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Rosa & Romances

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Atalaia 4 - [capitulo 15]

 

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Não querendo perder mais nenhuma oportunidade de vigiar Mónica e martirizar Miguel, Maria Madalena foi com o grupo para a praia nessa tarde de sábado. Vestiu o seu mais ousado biquíni e fez questão de se exibir ao máximo, perante os olhares dissimulados do rapaz.

Estendidos na areia ou mergulhados na frescura da água, o grupo passou momentos incríveis. Atalhados os diferendos e ignorados os mal-entendidos, todos pareciam perfeitamente descontraídos. Miguel e Pedro Dias atazanavam as meninas com banhos forçados ou cobriam-nas de areia da cabeça aos pés. Até Mónica estava mais solta e relaxada, permitindo brincadeiras e participando nos jogos.

Num momento de acalmaria em que Maria Madalena repousava na toalha e o sol lhe dourava a pele, sentiu nos seus ombros o contacto aveludado de Miguel.

-Deita-te aqui comigo! – Convidou, fazendo lugar na sua própria toalha.

O rapaz não se fez rogado e atirou o seu corpo para junto do da rapariga, tocando-lhe em quase toda a sua extensão. Ficaram os dois deitados de bruços, braços sob o queixo e os olhos de um, fixados nos do outro.

-Estás soberbamente bela! – Sussurrou Miguel, apenas num mexer de lábios.

Miguel conseguia surpreendê-la, quando era ela que o queria subjugar.

-Queres que te aplique o protector? – Perguntou em voz normal, procurando desviar as atenções de Magda, que se centravam sobre o parzinho.

Maria Madalena não se apercebera da insistência de Magda e respondeu com aliciação:

-O único protector de que necessito…és tu!

O rapaz tocou-lhe a ponta do nariz.

-Vamos juntos ao banho? – Desafiou.

A rapariga franziu o rosto, desagradada.

-A água está fria!

-Mas eu…escaldo! – Disse Miguel com audácia.

A rapariga riu-se, escondendo o rosto entre os braços.

-Como ousais rir-te de mim? – Soou a voz cálida de Miguel, junto à sua orelha direita. – Quando sofro desmesuradamente!

-Sofres?

-Muitíssimo!

Os rostos quase colados, os hálitos envolvendo-se, os olhos brilhando.

Miguel voltou a convidá-la num aceno de cabeça.

Lena cedeu. Levantou-se e o rapaz também.

-Vamos ao banho. – Informaram. Mas ninguém pareceu importar-se.

Ainda a praia estava cheia. Desapareceram no meio das gentes e entraram na água de mãos dadas. Lena mostrava-se desconfortável com a temperatura da água e Miguel chegava-se a ela com veemência. Sentia o corpo dele pressionando o seu e as suas mãos segurando-a com meiguice. Continuaram até que a água lhes chegou ao pescoço. Aí Lena viu Miguel desaparecer! Deixou de o ver mas continuava a senti-lo. Por debaixo de água, o rapaz acariciava-a em toda a extensão do seu físico. Cada toque era como um afago demorado e as mãos de Miguel mostravam-se cada vez mais atrevidas. Maria Madalena via-se à superfície atormentada pelo prazer. Lentamente mergulhou e encontrou desejosos os olhos expressivos de Miguel. Ocultados pela transparência da água, os seus lábios tocaram-se. Primeiro muito ligeiramente, depois com caloricidade e finalmente com voluptuosidade. O primeiro a perder o fôlego foi Maria Madalena que sacudiu o rapaz e voltou à tona. Miguel surgiu depois, lambendo os lábios. Maria Madalena fez querença de o agredir e o rapaz puxou-a para junto dele, apertando-a com impetuosidade. Desta vez mergulharam juntos e os lábios voltaram a procurar-se com desmedida fogosidade. O sal temperava os afagos que de tão doces, ameaçavam tornar-se incontroláveis. E mais uma vez as cabeças do par vieram à tona, ainda mais juntos, cada vez mais em sintonia. Respiraram entrelaçados e os braços de Miguel apertando o corpo de Lena, fizeram mais uma vez ocultá-la na água. Os beijos repetiram-se, renovaram-se e intensificaram-se e o par sufocando, procurou fora de água o ar que rareava. A emoção estonteante e irrefreável quebrou o raciocínio e trouxe à superfície dois rostos colados e de lábios fundidos!

