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Rosa & Romances

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Ouro & Prata [ capítulo 1 ]

 

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O escrivão novo

Era meio-dia. A comprová-lo o sol erguia-se a prumo sobre a campina. Acabara de sair da alfândega o almocreve Vicente Peleiro, mercador resoluto e sabido. A carga de peles curtidas tinha como destino as feiras do interior de Castela. Esperava-o ainda uma longa viagem mas quando o frio de Inverno chegasse já ele as teria desbaratado e regressado ao reino de Portugal com a bolsa cheia de boas moedas de prata. Três mulas carregadas, conduzidas por dois rapazes pequenos e escoltadas por um rafeiro alentejano, troteavam já pelo caminho em direção a Villanueva. Atrás, montado no seu jumento Calçadinho, Vicente gritava aos rapazes:

-Os animais têm sempre razão…ó meus rufias! Vão com calma, não as assustem. Olhem a carga que vale ouro e se vai parar ao chão, serão três dias só a pão e água.

Os rapazes encolhem-se, receosos, franzinos e apressam-se a segurar com as mãos pequenas as trouxas de curtumes sobre as montadas. São enjeitados da roda de Mourão. Ninguém mais os quis quando fizeram sete anos e Vicente acolheu-os. Têm agora o privilégio de percorrer com ele, milhas e milhas de terra, ao sol e ao frio, pés desnudados e barriga, quase sempre, vazia.

Emproado, de calções tufados e casaca cintada, os tamancos grossos quase a tocar o chão, varinha de marmeleiro na mão direita, Vicente Peleiro ainda acena ao escrivão que no exterior do posto aduaneiro o mira sem grande interesse. Depois faz “zurzir” a varinha sobre o espinhaço delgado do “Calçadinho” e marcha a quanto pode no alcance da carga. 

Diego “o escrivão novo” como já é conhecido por aquelas bandas, debate-se com o enfado e está deveras aborrecido. Passados que são quase seis meses deste ano de 1728, com o mês de Junho a aproximar-se do fim e a marcar o início de mais um Verão extremamente quente e seco, perfaz quase dois anos que por ali anda sobre esta terra plana até perder de vista, sem gentes nem sombras. Veio com os pais, a mando do Marquês, que após longa demanda obteve finalmente sentença favorável à herança de Pedro Portocarrero e extremamente preocupado com a administração do seu novo marquesado escolheu para o exercício dessas funções pessoas da sua total confiança. Era aí que seu pai entrava, amigo e confidente de D. Lope-Barradas, desde longos anos alto responsável pelas contas da sua “Casa” foi o homem eleito para seu representante em Villanueva del Fresno. Com o pai, veio a mãe e seu único filho, ele, a quem coube na qualidade de afilhado protegido de D. Lope e fazendo jus às suas qualidades de excelente letrado, o ofício de escrivão da aduana. É no exercício quotidiano destas funções meramente descritivas, monótonas e desinteressantes que Diego Lopez domina a inquietude da sua jovem idade e controla as ambições de seu espírito desassossegado.

Por tudo isto e muito mais era necessário de vez em quando fazer uma pausa. No interior das casas da aduana sufocava-se e as moscas impertinentes, buliam. Gil Braz, feitor das sacas, tirava uma bucha de pão e carne e bebia um vinho branco mortiço. Na casa dos guardas, Sanchéz limpava o mosquete mas Xosué já adormecera num canto e não demorava que ressonasse.

Diego aproveitou para sair e esticar as pernas, rondando em volta, socorrendo-se da escassa sombra da parede. Desde o nascer do sol que anotara três cargas: Maria Benita com os seus ovos e frangas, Manuel do Corval com panelas e testos e agora Vicente Peleiro com os seus curtumes. Tarefas rotineiras de escrivão de alfândega. Eram assim os seus dias. “Livros de Assentos”, tinteiro e pena. Poucos registos desde madrugada até o sol se erguer a pique.

