Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Rosa & Romances

Rosa & Romances

Atalaia 4 - [capítulo 8]

_light-166365-sido.jpg

 

 

O “Jipe” colado ao “Opel Corsa” não deixava fuga à condutora, empurrando-a pela estrada fora, em direcção ao lugar da Atalaia. Pelo espelho retrovisor, ainda que com algum receio, a rapariga procurava visionar o condutor na esperança de o reconhecer, no entanto, os vidros esfumados, impenetráveis, impossibilitavam-lhe qualquer visibilidade. Desesperava por não ver fuga possível. Naquelas circunstâncias seguiria até Monte-do-Trigo e retomaria o IP2, voltando ao mesmo trajecto.

Entrava, agora, no terreiro entre a igreja e a escola. Alargando-se o espaço, o “Jipe” ultrapassou-a velozmente e voltou a atravessar-se na estrada. O “Opel Corsa” viu-se obrigado a travar a fundo, parando-se o motor pela violência da manobra. A porta do “Jipe” abriu-se e no entardecer profundo a figura conhecida de Sérgio fez a sua aparição!

Maria Madalena ficou boquiaberta. O homem não lhe deu tempo e ele próprio a arrancou de dentro do carro e a envolveu violentamente num abraço apertado. Em desejo ardente o homem procurou avidamente a boca da rapariga e em afagos demorados, profundos e envolventes, explorou-lhe saudosamente o corpo jovem. Pressionada contra a porta, acabada de fechar, Maria Madalena foi perdendo a noção da realidade. Decorreu o tempo até que o homem, numa pausa forçada, se inclinou ligeiramente segurando-a pela cintura e elevando-lhe as duas pernas sobre o seu braço direito. Transportou-a, depois, ao colo para o “Jipe”e sentou-a sobre o banco de couro ao lado do condutor. Com o comando automático trancou o “todo o terreno” e dirigiu-se ao “Opel Corsa”. Ligou a chave e retirou-o da estrada, deixando a passagem livre. Entrou no “Jipe”, jogou a chaves do “Opel” sobre o “tablier” e iniciando a marcha do seu próprio veículo galgou a irregularidade do terreno que envolvia a igreja escondendo o “Jipe” no espaço ladeado entre as paredes do edifício sagrado e os muros do cemitério. Depois respirou fundo e amiudou profundamente a rapariga. O vestido florido em tecido fino deixava transparecer as formas e as emoções. Maria Madalena tremia num misto de prazer e sofrimento.

-Quanto tempo...minha doce jovenzinha. A voz de Sérgio voltava rouca e sensual. A sua tez, tocada pelo sol do Verão, apresentava um ar saudável e cuidado. Os cabelos recentemente aparados estavam perfeitamente moldados, soltando deles um odor refinado que impregnava o espaço. As feições maduras rejubilavam na presença da rapariga e na profundeza dos seus olhos negros, era a figura dela que cintilava.

No cair da tarde, encerrada no espaço automóvel cheirando a novo e fortemente marcado pela presença masculina, Maria Madalena viu-se condenada. Foi com dificuldade que falou:

-Professor...

-Não, não...nada disso. O homem aproximou-se, ficando quase sentado sobre si. Depois ajeitou-lhe o rosto para que ficasse de frente para ele.

-Porque não aprecia-mos juntos, o pôr-do-sol. Veja... como se vai tão magnífico! Juntos...-abraçou a rapariga – poderemos ser tão felizes.

Maria Madalena não acreditava na felicidade. Muito menos ao lado de Sérgio. Não lhe interessava envolver-se de novo com ele. Era a figura de Miguel que acalentava agora nos seus sonhos. Era aquela envolvência, sentida no coração quando estavam juntos, que tornavam as emoções diferentes. Não físicas e sensuais como acontecia com Sérgio. Não cansativas e torturantes como aconteciam com Paulo mas deleitosas e tranquilas, suaves e permanentes. Sentiu um aperto envolvendo-lhe o peito. Miguel, quanto era difícil manterem-se juntos e entenderem-se. Parecia que estavam em dimensões diferentes.

