - Desta vez não te escapas!

Já não almoçou tal a pressa que tinha em regressar à residência. Galgou o caminho, ainda longo, sob o sol escaldante e entrou em casa com determinação.

Sara e Adília deram sinais de si.

-Já estás recomposta? – Perguntou Sara.

E Adília em alvoroço:

-Fostes às compras.

Lena abanou a cabeça duas vezes, em sinal de afirmação, e foi de fio à sala comum onde pensava encontrar Miguel. Nem as calças, nem a T-Shirt lá se encontravam e sobre o sofá só Pedro Dias se esparramava.

-Estás cheio de areia! – Lena não se pode conter.

-Já sacudo tudo! Não te stress’s… - Disse o rapaz.

-E Miguel?

-Foi ao banho primeiro que eu.

Lena saiu da sala e foi levar os sacos das compras para a suite, na esperança de lá encontrar Miguel.

Estava Magda.

A rapariga não lhe deu a cara e Maria Madalena resolveu fazer o mesmo. Atirou com os sacos para dentro do roupeiro e voltou a sair tão rápido quanto entrou. Agora sabia que Miguel estava na casa de banho individual.

-Mónica… - Chamou.

-Na cozinha. – Ouviu responder.

-Estás mais animada? – Perguntou Mónica quando se encontrou cara a cara com a amiga.

-E que te interessa a ti? – Respondeu Lena com azedume.

-Bem… vejo que é melhor não haver conversa!

Maria Madalena exasperou-se:

-Vai haver sim! Uma longa e detalhada conversa. – Sentou-se e indicou a Mónica uma cadeira em frente a ela.

-Recordas-te quando te quis entregar um cordão com uma medalha que guardava no porta-luvas do meu carro e que alguém me disse que era teu! – Retorquiu Lena com o dedo no ar, ameaçando Mónica.

-Sim…e que, por acaso, não era meu e por isso não o quis – Respondeu Mónica com muito calma.

-Mentiste! E pediste ajuda a Miguel para que o fosse buscar! – Continuava a insistir Lena.

-Eu?! Tu não estás bem… - A rapariga fez querença de se levantar.

Maria Madalena obrigou Mónica a manter-se no mesmo lugar.

-Ouve-me! Estou farta das tuas merdas. Já um dia to disse e tu arranjaste respostas esfarrapadas. Se andas metida em seitas, bandos ou capelinhas, isso é lá contigo. Não me azucrinas é mais a cabeça e dizes-me aqui que porcaria de medalha é aquela e para que serve?

Mónica enfrentou-a:

-Já viste que andas sob grande tensão e descarregas em quem menos merece!

-És tu quem me provoca este enervamento, com segredinhos, com enigmas, com mistérios. A chave do meu carro estava no bolso das calças de Miguel. Como foi lá parar? Eu digo-te, revolveste as minhas coisas, sacaste a chave e pediste ao Miguel que fosse buscar a bodega do cordão ao porta-luvas. Não és de confiança!

-Que é isso para aí… - Gritou Pedro Dias, perante a voz alterada de Lena e Sara correu à cozinha.

-Porque discutem? – Quis saber.

Maria Madalena achou melhor ir directa ao executante. Quis abrir a porta da casa de banho mas desta vez estava fechada. Bateu e chamou:

-Miguel…

-Vou já sair. – A voz do rapaz soou calma.

-Deixa-me entrar, quero falar contigo! – Insistia Lena fora de si.

Pedro Dias desatou a rir.

-Bem…é o que eu digo. Isto dá arranjinho!

Lena, não recebendo resposta directa de Miguel, encostou-se à porta e aguardou.

Miguel saiu. Vinha em tronco nu, descalço e com os cabelos em desalinho. Porém vestia as ditosas calças.

Maria Madalena não quis esperar e atacou o rapaz mal o viu:

-Neste bolso… - deitou a mão e Miguel retraiu-se, esboçando um ligeiro sorriso.

-Não te rias que já estou bastante irritada! – Ameaçou.

-Bem…que eu saiba essa irritação já dura há quase 24 horas. – Comentou o rapaz enquanto seguia pelo corredor em direcção ao quarto que Pedro ocupava.

-Que fazes? – Quis saber Maria Madalena sem o largar.

-Vou à minha mala buscar uma blusa para vestir! Posso? – Perguntou Miguel mantendo a mesma tranquilidade.

-Sabes que encontrei no bolso das tuas calças, as chaves do meu carro?

-Sim. Guardei-as lá para tas entregar.

-E onde estavam antes? – Desafiou Maria Madalena.

-Na suite… no teu roupeiro… dentro da mala de viagem… numa pequena bolsa, fechada com um fecho.

-Deves pensar que tens graça! – Assustou-se Maria Madalena.

-Há mais alguma coisa que a minha rainha deseje saber? – Gracejou Miguel.

-E para que quiseste a chave?

-Para ir ao teu carro buscar um cordão com uma medalha que me pertence!

-A ti? – Estranhou a rapariga.

-A mim.

-E porque a usas? – Quis ainda saber Maria Madalena.

-Porque me mandaram usá-la! Porque me protege. Olha… - E o rapaz puxou da carteira e mostrou-lhe o cordão. – Só o coloco à noite e ontem… fez-me falta!

-Mas julguei que esse cordão pertencia a Mónica…-Comentou Maria Madalena, um tanto ou quanto, baralhada.

-Pois… é meu! – Ditou Miguel, sem permitir retaliações.