Do lugar onde se encontrava conseguia ver bem o posto aduaneiro de Mourão. O escrivão português é um velho carrancudo e trôpego a quem o ofício dá estatuto. Chama-se Manuel de Azevedo e raramente se lhe ouve a fala. Embora quase mudo, anota com esmero e clareza qualquer carga, orgulhando-se do estado imaculado dos seus livros e do torneado da sua caligrafia. Deseja o escrivão Manuel que seu filho primogénito Francisco da Rosa Limpo abrace o ofício para o qual já foi nomeado. Aqui Diego esboça um sorriso. Ninguém iguala o “Chico da Rosa”. Mancebo dos seus anos. Foi um dos primeiros conhecimentos que travou assim que chegou aos campos de Villanueva. É também a figura mais castiça que já conheceu. Teima em não trabalhar, levantar-se tarde, compor-se ao figurino, segundo as modas de França com traços do Além-Tejo, quando a ocasião exige põe a cabeleira postiça coberta de polvilhos, calça os sapatos de tacão e laços que a lama das ruas encharca e destrói e adota uma postura de peralvilho que o ridiculariza aos olhos dos demais. Perde-se em vendas e feiras, representações e danças, e frequenta amiúde salões de leitura e poesia, cortejando as damas de berço nobre, enquanto vive intensamente uma paixão exacerbada pela soror Ana de Deus ou pela noviça Maria de Jesus. É uma diabólica moda em Portugal esta de cortejar as freiras e “desfalecer de amores” ao primeiro vislumbre das paredes brancas e altas de um convento. Chico da Rosa, que fazendo jus ao seu nome, procura apresentar-se sempre com uma rosa vermelha e viçosa no peito da casaca, é o maior admirador e executor desta extraordinária arte de amar. Qualquer noviça oculta e inacessível pelas grades de um mosteiro torna-se de imediato, a musa dos seus poemas, a diva que lhe dita o destino e a senhora do seu coração!

Uma carroça carregada aproxima-se da alfândega e Diego decide regressar ao seu posto. Gil Braz já no telheiro onde se contam as cargas, aguarda a chegada do veículo. Diego apressa-se a fazer-lhe companhia:

-Senhor escrivão…já o tinha procurado.

-Fui esticar as pernas e retive-me um pouco nas traseiras do posto. – Informou Diego.

-Como ainda não comeu, pensei que se sentisse indisposto. – Acrescentou o feitor.

-Não tenho fome e de facto este calor sufoca-me.

-Ainda não se habituou ao tempo quente e seco. Lá para as suas bandas, sempre era mais fresco, estava mais perto do mar…

-É verdade senhor Gil…da minha aldeia de Cortes, junto a Graena, quase que se avista o mar. É um lugar pequeno mas bonito. Logo pela madrugada, o ar puro da montanha com um cheirinho a maresia, entrava-nos pelas narinas e fazia-nos renascer.

-Ah! Está mesmo com saudades. Então e os nossos ares, quando não está este calor? E as pessoas?

-Tudo gente boa, senhor Gil…mas este calor! Com este é que eu não me habituo. – Rematou Diego, enquanto procurava alargar a volta da gravata que lhe apertava demasiado o pescoço.

-Boas-tardes meus senhores. – Saudou o condutor da carroça que acabara de entrar no posto aduaneiro de Villanueva del Fresno.

-Boa-tarde amigo, bons olhos o vejam. – Saudou Gil Braz, enquanto Diego se desapertava ao mesmo tempo que reconhecia com satisfação o recém-chegado.

-Henrique Livreiro… que agradável visita. – Diego estendeu-lhe a mão que o outro apertou com afinco.

-Um seu criado, chegadinho da cidade grande: Lisboa que o resto é paisagem! – Retorquiu o visitante, com picardia…

-E presumo que vais direitinho a Madrid: a maior cidade Ibérica! O centro do Mundo!

-Alto lá…amigo Diego, nada de exageros. Lisboa é uma menina enquanto Madrid não passa de uma moça já entradota  

-Uma dama quer você dizer, cheia de encantos e mistérios. – Assentou Diego disposto a defender o seu tesouro.

-E se tratássemos da carga? – Interrompeu Gil Braz já habituado às turras daqueles dois.

-São só livros senhor feitor e as outras duas carroças também. – Informou Henrique.

-Proibidos? – Desafiou Gil Braz, enquanto dava volta à carga.

-Todos autorizados pelo punho da Santa Inquisição.

-Veremos isso…vamos a descarregar. Senhor escrivão faça o obséquio de tomar nota!

Diego apressou-se a puxar dos utensílios do ofício enquanto Henrique mandava os dois moços que o acompanhavam descarregar as arcas que traziam sobre as três carroças.

-Estão aqui as guias senhor escrivão. É só conferir. No geral são impressos franceses, os mais procurados, pois é do conhecimento de vossas senhorias o quanto a corte castelhana almeja afrancesar-se.

Diego levantou os olhos das guias enquanto esboçava um sorriso:

-Um neto do Rei-Sol já nós cá temos. Agora é só iluminarmo-nos!