Os olhos maliciosos de Magda eram duas flechas trespassantes. Maria Madalena desesperou. Paulo! Mais uma vez esquecera-se dele.

Quis empurrar Miguel mas o rapaz já se tinha afastado. Magda mergulhou e afastou-se nadando, mas o coração de Lena ficou batendo descompassadamente.

Miguel desatou a rir. A rapariga mandou-lhe água contra o rosto.

-Vê se arrefeces… - Brincou.

-E tu vê se esfrias… - Disse Miguel, voltando a aproximar-se. – Podemos retomar no ponto em que estávamos? – Desafiou.

-E que ponto é esse? – Escapou-se Maria Madalena.

-Em ponto de rebuçado! – Gracejou o rapaz, segurando-a pela mão.

-Quanto a ti é mais em ponto de açúcar queimado! – Galhofou a rapariga.

-É uma mistura explosiva “doçura e quentura”! – Insinuou-se Miguel.

-Imagina se a água não estivesse fria! – Continuou Lena a gracejar.

-Vem cá…- Miguel puxou-a para si e disse-lhe em segredo: - Entraríamos em ebulição!

Lena riu-se e o seu corpo voltou a ficar colado ao de Miguel.

No horizonte, um pouco distante, uma mota de água rasgava as ondas. O barulho era ensurdecedor. Seguia em linha recta até que guinou e se lançou numa nova trajectória. O par ficava precisamente na sua linha de alcance. Maria Madalena assustou-se quando constatou a aproximação do veículo em marcha acelerada. Quis escapar e Miguel também. Cada um saltou para lados opostos e a mota trespassou o espaço que antes o par tinha ocupado!

Lena reconheceu Sérgio e Miguel blasfemou furioso.

-Sergestus…meu renegado!

-Que estúpido… - Insultou Lena.

Miguel pegou na mão da rapariga e apressaram-se a sair da água.

 

Nessa noite de Sábado todos concordaram numa saída em grupo. Por isso apressaram o jantar, tomaram café numa esplanada e escolheram um bar animado para começar. Pedro Dias era o anfitrião das três raparigas, Sara, Adília e Magda e Miguel acompanhava Mónica e Lena. Havia música ao vivo e quem quisesse poderia dançar. Mesmo assim o grupo estava dividido entre manter-se por ali ou participar numa festa que uma discoteca da moda passara o dia a publicitar. Dessa opinião eram Magda, Sara e Pedro, enquanto Adília e Mónica preferiam manter-se por ali. Já Lena e Miguel não optavam declaradamente.

O bar possuía uma discreta pista de dança um pouco isolada da zona de estar e alguns aproveitaram para dançar. Magda foi convidar Miguel para a acompanhar. O rapaz não foi indelicado e seguiu-a. Lena olhou a amiga com desconfiança. Depois de se insinuar com Sérgio, passava a atacar Miguel! – Pensou.

Miguel mostrava-se descontraído e dançava com graciosidade. Maria Madalena embevecia ao constatar esta revelada faceta do amigo. A música era enérgica e os dançarinos agitavam os corpos ao ritmo que lhes era imposto.

-Que te parece Miguel? – Perguntou Mónica.

-Bastante interessante! – Comentou Lena.

-Vocês estão demasiado próximos. – Observou a amiga.

-É uma crítica? – Quis saber Lena.

-Por mim… não tenho nada contra, desde que ele se controle!

