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Rosa & Romances

Rosa & Romances

Terra Desejada [ capítulo 1 ]

 

 

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(http://diretodeparis.com/wp-content/uploads/2011/12/IMG_2025a.jpg)

 

França [Langeais] Maio de 1879

 

Ligeiras pancadas na porta do quarto despertam a jovem da sua sonolência matinal.

-Entre! - Ordena numa voz arrastada, ao mesmo tempo que procura erguer ligeiramente a cabeça e entreabrir os olhos tentando vislumbrar através da penumbra quem a procura.  

Uma figura feminina, de agradável silhueta, vestida em longos trajes serviçais, entreabre a porta, faz uma pequena vénia e sussurra:

-Mademoiselle...pardon!

-Ahh! Marie Louise! Entrée...- Com um gesto de mão a jovem incentiva à entrada e volta a arremessar a cabeça sobre o leito, derramando a longa e farta cabeleira contra o linho alvo da almofada.

Com passos ligeiros e um sorriso nos lábios, Marie Louise atravessa os aposentos e abeira-se da cama. Depois estanca, quieta e hirta, mesmo ao seu lado.

-Quem ousará passar um pente nesses seus cabelos rebeldes? - Graceja, lançando a seguir um suspiro de contrariedade.

Ainda de olhos cerrados o rosto jovial da mademoiselle ilumina-se, mostrando um trejeito de ousadia.

-Para que servem as criadas!

-Certamente para aturar as impertinências das patroas. - Marie Louise avança já em direção à varanda e em dois golpes certeiros, afasta as duas partes da pesada cortina de veludo, deixando entrar os raios vibrantes do sol da manhã.

A cama range quando a mademoiselle, procurando esquivar-se à claridade, se volta bruscamente de costas e cobre o rosto com o lençol.

-Estás despedida Marie Louise! - Lança em voz estridente.

-Ora essa! Pois fique sabendo que acaba de me dar uma excelente notícia! - Marie Louise lança uma sonora gargalhada ao mesmo tempo que, parecendo perder todas e quaisquer formalidades, se atira sobre a beira da cama.

-Falando de notícias! Vosso pai incumbiu-me de lhe entregar uma carta que acabou de chegar para si.

-Carta? - Contrapôs a jovem, destapando o rosto e sentando-se de imediato, recostada sobre os almofadões.

Marie Louise retirou do bolso do avental um envelope, várias vezes carimbado, denotando que fora objeto de uma longa viagem.

Alicia arrancou-lha das mãos.

-Portugal! - Foi a palavra assombrada que os lábios de Alicia de La Rochelle proferiram.

A curiosidade de Marie Louise aguçou-se.

-Parentes afastados!?

A jovem não respondeu. Enquanto amiudava o invólucro, mostrava-se muito mais introspectiva e acanhada do que se manifestara nos primeiros momentos da manhã.

-Não abre? -Incentivou Marie Louise.

-Sozinha! - Sentenciou.

-Pardon... - E Marie Louise ficou de pé, recuperando a formalidade e a etiqueta, voltando à sua condição de mera serviçal.

Alicia pareceu incomodada e apertou uma das mãos da rapariga.

-Desculpe Marie Louise. Não foi com intenção. Sabe como sou impulsiva e repentina. Mas gostaria de ter um momento só meu com esta carta.

Marie Louise não respondeu mas fez um gesto de acatamento e uma pequena vénia. Depois saiu.

-Mais tarde conto-lhe tudo! - Quase gritou Alicia ao mesmo tempo que a porta do quarto se fechava e Marie Louise desaparecia.

Alicia apertou o envelope contra o peito como se abraçasse a própria mãe.

Quantas vezes sonhava reter para sempre os detalhes daquele adorado rosto. O calor do seu corpo. As palavras meigas sussurradas ao ouvido. Em vão! O tempo não perdoava. A nitidez das memórias desvanecia-se e ficava apenas a dor de a ter perdido.

Com cuidado procurou abrir o sobrescrito.

Continha uma simples folha de papel fino, escrito numa caligrafia aprimorada ainda que ligeiramente tremida.

Alicia desdobrou-a e com avidez começou a ler:

 

“Minha querida neta. Único rebento que me resta nesta minha longa e por vezes infeliz viagem pelos meandros da vida. Vejo-me só, velho e doente, sufocando a perda da minha adorada filha que a mesquinhez social afastou e a crueldade da doença arrancou de mim.