-A propósito trago vários escritos que versão sobre as “luzes e a razão”. Quererá o amigo dispor de alguns?

-E crónicas, gazetas e folhetos? – Inquiriu Diego com grande interesse.

-Quase nada, mas saiba o senhor que a Academia Real da História Portuguesa tem estado em grande labor e que frei Manuel dos Santos já lançou a oitava parte da “Monarquia Lusitana”. – Informou Henrique.

-Isso sim são obras que me interessam. Recriar a História é tarefa sublime, aquela em que me perderia de bom grado!

-Pois podeis começar contando algumas novas. Sabeis que ficou determinado que vamos ser novamente irmãos!?

-Sim…parece que sim! O que não deixa de ser caricato porque ainda agora encerrámos uma guerra! - Zombou Diego.

-Mas nós não devíamos já estar habituados, se é sempre a mesma coisa: ou nos guerreamos ou casamos entre nós!

-Vai haver boda da grande, então? – Perguntou Gil Braz, entrando na conversa.

-À grande e à francesa! – Afiançou Henrique. – Notícias fresquinhas do Paço da Ribeira. – Acrescentou.

-À grande e à castelhana, quer o senhor dizer! Já que os franceses remeteram de volta a nossa princesinha Mariana Victoria! – Riu-se Diego enquanto passava as guias ao feitor e ia fazer o registo da carga.

-Amigo Diego, então… não estará por acaso a insinuar que ao meu príncipe D. José vai calhar o prato rejeitado pelo bisneto do Rei-Sol! – Chalaceou o Livreiro.

Diego levantou a cabeça do livro de assentos e com um sorriso nos lábios, apressou-se a reparar o dito:

-Ora essa…Mariannina era na altura uma criança e agora é uma jovem muito prendada, quem fica a ganhar são os portugueses, isso sim!

-Mas já agora diga lá que novas são essas do Paço da Ribeira? – Interessou-se novamente o feitor.  

-Então…neste momento já está tudo afiançado. – Henrique fez uma pose para depois iniciar um ciclo de voltas compassadas pelo alpendre. - Claro que primeiro houve que encetar demoradas negociações entre as duas cortes… depois foi preciso enviar os ministros plenipotenciários a cada uma das capitais para acertar os pormenores. Logo a seguir…conseguiram-se assinar os contratos matrimoniais e só por fim… lá casou primeiro D. José, por procuração, com a vossa recém-chegada petite reine e algum tempo depois é que se celebrou o enlace da nossa princesa Maria Bárbara com o vosso príncipe das Astúrias D. Fernando. Como podem imaginar neste entretantos Lisboa tem estado a “ferro e fogo” no bom sentido é claro: renovam-se os espaços, decoram-se ricamente as igrejas e capelas… as ruas e as praças são engalanadas com arcos, arquetas e arquitos dourados…mais florões, medalhas e insígnias coloridas…tapeçarias, faixas e fitas de damasco, veludo e sedas e isto só para salientar uma parte dos festejos! – O Livreiro fez agora uma pausa e avaliou se ainda tinha a atenção dos assistentes e como Gil Braz tinha parado a contagem dos livros e Diego tinha a pena em suspenso ele continuou a narrativa. - Cada ocasião dá aso a banquetes, serenatas, bailes de máscaras, largadas de touros, luminárias, lançamento de fogo-de-artifício, cortejos, procissões, encontros e romarias. Há mais de um ano que a corte e o povo festejam e parece que os folguedos estão para continuar e agora com uma singularidade… é que os amigos também vão poder assistir!

-Eu não…que já estou velho para avistar o séquito real! – Reclamou Gil Braz retomando a contagem.

-Não se preocupem senhores que o vão ver muito em breve! E em dose dupla se quiserem!

-Nós! – Admirou-se Diego ao mesmo tempo que procurava não perder nenhuma indicação dada pelo feitor.

-Pois é isso mesmo. Prepara-se entre os nossos reinos um acontecimento de grandeza sem precedentes…- Henrique divertia-se com o seu papel de noveleiro e dava asas à eloquência. - Corre a extraordinária notícia de que foram as terras do sul da raia que receberam o privilégio régio de poderem vir a assistir muito em breve à aparatosa, faustosa e sumptuosa e outras coisas terminadas em “osa”, tais como esplendorosa, grandiosa e pomposa cerimónia da troca das princesas que tudo indica se realizará algumas milhas acima deste local, entre Elvas e Badajoz e exatamente sobre o rio Caia!