-E o que o faria descontrolar-se? – Insistiu Lena.

-Tu…

-Porquê? Sou a única mulher no mundo. Olha! Neste momento, dança ele bem juntinho a Magda. – O ritmo musical tinha mudado e a forma de dançar também.

-Magda nem o belisca e tu arrasa-lo!

-Fico lisonjeada.

Mónica agitou a cabeça em sinal de desagrado.

-Sonsinha…não estarás com inveja! – Riu-se Maria Madalena.

-Nunca poderia rivalizar contigo e se o fizesse seria uma tarefa inglória.

-Não o faças não…minha querida! Que eu estou em despedida de solteira! Vale tudo! – Maria Madalena continuava na galhofa.

-Esse casamento é o espinho espetado no coração de Miguel! – Disse a amiga com seriedade.

-Parece-me indiferente. Nunca mais abordou tal assunto.

-Usa outra estratégia…

-Qual?

Mas Mónica já não respondeu pois Miguel aproximava-se e fazendo uma vénia, convidava Lena para dançar.

A rapariga não se fez rogada e acompanhou-o até à pista. Mais uma vez os ritmos eram vigorosos e os corpos balançaram-se, perfeitamente afastados. Uma ou outra vez, tocavam-se as mão e entrelaçavam-se os dedos. Ali entre tantos olhares, cada pequeno toque provocava uma onda de excitação. A música tornou-se frenética e os corpos mais desassossegados. Miguel passava rente a Lena e soprava-lhe ao ouvido, palavras imperceptíveis. A rapariga ria e estonteava, seguindo a sua figura com o olhar. O rapaz vestia jeans de corte moderno e uma camisa branca ligeiramente aberta no peito. Ao pescoço vislumbrava-se claramente o famoso cordão.

Os acordes da melodia tornaram-se a pouco e pouco mais doces e tranquilos. Miguel puxou-a para si e entrelaçou-a pela cintura. Maria Madalena colou o rosto ao peito do rapaz e aspirou a fragrância que emanava dos seus cabelos. Quase presos à pista, os corpos oscilando juntos, meneando-se, estreitando-se, inflamando-se, alheios ao ambiente que os rodeia, aos olhares de cobiça ou censura que lhe lançam, às regras e às condutas morais que lhe exigem, o par cinge-se, entranha-se, penetra-se. Lena afaga-se no peito quente do rapaz, sente-lhe as formas e a respiração ofegante. Comprime-se contra ele e a medalha, sob a camisa leve, incomoda-a! Desvia-a, afasta-a e num ímpeto Miguel, lança-a para as costas. Um total conforto envolve-os, estão prontos!

A música altera-se para sons de trovão! Acordes violentos desassossegam! Ritmos agitados inquietam. Os restantes pares da pista apartam-se e só Lena e Miguel querem resistir!

Mónica meneia-se e Sara sacode-se. Envolvem o par que a pouco e pouco se desprende. Maria Madalena sorri e Miguel lança-lhe um beijo pelo ar.

O grupo reúne-se na dança frenética. Miguel recompõe-se e ajeita o cordão. Maria Madalena ainda estremece de volúpia e sente-se cada vez mais fascinada! Priva-a apenas a oportunidade!

Continuam a dançar até que a exaustão os vence. Agora é Lena e Miguel quem primeiro abandonam a pista e regressam ao lugar que ocupavam. Uma mesa redonda, ladeada de pequenos mas cómodos sofás. Ali, ao menos, há um pouco de privacidade e o ruído da música não incomoda tanto.

O par senta-se muito junto. Maria Madalena segreda ao ouvido do rapaz:

-Estamos a exagerar!

-Sim…parece-me que sim! – Consentiu Miguel. – Não devemos continuar a tocar-nos. – E apertava-se contra o corpo da rapariga que já estava entalada entre ele e a parede.

-Então afasta-te! – Disse-lhe Maria Madalena, olhando-o de soslaio.