O contacto físico do homem voltou a pressionar a rapariga. Escondia-se o sol a passos largos e Maria Madalena recusava entrar na noite, naquele lugar, com Sérgio a seu lado.

-Sérgio peço-lhe desculpa por todas as minhas leviandades. Estou arrependida e sei o quanto o posso ter prejudicado. Peço desculpa e desejo que me esqueça, faça a sua vida e deixe-me seguir a minha.

-Conheço tudo sobre a tua vida. - Os olhos de Sérgio brilhavam, reflectindo como fogueira acesa o vermelho intenso do pôr-do-sol. Um sorriso trocista marcava a ironia das suas palavras. - Sei onde moras, quem são os teus pais e já apreciei a tua nova mansão! Dou-te tudo em dobro! - As últimas palavras foram quase um grito de desespero e o homem transtornou-se. Voltou a apertar a rapariga sob o seu corpo, crescendo em desejo incontrolável.

-Dou-te o que me pedires...-sussurrava.

-Não quero nada! - Debatia-se.

Subia o vestido, desnudando as pernas. Descia o vestido, desnudando os ombros. Escusava-se a rapariga sobre o couro quente do assento, apertada e comprimida contra as formas interiores da porta. Descia o vestido. Cobria os ombros. Em vão. O turbilhão descontrolado das emoções masculinas não lhe deixava qualquer fuga. O homem galgou o espaço que dividia os dois assentos e sem tempo, recostou o lugar onde estava Lena, ficando a rapariga à sua inteira mercê!

Por estranho, não se debruçou de imediato sobre o corpo feminino, antes procurou desorientado qualquer objecto no interior do “tablier”. Achou e pegou, apressou-se então a colocar. Segurou a mão da rapariga e esticou-lhe o dedo anelar. A claridade do entardecer iluminava o recinto fechado do veículo. Mesmo à sombra das paredes da igreja os vidros brilhavam, os cromados luziam e a jóia ofuscava. A luz do dia fazia brilhar agora o anel que antes o escuro da noite ocultou. Era uma peça de extrema beleza! Uma pérola central, rodeada de quatro pequenos diamantes. Maria Madalena sentiu o objecto cingir-lhe o dedo com tal força como se a quisesse reter para sempre. O seu brilho incendiava-lhe a alma, consumindo-a por dentro. A sua beleza simbolizava ironicamente a sua própria leviandade. Também os atributos físicos de Sérgio ditaram a cruzada irreflectida em que se lançou para ganhar o seu interesse. Agora, parece, tinha-o em demasia.

A voz do homem agravou o tormento em que a rapariga se debatia.

-Com este anel, oficializo a nossa união. Agora podes ser minha!

E mais não disse. A sua força sobrepôs-se às palavras e foi a linguagem do corpo que ditou as sensações. A princípio Lena debateu-se, depois resignou-se e no clímax do momento entregou-se. Se houvesse um modelo divino de união carnal, ela e Sérgio seriam o arquétipo!

 

Quando o fulgor da paixão se esfumou o homem recostou-se no seu assento, tal qual rei vitorioso a saborear o troféu conseguido! Maria Madalena, caída em tentação e por momentos ignorada, engendrava com urgência um plano que a safasse de Sérgio, da noite e do lugar. Na tranquilidade do momento o homem abrira os vidros para circular o ar e descuidara o guardar da rapariga. Esta, por sua vez, fixava insistentemente a chave do seu automóvel jogada à pressa sobre o “tablier” e esquematizava mentalmente, modos de agir: primeiro agarrar a chave, depois pressionar com rapidez o puxador procurando abrir a porta. Quando o conseguiu, pulou de imediato para o exterior e num movimento brusco livrou-se do anel atirando-o com violência contra o homem sentado. Não esperou para ver a reacção deste e correu velozmente, procurando refugiar-se no carro. Trancou-se lá dentro na esperança de que Sérgio não a alcançasse, apressando-se a desaparecer dali. Angustiada a rapariga receava que o homem, ferido na sua vontade, a voltasse a seguir, já que ele próprio lhe assegurara conhecer todos os seus passos. Enquanto descia a estrada recta e estreita procurava, através do espelho retrovisor, certificar-se dos movimentos de Sérgio.