-Mas…se em Castela nada se comenta! – Surpreendeu-se Diego enquanto Gil Braz se mostrava boquiaberto.

-Claro que notícias confidenciais deste género não andam na boca do povo mas eu que sou um homem muito bem relacionado e tenho acesso a informações em primeira mão posso dizer-vos que as obras na fronteira já começaram e que o meu magnânimo rei está a construir um palácio no lugar de Vendas Novas só para alojar a comitiva!

-Bem…parece que em Portugal se vive uma boa época e que D. João passa o tempo a delinear grandes construções. Ainda outro dia um comerciante de Évora aqui disse que o convento que mandou erguer na vila de Mafra é uma obra soberba. - Comentou Diego enquanto continuava a tarefa.

-Abunda o ouro do Brasil, amigo Diego. A corte brilha como um imenso filão e o luxo, a ostentação e a pompa são o seu reflexo. – Lançou Henrique.

Gil Braz que confirmava pela guia o título dos impressos que um dos moços tinha retirado de uma arca, voltou ao assunto dos duplos consórcios:

-Ora muito nos conta…é um dia em cheio, sim senhor! Depois de tantas voltas e reviravoltas a nossa pequena Mariana vai ser rainha de Portugal e recebemos como candidata ao trono castelhano a princesa Maria Bárbara. Não está mal, não está nada mal e não se pode dizer que não se trata de uma engenhosa dupla aliança. Tivesse eu a sorte dos soberanos e teria as minhas dores de cabeça resolvidas! Com três filhas à espera de pretendente, espera-me um árduo trabalho.

Henrique e Diego riram.

-Eu diria mesmo…que se matam quatro coelhos de uma cajadada só! – Diego fez uma pausa na escrita. - Foi tudo muito bem calculado, não haja dúvidas…só que a mim ninguém me demove de que nesta artimanha há dedo da rainha Isabel. Depois da afronta que os franceses nos fizeram ela nunca mais sossegou até encontrar abrigo para a pequena e como do outro lado da fronteira o ouro agora cintila, deitou mãos à obra!

-Deixe lá…que os príncipes estão bem entregues. Ficam na Ibéria que é recanto deles! Junta-se o ouro do Brasil com a prata da América e celebra-se como manda o figurino! – Riu-se Henrique. Depois voltando-se para Diego e dando-lhe uma palmadinha no ombro: - Amigo…aqui está a grande oportunidade de vossa vida. Com todo o jeito que tendes para escrever, muito interessado e sabedor desta grande arte, pegais em vós, observais os factos e escrevereis uma bela crónica, toda composta de salamaleques, dando notícia para a posteridade desta dupla troca das princesas. Fareis dois manuscritos, cada um com a sua ilustre dedicatória, que oferecereis a cada um dos soberanos. Se não conseguirdes impressionar D. Filipe V de Castela, sempre podeis ter esperança em D. João V o magnânimo…umh, que dizeis! Uma magnífica crónica deste extraordinário feito: o enlace, a quatro mãos, das duas majestosas coroas ibéricas. Tudo muito bem documentado, muitos louvores às Majestades, muitos elogios aos Príncipes e às Princesas, muitos engrandecimentos aos Grandes de Castela e de Portugal, descrição dos festejos, pormenores dos banquetes… e pronto, depois de manuscrito, eu mexo os cordelinhos para qualquer tipografia o imprimir!

Agora foi a vez de Diego rir divertido e de Gil Braz considerar que Henrique tinha ensandecido!

-Estava para ver um mísero escrivão de aduana a escrever uma crónica sobre um feito tão elevado! – Comentou depois com algum desânimo.

-Nada disso, nada disso. Eu sei do que falo e vós não sois um Zé-Ninguém, gozais da grande estima e consideração que vos votou vosso padrinho e tendes a proteção do jovem Marquês, seu filho!

-Meu padrinho…que sua alma descanse em paz, abandonou-me cedo demais e ainda não me refiz da mágoa que me deixou a sua partida. Quanto ao seu único filho é um jovem demasiado ocupado em garantir que mantém nas suas mãos todos os bens que herdou. Como sabeis a demanda pelo marquesado ainda não está segura.

-Sim…ouvi comentar em Barcarrota que com a recente morte de D. Lope se reacendeu o pleito.- Comentou Henrique.

-É uma realidade! D. Cristoval, Conde de Montijo está mais aguerrido do que nunca. Vale-se de Antonio ser jovem e de meu padrinho já não o poder apeitar. – Lamentou Diego.