-Afasta-te tu! – O rapaz continuou a pressioná-la.

-E para onde? – Riu-se Lena, divertida com a brincadeira.

-Não sei…é preciso ter imaginação!

Maria Madalena voltou a segredar-lhe:

-Olha que não demora… estou no teu colo.

-É melhor… não! – E Miguel fez querença de se afastar mas continuou, precisamente, no mesmo lugar.

-Medricas! – Provocou a rapariga.

Miguel pressionou-se ainda mais sobre ela.

-Assim vai-me faltar o ar!

-Então respira-me! – Insinuou-se Miguel.

-Deves pensar que és de éter…

-Sou essência, aroma e bálsamo…

-E doido! – Empurrou-o Maria Madalena.

-Por ti… - Olhou-a com paixão.

A rapariga desviou o olhar.

-Não vamos recomeçar…

-É melhor não! – Confirmou o rapaz dando espaço à rapariga.

Maria Madalena procurou-lhe a medalha.

-Que significa então a medalhinha… - Perguntou com um certo desdém.

-É simbólica. Oferta de minha mãe. – Respondeu Miguel sem interesse.

-Mas disseste que te protegia.

-Claro que protege. Uma mãe quer sempre a protecção de um filho.

-Como se chama a tua mãe? – Quis saber a rapariga.

-Alva… -Disse Miguel.

-E os dizeres? Não são iguais aos da medalha que Rafael me ofereceu!

-Eu tenho o poder. Eles dependem de mim!

-Queres dizer que és tu quem manda? – Redundou a rapariga.

-Mais ou menos! Sou detentor da espada do conhecimento puro, eles apenas possuem espadas de fogo!

-Estás de novo a divagar. Contigo não se pode ter uma conversa séria! – Queixou-se Maria Madalena.

-Podes querer que nunca falei tão a sério!

-Pois…vê-se! – Censurou a rapariga.

A música voltava a embalar.

-Voltamos à pista? – Convidou o rapaz.

-Não sei…e se fossemos antes dar um passeio!

-Ao luar?!

A rapariga abanou a cabeça que sim mas logo em seguida, arrependeu-se:

-E a malta?

-É melhor ficarmos. – Resolveu Miguel.

Não demorou que Mónica e Sara não regressassem e o restante trio não decidisse abandonar o bar e ir experimentar a famosa festa na discoteca.

Estava o bando desfeito e Lena e Miguel viram ali a sua oportunidade.

-Estamos a pensar ir dar um passeio. – Comentou Miguel.

Mónica olhou-o com preocupação.

Miguel esticou o pescoço e bateu com a mão no peito.

Mónica disse que estava a pensar regressar a casa e a Sara agradou-lhe a ideia.

Saíram os quatro e fizeram juntos a maior parte do trajecto. Depois apartaram-se. Lena e Miguel seguiram em frente, Mónica e Sara voltaram à direita.

Miguel colocou o braço sobre o ombro de Lena e aconchegou-a:

-Acreditas que a lua é feiticeira?

-Não sei se é feiticeira mas neste momento parece-me mágica!

-E se ela te lançasse um encantamento?

-Sim…gostaria que ela me tornasse numa sereia que cantaria para ti, meu miserável e martirizado, marinheiro!

-Pois eu digo-te que seria imune ao teu cante!

-Então quero ser a fada Morgana e tu, um insignificante elfo e meu escravo. – Lena entrelaçava Miguel pela cintura.

-Pois eu seria Merlin e os meus poderes superariam os teus!

-Então quero ser uma deusa…

-Então eu serei um anjo…

Entravam agora no areal e foram-no seguindo até a praia fazer um recanto mais reservado. O luar de Agosto cintilava, disseminando uma luz prateada.

O par caminhou abraçado até ao lugar escolhido.

Ali Miguel apartou-se e descalçou os sapatos. Maria Madalena olhou-o curiosa. O rapaz tirou a camisa e principiou a desapertar as calças.