Alguns minutos depois o “Jipe” abandonou com velocidade, o lugar da Atalaia em sentido contrário ao seu e na direcção Monte-do-Trigo/Évora.

Maria Madalena viu-se sozinha no anoitecer e era agora a viagem o que mais receava! Continuava o carro a rolar pela descida pouco pronunciada, avançando vários metros, sempre em linha recta.

Seguia a rapariga no interior do carro, apreensiva pela sequência das situações, cada uma mais estranha que a outra. Os faróis do veículo, ligados no máximo, deixavam antever alguns metros do trajecto. Á direita um canavial e restos do que fora uma horta. Á esquerda o apartar de um curto caminho em terra batida, conduzindo a outro monte agrícola também ele parecendo abandonado. Por momentos desviou o olhar para as construções baixas e quase ocultas. Nunca sentira curiosidade de as conhecer e mesmo, na claridade do dia, nunca se interessara pela sua existência. A noite parecia agora avivar espaços que a luz do dia escamoteara. Aliviada da pressão de Sérgio, querendo mais esquecê-lo do que recordá-lo exigia à sua mente que não se ocupasse da sua figura, das suas palavras ou dos seus actos. Apenas o físico teimava em sentir.

Distraída sentiu também o carro bater! Um choque pequeno sobre qualquer obstáculo. Travou a fundo e interrompeu a marcha. Olhou e não viu nada.

A estrada desenrolava-se estéril, no entanto, tinha a certeza de ter embatido sobre qualquer coisa. Avaliou os riscos de se apear. Ali, no descampado, sob a noite recente. Ainda o lusco-fusco permanecia, ainda as formas eram perceptíveis se os olhos se desviassem da claridade das luzes e procurassem no escuro a verdade das coisas. Apeou-se, mantendo no entanto, o motor ligado e as luzes acesas. Assim que colocou os pés no chão ouviu logo um pequeno gemido.

Um magnífico cachorrinho, peludo e branco como a neve, suplicava socorro. O carro tinha-o ferido numa das patas traseiras e o animal ao ver a rapariga, começou a tecer um rol de ganidos. Maria Madalena sentiu-se desesperada. Tinha magoado o animal. Pegou-lhe ao colo e viu que só alguém com experiência poderia remediar o seu sofrimento. Viu-se a si mesma impotente e decidiu recolher o cachorro ao interior do carro e transportá-lo consigo para casa. No pescoço do animal uma coleira fina de couro mostrava aplicada uma pequena chapa com os dizeres “Rex”.

-Rex!... Rex!...- foram os gritos que se ouviram na noite e uma luz redonda movia-se caminho abaixo, vinda do monte que ficava ao lado da estrada. A luz incidia sobre o veículo, sobre a rapariga e o animal. Quem se ocultava por detrás da luz era ainda difícil de visualizar. Maria Madalena esperou que o dono da voz reclamasse o cão e preparou-se para a reacção pouco cordial que o mesmo viesse a ter.

-Senhor...peço desculpa. Sem querer magoei o seu cão.

-Não sabe por onde anda? - A voz era rude e as palavras pronunciadas com brusquidão. As feições porém continuavam ainda ocultas porque a claridade forte da lanterna encandeava o olhar da rapariga. A presença escura, no entanto, era ameaçadora.

-Foi sem intenção...nem me apercebi de onde ele apareceu! - A rapariga estendeu os braços e entregou o animal ferido ao homem que naquele momento baixou a luz que transportava, ficando ele próprio iluminado pelos faróis do carro. Uma figura masculina, magra, mediana na altura e na idade, cabelo curto, quase rente, rosto cuidado mas de traços tensos e pronunciados. Lábios grossos e salientes e olhos mortiços, cansados e sem brilho, mesmo perante a vivacidade da luz, de um verde apagado e bacento.