Há anos que guardo a vossa imagem, pequenina e frágil, vestida de negro, chorando vossa mãe nessas terras distantes do reino da França. Quantas vezes desejei tê-la aqui, ao meu colo e poder afagar os seus longos e sedosos cabelos. Tenho em minha casa um retiro onde a venero. Todas as suas fotografias estão expostas, única forma de a ver crescer e apaziguar as saudades que me atormentam. É ainda mais bonita que vossa mãe e tenho a certeza que herdou dela todas as especiais qualidades que possuía.

Há momentos em que o coração de um homem duro, mesmo que tente, não consegue sufocar um soluço. É nessa contingência que me vejo agora. Dirijo-lhe estas palavras com lágrimas nos olhos e o tremor das mãos deve-se muito mais ao receio de a importunar do que às agruras terríveis que me trouxe a velhice. Não posso negar que estou adiantado na idade e que a minha saúde se agravou irremediavelmente. Há poucos meses as minhas pernas pararam de vez e vejo-me hoje totalmente incapacitado para cuidar do que é meu. Neste recanto de Portugal, possuo alguns bens, especialmente terras de semeadura e gado. Esses bens são seus por direito e deles já há muitos anos que fiz testamento a seu favor. Ao longo dos tempos fui amealhando a maior parte dos lucros da produção e rendas e essas pequenas somas foram sendo depositadas onde vosso pai me deu indicações. Era minha intenção continuar a fazê-lo, porque um lavrador o que de melhor faz, é cuidar da sua lavoura. Infelizmente esse tempo acabou para mim. Certo de que uma menina bem criada, habituada à vida da cidade, ao bem estar e ao progresso não verá neste fim do mundo qualquer interesse, tomei há dias a dura decisão de proceder à venda de todas as minhas terras bem como de tudo o resto que lhe está associado. Dessa venda resultará certamente, uma pequena fortuna, que revertendo a seu favor, garantirá a prosperidade e segurança do seu futuro. Quanto à casa em que habito, já antiga e austera, e porque minha irmã Angélica se mostra na disposição de cuidar de mim, sinto-me na obrigação de a compensar, colocando-a em nome de seu filho e meu único sobrinho. Tirando a casa, tudo o que tenho é seu por direito e por meu mais venerado desejo.  Sempre acreditei que depois daquele dia fatídico em que a morte de vossa mãe nos uniu, ainda pudéssemos viver muitos dias felizes juntos. É esta crença, de que o dia de amanhã será sempre melhor do que o de hoje, que nos leva à sepultura, sem que tenhamos aproveitado o que de melhor a vida nos dá.

Beijo vossas mãos.

        Até sempre.

                Seu avô Julião.”

Alicia passou a ponta dos dedos sobre a última frase como se com esse gesto pudesse afagar o rosto ausente do avô. Depois voltou a recostar-se e a semicerrar os olhos. Não para tornar a adormecer mas para poder refletir. Praticamente não conhecia o pai de sua mãe, nem outros membros da família que lhe fossem próximos. Recordava-se vagamente de ter sido apertada entre os braços fortes de um homem corpulento e de grandes barbas meio grisalhas, quando aos seus oito anos, ele chorava a perda da filha e ela a perda da mãe. Contrariamente ao que acontecia consigo, que no dia do seu aniversário um fotógrafo contratado registava o seu crescimento, o avô nunca mandara retratos. Escrevia-lhe cartas breves e agraciava-a com os melhores presentes. Nesse mesmo dia seu pai dava-lhe conta da soma em dinheiro que tinha sido depositada em seu nome. Nada mais. Enquanto criança e até mesmo na maior parte dos anos da sua juventude o avô não passava de alguém que estava desterrado em Portugal ou que se perdia nos confins de uma pequena vila alentejana, pequena e atrasada. A maior parte dos seus vinte e quatro anos tinha-os vivido em França, com todo o conforto e comodidade. Seu pai era um destacado homem de negócios, descendente da antiga casa dos Condes de La Rochelle e essa ascendência, o dinheiro que possuía e a sua destacada posição política permitira-lhes ocupar sempre um lugar de destaque na sociedade. Nos primeiros anos da infância foi agraciada com os ensinamentos ministrados por professoras particulares, seguindo-se depois a frequência de dois dos melhores colégios da região e finalmente o grau de estudos superiores obtido no liceu de Tours.