-Sim…mas essa luta não é sua, amigo Diego é da Alta Casa dos Marqueses de Cortes de Graena e eles a travarão. Ao amigo compete dedicar-se ao estudo e ao registo dos grandes acontecimentos da História e este que está prestes a acontecer é um deles. – Henrique insistia.

-De forma alguma…- Negava-se Diego. - Recebi das mãos de meu padrinho, fruto da sua benevolência, os meus estudos e a compra deste ofício. Nada mais devo ambicionar! – Afirmou Diego procurando rematar a questão enquanto Henrique não parecia disposto a dar o assunto por encerrado:

-Amigo, estais na “flor da idade”, sois inteligente e estudioso, tendes a possibilidade de vos distinguirdes através de um feito desta natureza. Pensai bem no assunto. Eu posso abrir-vos algumas portas… - Teimou Henrique, enquanto dava indicações gestuais aos criados para começarem a fechar os cadeados das arcas, pois Gil Braz já tinha conferido todos os livros e impressos, sem encontrar razões para objetar a passagem.

-Tudo certo amigo Henrique. Quando quiser já pode seguir. – Avisou o feitor.

-Seguirei em breve mas antes ainda quero insistir nesta conversinha com o amigo Diego. – Assentou Henrique, aproximando-se mais do escrivão e aproveitando para admirar os seus registos. – Esta caligrafia é um primor mas tão mal empregada em descrições de somenos importância. – Concluiu com desalento.

Diego manteve por mais algum tempo a vista sobre a folha do Livro de Assentos, enquanto torneava com arte as palavras e os números.

-Pronto. Está registada mais uma entrada de mercadorias no reino de Castela – Depois pousou a pena, endireitou as costas e acrescentou com ironia: -Será através deste livro e de outros idênticos que deixarei a minha marca na História!

Henrique voltou à carga:

-Porque o senhor quer, meu amigo…porque o senhor quer! Menospreza-se demais…Olhe que esta minha vida de livreiro tem-me dado muita experiência! – Depois com um certo dramatismo: - Cheiro um grande cronista a metros de distância…isso lhe garanto eu! E sei que o amigo possui engenho e arte para fazer uma obra sublime.

Diego não pode conter uma sonora gargalhada:

-Cheira?! Que é lá isso…amigo Henrique?

Henrique pareceu um pouco atrapalhado:

-Não é cheirar no verdadeiro sentido da palavra…é mais ter aquela visão, aquela sensação de que alguém nasceu para estrela!

-Ahhh…faz-me rir com esse palavreado. – Diego levantou-se do banco visivelmente divertido e deu uma pancadinha nas costas de Henrique. O Livreiro era um homem de estatura mediana, magro, já entrado nos quarenta de idade, rosto barbudo e farta cabeleira grisalha. Ao seu lado Diego era um jovem robusto e bem-parecido.

-É o que lhe digo…amigo Diego. Está na flor da juventude…é agora ou nunca. – Insistiu o Livreiro.

-Não se esqueça que me falta a sabedoria da experiência! Já viu onde passo os meus dias…entre campinas e serranias, da horta para a aduana, do campo para a vila, da Extremadura para o Além-Tejo.

-Venha conhecer Lisboa! Acompanhe-me, na qualidade de meu convidado, quando eu encetar a minha viagem de regresso. – Empolgou-se Henrique. -Era para não passar por aqui, pois fica-me um pouco fora de mão mas por si…por si, amigo Diego dou as voltas que tiverem que ser dadas!

-Agradecido…-Sorriu Diego. – Mas o meu ofício reclama a minha presença.

-Peça uma licença…escreva ao jovem Marquês! Levo-o ao Paço da Ribeira, com sorte avista a princesa Maria Bárbara ou vê passar a comitiva do príncipe D. José. Quem sabe, perante a sua imponência, não se inspira para descrever este extraordinário momento na vida dos dois.

-Fico muito agradecido pelo seu interesse mas tenho que ser comedido. Nunca se deve sonhar para além do permitido e eu não passo de um jovem escrivão sem apetência para grandes voos.