Lena surpreendeu-se com essa atitude:

-Que fazes?

-Vou nadar ao luar! Nu… - E foi retirando todas as peças, até ficar completamente desnudado.

-O quê?

-E tu também! – Disse-lhe puxando-a pela mão.

-Eu não entro na água com esta escuridão! – Garantiu, enquanto não deixava de se inebriar com o físico de Miguel que a luz da lua enaltecia.

-Vem que eu ilumino-te. Sou um ser de luz… - Os olhos de Miguel tremeluziam, enquanto retirava com delicadeza o vestido de Lena.

A rapariga ainda se quis escamotear mas o encanto do rapaz era superior ao seu raciocínio.

Viu-se envolvida pelas mãos ternas de Miguel que a despiram sem recato e sentiu os seus braços rodeá-la para que abraçados entrassem na água.

-Minha sereia canta para mim! – Sussurrou Miguel.

O mar ocultava-os até à cintura. O peito da rapariga estava contraído contra a força muscular do rapaz e os seios quentes roçavam por vezes no metal frio da medalha.

Miguel fê-la rodear-lhe o pescoço com os braços e encaixou o seu rosto de forma a explorar com os lábios a garganta da rapariga.

Muito docemente soltou alguns acordes roucos:

-Vem bailar…no meu batel. Além do mar cruel. E o mar bramindo. Diz que eu…fui roubar!

Maria Madalena trauteou cadenciadamente:

-A luz sem par. Do teu olhar…tão lindo!

Os corpos balanceavam-se ao compasso do pulsar das ondas de maré. Outras ondas porém, bem mais vibrantes, assolavam-nos e cresciam no interior dos seus seres, lançando-os num fascínio alucinante. Sem peias nem estorvos as formas anicham-se, os espaços preenchem-se, as bocas vorazes recheiam-se e o par está perto da plenitude.

Não fosse aquela incómoda e fria medalha que insiste em golpear uma e outra vez os seios macios da rapariga!

Maria Madalena flutua mas não consegue abstrair-se totalmente do incómodo provocado pelo cordão medalhado, estendido sobre o peito de Miguel. Está disposta a ver-se livre do obstáculo e deita-lhe as mãos para o retirar. O rapaz reage de imediato, sacode a cabeça em sinal de negação e aprisiona as mãos da rapariga.

-Deixa estar! – Reage como um sonâmbulo.

-Estorva-me! – Queixou-se a rapariga.

-É a sua função! Há limites que não posso ultrapassar! – Disse o rapaz com imprecisão, afastando-se ligeiramente da rapariga.

-Tais como? – Estranhou Maria Madalena que começava a ficar desconfortável com a situação em que se encontrava.

Miguel reaproximou-se e rodeou com o seu braço os ombros da rapariga:

-Vamos!

Maria Madalena resignou-se e saíram juntos da água.

Mesmo na noite quente de Verão, os corpos molhados reclamaram as vestes e em poucos momentos estavam cobertos.

Uma certa frustração tomou conta da rapariga. Miguel insinuava-se mas não concluía.

O rapaz segurou-a novamente pela mão e reiniciaram a caminhada ao luar.

-Miguel porque nos envolvemos tão intensamente e não completamos essa envolvência? – Questionou a rapariga com uma certa diplomacia.

O rapaz ficou imóvel e a sua fisionomia perturbou-se. Foram apenas alguns segundos, porque depois encarou-a e declarou numa voz, bastante, clara:

-É me vedada a consumação do acto sexual!

Maria Madalena ouviu mas ficou em dificuldades para descortinar as palavras!

-Vedada?!

-Sim…interdita, proibida.

-Porquê? Sofres de alguma doença?! – A rapariga começava a preocupar-se.

