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Rosa & Romances

Rosa & Romances

Noites em Branco [ 1ª Parte ]

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                                            (Quando Portel é Vila Branca)

 

Os primeiros raios de sol acariciaram Vila Branca. Tocaram-lhe o coração, preenchendo-o. Deslizaram pelos seus cabelos ondulados, escondendo-se aqui e ali, entre um ou outro caracol. Percorreram os seus braços, pernas, mãos e dedos, até pintarem, uma a uma, cada unha, iluminando-as de um verniz de luz brilhante. A face, levemente marcada por algumas rugas do tempo, mostrava-se no esplendor da manhã serena e doce. O corpo, delineado sobre socalcos, de ancas torneadas e ventre redondo, espreguiçava-se e aconchegava-se mais uma vez sobre o lençol branco que ela própria estendia. Contrariada, recusava-se a acordar. Queria permanecer na quietude da noite. Envolta no manto negro que oculta os sonhos mas o sol intrometido, trazia o dia e com ele o bulício da vida. A pouco e pouco, tornou-se luminosa e quente, desperta e oferecida. Entregava-se agora à intrusão do dia. Que viesse, então! Arrancá-la à paz da noite e lhe mostrasse mais uma vez a agitação aflitiva dos dias. Os dias instáveis perpetuados pela guerra! Sim a guerra! Essa terrível madrasta que estendia o seu espectro sobre as gentes e os lugares.

Chegara há mais de quinze anos e parecia nunca mais querer acabar. Consequência inevitável da restauração do trono português em 1 de Dezembro de 1640 e da aclamação de D. João, duque de Bragança, como novo rei de Portugal. Arrastou-se durante uma primeira fase por pequenas incursões de fronteira, época em que os portugueses se afirmaram, conquistando territórios do outro lado da raia. Depois a guerra endureceu e Castela mostrou-se determinada em vencer de uma vez por todas a ousada rebeldia portuguesa. Agora, desde a morte do rei D. João, em 07 de Novembro do ano passado o conflito ameaça tornar-se ainda mais violento e sanguinário. Era agora uma guerra temida por todos. Quer pelos que habitavam em zonas de fronteira quer pelos que viviam no interior do reino e que até aí se julgavam protegidos. Durante anos, as gentes de Vila Branca assumiram que a verdadeira guerra estava para lá do que a sua vista alcançava e que esta apenas se manifestava na passagem de uma ou outra companhia, que por ali fazia paragem ou para se abastecer ou para recrutar homens. Hoje porém, todos viviam receando o dia de amanhã. Todos temiam pelo alastrar das incursões inimigas, pelo saque do gado, pela destruição das colheitas. A todos atormentava a visão do seu tecto a incendiar, da morte de um ente querido, do ceifar da sua própria vida. Essa insegurança crescia e tornava-se um verdadeiro terror. As mulheres entravam em histeria, chorando e gritando, pedindo protecção para seus filhos. Os curas do alto dos púlpitos vociferavam sermões religiosos, apelando à bondade divina, ao perdão dos pecados, à oferta de indulgências. Os monges penitenciavam-se, autoflagelavam-se, arrastando-se pelo chão rude dos conventos, na esperança que Deus os poupasse. As irmandades religiosas organizavam procissões, acendiam velas, pagavam promessas. Em todos restava porém, a crença de que Vila Branca, situada no interior, entre a raia e o oceano, estava predestinada a ser poupada porque o branco é a cor da paz e Deus, ao dar-lhe tal nome, ditou-lhe o destino, livrando-a de todos os perigos!

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Miriam habitava no coração de Vila Branca. Também ela despertara com o despontar do sol que se infiltrava pela vidraça da única janela dos seus aposentos, situados no segundo piso da torre de menagem. Rosieta sua dama de companhia, única amiga e confidente, entrou no quarto para a ajudar a vestir. As suas primeiras palavras, antes mesmo de a cumprimentar foram em tom seco e grave:

-Tem novidades da guerra?

-Não minha amiga. Seu pai também aguarda o mensageiro que vem da raia para saber notícias da companhia de D. Francisco de Sousa onde serve seu irmão e meu muito amado Fabião. - Depois deitou as mãos ao rosto e soltou um soluço.

Miriam enfastiou-se. Esta mania das mulheres chorarem por tudo e por nada, mas de imediato condoeu-se do sofrimento da amiga, que sabia ser verdadeiro e apressou-se a reconfortá-la:

-Minha doce Rosieta não chore. Vai ver que a guerra termina em breve e o seu casamento com Fabião será uma festa inesquecível. - Lançou para o futuro um olhar sonhador, procurando rever-se também, nessa edílica visão. Em vão. Desde a sua infância que se impunha abraçar, com o mesmo desejo e a mesma ansiedade que via em Rosieta, um destino que seu pai reservara à sua condição de mulher: um casamento rentável e próspero com um fidalgo da sua condição. Em boa hora a guerra estalara e o acordo via dificuldades em ser cumprido.