-Tem a perna partida. - O homem sentenciou – mulheres ao volante. - Resmungou entre dentes enquanto se dobrava com o cão no colo, avaliando os estragos.

-Sabe quanto custa um cão destes? - Os olhos incendiaram-se de cólera. Maria Madalena temeu a figura que lhe parecia fora de si. Depois resolveu agir com determinação.

-Já pedi desculpa. Se não tem carro dou-lhe boleia e vamos com o animal ao veterinário. Mais não posso fazer. - A rapariga impôs-se. - Não precisa de ser desagradável. Isto pode acontecer a qualquer um.

-A qualquer um...não. A qualquer um que seja irresponsável!

A rapariga não respondeu, seriamente contrariada. O homem continuava a mostrar-se pouco cordial e ela desejava remediar o incidente e retomar a viagem.

O pequeno cão de raça, certamente aparentado ao lobo, continuava a reclamar a atenção do dono e a olhar amedrontado a rapariga. Enquanto isso o homem verificava a pata do animal, revendo o diagnóstico.

-Pode ser só dorido. Afinal ele até a dobra. Mesmo assim, só ficarei descansado se consultar um especialista. - Falava como se estivesse sozinho e a rapariga não contasse para nada.

-Se quiser...podemos ir a Portel. A esta hora é que...não sei! - A rapariga procurava ser prestável e o homem dignou-se então a olhar para ela, fixando-a com frieza e desinteresse.

-Claro que a esta hora é impossível. Quem é que me vai atender....e em Portel há veterinário?

A rapariga encolheu os ombros em sinal de desconhecimento.

-Claro que não há. Continuamos atrasados. - O homem voltava a mostrar-se azedo – amanhã iremos a Évora, meu pequenino. - Agora o tom da voz soava mais ameno dirigindo-se ao animal enquanto lhe afagava a cabeça e o tronco peludo.

-Sendo assim...apresento mais uma vez as minhas desculpas e retomo caminho. - Maria Madalena falava para o homem enquanto dava alguns passos na direcção do veículo.

-E quem vai pagar as despesas do tratamento? - O homem era verdadeiramente indelicado, insuportável até.

-Queira apresentar contas. - A rapariga desafiou-o.

Foi nessa altura que o homem começou a rir, como se troçasse dela, como se a estivesse a diminuir.

-Não seja tola...não preciso do seu dinheiro. -estendeu a mão - Engenheiro Costa e Miranda, muito prazer.

Lena ficou um pouco desorientada, sem saber se haveria de retribuir o cumprimento. Não tinha simpatizado com o desconhecido e estava até irritada com a sua presunção. Por outro lado sentia uma pressão violenta sobre o peito, sobre a zona do pescoço, como se estivesse a queimar, a sufocar. Levou a mão ao peito e tocou no fino cordão que trazia pendurado. Escorregou os dedos até sentir a medalha. Ao toque retraiu-se imediatamente, porque a dor sentida na ponta dos dedos foi aguda e dilacerante. A medalha incendiava!

Viu o homem estranhar o seu comportamento, enquanto mantinha a mão direita estendida.

A rapariga recompôs-se e reagiu.

-Isabel...prazer. - agora foi a vez do homem se retrair e encolher a mão evitando assim tocar a rapariga. Depois, quase temeroso, segurou o cão com força e voltou a ligar a lanterna.

-Bem... sigo viagem. - Voltou-se e encaminhou-se para o monte.

Maria Madalena não esperou mais surpresas. Entrou no carro, cujo indicador de temperatura tocava já o vermelho e apressou-se a retomar a viagem.

Circulou um ou dois quilómetros, sobre a estrada estreita e plana.

Em determinada altura começou a ver incidir sobre o espelho retrovisor os faróis de um outro veículo. Quando se aproximava do cruzamento já o segundo veículo se colara ao seu. Virou à direita e avagou. Estava determinada a saber de quem se tratava.

O “Jipe” potente, de cromados brilhantes, virou à esquerda. Reconheceu imediatamente o modelo e estarreceu!

Jurava, no entanto, ter visualizado o focinho branco de um animal encostado à janela contrária ao banco do condutor!