-Não. – O rapaz procurou descansá-la. - Prende-se apenas com a minha condição…

Maria Madalena não sabia que condição poderia submeter Miguel aquela afronta, mas via naquele ser um mistério por revelar!

-Miguel…porque não falamos abertamente sobre certas questões?

-Talvez porque não estás preparada para elas… - Disse o rapaz com uma certa nostalgia.

-Devíamos experimentar…

O rapaz parou e segurou-a pelos ombros:

-Se eu fosse o homem da tua vida, serias capaz de manter comigo uma relação platónica?!

-Platónica…queres dizer sem envolvimento sexual!

-Exacto! – Desafiou Miguel.

-Não sei…acho que sim, quer dizer… talvez!

-Vês! – Riu-se o rapaz com ironia. – Continuas demasiado presa à materialidade. Tens ainda todo um longo caminho para trilhares…

-Mas tu próprio… ultrapassas os limites dos contactos físicos, excedes-te nas carícias, extravasas nos afagos…és persistente, insistente como se nada te pudesse entravar. Ainda há pouco estávamos no limiar do acto…o que te poderia garantir que ele não se consumaria?!

-Esta! – E o rapaz mostrou a enigmática medalha.

Maria Madalena ficou entre a irritação e o divertimento.

-Uma vulgar medalha! Estás a rir-te de mim! – Aborreceu-se e iniciou a caminhada sozinha.

Miguel correu em seu alcance para lhe dizer num sussurro:

-Se quiseres…lanço fora a medalha e fico à mercê das consequências.

A rapariga abanou a cabeça em sinal de negação:

-Longe de mim… lançar-te na fogueira do desejo e ver-te arder nela!

-E se eu escolhesse esse fim. Vinte e cinco anos de existência terrena parecem-me suficientes.

-Não vais dizer-me que és como a tarântula-macho que morre a seguir ao acto sexual! – Depreciou Maria Madalena.

-E se a minha materialidade não for total e se…eu estiver envolvido numa certa espiritualidade! – Miguel mostrava-se circunspecto.

-Sim…realmente. Tu e a Mónica devem andar metidos nalguma treta. Aquela também está sempre com misticismos.

-E se eu pertencer a uma outra dimensão…

-Deixa ver…-E Maria Madalena apalpou o rapaz e viu-o estremecer. – Não me parece…tudo o que sinto é bastante real!

Agora foi a vez de Miguel parecer magoado.

-Estás a exceder-te!

-Porquê? Porque vejo em ti um homem, um varão, um macho…

-Não! Porque acabas de matar a poesia do momento…

-Sim. Está morta… mas a sentença foste tu que a ditaste!

Deixavam o areal e tomavam o caminho de volta para casa.

Maria Madalena sacou do telemóvel e ligou o número de Paulo.

Miguel afastou-se incomodado.

A rapariga tentou em vão que o noivo a atendesse.

-Continuas a alimentar o dragão…para ele um dia te devorar! - Censurou-a Miguel.

-Tretas! – Lançou Maria Madalena sem paciência.

O rapaz reaproximou-se:

-Ingloriamente… vou perder os meus atributos sem que obtenha a tua salvação!

-Miguel…já ouvi o suficiente! Por favor…stop! Mais alguns dias e todos regressaremos às nossas vidinhas!

-Preferes o conforto do hábito a rasgares as paredes do convento!

-Prefiro viver dentro da normalidade! – Respondeu a rapariga.

-Estás a insinuar que detestas a minha invulgaridade!

-Digamos que não creio nela!

-É sempre uma questão de fé…

-Sou ateia! – Determinou Maria Madalena, enquanto subia os degraus do apartamento.

Miguel arrebatou-a à entrada.

-Vou abraçar-te até à exaustão!

Lena desafiou:

-Para me enredar na medalha!

-Lanço-a para as costas… - Determinou-se Miguel.

-Que eu saiba os anjos não têm costas… - Soltou-se Maria Madalena, abrindo a porta e entrando em casa.

 

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