Maria Madalena não queria permitir que o assunto morresse ali e voltou à carga, rodeando o rapaz que vestia, com toda a calma, uma camisola de manga curta de um cor-de-rosa muito claro.

-Miguel…estou a ficar cansada de tantas confusões. Se necessitavas tanto dessa medalha porque, simplesmente, não ma pediste!

-Quando precisei dela não estavas disponível. Qual bela adormecida, tinhas partido para outras paragens!

-Miguel…não me contes histórias da carochinha, pois já sou bastante crescida para perceber que anda aqui tramóia!

O rapaz começou a rir, enquanto ajeitava com a ponta dos dedos, os caracóis rebeldes do cabelo.

-Estás-me a irritar! – Vociferou Maria Madalena, sentando-se na cama visivelmente aborrecida.

Miguel deu um passo gigante, dobrou-se e deu-lhe um beijo estaladiço na face.

-Não quero! – Gritou a rapariga

-Tudo bem! - E Miguel beijou-a na outra face.

-Afasta-te Miguel…nem tu, nem Mónica brincam mais comigo!

-E quem deve brincar? O professor Sérgio! – Lançou Miguel em jeito de desafio.

Maria Madalena foi apanhada de surpresa. Ficou temerosa, engoliu em seco e humedeceu os lábios:

-Esse assunto não é da tua conta! – Sentenciou.

-E o outro não é da tua! Digamos que tinhas em tua posse algo que me pertence e que ontem a situação ficou regularizada. – Rematou o rapaz, saindo do quarto a passos largos.

Maria Madalena correu em seu alcance.

-Quero este e outros assuntos deslindados! – Insistiu.

Miguel não respondeu. Entrou na cozinha e dirigiu-se ao frigorífico para se servir de água fresca.

Mónica ainda por lá permanecia.

-Ora muito bem…agora que vos apanho juntos, vamos tirar o assunto a limpo!

Mónica olhou-a com um certo enfado enquanto Miguel permanecia impávido.

-Não vale a pena fazeres-te de santinha…- Disse para Mónica. - E tu de inocentinho! – Esticou o dedo em direcção a Miguel.

O rapaz sentou-se numa cadeira e Mónica fez o mesmo, parecendo aguardarem os ditames da amiga.

Maria Madalena preparou-se.

-Recordas-te…quando visitámos aquele lugar da Atalaia e tu, a meio da viagem, procuraste algo entre os pastos secos da berma da estrada?

Mónica fez um gesto que sim com a cabeça.

-Tenho a certeza que foi nessa altura que achaste e guardaste o cordão com a medalha que Miguel diz, agora, pertencer-lhe.

A amiga voltou a confirmar afirmativamente com um gesto de cabeça.

-Pois, pergunto-te: como raio foi parar tal objecto à berma daquela estrada?

-Parece que alguém o perdeu… - Respondeu Mónica, sem convicção.

-E esse alguém só pode ter sido o Miguel! Certo? – Interrogou Maria Madalena, convicta de que os esclarecimentos estavam prestes a acontecer. Continuou:

-Miguel… - Voltou-se então para o rapaz que se continuava a mostrar na maior descontracção. – Já estiveste naquele local?

Miguel enfrentou-a, fixando-a no fundo dos olhos:

-Eu estou em toda a parte… - Riu-se ele e Mónica também!

-Parem! – Quase gritou Maria Madalena, colocando-se em pé. – Que treta…estou a viver um inferno!

Os amigos silenciaram-se.

-Quero respostas, quero esclarecimentos…já disse! – Insistiu.

-E se não te puderem ser dados? E se não estiver na hora, nem for chegado o momento?! – Falou Mónica.

-Eu é que decido quanto às horas e aos momentos da minha vida! E eu quero que este seja o momento das revelações!

-Bem… - Disse Miguel, coçando a cabeça. – Para tal…é necessário que Rafael esteja presente já que toda a tramóia é obra dele!

-De Rafael?! – Admirou-se Maria Madalena. – Porquê dele? Não o vejo há séculos! – Confundiu-se a rapariga.

-Que te ofereceu ele? – Questionou Miguel, segurando as mãos da rapariga. Lena deu voltas ao cérebro e recordou-se de um outro cordão, quase idêntico, que deixara em casa.

-Um cordão com uma medalha! – Disse numa voz sumida.

-Pois é. Por ti… ficou desprotegido! – Respondeu Miguel. – Situação que eu tive que remediar e que ele, desastradamente, voltou a piorar! Enfim…crianças!

Maria Madalena sentia-se num beco sem saída. Que mais deveria perguntar, quando não parecia haver respostas para lhe darem. Permaneceu em silêncio, amiudando o suspeito par. Mónica era alta e magra, tinha uma pele branca, quase cera, olhos claros e um cabelo longo ruivo e com franja. Já Miguel era um jovem robusto, com os traços do rosto marcadamente masculinos, os cabelos claros ondulados e uns fantásticos olhos castanhos! Ok! Mostrar-se-ia satisfeita, mas a partir de agora, Mónica estaria debaixo do seu olhar e Miguel passaria a ser atormentado por ela. Se queriam guerra iriam tê-la! Levantou-se.

-Muito bem! Vocês é que sabem. E se tratássemos do almoço.

Mónica pareceu felicíssima:

-Claro que sim. Qualquer coisa rápida e saudável. Salada e grelhados.

Miguel pegou-lhe ao colo e levantou-a no ar:

-Minha rainha…quanto te venero!

Maria Madalena aproveitou e sussurrou-lhe ao ouvido:

-Desejo-te!

O rapaz estremeceu e Lena riu-se para dentro.