Era convidada para os melhores eventos sociais, passava temporadas em Paris ou em qualquer outra região francesa desde que o programa cultural ou as estâncias balneares lhe agradassem, agraciava e muitas vezes promovia chás de caridade ou salões de venda de arte para auxílio de asilos e na criação de escolas para crianças pobres, mas há um ano para cá, tinha sido convidada e estava a exercer consultadoria na área da instrução e da educação, especialmente para análise e avaliação de novos métodos educativos. Ainda que a título meramente ocupacional era também a presidente e a maior parte das vezes a representante direta da Srª Baron, na comissão que esta mesma criara para aconselhamento e apoio nas obras de decoração e embelezamento que esta família estava a promover nos espaços interiores do lindíssimo castelo de Langeais. Embora seus pais lhe tivessem garantido que o seu berço de nascimento fora a quinta de uns parentes nos arredores da cidade de Lisboa, cedo seguiu para França e considerava-se hoje uma verdadeira cidadã da república gaulesa. É verdade que, como qualquer jovem da sua idade e dado os seus interesses culturais e educativos, acalenta projetos para visitar Inglaterra, conhecer a península Itálica ou até mesmo viajar para destinos exóticos do norte de África mas raramente sente especial interesse em estreitar laços com Portugal. Talvez a razão principal fosse saber que apenas a ligava a esse lugar a existência de uma pessoa idosa, quase desconhecida. Se sua mãe fosse viva talvez já tivesse feito em sua companhia várias visitas ao avô mas o seu pai nunca se tinha disponibilizado para tal, nem a incentivava a fazê-lo.

Alicia dobrou a carta e voltou a colocá-la dentro do sobrescrito. Esgueirou-se e guardou-a sigilosamente dentro do livro que tinha sobre a mesa de cabeceira. Mais tarde gostaria de relê-la. Agora era hora de acompanhar o pai no café da manhã.

Em menos de meia hora, Alicia fizera a toilette e vestira-se com simplicidade. Há tempos que abandonara os modelos femininos antiquados e farfalhudos, cheios de rendas e laços e optara por trajes mais modernos e modelados ao corpo. Seu pai ainda olhava para ela com um certo incómodo, pois embora partilhasse e defendesse ideias liberais de progresso e liberdade, tinha receio que a filha fosse mal interpretada até porque era uma figura marcante da elite social do vale do Loire.

Foi esse o pensamento que o olhar de Simon de la Rochelle, transpareceu quando a filha entrou no salão. Demasiado bela mas demasiado irreverente.

Alicia acercou-se do pai e deu-lhe um ligeiro beijo no rosto.

-Bom dia meu pai. Dormiu bem?

Simon retribuiu com um sorriso. Ainda que elegante e bem cuidado, via-se-lhe no rosto os sinais do tempo, perdera o cabelo e o farto bigode era já de um grisalho amarelecido.

-Qualquer achaque que me atormente só pode desvanecer-se perante a graciosidade da vossa presença.

A jovem embeveceu-se.

-É muita gentileza sua, meu pai. Pareço-lhe bem? – Espicaçou!

-Está com excelente aparência física já quanto à indumentária sabe bem qual é a minha opinião.

-Pai! Não vivemos já a terceira república. Não estão as mulheres a conquistar direitos que o senhor mesmo aplaude! – Evocou Alícia com picardia enquanto tomava o seu lugar à mesa.

Paulette, a copeira, disponibilizou-se para a servir.

-Deixe estar! Eu mesma o faço.

Simon abanou a cabeça em sinal de resignação, enquanto passava o bule do leite à filha.

-Espero minha filha que esta vossa liberalidade não venha a ser confundida com libertinagem.

Alicia preferiu mudar de assunto.

-Meu avô escreveu.

-Eu sei! A mim também.

-Ah! Então não preciso de lhe explicar o teor da carta. – Declarou a jovem enquanto se servia de brioche com queijo.

-Lamento que o seu estado de saúde se tenha agravado. – Simon mostrava-se entristecido.

-Diz que vai desfazer-se de todas as suas terras. – Acrescentou Alicia num tom pesaroso.

-Está a sofrer. É um lavrador à antiga, moldado pelos rituais de exploração da terra e pelos ritmos das colheitas. Certamente que vender as suas herdades é equivalente a assinar a sua sentença de morte.

-Preferia que não o fizesse! – Atalhou a rapariga.

Simon procurou consolá-la apertando-lhe a mão.

-Conhecendo vosso avô como o conheço, tenho a certeza que prefere ter a última palavra no destino dos seus bens e garantir que a receita dessa venda é devidamente entregue a quem de direito do que adiar a decisão e vir a ser surpreendido pelas vicissitudes da vida, podendo desaparecer, sem ter feito a sua vontade.

Alícia fixou os olhos no pai.

-Conheceu bem o meu avô?

Simon pareceu ligeiramente incomodado.

-Somos bons amigos! – Retrocou com voz apagada.