Henrique contorceu-se. Este jovem era a modéstia em pessoa. Várias vezes já tivera a oportunidade de passar serões na sua companhia, o que sempre acontecia quando pernoitava na estalagem da vila, e era com o maior gosto que o ouvia contar e recontar feitos e acontecimentos gloriosos da História de Castela fazendo-os entrelaçar com a História de Portugal ou vice-versa. A Diego tanto lhe interessava uma como a outra. Era leitor e investigador incansável de escritos e memórias que se produzissem ou existissem do lado de cá ou de lá da fronteira e sempre que começava a sua palestra dizia: “Vou falar-vos da História Ibérica…”

Esta sua dedicação e interesse afirmava, vinha-lhe do facto do Marquês, seu padrinho e bem-feitor, lhe ter depositado nas mãos a sublime tarefa de escrever as “Memórias da ilustre Casa dos Barradas que vindos de Portugal, chegaram a Grandes de Castela”!

-Então Henrique pernoita por cá? – Interrompeu Diego, porque adivinhava que o amigo estava a tecer considerações mentais sobre a sua pessoa.

O Livreiro despertou e fixou-o nos olhos:

-Por acaso já só queria dormir Extremadura adentro mas não resisto a permanecer mais umas horas na sua companhia. Quero continuar a atiçá-lo sobre esta excelente oportunidade de se poder vir a tornar no primeiro “memorialista ibérico”! Uma visão dupla sobre o mesmo acontecimento, está a perceber!

-Ah! Ah…- O escrivão soltou outra gargalhada. – O senhor não tem emenda…mas se ficar prometo que ceio consigo na estalagem do Zé Portuga.

-E podemos fazer um serão de História?! – Henrique continuava ao ataque. – Tem escrito muito sobre as memórias dos Barradas?

Diego sorriu-se:

-Estou para encetar uma viagem até à cidade de Beja, berço da linhagem e esta é mais uma das razões pela qual não poderei ambicionar acompanhá-lo a Lisboa.

-Ora essa…Beja é aqui um pulinho! – Riu-se Henrique.

-Ainda são muitas milhas e eu como não me aventuro sozinho pelo Além-Tejo adentro, tenho que esperar companhia.

-Do Francisco da Rosa, aposto!

Diego aproximou-se de Henrique e proferiu quase em surdina:

-Saiba o amigo que aquele estouvado quer ir beijar as paredes do Convento da Conceição onde professou a freira Mariana Alcoforado…

Henrique gargalhou:

-Está doido…aquele não tem emenda!

-Nenhuma! – Confirmou Diego. Saiba que percorre extensas áreas, entre Mourão e Évora, Elvas ou Vila Viçosa só para visitar as noviças e freiras por quem nutre paixões exacerbadas.

-Já ouvi dizer. Bem…se o meu majestoso rei D. João continua a andar ajoelhado lá para o Convento de Odivelas, porque não o pode fazer o nosso Francisco da Rosa. Deixá-lo…se é feliz assim.

-Se nos juntamos ao serão vou mandar-lhe uma missiva pelo pai a convidá-lo. Que me diz? – Advertiu Diego.

-Já sei o que o amigo quer! – Sorriu-se Henrique. – Quer escapar-se à minha intenção de o continuar a pressionar para encetar a tarefa que lhe propus e em vez disso ter de escutar e rir-me à brava com os desfalecimentos amorosos do Chico da Rosa!

-E que melhor divertimento poderíamos ter? – Concluiu Diego em jeito de pergunta.

-Hora da siesta! – A voz de Gil Braz entoou pelas casas da aduana. – Meus senhores, está na hora de encerrar. Não há mais expediente por hoje. Eu mereço o meu rico descanso. Agora a segurança do posto fica nas mãos do Xosué e do Sanchéz.

Num certo desrespeito pelos regimentos, sempre que o Verão se instalava trazia com ele o direito à siesta, mordomia que as gentes do sul tinham conquistado e que os oficiais do reino de Castela, especialmente os da Extremadura, não queriam prescindir.

-Vou então até à vila marcar hospedaria na estalagem e lá aguardarei por si até à hora da ceia. – Despediu-se Henrique.

-Vou ainda escrever uma missiva ao Chico a convidá-lo para que nos faça companhia esta noite. – Adiantou Diego, pousando a pena sobre um bocado de papel.

-Faça isso, faça…- Henrique deu-lhe uma palmadinha nas costas e esboçou um sorriso divertido. Depois gritou para dentro das casas da aduana: - Senhor feitor…passe bem!

-Deve estar ocupado a exigir esmero no trabalho dos guardas. – Informou Diego. – Até mais tarde.

-Até mais logo. Vamos rapazes! – Indicou aos criados, enquanto pulava para cima da carroça que conduzia. – Vamos que se faz tarde!

 

(continua...)

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