Rosieta no entanto continuava a sonhar com o fim das hostilidades e com a vitória das forças portuguesas.

-Claro que sim. Que tonta que sou. D. Miguel Velladas ainda ontem ao serão, assegurou que os nossos soldados são muito mais valentes e destemidos que os castelhanos, porque lutam por uma nobre causa e que em breve, sairemos vencedores desta contenda.

-A causa da independência. Sim é a mais nobre causa. - Miriam pousou os pés descalços sobre a tijoleira fria dos aposentos e dirigiu-se á janela, arrastando a camisa de noite como um véu, pelo chão.

Rosieta admirou a amiga. Era de constituição forte mas graciosa. Teimavam em despontar nela as formas torneadas de mulher que Miriam, pela sua personalidade forte e determinada, teimava em ocultar.

-Minha nobre amiga é que ficará divinal em trajes de noiva. Veja a sua deslumbrante figura apenas em camisa de noite.

Miriam não respondeu. Detestava aquelas vestes de mulher indefesa. Como admirava as vestes defensivas de Fabião, a coura, o espaldar e o morrião, com que ele se equipava para servir na campanha. Porque não tinha ela nascido homem em vez de mulher. Que limitações tão graves lhe estavam impostas. Viver na candura, quase na clausura do solar- acastelado, apenas podendo conviver com mulheres, a amiga, a mãe, a tia, suas duas primas, que há tempos a não visitavam, algumas criadas e escravas. Como Fabião enfrentava perigos mas vivia em liberdade. Ela, na sua condição de jovem donzela, tinha uma vida regrada, insípida e insonsa.

Rosieta reconheceu-lhe a expressão de tédio e por isso apressou-se a povoar-lhe os pensamentos de virtudes femininas enquanto lhe ajeitava sobre o leito as vestes que ela própria lhe escolhera:

-Ser mulher é maravilhoso. Amar um homem, desposá-lo, cuidar dele, dar-lhe filhos não pode ser senão uma ventura.

Miriam abriu a janela, inspirou profundamente o ar fresco da manhã, até sentir o peito preenchido e renovado. Depois firmou os cotovelos no parapeito, apoiou a cabeça entre as duas mãos e perdeu-se na paisagem lá fora. Aos primeiros raios de sol, Vila Branca clareava. Nas encostas dos montes, para lá de valle-flores, os camponeses limpavam as searas das ervas nocivas, mondando o trigo e sachando as favas. Outros, mais ao longe, nos arvoredos, acarretavam a lenha destinada à carvoaria e ao aquecimento. Os hortelãos e suas famílias, mulheres e filhas, trabalhavam nas hortas à volta da Vila, arrendando e cuidando dos primeiros legumes da Primavera. O gado espalhava-se pelo montado verdejante, guloso em satisfazer-se na erva tenra e viçosa, matizada de várias cores.

-Hoje sairei a cavalo. Irei até à ermida visitar Frei Lúcio da Anunciação.

-Seu pai não ficará satisfeito. Teme pela vossa segurança.

-Levarei guarda se ele assim quiser. - Despiu a camisa de noite e rejeitou o vestido azul que Rosieta lhe estendeu.

-Quero vestes de montar. Eu mesma trato disso.

Rosieta já sabia que indumentária Miriam iria escolher. Não seria um traje feminino de montar mas sim uma adaptação. Uma casaca e uns calções de Fabião. Chapéu e capa. Calçaria mais uma vez as desgastadas botas de montar que lhe ficavam enormes aos pés!

Que D. Gonçalo Gonçalves não se cruze com ela, pediu Rosieta intimamente a Deus, ou então voltará a ser castigada. A eterna rebeldia e insatisfação de Miriam eram os grandes motivos de preocupação da sua amiga e de sua mãe D. Maria Sofia que em constantes vigílias procurava evitar à filha castigos mais severos.

-Qualquer dia vosso pai, perderá a paciência e será enclausurada num convento.

A Miriam pouco lhe importava. Entre a clausura de um casamento contratado e o contrato para entrar num convento a diferença não era muita. Depois ainda tinha esperança de que a guerra continuasse e seu pai preocupado em proteger a honra, em garantir os negócios e em defender a sua posição social não perdesse muito tempo em alterar o seu destino. Já que teria de casar que fosse o mais tarde possível.

 

(continua...)