-Mas devem ter uma considerável diferença de idades! – Admirou-se a rapariga.

-Alguns anos...mas desde quando, tal condição, dita o valor de uma amizade?

Alice sorriu mas logo voltou a questionar.

-E qual era a real diferença de idades entre o senhor e minha mãe?

-Ora essa. Está hoje mais inquiridora que o habitual.

-E o senhor mantém-se resiliente em ocultar certos pormenores.

-Pois fique sabendo que quando casei com vossa mãe ela era pouco mais velha do que a menina é atualmente e já que as idades casadoiras são tema de conversa não quero deixar de lhe recordar o avivado interesse que o jovem Nicolas, filho do doutor François de Guisot, continua a demostrar pela vossa pessoa, agravado pelo facto de o pai insistir veementemente em estreitar laços familiares. – Simon aproveitava porque sabia que a filha não nutria qualquer interesse pelo rapaz e mudava sempre de assunto quando ele insistia que as jovens da sua idade todas já se encontravam comprometidas, casadas ou a fazer preparativos para os futuros enlaces.

-Porque razão meu avô nunca me fez um convite direto para o visitar em Portugal?

Desta vez Simon não conseguiu esconder uma verdadeira inquietação. Consultou o relógio e deu por terminada a refeição.

-Estou verdadeiramente atrasado. Queira desculpar-me. Teremos oportunidade de continuar esta nossa conversa noutra altura. Se sair, faça-o acompanhada. Não fica bem uma jovem da sua posição andar sozinha na rua. – Deu todas estas indicações numa sequência vertiginosa, procurando não ser interrompido, nem contestado e acabou despedindo-se da filha com um beijo na testa.

-Talvez venha a fazer uma viajem surpresa! – Atirou Alicia quando o pai já se afastava.

-É uma excelente altura do ano para visitar a Inglaterra ou a venerada cidade de Roma. – Ainda atalhou Simon, enquanto se dirigia para o vestíbulo em busca do chapéu e da bengala.

-Estou a pensar desviar a rota em direção a Portugal! – A voz de Alicia soou mais vibrante e determinada.

O homem estancou a marcha, voltou-se de frente para a filha e falou com azedume:

-O que pensa que vai encontrar naquele desterro. Um país atrasado e moribundo, conhecido no estrangeiro como uma mera província de Espanha e cujo fracasso económico e político, o deixou irremediavelmente hipotecado, às mãos dos ingleses.

-Desejo visitar meu avô na sua terra natal, lugar que também viu nascer minha mãe. – Insistiu Alicia.

Simon voltou a aproximar-se da filha, procurando mostrar-se descontraído.

-Saiba que vossa mãe não nutria por aquele lugar gratas memórias. 

-E porque não. Trataram-na mal? – Inquiriu a rapariga com um olhar desafiador.

Simon respirou fundo.

-Alicia reconsidere, vosso avô não a aguarda, eu não posso ausentar-me de França neste momento, devido às responsabilidades políticas que me concedeu o novo governo como conselheiro para o desenvolvimento económico do vale do Loire. Para quê encetar agora uma aventura que lhe poderá trazer avultados dissabores.

-Meu pai esquece-se que vou em busca das minhas raízes. Corre em minhas veias sangue lusitano, o meu berço é português e se por acaso tais factos lhe parecerem de somenos importância, tenha ao menos em conta as questões afetivas e emocionais, o meu desejo e a minha obrigação de poder privar de perto com o meu avô, antes que o possa perder para sempre.

-Minha filha aquele lugar não é para si. Vosso avô habita numa terra sem horizontes, pequena e de gente mesquinha. A civilização e o progresso estão longe de se manifestarem por lá. Todo o conforto, toda a assistência, toda a cultura e instrução de que goza lhe serão totalmente sonegados. Será um tempo perdido, uma viagem condenada ao insucesso e cujas más recordações levarão anos a desaparecer.

-Tem receio de me perder, meu pai? – Alicia continuava a responder ao pai como era seu hábito, com outra pergunta, mas esta Simon considerou-a demasiado impertinente.

-Não disponho de mais tempo. Tenha um bom dia. E por favor, faça-se acompanhar de Marie Louise, se sair a pé.

Alicia já não ousou retaliar. Seu pai era um homem de ideias fixas e neste momento, embora não o quisesse assumir categoricamente, tinha colocado completamente fora de hipótese dar o seu apoio aquela viagem a Portugal. Cabia-lhe agora a ela saber usar de toda a diplomacia e conseguir moldar a sua posição. 

 

(continua...)